Cada vez mais leio menos "comentariado" nos meios de comunicação social e tento ater-me às notícias em si. Creio que faço bem. A ideia na qual fui educada de ser aconselhável aprofundar a informação lendo opinião alheia fazia sentido - deveria ouvir/ler pontos de vista diferentes, no intuito de criar elasticidade mental e maior abertura de espírito -, mas perdeu força com esta profusão do engraçadismo pseudo-intelectual e faccioso. Um voluntarismo no qual todos se acham geniais e capazes de julgar tudo e todos. Na maioria dos casos, ler ou ouvir o que se diz e escreve no espaço público não acrescenta conhecimento e lucidez. Aumenta sim o sentimento de irmandade com a generalidade dos consumidores de "conteúdo" informativo, o que reconforta quem se reveja na consciência colectiva. Ou alimenta o espírito de competição e facção que também conduz a um sentimento de pertença, agora a uma tribo. Se estes sentimentos podem ser benéficos sob outros aspectos é uma incógnita. Em termos de conhecimento são neutros (ou negativos). Não digo nada de novo, até nos livros há que ser criterioso e há muito quem o entenda e expresse há muitos anos: face à exiguidade de tempo, não há disponibilidade para perder com inutilidades. Porém, ser criterioso está muito longe de seguir as recomendações interessadas do gueto do mercado cultural e seus clichés e contra-clichés. Nas palavras de Miguel Torga: "dos próceres do poder e dos pontífices da literatura". Acrescento: antes reduzir as leituras ao essencial e perder tempo a não fazer nada, a devanear e a viver ao sabor dos ventos, é menos nocivo para a sociedade do que encharcar o cérebro de intriga e futilidade pretensamente inteligentes e dignas de apreço e replicá-las à exaustão.
Ao longo do dia acabei por ler as notícias com superficialidade, fiz o giro muito curto pelas redondezas só para dizer que não passei o dia enfiada em casa (ontem a andança foi à noite, como agora voltou a ser costume ao fim-de-semana), conversei ao vivo e a cores e ao telefone, dormi e comi. Tudo relevantíssimo.
Amanhã ou depois vou comprar o livro Titãs da História, Heróis e vilões que fizeram a nossa história, de Simon Sebag Montefiore. Um conjunto de 170 minibiografias - o tamanho certo para o meu cérebro ervilha. Tipo de coisas que me tenta, apesar de saber que vou arrastar a leitura por muito tempo. Mais uma vantagem de ter tantas entradas individuais.
E antes de me deitar ainda quero ver se crio O que é esta segunda-feira?, sem ter no momento a mais pequena ideia sobre o que escrever. Não sei se estou para aí virada ou faço folga. Logo se vê.
Boa noite.
Ups. Uma última nota solta. A vantagem de ler pouca opinião durante uma temporada - já me fui afastando há algum tempo - é a de nas poucas vezes que leio esse tipo de textos poder ter a surpresa (coisa rara) de descobrir que o autor chegou à mesma conclusão, às vezes nos mesmos termos.
Adenda. Sou um calhau. Bastava ter utilizado a palavra "opinião" como vocábulo eleito do postal da série O que é esta segunda-feira? e já estaria concluído. Sempre fui péssima em cálculo.