Ora “vamo lá” escrever qualquer coisa para justificar a presença no mundo online. Podias limitar-te a dizer boa noite, daria no mesmo. Mas não, vais deixar escorregar os dedos pelas teclas, desta vez com meio propósito, o resto virá por acréscimo.
Dizem-te: ai tem tanta sorte, os seus fulaninhos comportam-se de um modo muito mais correcto e são mais cumpridores do que o nossos. Ai, tem tanta sorte, tratam-na tão bem. Ai, tem tanta sorte, as coisas parecem resolver-se por si só. E respondes tu: pois mas nós – que é como quem diz tu e tu, já que a outra pessoa que trata dos mesmos assuntos nem por isso – tratamos os fulaninhos com respeito e delicadeza, por isso eles devolvem-na. E para dentro sem coragem de dizer em voz alta, pensas: pois, não dou o nó aos fulaninhos com tanta explicação e contra-explicação, com tanto argumento e contra-argumento de modo que eles perdem a noção do que está em causa. E por segundos ficas convencida desta harmonia do mundo, como se fosse um princípio geral a enunciar a teu favor: se tratares bem os outros e não os baralhares, os outros tratam-te com respeito e não te confundem. Êh, como dizer? Nalgumas circunstâncias sim, noutras não. Mais uma vez nada na vida é linear. Além de mais, pode ser mesmo uma questão de acaso ou sorte. Não haver nenhum merecimento e a pessoa que faz aqueles comentários pode até ter razões reais de queixa. Podes até ser mesmo bafejada pela fortuna.
Deve ser para compensar os constantes pequenos azares noutros momentos. De precipitações a gestos involuntários que te hão-de dar o ar atabalhoado – se não derem aos outros, a ti dão com certeza. Desde manter o microfone desligado (para evitar transmitir o som do teu gabinete, onde estão mais duas pessoas) nas reuniões profissionais por teams quando já é a tua vez de falar, trocar números de processos nos emails por fazer copy/paste inadvertido, perder por horas o passe do autocarro, queimar os dedos dia sim dia não com a água quente da máquina de café por não esperares uns segundos até a pressão diminuir, pôr favoritos ou gostos nos próprios posts ou noutros blogues sem querer ao deslizar os dedos no ecrã do telemóvel (apagas os que puseste no teu inadvertidamente mas não nos espaços alheios para não ser pior a emenda do que o soneto), desligar chamadas ou o microfone do telemóvel com a bochecha, enfim, um rol de incidentes mínimos de quem usa tecnologia com total falta de jeito.
De resto, a registar que ontem esteve uma caloraça má que se prolongou um pouco pelo dia de hoje, até a meio da tarde descer uma bela de uma neblina e friozinho ao fim da tarde. Delícia. Isso sim, é sorte.
Tudo questões fundamentais, como se pode constatar.
Boa noite.