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31/10/2022

José Gomes Ferreira

Além da beleza e afinidade das palavras e lugares que compunham os versos, o atrevimento inusitado, a singular petulância de José Gomes Ferreira, feita graça desprovida de prosápia, sem a falsa sofisticação dos bilros de renda letrada, fascinava-me aos 15 anos e continua a encantar-me. Singelo e verdadeiro. Uma maravilha. Deixo-vos um conto.


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Palavras

Um dia hei-de pesquisar um software para descobrir as palavras mais usadas nas Comezinhas, por hoje fiz uma pesquisa manual de 32 palavras escolhidas por mim para ver quantas entradas tinham. Não haja dúvida que a palavra "casa" tem um papel fundamental. Em termos de bruxarias o meu ascendente em Caranguejo dá uma abada ao signo solar de Sagitário. A verdade é esta: viajar sim, tudo muito bonito, mas bem, bem está-se no conforto da nossa casa. No ninho.


Adenda. A configuração deste post ficou de tal modo que o elenco das imagens é integral nos computadores, mas os itens "homem" e "dormir" desaparecem nos telemóveis. Mania das máquinas. Não foi propositado, mas vai ficar assim - estou farta de batalhar com as máquinas, elas ganham vida própria e vencem-me sempre.







 
 






30/10/2022

Raios, luas e estrelas despojadas

Começou o fim-de-semana com trovoada forte. Parece que atraí as faíscas ao comprar na semana passada um fio pechisbeque com raios, luas e estrelas. O raio ao centro proclama o que sobressai. Gosto do fio e das tempestades. Fazem lembrar os dias invernosos e emotivos em Valinhas por onde passei hoje. Do estradão, junto ao cruzeiro, vi a casa e a envolvência descaracterizada. É a lei da vida e é assim que deve ser. As casas para sobreviverem ao tempo e vingarem têm de se modernizar e adaptar. Já no cemitério as pedras das campas dos meus estavam sóbrias e lavadas, indiferentes à modernidade. O fino colar dá-me alegria e a sensação de voltar a tempos idos em que usava adereços discretos sem temer parecer uma árvore de Natal. Sempre odiei jóias ou adereços de imitação farfalhudos e vistosos. É muito raro o dia em que aguento em mim uma peça dessas – raro o momento extraordinário em que o brilho não me repugna. Às vezes passam grandes temporadas sem que use nada de adereço. Nos últimos doze anos uso um anel, que vai variando, dado pelo Nuno. Desde que emagreci voltei à cobra que me assenta bem no espírito. Juntamente com o relógio perfaz enfeite quanto baste. Há uns bons anos num assalto a casa da minha mãe levaram-nos tudo quanto tínhamos de recordações herdadas e jóias. O bom dessa experiência é que se fica com perfeita noção da pouca falta que faz esse tipo de riqueza. Só dói a casa esventrada e a nossa intimidade remexida. Depois passa e a sensação de alívio sobrepõe-se. A mim deixaram-me apenas esquecido um pingente que abre para colocar fotografias. Era da minha avó e gosto dele. Daí para cá às vezes compro uma peça de bijuteria com o sossego de saber que não tem valor. Meia-dúzia de vezes ao ano, se tanto, uso brincos. Embirro um pouco com eles por causa dos óculos. É tralha a mais, mas cada vez me é mais difícil usar lentes de contacto, que só coloco para nadar. De modo que resumindo e concluindo, o fio é a cara do que gosto: raios, luas e estrelas despojadas. Pechisbeque. Tenho-o posto todos os dias e assim vai continuar até ver.


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Ontem acabei a leitura que se arrastava há 20 dias. Mas a História, em especial a História de Portugal, deixa-me sempre presa e por isso ontem ainda dei por mim a iniciar novas leituras na mesma área e senti-me a estudar até às duas e meia da manhã. É impossível não cair na tentação de tirar ilações das aulas de História, sobretudo, em matéria de organização da sociedade e do Estado. Vermo-nos num momento desse recorrente bater de ondas de circunstâncias da História. São fáceis e nem sempre ajuizadas as deduções nestas matérias tal como as citações e replicações do que se lê. Nunca me dediquei especialmente a estudar o que era suposto para a vida prática e colheita imediata de frutos – para os resultados, digamos assim. Ao contrário do trabalho, no qual passei muitos anos focada nos objectivos das empresas para as quais prestava serviço - muito mais do que nos meus próprios. Ainda assim admito curiosidade de saber se algum dia o que estudei devaneando pelo que me é caro fará diferença e terá algum proveito para além do gozo e contentamento íntimos.


