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20/10/2022

Coisas muito fúteis que me apoquentam o espírito

Malhas. Nos últimos dias usei o termo "malhas" e casaco de "malha". Vocábulos que não constavam do meu mundo. Não sei se bem ou mal - no sentido de fazer ou não parte do catálogo de palavras proibidas no mundo onde nasci e cresci, tal como, por exemplo: esposo(a), funeral, sanita, aleijar. Palavras grosseiras e pirosas. Creio conhecer a origem do meu drama: havia quem dissesse "fazer tricot" e quem usasse a expressão "fazer malha". Esta segunda versão estava vedada a gente civilizada - sim, é presunção, além de não fazer sentido, mas que querem: a vida também é feita de um aglomerado de falhas de sentido. Em todo o caso, a minha cautela no uso do termo malhas para identificar peças de roupa, a que me habituei a chamar camisola de lã ou de algodão, nasceu da rejeição a esse "fazer malha". Está identificada a causa, já posso continuar o dia descansada.


Tenho plena consciência, aliás expressei-o na Ana Paula, que esta espécie de código de honra vocabular, cheia de interditos e tabus, não passa de tiques de gente bem, servindo para conservar a diferença face à marabunta. Mas também não deixo de saber que quem mais os critica é quem cedo ou tarde, bem esticado em bicos dos pés, vai aprender e dominar os tiques, passando a desconsiderar e espezinhar através do sarcasmo os que os desconhecem como ele(a) próprio(a) até há pouco. E fá-lo-á sempre com imensa aceitação e sucesso. É a lei da vida, diz-se.


*


Três notas finais.



  • É de todo desaconselhável viver entre dois mundos, no caso, entre o dito educado e o dito piroso. Qualquer pessoa que pretenda ser aceite, compreendida e respeitada deve escolher um lado e nele permanecer, caso contrário, parecerá sempre estar a trair uma tribo. Aqui está uma regra que nunca aprendi a respeitar. Sempre me senti ave solta. Pior do que querer agradar a gregos e troianos, é insistir no que considera fazer sentido, não agradando nem a gregos nem a troianos, seguindo a própria rota de vôo.



  • Todo este post dá ideia de menoridade. Com tanto assunto importante de momento - os casos de abuso de menores por membros da igreja, as sanções ao Irão pela venda de drones à Rússia, os problemas com o fornecimento de gás nigeriano, os protestos das mulheres iranianas, o pingue-pongue de intriga política a propósito da TAP, os limites ao preço do gás e electricidade, etc. - entradas como a presente irritam os meninos e as meninas que acham que todos os dias têm de debitar opinião dita séria sobre os diversos temas quentes, reduzindo-os a pretextos para atacar supostos adversários. Esquecem-se que se limitam a replicar as próprias tribos ou à contestação entre gangues sem um átomo de consciência do papel que fazem: encher o espaço público de mais do mesmo, acabando a citar com ridícula sobranceria, a propósito das menoridades, dos portugueses e dos que não alinham nos jogos de facção e do leviano e supérfluo, por exemplo, o já enjoativo Eça de Queiroz - oh, heresia máxima, o bem-amado, o génio incontestável, o paradigma de toda a sabedoria, o oráculo de todo o bicho-careta alçado a intelectual de sucesso da nossa praça.



  • Por fim conto, qual livro aberto: nas últimas semanas tenho pensado reduzir substancialmente o tempo passado na SapoBlogs. Já ponderei encerrar as hostes ou passar-me para o antigo poiso da BlogSpot, mas creio que não o vou fazer. De qualquer modo, a partir do momento que me apercebo serem mais os dias em que me irrito no meu mau-feitio do que nos quais tiro prazer disto compreendo dever mudar qualquer coisa. Assim, depois de três anos nesta fona e se tiver juízo, passarei, por exemplo, a escrever aqui apenas duas vezes por semana, aproveitando melhor a vida. Vida a sério. Resta-me passar das intenções aos actos.