Mais uma vez nada pré-definido, nada na manga. Além de que o momento é pouco propício à disponibilidade mental para escrever. A única ideia que me recordo de matutar de tarde para efeito deste postal resume-se à noção de quem muito critica um aspecto de carácter ou hábito noutros esquecer-se com frequência de reparar que o incorpora em si por vezes com bastante mais intensidade do que imagina. Nada como recorrer à Bíblia: Porque vês o cisco que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?
Disto me costumo lembrar ao ver os reparos constantes à utilização das redes sociais ou, em geral, ao mundo online, por quem passa a vida nele a criticar os usos e costumes da modernidade, isto é, de quem despende comprovadamente muito tempo nas plataformas digitais, mas só repara nos excessos alheios – por mim admito uma vez mais o agarranço. Creio ser muito menos importante recriminar outros pelos erros que também cometemos e bastante mais profícuo, apesar das irritações e os desencontros de opinião e gosto que sempre sucederão, gastar o dito tempo online a tentar compreender quem se cruza connosco. Em vez de classificar e remeter para prateleiras obtusas quem pense e sinta de uma forma que nos incomode – ia escrever de um modo diferente, mas nem sequer é isso que está em causa, por vezes o pensamento e o sentimento até coincidem e ainda assim há animosidade vinda da pura vontade de conflito, da usurpação de valor alheio ou da necessidade de rebaixar outrem para ganhar ascendente, mais do que de picardia inócua ou reacção a alguma injustiça.
Já sabem, acabei de dizer mais banalidades. Moralidades balofas, das que aborrecem. Tão só. Nada de importante. E qual a razão para vir com esta treta em concreto? Por ter observado críticas acima descritas e por há poucos dias ter lido um insulto rude escrito por alguém que enferma precisamente da mesmo defeito que apontava. Isto é, uma mulher grosseira a chamar grosseiro a uma figura pública, que de facto é. Sucede que a questão é outra, bem simples e nada original: quando os denunciadores não têm credibilidade ou estatura moral para a acusação, ela torna-se ridícula. O verniz, o rimmel ou o bom relógio masculino com retórica farta à mistura não disfarçam os traços de grosseria de ninguém, nem conferem legitimidade para atirar pedras ao telhado alheio.