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Ontem ainda voltei a instalar o Office comprado há 12 anos. Há muitos meses escrevia no Word Pad, o que não fazia sentido. Ao rever as pen drives encontrei fotografias com alguns anos da casa de Bessa Leite – achei piada a um lanche de bolo de chocolate e pêssego em calda, acompanhado de groselha, na linha das imagens das Comezinhas, por isso vai figurar aqui -, que recordamos sempre com alívio quando chove muito, atentas a inundações a que fomos sujeitos, e encontrei uma fotografia de tagarelas, incluíndo o tal da Linea do vidro rachado. Deparei-me também com três antologias de ficção e contos portugueses. Isto é, tropecei nas minhas deambulações e leituras habituais, nunca sistematizadas, antes bem soltas e vividas. Como os raios, luas e estrelas despojadas.


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Recapitulando

A ofensa


por Isabel Paulos, em 10.01.21

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Sabes que te perdes em abstracções e, em muitos casos, pecas por falta de nomear os problemas reais. Foges consciente das abordagens usuais que ocupam os jornais e as páginas virtuais. Não tomas para ti a todo o tempo, como é timbre dos utilizadores dos espaços de opinião, o papel de escrutinadora dos poderes fácticos e de defensora das verdades do momento. Não o fazes quer por falta de talento quer por ausência de vontade. Não é esse o papel que desempenhas - presunçosa e pouco dada à falsidade reconheces que o tens, mas cada macaco no seu galho e o teu quer-se recolhido


Muitas vezes referiste a aversão aos ditos e actos de superioridade e desrespeito pelos outros – possivelmente uma das ideias que mais te consome a vida, ao longo da qual te foi dito ou feito sentir diversas vezes que acusavas o toque com demasiada facilidade. Em tua defesa, esclareces que nunca serás imune à falta se sensibilidade e há muito te deixaram de impressionar os exemplos do domínio pela força gratuita ainda que dissimulada em palavras buriladas.


O que a muitos parece opinião, a ti afigura-se como ofensa. E não é por falta de consciência dos benefícios da liberdade de expressão e da democracia, nem sequer no plano mais mundano por falta de hábito de debate – cresceste e amadureceste a discutir e a defender com vigor o que acreditas. Felizmente, cresceste e amadureceste a ser contrariada, criticada, ridicularizada e nada disso te incomoda por aí além.


Sucede que cedo tomaste consciência, apesar da controvérsia e ironia te serem muito chegadas, que o hábito do debate não é um valor benigno per si, tal como o humor não é um valor benigno per si. Ao contrário do que é aceite como ideia unanime – e quanta unanimidade fictícia existe no presente – a livre opinião e o humor não são inócuas. São das mais perfeitas armas de combate e tanto servem na defesa dos mais nobres tesouros, como para saquear o adversário ou o próximo dos seus valores e potencialidades, tudo dependendo do coração e cabeça de quem peleja.


Dizes isto ciente que não há civilização ideal sem livre opinião nem humor, a menos que se tome a ignorância e a escravidão como um mal necessário. Mas também consciente, e aqui é que dói à maioria que perora de forma vã sobre democracia e tolerância, que a opinião e o humor para serem livres têm de ser universais. Não podem servir apenas as coutadas que se impõem não pela razão justa, mas pela força mediática em torno de mesquinhos interesses de cada tribo e que mantém o país manta de retalho de pequenas e grandes corrupções, conveniências, apetites e futilidades, incapaz de se sujeitar à justa autoridade dos princípios.    


