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26/08/2023

Diário

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Está a ser um dia comprido. Saí às dez da manhã em direcção ao Leroy Merlin de Matosinhos, onde comprei terra, sementes de pimento picante e de erva para gato. Devia ter estudado mais as espécies de malaguetas. Tentei ler a literatura dos pacotes e acabei por trazer uma que não dizia ser biológica. Como tenho mau-feitio fujo sempre ao que é apresentado como “produto biológico”. Até a terra – o substrato universal – é biológico, imagine-se. Quem diria? Fico sempre muito admirada. Mas é bom este alerta, serve como as placas do “cuidado não escorregue” nos pisos acabados de limpar. Em princípio, se está molhado, o piso está escorregadio. Até ver, se é terra, é biológica. Mas nos tempos que correm, nunca fiando.


Ao meio-dia estava na Avenida de França para mais uma sessão de depilação a laser feita pelas minhas herdeiras. Fico depenada de todo no duplo sentido. Cuidado com os dedinhos em riste para quem falar do tema merece reparos e é sempre vulgar. Um dia hão-de chegar a entender que o modo como se fala de qualquer tema é que o faz vulgar ou não.


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Vim para casa. A pedido do Nuno preparei mais uma salada para o almoço. Demorou meia hora a fazer porque posta a água a ferver, esqueci-me de pôr os ovos a cozer, depois quando pus os ovos, desliguei o fogão só tendo reparado nisso 10 minutos depois. Enfim, o cérebro está a precisar de descanso. Comemos. Falei ao telefone, troquei mensagens de WhatsApp e recebi um presente da T.. Uma fritadeira de ar quente. Já ouvia falar delas há alguns anos, mas não sei ainda como funcionam. Vou estudar. Para já tenho as ligações a receitas que a T. me enviou. Parece que é uma máquina versátil. Falei ao telefone com os meus pais. Soube que a minha sobrinha entrou para na primeira opção cá no Porto. A nova geração enveredou pela engenharia informática, o que me agrada muito – incentivei o irmão para essa área quando foi altura e a irmã seguiu as pisadas, felizmente. A ideia de os ver nos enjoativos cursos de direito, economia e gestão era soporífera. O que não invalida que quem tenha grande queda por essas áreas possa ser feliz.


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A meio da tarde seguimos para a Feira do Livro. Que estava uma verdadeira feira. Repleta e com muita gente nova, o que é sempre bem alegre (um aparte: também por isso gosto da Póvoa de Varzim). É esfuziante a moda de ir à Feira do Livro. Uma autêntica diversão. E não quero ser parva. É evidente que é bom para o mercado do livro e é claro que das modas também podem nascer bons hábitos de leitura.


20230826_182800Este ano quase não conseguindo aproximar-me das mesas dos alfarrabistas – pela primeira vez não fui aos stands das editoras e é possível que quando regressar volte a não visitá-los – fiquei-me apenas por duas e trouxe livros quase a peso. É uma modalidade como outra qualquer. Brincando, continuo a completar uma colecção. Conversei uns minutos com o segundo alfarrabista enquanto me ajudava a ensacar os seis livros que lhe comprei mais uns quatro que tinha comprado na concorrência, explicou-me o desembaraço ao dizer “são muitos anos a virar frangos”, não imaginando quanto essa expressão é usada cá em casa e como aprecio esse modo descontraído de comunicar ao contrário das proas. Disse-lhe que tencionava continuar a procurar completar a colecção nos próximos dois ou três anos, mas ele respondeu que amanhã já tinha mais. Assim não vale, são facilidades e gastos excessivos. É batota. Logo verei se amanhã regresso para comprar mais um quilito de livros. Quais? É o que menos interessa. Estive a dar uma vista de olhos pelos dez que trouxe e no próximo ano só lerei no máximo três deles e há uns que só mesmo na reforma. Lá está, devo andar atrás das lombadas para enfeitar as estantes, deve ser isso. Ao quilo.


Bem feitas as contas estive na Feira cerca de meia hora. Viemos de Uber. O condutor, filho de eborense e portuense, vivido em Moçambique na adolescência e mais tarde na África do Sul, apreciador de salmão – foi por aí que começou a conversa - afirmou que cá já não há quatro estações. Creio que está enganado, por mais haja alterações no clima e não seja de as desvalorizar, as quatro estações em Portugal são bem visíveis e isto não é conversa de quem vive desfasada da realidade por apego ao passado, mas pelo contrário é conversa de quem não emprenha pelos ouvidos tudo o que é dito na comunicação social e continua a prestar a atenção à Natureza. Todavia nada disto repliquei ao condutor da Uber, até porque me pareceu entristecido com a vida.


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Chegados a casa, o Nuno furou os vasos rectangulares que enchi de terra semeando a erva do gato e os pimentos picantes com metade das saquetas. Logo se verá o resultado. No invólucro dos pimentos dizia que deveriam ser semeados na Primavera. Fiz de conta que estamos numa Primavera tardia.


 


Amanhã logo se vê. Se não regressar aos Jardins de Palácio nas próximas semanas, é mesmo porque preciso descansar – sinto que devo desacelerar e o mundo acalmar comigo. E afinal tenho livros para ler nos próximos dez anos e mais interesses com que ocupar o tempo. Para quê comprar mais? Se não for palpitante e imperdível. E ainda que seja. Para quê? Não é?