Pesquisar neste blogue

05/04/2020

Pé no chão

images.png


Há muitos anos fizeste figuras tristes e conheces o peso exacto do perder o pé, de perder o controlo sobre ti própria. A frouxaria dirá que todos perdemos: é humano e há-que aprender a lidar com as nossas limitações. Sorris com condescendência. Por um lado, tendes a concordar que todos carregam a sua cruz, mas lá no fundo perguntas: quantos dos que peroram sobre humanidade saberão o que é ficar suspenso no nada, sem chão nem ar, sem ontem nem amanhã?


Às vezes observas a ligeireza com que se faz a apologia da alienação e do risco ou, da outra banda, como que se desdenha dos desvairos, e concluis que só gente verdadeiramente bafejada pela sorte se pode dar ao luxo de brincar com o fogo. É tão fácil vestir a pele de bobo ou apontar o dedo quando não se lhe conhece a matéria.


De maneira que para ti, uma criatura que cresceu a considerar-se e a que a considerassem o esteio de segurança, capaz de tudo enfrentar e suportar, foi vagamente chato ficar em frangalhos e com o menino nas mãos. Como todos ficámos algum dia na vida, dirão os doutos julgadores.


Como te competia levantaste-te e fizeste-te à vida conquistando a pulso, dia-a-dia, um lugar no mundo que não te reconhecia como igual. Sem saber muito bem se era o mundo que o exigia ou se tu que te impunhas, criaste uma rotina, reduziste ao essencial as relações e ambições, aceitaste o que não imaginarias e apegaste-te à vida. Para trás deixaste anos de turbilhão e o único, horrível e vertiginoso calafrio da desistência. Tomaste os suores-frios da recordação como a mais séria lição: o peso do fim e a consciência de quem magoas. Tudo quanto é mais importante reter no erro humano.


E assim que tu e o mundo se começaram a recompor a vida presenteou-te com a alegria do reencontro casual, com o recomeço a dois. Em dias, meses, anos de paixão, cumplicidade, riso, preocupação, falta de paciência, carinho, embirração, choro, perdão e tudo quanto compõe o amor.


Por tudo isto, quando episodicamente, por horas ou dias, te deixas ir na onda distraída e dás pelos alicerces a estremecer todos os sinais de alerta disparam. E desatas a correr atrás do pensamento, para o agarrar e recompor. Para ordená-lo. E preciso separar as ilações falsas do que é genuíno e válido. Trabalho tanto mais difícil quanto te apercebes que os desperdícios mentais têm vasos comunicantes com a verdade.


Ferras os dentes e acreditas que vale a pena. É preciso ter controlo sobre o pensamento, não para grandes ambições de domínio ou brilharetes inúteis, mas sim com o simples e firme propósito de não perder o pé. Que a vida já foi dura o suficiente para saber que o ridículo se paga sempre muito caro, a menos que seja vendido. O ridículo genuíno, não ensaiado, não negociado mina a confiança e em vez de comédia, acaba em tragédia.


Terminas o escrito e dás a ler. A reacção reduz-te à tua insignificância. A leitura feita é a de uma qualquer história de superação; das tais que tanto criticas.