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10/08/2023

Apontamento solto sem importância

Ah, quando alguém escreve deixa de ter mão no que publica. Ah, é infantil ou autoritário querer impôr uma leitura única, interpretando o que se escreveu, não deixando ao leitor espaço para respirar. Será? Será que o espaço não se expande com as explicações? Como a conversa franca de um casal? Será que o autor não tem direito a meter o bedelho nas leituras? Até nas que apenas supõe? Que raio de liberdade é essa?


Alguém te perguntou alguma coisa? Não. Isso é importante? Nem um bocadinho. Há-de ser e até lá divertes-te a dizer exactamente o que te apetece. Ah, vais arrepender-te, imbecil, pensam os iluminados. Que maçada. Sofres tanto.


Devias dedicar-te à escrita criativa participando em programas destinados a ensinar a seres tu própria e a pensares fora da caixa. É assim. Estás a ver a caixa? Tem as medidas de x por y, que dá a2. Não, pára, não é x por v por y, quando muito seria x por y por z, não sejas crua/crítica/exigente/tímida; ser criativo é isso: x por y, que dá a2, nada fora disso é válido, bicho esquisito. Agora vai: ficas do lado de fora a fazer de conta que não cabes na caixa. Vês aquela/a menina/o protótipo de caixa a fazer de conta ser fora da caixa? É assim que tens e agir para conseguires muita audiência com a tua rebeldia e vanguardismo. Ah, não esqueças de usar todas as palavrinhas e ideias muito bem postas em desordem para continuares a fazer de conta. Podes tirá-las daquela caixinha, estão todas devidamente escrutinadas e são todas suficientemente assépticas. Tens também vernáculo, vulgaridades e escatologia para utilizares de modo forçado dando aquele toque de menina livre e desinibida na aparência. Podes usá-las, as assépticas e as arrojadas - vai dar-te um ar de muito corajosa e proporcionar muitas palminhas e caché a condizer.


Ou então escreve como se por cálculo matemático 2 + 2 = 4. Fim de frase. Fim de ideia. Mais outra 3 + 3 = 6. Repete isso à exaustão ao longo de anos, décadas. Pilha tudo tanto quando puderes. Elogia quem te pagar o caché presente ou futuro e quem vires possuir audiência presente ou futura. As vendas funcionam por osmose. Não incomodes ninguém que tenha efectivo poder, a menos que já esteja a sair de cena ou em decadência, e destrói tudo o que tenha de facto valor. Ena, ena. Brilhante. Parte substancial do espaço público está preenchido com aquelas duas frases. Que mundo tão perfeito, é tão bom viver refastelado nesta vida fácil e feliz que tanto enaltece o vácuo e o leviano sofisticado vendidos como informação, conhecimento e saber. À custa do outro e da intrujice. Como é possível não quereres entrar para o distinto e restrito clube do oportunismo?


Agora regista: tudo o que não seja lugar-comum oportunista e escrita criativa não existe. É ignorância, topete, ressabiamento, mania de ser diferente. Vontade frustrada de protagonismo de quem nunca ganhou nada na vida, pensam os doutrinadores das audiências que têm a psicologia da competição desportiva como "paradigma" máximo da esperteza para a vida.


E é assim a vida.


(Porquê estes postais má onda se ao longo dos anos foste crítica de quem espelhava estas podridões da realidade? Julgamentos que não são benquistos pela maioria dos que acreditam na vitória do mérito e desconfiam sempre de quem aponta o dedo, rotulando estes arrazoados de menoridades desnecessárias e injustas. Simplesmente por teres respeito por ti, bastante mais do que o postulado pelos esfregadores à toa da auto-estima. E apesar de estares a construir o teu caminho, não vais deixar passar em claro a estupidez que grassa em parte substancial do mundo, por mais pensem seja desperdício perder tempo com aquilo que consideram questiúnculas.


Amanhã, se tiveres disponibilidade escreverás acerca da tendência fofinha de dar-se como exemplo de bom comportamento e felicidade como se isso fosse catalisador da felicidade alheia. E o eventual desconhecimento que é também através do testemunho de imperfeição que nos educamos.)