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31/08/2023

Agenda

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Para breve, se conseguir articular o que penso e ainda não estruturei, voltarei a explorar duas ideias: a contraposição das posturas quero, posso e mando face às hipersensibilidades e a calúnia sectária como forma de afirmação e ascensão social e intelectual.

Too Quick To Judge

A serigaita

Moralidades à quinta-feira

Mais uma vez nada pré-definido, nada na manga. Além de que o momento é pouco propício à disponibilidade mental para escrever. A única ideia que me recordo de matutar de tarde para efeito deste postal resume-se à noção de quem muito critica um aspecto de carácter ou hábito noutros esquecer-se com frequência de reparar que o incorpora em si por vezes com bastante mais intensidade do que imagina. Nada como recorrer à Bíblia: Porque vês o cisco que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?


Disto me costumo lembrar ao ver os reparos constantes à utilização das redes sociais ou, em geral, ao mundo online, por quem passa a vida nele a criticar os usos e costumes da modernidade, isto é, de quem despende comprovadamente muito tempo nas plataformas digitais, mas só repara nos excessos alheios – por mim admito uma vez mais o agarranço. Creio ser muito menos importante recriminar outros pelos erros que também cometemos e bastante mais profícuo, apesar das irritações e os desencontros de opinião e gosto que sempre sucederão, gastar o dito tempo online a tentar compreender quem se cruza connosco. Em vez de classificar e remeter para prateleiras obtusas quem pense e sinta de uma forma que nos incomode – ia escrever de um modo diferente, mas nem sequer é isso que está em causa, por vezes o pensamento e o sentimento até coincidem e ainda assim há animosidade vinda da pura vontade de conflito, da usurpação de valor alheio ou da necessidade de rebaixar outrem para ganhar ascendente, mais do que de picardia inócua ou reacção a alguma injustiça.


Já sabem, acabei de dizer mais banalidades. Moralidades balofas, das que aborrecem. Tão só. Nada de importante. E qual a razão para vir com esta treta em concreto? Por ter observado críticas acima descritas e por há poucos dias ter lido um insulto rude escrito por alguém que enferma precisamente da mesmo defeito que apontava. Isto é, uma mulher grosseira a chamar grosseiro a uma figura pública, que de facto é. Sucede que a questão é outra, bem simples e nada original: quando os denunciadores não têm credibilidade ou estatura moral para a acusação, ela torna-se ridícula. O verniz, o rimmel ou o bom relógio masculino com retórica farta à mistura não disfarçam os traços de grosseria de ninguém, nem conferem legitimidade para atirar pedras ao telhado alheio.

30/08/2023

Sonhos

Capturar


Programa de festas: num próximo serão ou no fim-de-semana terei de encontrar um par de horas de passeio no Google maps em busca do lugar para comprar um casinhoto com um palmo de terra onde plantarei duas ou três árvores (ou quatro ou cinco). É um divertimento como outro qualquer. Em meados de Setembro investigarei uma hipótese (é como quem diz, um sonho) in loco. Está tudo em aberto, desde Gaia, cuja extensão rural é ainda relevante e a proximidade traria a vantagem do comodismo (seria a concretização da tal brincadeira de miúda, quando dizia que ia ter uma "quintinha" para a qual fosse de STCP e regasse de mangueira), até paragens mais distantes. Planos a longo prazo. Temos todo o tempo do mundo. O melhor de tudo ainda é sonhar e fazer render o devaneio, sonhando.


Erro. Erro de palmatória. Jamais se contam os sonhos e fazem planos em voz alta - dizem os sábios. Quero lá saber. Isto diverte-me. Contar alegra-me. E o que conta é isso mesmo. Se concretizarei o sonho ou não é uma outra questão, mas a realização de ser feliz a devanear, essa já cá canta.

Louro

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Logo pela manhã, presente da minha cunhada C.


Tenho folhas de louro para uns anos. Se alguém precisar, é favor avisar.

29/08/2023

Fritadeira de Ar Quente

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Não sou nada de máquinas, mas estou rendida.


Experimentei hoje pela primeira vez a fritadeira sem óleo. Para começar nada como umas singelas batatas fritas e para simplicar ainda mais: ultracongeladas. Estão aprovadas.


Em próximas refeições vou testar umas coxinhas de frango, postas de salmão e uns camarões. São sugestões que acompanham o próprio manual. Depois verei mais receitas

Alerta

Quero avisar, sem qualquer intenção crítica, que os comentários na caixa de mensagens da coluna da direita saem sempre anónimos, salvo se o houver o cuidado de assinar. Ainda que se trate de autor da SapoBlogs e que esteja com login activo surge ainda assim anónimo.


Digo-o por obviamente ter curiosidade em saber quem deixa mensagem, mas também por saber que às vezes o anonimato é inadvertido.

Só porque sim

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Sombra na janela

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*


Desconfiada da sombra


abriste a vidraça


para investigar.


Nada mudou.


Sempre escuros,


ramos de árvore ao luar.


Eternas e sós,


tu e ela.


Em silêncio.


 


Menos longe,


a água revolve a torneira,


chia a porta de madeira.


A moto passa,


só para contrariar.


 


Lá fora,


no mundo imenso


gemido do cão,


grito do pássaro


à lua,


 bem familiar.


 


Ainda ontem


a borboleta batia à janela -


porquê?


 

28/08/2023

O post aberto ontem




Os outros


- actualizado -


por Isabel Paulos, em 24.08.22

 




Mais notas sobre o que toda a gente pensa e sente mas não diz. Razão para a tão comum falsa sensação de coerência - a ausência de contradições revela tantas vezes a omissão de algumas verdades por puro cálculo. Omitindo partes da realidade alcança-se a tal falsa coerência.


Os outros. Digo muitas vezes que o meu tesouro são os outros e pode parecer uma treta para disfarçar o narcisismo e dar o ar de pessoa equilibrada e terna, mas lamento: é isso mesmo (a adversativa aqui faz um sentido do carambas). A par das grandes figuras da minha vida, na qual mãe e Nuno figuram em destaque pela dose monumental de conhecimento que me passaram (atenção, chegou cá muito pouco e deturpado por responsabilidade minha, as fontes são bastante mais ricas e lúcidas), outros familiares e amigos contribuíram enormemente para o que sei e sou. Digo isto porquê? Por me fazer imensa aflição a forma pouco franca com que muitos exibem conhecimento sem pagar tributo. Dir-se-ia que nasceram ensinados e que tudo o mais adveio de esforço próprio. Ora, sinto-me precisamente no lado oposto, daqueles que absorvem o que os outros dão. Talvez seja uma das razões para tantas explicações soarem a infantilidade. Um dia alguém me disse que tirava o melhor dos outros. Senti-me um pouco vampira, a sugar o sangue dos incautos. Mas é certo que faço isso mesmo, sugo os outros, como todos, aliás. A diferença é que e o admito e declaro.


