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21/08/2023

O que é esta segunda-feira?

O verbo eleito é podar.


Diz o dicionário tratar-se de cortar ou desbastar o inútil. Quem viveu no meio de árvores e vinhas ou quem por elas tem gosto facilmente compreende a dor associada ao método - mimetizado da Natureza - de favorecer o crescimento e fortalecimento das plantas.


Transmute-se a ideia para a educação do ser humano desde a infância. É custoso nos dias de hoje, em que vinga certa visão de liberdade desprovida da correlativa responsabilidade, compreender a ideia de sem sofrimento, sem escolhas e desbaste do inútil ser difícil educar um homem ou mulher completo. Consciente de si e do seu papel e real valor no mundo – nem mais nem menos do que é. Por exemplo, nem transbordando auto-estima e arrogância tão incentivadas pelas modas actuais, nem tolhido pelo dispensável sentimento de incapacidade de fazer valer a sua palavra e vontade.


Não reajo bem a quem despreza e ridiculariza os consensos ou encontros de visões díspares como se fossem prova de moleza de carácter. A virtude está amiúde no meio-termo. Nem aprecio quem fala e escreve em ponto final, cheio de si e das suas certezas. Desde o erudito a falar de cátedra ao simplório a tentar impôr o que ouviu dizer. Incomoda-me quem por incapacidade de chegar ao outro (não de forma leviana e artificial para inglês ver), por desconhecimento do mundo do outro, se refugia na soberba das verdadizitas blindadas expressas em palavras ou imagens manipuladas através das quais insulta ou despreza. O estímulo a ser afirmativo a toda a força, que vem estando na moda nas últimas décadas, repito, o estímulo a ser afirmativo custe o que custar, tendo-se democratizado, implica incapacidade de aprender e reconhecer sem razões oportunistas o valor alheio e contribui para um mundo de mera aparência de conhecimento. Como se o sarcasmo ou a presunção de cientificidade ou a convicção conferissem verdade às resolutas afirmações produzidas.  Estes são traços de vidas de moldura, boas apenas para fazer figura.


Se é pateta catalogar a timidez como defeito e explicá-la com lugares-comuns como a falta de amor  e compreensão – fruto destas psicologias lifestyle que governam a mentalidade dominante -, não é menos verdade que o incentivo à afirmação individual deve acontecer desde cedo. O que não invalida que se ponha travão ao desembestar de vontade inconsequente. Só assim um ser humano adulto compreenderá o que é o conflito de interesses e terá consciência do peso relativo dos interesses em jogo, próprios e alheios, em vez de produzir apreciações tontas e agir de modo desprezível e egoísta sem disso ter consciência. Não é de protótipos de palavreado inútil ou de "paradigmas" de felicidade nem de criar máquinas bem-sucedidas que falo, mas de ajudar a educar homens e mulheres dignos.


Para lá da sorte - de também ser fruto das circunstâncias e da arbitrariedade da Natureza - o carácter forma-se da poda feita na educação.


 


Adenda. Duas notas extras.



  • Este postal não trata de poda estética.

  • Um corte mal feito na poda pode implicar a morte da planta.