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19/08/2023

Diário

Pão


O dia de ontem abriu com um pão de abóbora e noz para cada um dos três ocupantes da sala na empresa. Trouxe-os para acompanhar o primeiro café da manhã que tomámos assim que chegámos. Este gesto de brindar os colegas de trabalho com pão ou bolachas ou um qualquer mimo do género foi-me emprestado – uma outra forma de dizer ensinado - pela colega que esteve uma temporada lá no gabinete. Trabalhou ali ano e meio, na segunda-feira regressa às funções antigas. Foi um gosto conhecer mais uma pessoa no dia-a-dia, e não há como puxar a brasa à nossa sardinha: tem a particularidade de também ter nascido em Angola, era difícil não nos entendermos bem.


Autocarro


 


Ao fim da tarde esqueci de fazer o percurso a pé, como costumo no regresso de sexta-feira, e meti-me num autocarro apinhado de gente, como acontece diariamente aos fins de tarde naquela linha que vai deixar de existir ou pelo menos ser remodelada em parte do percurso para minha tristeza. O 203 vai ser substituído pelo MetroBus. O mundo moderno vai-se impondo.


 


Jantar


 


Jantámos bife de frango temperado com bastantes ervas e arroz de tudo, assim o baptizei em casa da minha mãe, quando pedia que o fizesse. Que nada mais é do que arroz com um pouco de tomate, ervilhas, cenoura e pedacinhos muito pequenos de chouriço (e carne de vaca, se não for para acompanhar; ontem era). Ontem substituí o chouriço por presunto, que juntei só a um minuto de desligar e gostei do resultado.


 


Hoje ao acordar comentei com o Nuno como deambulo entre dois extremos. A ideia genuína de nada do que faço por aqui nas Comezinhas ter grande valor e a qualquer momento poder deixar tudo para trás sem especial remorso. E várias razões poderiam ditar o afastamento pela importância e atenção que me exigiriam: adoptar um filho; tirar a carta, comprar carro e fazer todos os passeios e viagens tão desejados e adiados por mais de 15 anos; comprar o sonhado casinhoto com jardim como segunda casa (começo a agarrar-me a este apartamento e cada vez mais me desagrada a ideia de o vendermos; até me estranho), o mais do que certo entusiasmo com mobilar a casinha e tratar das árvores e plantas, claro, com o descuido próprio de quem nada faz perfeito; voltar a empolgar-me com a vida a dois e o reacender pela terceira vez da paixão, que acredito a sério aconteça e quando acredito a sério, acontece.


E, por contraposição, no outro extremo, os momentos nos quais valorizo muito o blogue e me vislumbro especial e capaz de criar também aqui qualquer coisa de valor que nenhum outro gerou. Nesses momentos acredito apesar da generalizada incompreensão que nunca me demoveu, vingar para lá dos apetites alheios e ventos do tempo. Se é verdade que dou atenção ao que os outros pensam e sofro com isso, a opinião dos outros nunca me impediu, apesar da dor, de fazer exactamente o que quero e valorizar o bom, tantas vezes contra a opinião generalizada e o desdém sobranceiro e frívolo dos sábios. Momentos de eterna sensação de descer a montanha em paz interior para me sentar na planície a observar os movimentos, enquanto todos os alpinistas a sobem e me querem explicar como é deslumbrante a vista lá de cima.


Por fim, o mais importante. Depois de ter conhecido e namorado com o Nuno há 23 anos, de namorarmos neste segundo round há quase 13 anos, de vivermos juntos há quase nove, no mês passado decidi dizer um sim inteiro, sem ses nem mais adiamentos. Vamos casar no próximo mês sem festejo nem convidados, apenas as duas testemunhas da praxe, com a discrição que ambos apreciámos. Bem sei que afirmava que o casamento só faria sentido para agradecer e não para fazer promessas. Todavia ao fim destes anos já há o que agradecer. Por enquanto pelo civil. Sim, sei, também dizia não ter de dar explicações ao Estado, o problema é que o Estado vinga-se de quem não se sujeita às suas regras. Mas sobretudo apenas só pelo civil por ainda não estar muito certa que Deus seja decente connosco. Se Deus se portar bem dando-nos provas disso mesmo, lá para os 80 casaremos pela Igreja. Antes disso é manifestamente cedo. De resto só interessa dizer que gosto deste rapaz à séria, como nunca gostei de ninguém. E se ainda sofro de medos de desilusões por sempre ter sido céptica nestes domínios, nunca conheci nem de perto nem de longe uma pessoa tão completa, tão sã de cabeça e de tão bom coração. Vivo com um tesouro. Sei que deveria ter diluído os elogios em prosa mais cuidada, ele merecia, mas sabe que vive com uma mulher meia brutinha. Alguém tinha de ser bruto cá em casa. E nisso nem com o Ritz posso contar. São uns mimalhos.