Como todos conheci centenas de pessoas. Poucas de modo mais próximo. Alguns fizeram-se amigos, muito poucos amigos para a vida. De todos herdei tiques, expressões, manias, verdades e preconceitos. Cresci numa família grande e os laços mais estreitos ou alargados talvez me tenham dado a dimensão do espaço de liberdade para escolher, para procurar saber. Cada um traz um mundo e foram muitos mundos a conhecer, tive de seleccionar os de maior interesse. Sei lá se numa perspectiva justa ou meramente aleatória.


Ao longo dos anos para lá dos conhecidos há aqueles que nos chegam através das escolas e faculdades, dos livros, dos meios de comunicação social, da internet. Aí a relação é, na maioria dos casos, unidireccional. Oiço, leio, aprendo. Absorvo os outros sem os conhecer. Ao lado das muitas dezenas de pessoas com quem fui trocando palavras, herdando laivos de temperamento (odeio a palavra idiossincrasia), há uma mão de gente (bem, sobram dedos) que segui com mais atenção e por mais tempo. É curioso este termo “seguir” a mim soa sempre a qualquer coisa de ilícito, tipo stalker. E dou por mim a pensar se neste meio não seremos um pouco perseguidores mútuos que se vão conhecendo uns aos outros de ginjeira - muitas vezes sem trocar uma palavra. Sim, por mais que se resguarde a intimidade (não aqui nas Comezinhas, que são um antro de pouca vergonha), ao fim de algum tempo vão-se conhecendo os traços de personalidade. Tudo isto para dizer que me parece importante a consciência do que aprendemos com os outros e a estupidez que é armarmo-nos em carapaus de corrida. Sim, ao lado destes poucos com quem tanto aprendi, há dúzias de intelectuais, de gente de acção e de tantos que a eles se encostam, que falam e escrevem e tudo espremido não vale (quase) um chavo. Como sou aproveitadinha, admito que até desses herdo ideias e palavras. Isto para que haja noção do grau de honestidade que coloco nestas últimas palavras. Por tudo isto me fazem tanta impressão sabichões de geração própria.


O certo é que para imbecil narcisista que passa a vida a falar de si própria vou tendo bastante disponibilidade para ouvir e ler os outros (ainda que tantas vezes discordando para dentro e algumas entrando em fúria). Tantas vezes disposta a dar atenção a gente que não demonstra ter um pingo de respeito pelos outros, apesar de todas as falinhas mansas, grandes defesas da tolerância e indignações tão sentidas contra as injustiças. O certo é que, tal como em criança, os outros me continuam a causar curiosidade e, como gosto pouco de cinismo, perplexidade. Tivesse mais vidas para os conhecer. Vá, se esta for comprida, já não é mau. Pode ser que venham surpresas boas.


Não se constrói um carácter sólido sem consciência das bases que o sustentam e dos limites que o circunscrevem. Dar ar de tonta e ignorante ajuda-me a preservar o espaço vital. Não obstante, estou muito atenta, curiosa e, por mais intransigente seja e para alguns mente estreita, estou genuinamente de espírito aberto a tentar perceber o mundo. Os outros continuam a fascinar-me. Uns mais do que outros, vá (e assim com um "vá" e um advérbio a seguir se estraga estrategicamente um texto).


Como tantas vezes disse ao longo destes anos, sou toda olhos. Hoje, com Nat King Cole, sou toda ouvidos, sou toda orelhas.


 


Adenda. Quando era novita encanitava-me gente, sobretudo, mulheres que faziam muitas referências familiares: filhos, maridos, etc. Achava uma falta de respeito pelos ditos. Como as coisas mudam. 

Duas notas

É. Hoje não há O que é esta segunda-feira? Deixo apenas duas notas soltas sobre insignificâncias.


A primeira para contar a boa sensação de em casa poder tirar as sandálias que me cortam o peito alto do pé ao fim das caminhadas - afinal estas novas, que acabei por só começar a usar ontem, não são assim tão cómodas. Ai, a inveja de quem tem pés elegantes e esguios. Maldição. Voltando ao agradável: andar descalça. Quando tiver jardim além de erva arranjarei uma zona de pedra para descalça poder patinhar e chapinhar na água da chuva.


A segunda para deixar a ligação a patetices acerca de astrologia. Lá ia perder a oportunidade de mais uma vez demonstrar a vontade de afastar iluminados da leitura - seja os atreitos às verdades lifestyle cientificas seja os mais sofisticados, normalmente ainda mais pretensiosos, os tais que julgam que se quero ser considerada devo ser tão obtusa quanto eles - todavia também para dar a ler às escondidas aos que gostando deste tema não admitem por vergonha, pelo facto do interesse ser tido por sintoma de profunda ignorância e espírito fraco e influenciável. Ando a pensar dedicar-me a fazer a minha própria interpretação do mapa astral. Isto é, ver no mapa natal planetas e casas preponderantes e perorar sobre isso - ao fim de tantos anos com curiosidade sobre estes temas, sempre li e nunca escrevi nada para me situar. Vai ser um exercício de escrita como outro qualquer. Para um dia sem data marcada. Se para aí estiver virada, publico aqui o resultado. Mas por hoje deixo apenas a ligação para uma entrada de página pimpa acerca do aspecto mais irritante de cada signo: aqui. Quem não tiver pudor em ler "matérias" pimba, sempre pode ver se revê no aspecto irritante que lhe calhou em sorte. No meu caso de signo sagitário e ascendente em caranguejo, diz esta página das ciências que não se devem negar à partida (é graça, gente; calma) como diria Alcina Lameiras (lembram-se desse magnífico anúncio?, nem fazem ideia do significado dele nesta casa) que sou excessivamente despreocupada e tenho alterações de humor frequentes. Até que nem está mal visto, de todo.

Uma noite esplêndida

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Eis que regresso a casa. Estive no HotFive Jazz&Blues Club três horas e meia. Das quais duas e meia, com pequeno intervalo, a deliciar-me com música ao vivo. O concerto de Pedro Neves ao piano, João P. Rosado no contrabaixo e Miguel Sampaio na bateria. Seguido de Jam Session.