Um país que festeja impante a liberdade todos os anos, mantém parte substancial da sua população a sobreviver de salários miseráveis e ambições pífias. Os estratos superiores da pirâmide social – hoje aferidos pelos recursos económicos e pela imagem -, egoístas e mesquinhos vão contando hipocritamente a anedota do elevador social. Na verdade, precisam da desigualdade como pão para a boca. Não só no sentido material da coisa, porque as desigualdades de rendimento são efectivas e gritantes, mas no sentido cultural também. O seu relevo na sociedade depende da sobrevivência de uma maioria pobre, inculta e resignada. E por isso se assustam tanto com os radicais.


Um país onde tudo se compara e a inveja é rainha, onde ser alguém significa possuir no mínimo o quadruplo rendimento dos seus administrados, onde assim que se chega a um patamar económico confortável se tenta mimetizar a etiqueta tradicional para impressionar a maioria dos portugueses que a desdenha, e se lê livros cujo léxico e conteúdo não é acessível nem inteligível à maioria da população. Um país onde a classe média é apenas remediada e onde muito poucos têm muitíssimo, quantas vezes à custa de negócios espúrios e da exploração dos impostos pagos por essa mesma classe média. Um país onde a grande corrupção não pode ser definitivamente repudiada por falta de legitimidade de parte substancial da população habituada a praticar ou consentir a pequena trapaça.


Um país que prefere continuar as bravatas contra a direita populista ou a esquerda radical, em vez de se unir em favor do justo, aceitando como boas quando razoáveis e merecidas as ideias de uns e de outros. Apesar da consciência de que são usadas apenas como pretexto para hastear bandeiras populistas, correspondem muitas vezes a anseios justos da população, que são a todo o momento desdenhadas e espezinhadas nos textos dos jornais e espaços de debate das mais respeitáveis figuras da opinião. E aqui está a ofensa que ninguém quer ver, mas existe, é real e magoa. Podem desmontar estes argumentos indo buscar os clássicos e os oitocentistas – que como as estatísticas dão para todas as leituras, para provar tudo e o seu contrário -, podem tentar colar-te o rótulo de lírica, ingénua ou ressentida. Tu sabes e eles também que estás a dizer a verdade que não lhes convém.


Não te cansarás de o dizer, ainda que só. É preciso ouvir a voz da população descontente, não só a que vota nesses partidos radicais, mas sobretudo a zangada que não vota há anos. Há que deixar de falsas declarações de pesar pela abstenção a cada eleição, retirar o peso da fúria e tirar espaço ao oportunismo. Não é normalizar, como dizem os desatentos ou desleais que se acham superiores aos seus compatriotas, até porque normalizada está ela, por enquanto mais pelo silêncio do que pelo reivindicação - até quando? É preciso esvaziá-la do que tem de maligno – a fúria da tirania, peneirando as razões válidas de descontentamento uma a uma. Trazê-las para o espaço moderado.  


Antes se ridicularizassem as elites - as antigas e as recém ascendidas -, que fingem pelejar pela justiça e democracia quando tudo quanto fazem é falar em pobreza ao mesmo tempo que recusam acesso a melhores salários e rendimentos, e sempre arranjam bons e liberalíssimos argumentos como a falta de produtividade. Pena que não usem igual raciocínio em causa própria. Enchem a boca para falar em educação e da necessidade de mais leitura, mas pouco lhes dá mais prazer e ser do que olhar cima da burra para os boçais e ignorantes. Se fosse a justiça e a democracia que os preocupasse não se dedicariam tanto tempo a desprezar os compatriotas, menorizando-os e achincalhando-os. Estariam a dar exemplo. Não sentiram desdém pela pobreza e ignorância. Estariam, sem disso se gabar em proveito próprio, a educar e regozijar cada vez que alguém passasse a viver em melhores condições. A alegrar-se cada vez que alguém se sentisse respeitado e percebesse o significado de democracia e liberdade na pele.


Não te venham com histórias da carochinha da defesa da democracia. Não é a ideia de que o poder está nas mãos do povo e no proveito dele que vês defender, apenas os interesses mesquinhos de tribos mais ou menos trapaceiras. E desta forma não há país, nem autoridade, nem nação. Somos coisa nenhuma.


 

Agustina Bessa-Luís

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