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19/04/2020

O(A) caterpillar

sem nome.png


*


Bastam segundos,


derruba


toda a bondade


e beleza


da alma


da mão singela


que desenha


o pingo doce


do estame


da flor,


o bem-querer


batido


no peito,


a solta


dádiva.


 


Carregado(a)


de palavras azedas,


ingratas


e sarcásticas,


destrói tudo


à passagem.


 


Sonha-se


grande trabalhador(a),


benfeitor(a),


sacrificado(a);


o(a) realista,


escanção


dos factos,


escansão das


palavras,


crítico


dos afectos.


 


O(A) eloquente


orador(a) e negociante


da praça do verbo


orgulhoso(a)


dos seus mil


amigos do peito,


todos próximos,


íntimos,


autênticos


e dos outros mil


enormes feitos.


 


E não perde


um momento


a notar


no que foi


e é dado.


 


Afoga


a verdade


da solidão,


esconde a úlcera


desfeada


da vergonha.


 


Os gestos


de generosidade


dos outros


- os que não


rendem juros


do verbo emprestado


na praça da vaidade -,


estorvam


a dúbia imagem


de herói(na)


e anti-herói(na)


para si


criada


e espalhada.