 


 


Não vou nem sei falar da mestria dos músicos em causa. Apenas digo que foi com enorme gozo que senti a entrega, cumplicidade e alegria entre os três músicos. Maravilha de ritmos e harmonias que ora se encontram ora se desencontram numa dança que nos acerta não só o cérebro como corpo, como só no jazz sabe fazer. No palco estavam a tirar enorme partido da execução divertindo-se na descontracção natural que é tão comum nos clubes de jazz. Foi um regresso a estes ambientes e não poderia ter sido mais feliz. O músico na sala que integrou a Jam Session era um rapazinho novo, acompanhado pelos pais que só os pode ter orgulhado, já que entrosou ao melhor nível.


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Não sei nada de música, mas sou a tal que continua a vibrar como uma criança ao olhar pela janela do avião ao ver a asa a cortar as nuvens, a chorar quando fico frente a frente com algumas telas de Van Gogh e a quem basta uma noite destas para estar no céu. Foi muito bom.


Por fim e não querendo estragar as palavras com nota negativa, não posso deixar de ficar com pena que num tempo em que se vendem com tanto sucesso miadelas e caixas de som automático a fazer as vezes de música, não posso deixar de ficar com pena, repito, que músicos desta qualidade tenham apenas cinco mesas de assistência – ao que parece Domingo é o dia mais parado, mas ainda assim é triste. Claro que falo também contra mim já que há dois anos dizia lá querer ir e só agora me resolvi. Éramos a única mesa de portugueses na sala.


Aconselho vivamente um programa de jazz no Porto. No HotFive ou noutro clube da cidade.


 


Boa noite. Boa semana.


(é possível que não haja O que é esta segunda-feira?, acho que estou perdoada.)

27/08/2023

Programa de festas

Tentar relaxar depois de ter acordado tarde, coisa raríssima nos dias que correm. Enxotar esta sensação permanente de que falta fazer qualquer coisa, de não haver tempo, de tudo estar sequenciado sem intervalos para respirar. De tudo ser motivo de ansiedade.


Hoje à noite vou ouvir jazz ao vivo. Marquei mesa para quatro. À primeira vista parece um bom programa para descontrair. Saiba aproveitar.

26/08/2023

Diário

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Está a ser um dia comprido. Saí às dez da manhã em direcção ao Leroy Merlin de Matosinhos, onde comprei terra, sementes de pimento picante e de erva para gato. Devia ter estudado mais as espécies de malaguetas. Tentei ler a literatura dos pacotes e acabei por trazer uma que não dizia ser biológica. Como tenho mau-feitio fujo sempre ao que é apresentado como “produto biológico”. Até a terra – o substrato universal – é biológico, imagine-se. Quem diria? Fico sempre muito admirada. Mas é bom este alerta, serve como as placas do “cuidado não escorregue” nos pisos acabados de limpar. Em princípio, se está molhado, o piso está escorregadio. Até ver, se é terra, é biológica. Mas nos tempos que correm, nunca fiando.


Ao meio-dia estava na Avenida de França para mais uma sessão de depilação a laser feita pelas minhas herdeiras. Fico depenada de todo no duplo sentido. Cuidado com os dedinhos em riste para quem falar do tema merece reparos e é sempre vulgar. Um dia hão-de chegar a entender que o modo como se fala de qualquer tema é que o faz vulgar ou não.


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Vim para casa. A pedido do Nuno preparei mais uma salada para o almoço. Demorou meia hora a fazer porque posta a água a ferver, esqueci-me de pôr os ovos a cozer, depois quando pus os ovos, desliguei o fogão só tendo reparado nisso 10 minutos depois. Enfim, o cérebro está a precisar de descanso. Comemos. Falei ao telefone, troquei mensagens de WhatsApp e recebi um presente da T.. Uma fritadeira de ar quente. Já ouvia falar delas há alguns anos, mas não sei ainda como funcionam. Vou estudar. Para já tenho as ligações a receitas que a T. me enviou. Parece que é uma máquina versátil. Falei ao telefone com os meus pais. Soube que a minha sobrinha entrou para na primeira opção cá no Porto. A nova geração enveredou pela engenharia informática, o que me agrada muito – incentivei o irmão para essa área quando foi altura e a irmã seguiu as pisadas, felizmente. A ideia de os ver nos enjoativos cursos de direito, economia e gestão era soporífera. O que não invalida que quem tenha grande queda por essas áreas possa ser feliz.


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A meio da tarde seguimos para a Feira do Livro. Que estava uma verdadeira feira. Repleta e com muita gente nova, o que é sempre bem alegre (um aparte: também por isso gosto da Póvoa de Varzim). É esfuziante a moda de ir à Feira do Livro. Uma autêntica diversão. E não quero ser parva. É evidente que é bom para o mercado do livro e é claro que das modas também podem nascer bons hábitos de leitura.


20230826_182800Este ano quase não conseguindo aproximar-me das mesas dos alfarrabistas – pela primeira vez não fui aos stands das editoras e é possível que quando regressar volte a não visitá-los – fiquei-me apenas por duas e trouxe livros quase a peso. É uma modalidade como outra qualquer. Brincando, continuo a completar uma colecção. Conversei uns minutos com o segundo alfarrabista enquanto me ajudava a ensacar os seis livros que lhe comprei mais uns quatro que tinha comprado na concorrência, explicou-me o desembaraço ao dizer “são muitos anos a virar frangos”, não imaginando quanto essa expressão é usada cá em casa e como aprecio esse modo descontraído de comunicar ao contrário das proas. Disse-lhe que tencionava continuar a procurar completar a colecção nos próximos dois ou três anos, mas ele respondeu que amanhã já tinha mais. Assim não vale, são facilidades e gastos excessivos. É batota. Logo verei se amanhã regresso para comprar mais um quilito de livros. Quais? É o que menos interessa. Estive a dar uma vista de olhos pelos dez que trouxe e no próximo ano só lerei no máximo três deles e há uns que só mesmo na reforma. Lá está, devo andar atrás das lombadas para enfeitar as estantes, deve ser isso. Ao quilo.


Bem feitas as contas estive na Feira cerca de meia hora. Viemos de Uber. O condutor, filho de eborense e portuense, vivido em Moçambique na adolescência e mais tarde na África do Sul, apreciador de salmão – foi por aí que começou a conversa - afirmou que cá já não há quatro estações. Creio que está enganado, por mais haja alterações no clima e não seja de as desvalorizar, as quatro estações em Portugal são bem visíveis e isto não é conversa de quem vive desfasada da realidade por apego ao passado, mas pelo contrário é conversa de quem não emprenha pelos ouvidos tudo o que é dito na comunicação social e continua a prestar a atenção à Natureza. Todavia nada disto repliquei ao condutor da Uber, até porque me pareceu entristecido com a vida.


