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No dia 26 de Março escrevi o seguinte apontamento.
A escrever na Sexta-Feira Santa: gostava de ter sonhado esta noite que Jesus Cristo morreu discretamente. Que revelara em sonho aos portugueses que era apenas um dos mortos do dia e que era assim queria que fosse. Sem lembranças, sem dramas nem grandes feitos passados, presentes e futuros. Sem história para investigar. Que revelara aos portugueses que foi um qualquer deles e que por infortúnio partiu mais cedo sem dizer quem era, pedindo apenas que não o procurassem. Nem esperassem que voltasse no Domingo de Páscoa. E que o imaginassem como um miúdo traquina sentado no banco traseiro de um qualquer carro, voltado para trás a fazer caretas e a deitar a língua de fora a todos quanto o seguem, de forma a que ficassem sempre hesitantes entre o enternecido e o repreendedor.
Hoje, ao dia 10 de Abril, vejo que naquele dia a imagem me soou leve e suave. Apropriada a quem costuma estar nesse modo quase a tempo inteiro. Sucede que nem sempre. Os tempos e os humores nem sempre correm ligeiros e simpáticos e nem por isso se é menos gente. Menos humana. Antes pelo contrário. Talvez a má onda da última semana explique o sonho angustiante da noite passada. Andava pela cidade, que em sonhos é habitualmente um misto de todos os sítios por onde passei, somada àqueles lugares que só conheço dos sonhos, por vezes tão recorrentes que chega a ser reconfortante revê-los de sono em sono. E estava acompanhada por gente próxima e querida, que entretanto desapareceu. De repente vi-me irritada por alguém me agarrar pelo braço. Um comerciante, creio. E a irritação vinha só do facto de achar excesso de intimidade. Para me dizer o que queria, que não era nada de especial, podia fazê-lo sem aquele irritante apertar do braço, impedindo-me de afastar. Estava eu em sonho nestas considerações, quando pára um carro da polícia de onde saem duas crianças e um adolescente. Percebo que se tratava de migrantes e que a polícia estava a largá-los, a dar-lhes liberdade e eles comportavam-se, desculpem a comparação, mas como o par de cães Serra da Estrela da minha infância, o Tim e o Ritz, quando eram soltos ao fim de algum tempo presos. Desataram a correr histéricos, a rodopiar, foram a uma cabine telefónica retirar uns cartões ou pagelas. Aproximavam-se das pessoas entre a súplica e a exigência. Percebi que a ideia desesperada era trocá-los por dinheiro e o dinheiro por comida. E acordei. Angustiada, como se imagina.
Resumindo, acho que a imagem da criança da Sexta-Feira Santa sentada no banco de trás do carro a fazer pantominices fica sem efeito e a substituo pela imagem de três crianças sem chão, sem paz e com fome. Talvez seja uma imagem mais realista e mais significativa para o tempo de Páscoa. Mais cristã.