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Chegados a casa, o Nuno furou os vasos rectangulares que enchi de terra semeando a erva do gato e os pimentos picantes com metade das saquetas. Logo se verá o resultado. No invólucro dos pimentos dizia que deveriam ser semeados na Primavera. Fiz de conta que estamos numa Primavera tardia.


 


Amanhã logo se vê. Se não regressar aos Jardins de Palácio nas próximas semanas, é mesmo porque preciso descansar – sinto que devo desacelerar e o mundo acalmar comigo. E afinal tenho livros para ler nos próximos dez anos e mais interesses com que ocupar o tempo. Para quê comprar mais? Se não for palpitante e imperdível. E ainda que seja. Para quê? Não é?

O post aberto ontem

Foram quatro, além dos correntes


25/08/2023

Jantar de sexta-feira

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Jantar..


Profiteroles


Profiteroles.


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Café.


Enquanto não há fotografias do jardim da futura casa, nem de estradas e caminhos de passeios por Portugal, ou de lugares especiais do Porto e arrabaldes, ou de qualquer outro motivo que passe na veneta como trapos, plantas em vaso ou livros, fica mais um registo de jantar de sexta-feira para encorpar este diário de muitas páginas que tem sido as Comezinhas. Salada de tomate, mozzarella, nozes e azeitonas – bem me soube -, arroz de bivalves de ontem - no meu caso foi desperdício por não ter conseguido comer - profiteroles e café.


Referência importante: a broa que está na mesa foi dada pelo dono da mercearia da rua. Ao fim da tarde fiz lá duas ou três compras e depois de as pagar perguntou-me se queria broa apontando para o prato onde estavam duas metades cobertas com um mosquiteiro. Disse que sim e abri o porta-moedas. Respondeu lesto: “dinheiro não” e quando agradeci sorrindo, ergeu várias vezes as mãos juntas na vertical, sinal oriental de gratidão. Despedi-me e saí. Calcorreados 20 metros voltei atrás, afinal não sabia até aquele momento o país exacto de origem do dono da mercearia. Reentrei e perguntei. É bangladeshiano. Ao jantar comi uma tira da broa com a salada, que me soube muito bem.


Assim de repente só há mais um momento do dia para contar – mais tagarela é impossível. Ao chegar à porta do prédio encontrei a simpática vizinha de baixo. Conversámos animadas sobre a possibilidade de reavermos parte substancial do dinheiro das obras de Santa Engrácia (ainda não começaram), uma vez que há umas semanas por iniciativa dela – e com o meu mero incentivo - o condomínio apresentou candidatura ao fundo ambiental de eficiência energética em edifícios residenciais.


Pronto, e é só isto.

O post aberto ontem



Ontem foi apenas aberto um post "antigo" (de 19-06-2021), acerca de cigarros. Um tema quase proibido nos tempos modernos. Uma das entradas do blogue mais visitadas nos últimos meses. Aproveito para deixar a ligação para outro postal sobre tabaco:  Cigarros, de 28.07.22.


*


Cigarros


por Isabel Paulos, em 19.06.21




 


Abreviando variações dentro das marcas, e passando por cima de cigarros que fumei ocasionalmente, estas foram as marcas de tabaco que fumei com regularidade entre 1987 e 2015 (com duas interrupções de menos de um ano), por ordem cronológica - não estou totalmente segura dadas as falhas de memória, mas não deve andar longe disto. Vem isto a propósito de hoje me ter apetecido um cigarrito e não, não foi a ver o Portugal 2 - Alemanha 4.


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Começar bem o dia

À entrada do edifício onde trabalho, reparei que tinha calcado porcaria. Voltei a sair e fui patinhar na relva em frente por uns minutos. Há muito não me acontecia o que é estranho atentas as muitas horas que levo de andanças a pé pelas ruas da cidade, parques e jardins.


Ao entrar na empresa o colega de gabinete, quando contei, disse-me para jogar no Euromilhões. É o que vou fazer. À hora de almoço vou ao quiosque fazer uma aposta. Já sabem, hoje o prémio é meu.


Bom dia. E que viva a boa-disposição. Hoje, sim, é sexta-feira.

24/08/2023

Azálea

Azálea  Azálea.


Aquisição de hoje para a varanda; já transplantada para vaso maior.

Isto está mau

Isto está mau. Não só desejei bom fim-de-semana aqui, como já me despedi algumas vezes em chamadas profissionais desejando o mesmo aos interlocutores. E ninguém me corrigiu. 


Deve ser vontade de arranjar tempo para saber os pormenores da morte ou desaparecimento (há-de reaparecer como o Elvis Presley) de Prigozhin, a baixa das taxas Euribor e a magnanimidade de Marcelo Rebelo de Sousa na Ucrânia. 


Hoje à noite em vez de mergulhar na leitura do romance do momento ou do esoterismo verei televisão para me inteirar do mundo.


E desculpem o falso alarme: não é véspera de fim-de-semana; hoje ainda é quinta-feira.

O post aberto ontem

Foram dois



  • Interlúdio, de 03.09.20. Um texto de reentrada após afastamento daqui das Comezinhas por 15 dias. Isto de transparecer os vaipes do "agora não me apetece, agora já apetece" pode dar um ar pouco consistente de tontinha que quer chamar a atenção, mas trata só de transparecer a realidade tal como ela é. A diferença é que muitos apesar de sofrerem dos mesmos achaques, dominam-se para não os exibir. E jamais os explicam, evitando cansar-se a si próprios e aos outros. Para fazê-lo é preciso assumir ser chata e não ter grande vergonha na cara - e convenhamos arcaboiço para levar na tromba com a antipatia gerada pela assunção dos estados de alma. De qualquer modo, o facto mais relevante é que quem escreve com esta intensidade precisa de descansar de quando em quando. Tudo normal. Quanto aos temas tratados no post, são variados: desde contar que a primeira palavra que pronunciei em bebé foi "Não" - há coisas que ficam para a vida -, passando pelo comentário sobre os privilégios do PCP nas últimas décadas, à referência da importância dos Jardins do Palácio ao longo do percurso ou ao enguiço de não ter tirado carta de condução, uma das maiores estupidezes da minha vida.

  • Verdes – Bichos, de 09.12.21. Um dos muitos postais para as Tílias sobre Valinhas.

Stone

 


Bom fim-de-semana.


 

Moralidades à quinta-feira

Começo por explicar que hoje é “redon” de moralismos - já não me chega assumir este pendor tão fora de moda nos círculos da intelligentsia. Qualquer defesa de correcção é apontada como puritanismo ou como inocência de tonta pouco preparada com a mania que é boazinha, isto é, estúpida. Assim é visto o mundo pelos iluminados da intelectualidade dominante. Há dias escrevi o que vem a seguir e julguei que soava a ressabiamento requentado, pelo que resolvi não publicar. Sucede que hoje a preguiça supera o critério do razoável e como não tenho vontade de trabalhar num post novo, vou aproveitar os restos e introduzir correcções que ficarão a olho nu, com a canalização à mostra.


Depois de redigido esse post acrescentei: ainda incipiente. Juntar à eterna questão da ausência de critério e mérito as causas concretas que valem a pena referir e não são ouvidas - falar da mudez da massa silenciada. E digo agora: ainda não é hoje que o faço (refaço, aliás), preciso desemperrar a mioleira. Noutro dia virá.


Então começava o tal textinho por isto: temendo estragar um pouco o que escrevi antes volto à carga com nuances. E faço a pergunta não ao vento que passa, mas ao bafio parado.


Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?


São dois vícios. O teu de acreditar num país onde não se despreze o verdadeiro esforço e valor – e não é do teu esforço e valor que estás a falar, neste momento recordas outras pessoas com quem te cruzaste ao longo da vida -, e o vício deles de desmerecer quem não pertence nem ambiciona aceder às elites fajutas e seus múltiplos espelhos disseminados pela sociedade. Seja esse desconsiderar bem-intencionado, por condescendência com a tua ingenuidade e por medo da tua queda no confronto com os podres instituídos. Seja presunção estúpida resultante de pura burrice. Aqui não há como fugir ao insulto: para lá da generalidade de gente que vai tratando da sua vida o melhor que sabe um pouco indiferente às teias de podridão que nos cercam, lidas com asnos que se julgam o supra-sumo da sapiência. Dos que sempre se dão a si próprios e aos que lhes dão a ganhar como exemplos de vida a seguir. Dos que aconselham a solução de construção civil ou a dica de investimento financeiro ou leitura quando é visível que não compreendem peva de materiais de construção ou de finanças ou do que lêem. Dos que hierarquizam o mundo pela novidade da fachada ou pela última vaga de sound bites da consultoria financeira ou pelas referências de matilha pseudo-intelectual por se imaginarem em cimeiros patamares de credibilidade, atingidos por mero efeito do uso de lugares-comuns trocados em meios profissionais e sociais viciados, nos quais se troca a mestria pelo compadrio. Escondidos atrás de ridículas tabuletas que anunciam de modo absurdo, tal é o empolamento, o trabalho árduo, rigor, competência e mérito. No caso desta gente floreados, meras palavras vazias de substância, que aprenderam a empregar para ludibriar incautos. “Fulaninho tal, o melhor lá do sítio” – ainda que uma perfeita nulidade, aprendeste logo na adolescência. O que interessava era (e é) a forma como era (e é) vendido pela tribo e a força e influência (ou ascendente) da tribo na sociedade, sem qualquer critério de real mérito. Exímios em produzir ridículos textinhos laudatórios a simular biografias realistas. Exímios em produzir textinhos de crítica inconsequente à incompetência, à falta de rasgo, à ignorância dos portugueses (ou quaisquer outras pechas que se lembrem, as quais se esquecem invariavelmente de reconhecer em si próprios ou nos amigos que interessa cultivar). O que conta é repetir à exaustão que fulaninho tal é muito bom senão o melhor, se o elogio convier por contribuir para o aumento da audiência do bajulador e sobretudo se puder beneficiar dos favores do enaltecido ou dos privilégios do seu clã. O que conta é também desprezar tudo quanto de evidente valor exista se puser em causa os alicerces das tais hierarquias de podridão criadas no seio do oportunismo. E insistir sempre neste registo até convencer – o que é muito fácil neste país, aliás, como noutros, basta criar intriga que gere audiência, pagar ou conceder vantagens – os detentores dos megafones dos meios de divulgação a promover os eleitos por esta elite fajuta de protagonistas e aspirantes a cargos relevantes na sociedade e no Estado. Realidade replicada nos múltiplos pequenos espelhos por toda comunidade física e virtual.


Não ignoro que todos temos um preço e que todos, em maior ou menor escala, agimos de modo oportunista. Mas convenhamos que há escalas e que havendo presunção e desonestidade há quem viva de aparências e por isso mesmo não mereça crédito nem respeito, se bem que seja quem mais os costume reivindicar para si e para a sua tribo.


E bem podem guardar a condescendência e as injurias disfarçadas em inocentes conselhos. E bem podem guardar as ensaboadelas aos atrevidos, a essa gente de topete que ousa ver a realidade tal qual ela se apresenta. Gente digna diz o que tem a dizer de forma clara e à luz do dia, é agradecida e justa.


Admito que estou farta de escrever este tipo de críticas. Sinto-me chata e desacompanhada, mas insisto por a isso ser impelida pela realidade. Não é agradável ficar com o odioso, porém alguém tem de o assumir. É possível que um dia desista e faça de conta que não veja, como dizem ser mais sensato.

23/08/2023

No carrinho

 


Compras


O carrinho online para decidir amanhã. Ou vou à loja pessoalmente. Os narcisos ainda não são exactamente os que quero.

Castigo

O post anterior tinha (e ainda tem) o vocábulo vida repetido inúmeras vezes. Num caso no mesmo período. E também noutra frase os termos questão e questões. Corrigi e é possível que muito mais haja a emendar no texto, mas por enquanto fica como está.


Para quem acha pateta ou exagerado os postais que escrevo sob o título “Castigo”, digo apenas que servem o propósito das Comezinhas. Mostrar-me em construção, brincando quando calha, sem o cálculo ou artifício que é tão comum e dominante. Nunca compreendi bem a necessidade de fazer de conta que não se erra ao mesmo tempo que se apontam falhas alheias. Nunca entenderei a desonestidade do fingimento e da pretensão.


Ao contrário do que julgam os sábios petulantes, não se trata de ignorância atrevida. Não faço gosto nenhum em cometer erros, tão pouco em exibi-los com orgulho.


Ao contrário do que pensam os bem-intencionados, não sofro especialmente com esta exibição. A minha insegurança é  nalguns aspectos muito mais aparente do que efectiva. Sinto-me muito mais segura a ser como sou do que a fingir o que não sou tentando impressionar ou enganar.


Podia dizer isto pela negativa, ou seja, explicar que esta é uma forma reactiva a atitudes ridículas de tão presunçosas e aldrabonas que vejo disseminadas mas, sem deixar de dar esta nota, fico-me por aqui, procurando realçar o positivo.

O cúmulo da procrastinação

Há uma semana li uma balela qualquer sobre a técnica de projectar a vida a 10 anos para estabelecer objectivos. A ideia é -, nada que não saibamos todos e já tenhamos experimentado -, visualizarmos a nossa vida daqui a 10 anos de acordo com os sonhos ou ambições, de modo a começar a agir ou trabalhar no sentido de os concretizar.


O cúmulo da procrastinação é esta leiturinha vir à cabeça várias vezes ao dia e pensar: logo tenho de tirar uns minutos tranquilos a pensar nisso, mas nunca chegar a arranjar esses minutos. O cúmulo é adiar a própria idealização.


Mas no fundo até terei desculpa, afinal passo a vida a projectar, tantas vezes nas nuvens, outras com os pés mais assentes no chão. No fundo ainda há menos de duas semanas tracei no caderninho dos desejos cinco objectivos de curto prazo. Ainda no primeiro de Janeiro tracei no mesmo caderninho os planos para este ano. Nalguns casos são os mesmos há cinco ou quinze anos. O bom é que parte deles foi concretizado, se vir bem a maioria – é o que dá desejar o possível. E bem sei que convém saborear as conquistas como muitas vezes me lembram. A busílis é mesmo desenguiçar as questões que não atam nem desatam. Uma delas há 30 anos. Não sei viver sem apontar para o futuro.  Detesto estar presa a enguiços antigos que me tolhem os movimentos. E dou por mim uma vez mais no blogue – é local próprio, afinal isto foi criado para ser um diário - a falar com os meus botões e a dizer-me: deves seguir o exemplo de há três anos em que encetaste uma vaga de mudanças na vida, que ainda decorre. Quando se começa a desenlaçar a vida, ela engatilha e começa a entrar no eixo, apesar dos reveses que sempre acontecem. Deves aproveitar o balanço e ganhar determinação (e paciência, quanta paciência é precisa) para resolver os enguiços que parecem não ter solução – e esperar que a sorte ou azar não enviesem completamente o resultado. Bom, se for a sorte inesperada, aceitas agradecida. Gostas de surpresas.


Com que então: planear a 10 anos?, dizia a leiturinha. Hum, é uma tentação. Afinal se tive talento para idealizar a vida de outros a 10 ou 20 anos de distância, acertando bastante nos prognósticos, porque não terei da minha? É só observar, avaliar e fazer pela vida driblando o destino. E a mudança faz-se fazendo, como o caminho.


Mais logo ou amanhã hei-de arranjar uns minutos tranquilos para projectar a vida a 10 anos. Ou noutro dia. Hei-de arranjar uns minutos tranquilos.

22/08/2023

Tina Turner

Dramas existenciais

 


Experimentação básica do método dedutivo.


 


Dizem que és sensata, a tua mãe disse-te várias vezes isso.


As pessoas admiráveis que fazem mover o mundo são insensatas.


Logo, nunca serás alguém capaz de mover o mundo, nunca serás admirável.


*


Bolas, nunca acertas.


Ou vá gostas digam que és sensata para fugir do rótulo de mulher de neuras, isto é, aceitas que é aconselhável viver com juízo, ou vá aceitas partir em viagem nos devaneios e delírios que também te definem.


Escolhe.


Ou não escolhas.


Sê tu, inteira.


 

21/08/2023

Simon Sebag Montefiore

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Comprado hoje. Depois de ler a introdução e passar os olhos por alguns dos biografados vai ficar em pousio mais uma ou duas semanas até terminar outras leituras. Esta certamente não cansará, é como se pesquisasse cada uma das figuras históricas no Google ou na Wikipédia (comparação herege, céus), com a vantagem de alguém ter feito a reunião do magote por mim em livro. O facto de se tratar de pequeníssimas entradas tem a vantagem de poder deixá-lo na mesinha de cabeceira e ler uma ou duas por noite e entremear, se para aí estiver virada, com outras leituras sem grande dano na mioleira. De referir que hei-de ler o Jerusalém do mesmo autor, cuja leitura me foi sendo relatada há dois anos. Mas ainda é cedo, antes disso continuo com o enguiço (enguiço é favor, há meses parado, mesmo) da China. Vai devagarinho, como sempre. 

O que é esta segunda-feira?

O verbo eleito é podar.


Diz o dicionário tratar-se de cortar ou desbastar o inútil. Quem viveu no meio de árvores e vinhas ou quem por elas tem gosto facilmente compreende a dor associada ao método - mimetizado da Natureza - de favorecer o crescimento e fortalecimento das plantas.


Transmute-se a ideia para a educação do ser humano desde a infância. É custoso nos dias de hoje, em que vinga certa visão de liberdade desprovida da correlativa responsabilidade, compreender a ideia de sem sofrimento, sem escolhas e desbaste do inútil ser difícil educar um homem ou mulher completo. Consciente de si e do seu papel e real valor no mundo – nem mais nem menos do que é. Por exemplo, nem transbordando auto-estima e arrogância tão incentivadas pelas modas actuais, nem tolhido pelo dispensável sentimento de incapacidade de fazer valer a sua palavra e vontade.


Não reajo bem a quem despreza e ridiculariza os consensos ou encontros de visões díspares como se fossem prova de moleza de carácter. A virtude está amiúde no meio-termo. Nem aprecio quem fala e escreve em ponto final, cheio de si e das suas certezas. Desde o erudito a falar de cátedra ao simplório a tentar impôr o que ouviu dizer. Incomoda-me quem por incapacidade de chegar ao outro (não de forma leviana e artificial para inglês ver), por desconhecimento do mundo do outro, se refugia na soberba das verdadizitas blindadas expressas em palavras ou imagens manipuladas através das quais insulta ou despreza. O estímulo a ser afirmativo a toda a força, que vem estando na moda nas últimas décadas, repito, o estímulo a ser afirmativo custe o que custar, tendo-se democratizado, implica incapacidade de aprender e reconhecer sem razões oportunistas o valor alheio e contribui para um mundo de mera aparência de conhecimento. Como se o sarcasmo ou a presunção de cientificidade ou a convicção conferissem verdade às resolutas afirmações produzidas.  Estes são traços de vidas de moldura, boas apenas para fazer figura.


Se é pateta catalogar a timidez como defeito e explicá-la com lugares-comuns como a falta de amor  e compreensão – fruto destas psicologias lifestyle que governam a mentalidade dominante -, não é menos verdade que o incentivo à afirmação individual deve acontecer desde cedo. O que não invalida que se ponha travão ao desembestar de vontade inconsequente. Só assim um ser humano adulto compreenderá o que é o conflito de interesses e terá consciência do peso relativo dos interesses em jogo, próprios e alheios, em vez de produzir apreciações tontas e agir de modo desprezível e egoísta sem disso ter consciência. Não é de protótipos de palavreado inútil ou de "paradigmas" de felicidade nem de criar máquinas bem-sucedidas que falo, mas de ajudar a educar homens e mulheres dignos.


Para lá da sorte - de também ser fruto das circunstâncias e da arbitrariedade da Natureza - o carácter forma-se da poda feita na educação.


 


Adenda. Duas notas extras.



  • Este postal não trata de poda estética.

  • Um corte mal feito na poda pode implicar a morte da planta. 

20/08/2023

Consumir opinião

Cada vez mais leio menos "comentariado" nos meios de comunicação social e tento ater-me às notícias em si. Creio que faço bem. A ideia na qual fui educada de ser aconselhável aprofundar a informação lendo opinião alheia fazia sentido - deveria ouvir/ler pontos de vista diferentes, no intuito de criar elasticidade mental e maior abertura de espírito -, mas perdeu força com esta profusão do engraçadismo pseudo-intelectual e faccioso. Um voluntarismo no qual todos se acham geniais e capazes de julgar tudo e todos. Na maioria dos casos, ler ou ouvir o que se diz e escreve no espaço público não acrescenta conhecimento e lucidez. Aumenta sim o sentimento de irmandade com a generalidade dos consumidores de "conteúdo" informativo, o que reconforta quem se reveja na consciência colectiva. Ou alimenta o espírito de competição e facção que também conduz a um sentimento de pertença, agora a uma tribo. Se estes sentimentos podem ser benéficos sob outros aspectos é uma incógnita. Em termos de conhecimento são neutros (ou negativos). Não digo nada de novo, até nos livros há que ser criterioso e há muito quem o entenda e expresse há muitos anos: face à exiguidade de tempo, não há disponibilidade para perder com inutilidades. Porém, ser criterioso está muito longe de seguir as recomendações interessadas do gueto do mercado cultural e seus clichés e contra-clichés. Nas palavras de Miguel Torga: "dos próceres do poder e dos pontífices da literatura". Acrescento: antes reduzir as leituras ao essencial e perder tempo a não fazer nada, a devanear e a viver ao sabor dos ventos, é menos nocivo para a sociedade do que encharcar o cérebro de intriga e futilidade pretensamente inteligentes e dignas de apreço e replicá-las à exaustão.


Ao longo do dia acabei por ler as notícias com superficialidade, fiz o giro muito curto pelas redondezas só para dizer que não passei o dia enfiada em casa (ontem a andança foi à noite, como agora voltou a ser costume ao fim-de-semana), conversei ao vivo e a cores e ao telefone, dormi e comi. Tudo relevantíssimo. 


Amanhã ou depois vou comprar o livro Titãs da História, Heróis e vilões que fizeram a nossa história, de Simon Sebag Montefiore. Um conjunto de 170 minibiografias - o tamanho certo para o meu cérebro ervilha. Tipo de coisas que me tenta, apesar de saber que vou arrastar a leitura por muito tempo. Mais uma vantagem de ter tantas entradas individuais.


E antes de me deitar ainda quero ver se crio O que é esta segunda-feira?, sem ter no momento a mais pequena ideia sobre o que escrever. Não sei se estou para aí virada ou faço folga. Logo se vê.


Boa noite.


 


Ups. Uma última nota solta. A vantagem de ler pouca opinião durante uma temporada - já me fui afastando há algum tempo - é a de nas poucas vezes que leio esse tipo de textos poder ter a surpresa (coisa rara) de descobrir que o autor chegou à mesma conclusão, às vezes nos mesmos termos. 


 


Adenda. Sou um calhau. Bastava ter utilizado a palavra "opinião" como vocábulo eleito do postal da série O que é esta segunda-feira? e já estaria concluído. Sempre fui péssima em cálculo.

Lido

No Observador.



*


Ir ao que interessa - as notícias - e não perder tempo com egos e intriga.


Ler o Observador é um desafio. Ter de fazer gincana para me desviar da "opiniãozita".

Lido

NotíciasChina


ChinaNews

Lido

Equipa científica sugere que estrela invulgar se tornará no íman mais forte do Universo, no Observador.


*


Curiosidades.

Lido


  • Costa portuguesa é “uma mina de ouro" para investigar o clima de há milhões de anos (e já revelou uma descoberta surpreendente), no Observador.



Vasiliki Margari é uma das autoras do estudo que concluiu que um grande inverno de 4 mil anos provocou a morte dos primeiros europeus. Tudo a partir de sedimentos depositados na costa portuguesa.


[...]


Recentemente, foi noticiado que a circulação meridional do Atlântico está não só a abrandar como pode colapsar durante este século. Há algum aspeto da vossa investigação que se possa relacionar com o que se passa atualmente?
Receio que não. Não podemos fazer analogias porque se tratam de períodos de tempo completamente diferentes, com características completamente distintas. Em relação ao que está a acontecer agora, com a quantidade de CO2 e gases com efeito de estufa na atmosfera, o aquecimento global vencerá. Todas as simulações que temos preveem que não haverá um evento de arrefecimento como vimos no passado.


*



Não há como começar por uma perspectiva de mil milhões de anos para nos situar e nos reduzir à insignificância.

Ponto de situação

Bom. Agora como já passa algum tempo de quase alheamento do que se passa no mundo, vou mergulhar nos jornais para fazer que conta que sou uma rapariga informada e sentir-me irmanada do grupo de gente que julga que as catadupas de factos e dados e a sua correlação são explicáveis e o que se passa na humanidade faz algum sentido.


Sou capaz mesmo, imagine-se, de ler meia dúzia de notícias inteiras. Isto é que é devoção à humanidade.


Depois disso quem sabe vá perorar cheia de mim, tal como vejo fazer, sobre o destino e acerto do mundo. Ou melhor, talvez não, talvez me fique por deixar os links. É mais prudente. Logo se vê.

Caseirices*

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O rei dos computadores e do rodilho de cabos.


 


* Já era tempo da Porto Editora acrescentar vocábulos como este ao dicionário.

O post aberto ontem

Para lá do costume, dos últimos dias, foram dois.



  • Mosca-morta, de 02.05.20. No passado um dos postais mais abertos das Comezinhas. Uma piadinha doméstica, como as milhentas que trocámos no dia-a-dia desde que nos conhecemos. Não concebo uma vida sem boa-disposição, mesmo nos dias maus. Nem que pareçamos imbecis. Vi-o brincar em momentos muito difíceis, dando a volta por cima, como acredito se deve fazer. Ainda que reaja muitas vezes com um: devias deixar essas piadinhas de trolha; dão cabo da tua reputação. E ele replique com um: como queira, senhora doutora, a sua vontade é uma ordem. Para logo a seguir soltar outra palermice bem-disposta.

  • Crapô, de 05.06.21. Mais uma vez o tal postal acerca do excesso de argumentação. Um dos mais abertos nos últimos meses.

19/08/2023

Castigo

Dois erros ortográficos de hoje já corrigidos ao longo do dia. Lá está, saltaram-me à vista apenas horas depois. Não há o que lhe fazer.



  • Mexerufada, mexerufada, mexerufada... cem vezes. Palavra aqui escrita milhentas vezes sem erro, mas hoje saiu como a pronuncio em tantas ocasiões: mexurufada.

  • Discrição, discrição, discrição... cem vezes. E não descrição. Não há relato nenhum, mas sim reserva (quem diria, eheheh, sendo um livro aberto).

Diário

Pão


O dia de ontem abriu com um pão de abóbora e noz para cada um dos três ocupantes da sala na empresa. Trouxe-os para acompanhar o primeiro café da manhã que tomámos assim que chegámos. Este gesto de brindar os colegas de trabalho com pão ou bolachas ou um qualquer mimo do género foi-me emprestado – uma outra forma de dizer ensinado - pela colega que esteve uma temporada lá no gabinete. Trabalhou ali ano e meio, na segunda-feira regressa às funções antigas. Foi um gosto conhecer mais uma pessoa no dia-a-dia, e não há como puxar a brasa à nossa sardinha: tem a particularidade de também ter nascido em Angola, era difícil não nos entendermos bem.


Autocarro


 


Ao fim da tarde esqueci de fazer o percurso a pé, como costumo no regresso de sexta-feira, e meti-me num autocarro apinhado de gente, como acontece diariamente aos fins de tarde naquela linha que vai deixar de existir ou pelo menos ser remodelada em parte do percurso para minha tristeza. O 203 vai ser substituído pelo MetroBus. O mundo moderno vai-se impondo.


 


Jantar


 


Jantámos bife de frango temperado com bastantes ervas e arroz de tudo, assim o baptizei em casa da minha mãe, quando pedia que o fizesse. Que nada mais é do que arroz com um pouco de tomate, ervilhas, cenoura e pedacinhos muito pequenos de chouriço (e carne de vaca, se não for para acompanhar; ontem era). Ontem substituí o chouriço por presunto, que juntei só a um minuto de desligar e gostei do resultado.


 


Hoje ao acordar comentei com o Nuno como deambulo entre dois extremos. A ideia genuína de nada do que faço por aqui nas Comezinhas ter grande valor e a qualquer momento poder deixar tudo para trás sem especial remorso. E várias razões poderiam ditar o afastamento pela importância e atenção que me exigiriam: adoptar um filho; tirar a carta, comprar carro e fazer todos os passeios e viagens tão desejados e adiados por mais de 15 anos; comprar o sonhado casinhoto com jardim como segunda casa (começo a agarrar-me a este apartamento e cada vez mais me desagrada a ideia de o vendermos; até me estranho), o mais do que certo entusiasmo com mobilar a casinha e tratar das árvores e plantas, claro, com o descuido próprio de quem nada faz perfeito; voltar a empolgar-me com a vida a dois e o reacender pela terceira vez da paixão, que acredito a sério aconteça e quando acredito a sério, acontece.


E, por contraposição, no outro extremo, os momentos nos quais valorizo muito o blogue e me vislumbro especial e capaz de criar também aqui qualquer coisa de valor que nenhum outro gerou. Nesses momentos acredito apesar da generalizada incompreensão que nunca me demoveu, vingar para lá dos apetites alheios e ventos do tempo. Se é verdade que dou atenção ao que os outros pensam e sofro com isso, a opinião dos outros nunca me impediu, apesar da dor, de fazer exactamente o que quero e valorizar o bom, tantas vezes contra a opinião generalizada e o desdém sobranceiro e frívolo dos sábios. Momentos de eterna sensação de descer a montanha em paz interior para me sentar na planície a observar os movimentos, enquanto todos os alpinistas a sobem e me querem explicar como é deslumbrante a vista lá de cima.


Por fim, o mais importante. Depois de ter conhecido e namorado com o Nuno há 23 anos, de namorarmos neste segundo round há quase 13 anos, de vivermos juntos há quase nove, no mês passado decidi dizer um sim inteiro, sem ses nem mais adiamentos. Vamos casar no próximo mês sem festejo nem convidados, apenas as duas testemunhas da praxe, com a discrição que ambos apreciámos. Bem sei que afirmava que o casamento só faria sentido para agradecer e não para fazer promessas. Todavia ao fim destes anos já há o que agradecer. Por enquanto pelo civil. Sim, sei, também dizia não ter de dar explicações ao Estado, o problema é que o Estado vinga-se de quem não se sujeita às suas regras. Mas sobretudo apenas só pelo civil por ainda não estar muito certa que Deus seja decente connosco. Se Deus se portar bem dando-nos provas disso mesmo, lá para os 80 casaremos pela Igreja. Antes disso é manifestamente cedo. De resto só interessa dizer que gosto deste rapaz à séria, como nunca gostei de ninguém. E se ainda sofro de medos de desilusões por sempre ter sido céptica nestes domínios, nunca conheci nem de perto nem de longe uma pessoa tão completa, tão sã de cabeça e de tão bom coração. Vivo com um tesouro. Sei que deveria ter diluído os elogios em prosa mais cuidada, ele merecia, mas sabe que vive com uma mulher meia brutinha. Alguém tinha de ser bruto cá em casa. E nisso nem com o Ritz posso contar. São uns mimalhos.