Após dez meses da cirurgia e quarenta quilos a menos finalmente fui fazer compras de roupa - até agora tinha comprado três peças imprescindíveis, de resto voltei a usar roupa guardada há anos no guarda-fatos. Há dois estive com o Nuno meia-hora na Natura, loja da qual sempre gostei, e na altura saí de lá muito desanimada: nada do que experimentei me serviu, nem os tamanhos maiores.
Hoje, sem planear, entrei na Natura e o azul - meio lilás, para desgosto da minha mãe que me acompanhava e odeia essas cores do género roxo, lilás e violeta - chamou a atenção. Fiquei a olhar para o montinho das camisolas quando a menina se aproximou - não gosto da palavra funcionária, soa-me a máquina gélida e além de mais o bonito hábito dito piroso do Porto de usar o termo menina para tudo agrada-me por ser uma forma de delicadeza nortenha. Disse-lhe que não sabia qual era o meu número, ela lançou-me um olhar avaliador e decretou: M ou S. Quer-me engraxar, pensei radiante da vida. Percebeu o meu olhar sorridente e desconfiado e explicou que a peça tinha um feitio largo. Mais à frente escolhi um vestido e ela vaticinou que aquele tinha de ser L. Acertou, M na camisola, L no vestido de corte princesa. Não trouxe o vestido por achar que não me ficava bem, voltarei em Novembro para escolher um que goste. Por agora trouxe uma camisola verde musgo em bico (o feitio que prefiro) e uma de gola redonda chegada (não aprecio tanto) azul - a minha mãe chama-lhe lilás. Desde criança chamámos nomes diferentes às cores, presumo que a deficiência seja minha. Nunca valorizei. Cada um é como cada qual.
Segui para a C&A. Faço aqui o preâmbulo que não fiz a início. Não ligo muito a trapos, mas é evidente que gosto de me sentir bem e tenho as minhas vaidades. Sou incapaz de entrar em lojas de marcas caras. Mais novita, na casa dos 20, cheguei a comprar peças de estilistas - vá, nomes menos badalados que tinham porta aberta em centros comerciais e não praticavam preços exorbitantes. E nessa mesma altura também consumia uma ou outra marca que tivesse peças confortáveis. Tudo noutros tempos. Tempos curtos de abundância e das manias tontas de mulher vaidosa. De qualquer modo, seguir cores, padrões e cortes da moda passa-me completamente ao lado. Passei o Verão quase inteiro a usar quatro pólos iguais de algodão de cores diferentes, tendo-me contado alguém que no último ano não viu pólos de senhora à venda. E eu ralada, pensei. Aquele hábito sim: quando gosto compro em atacado de cores diferentes. Fecho preâmbulo. Na C&A comprei dois pares de calças pretas - tal como os jeans uso muito calças pretas - e umas bege. Tamanho 42. Uma camisa branca e um casaquinho de malha fina de má qualidade verde acinzentado.
Prescindi de ir à Cortefiel, da qual sou cliente há muitos anos, por já ter comprado tudo quanto precisava. Em Dezembro lá irei.
Por fim, fui à Seaside comprar umas botifarras de sola tractor em memória a umas de há 20 anos que faziam as minhas delícias. Creio que na altura calçava 36. As que comprei hoje são 38. Experimentei 37 e serviam, mas ficavam justas. Preteri-as e trouxe o 38, número que comecei a usar quando engordei muito e creio veio para ficar - nos últimos anos deixei-me de mariquices e das peneiras de pé pequeno. Gosto das patas à larga para poder usar meias grossas quando apetece.
Como remate tomámos café, um pastel de nata para a mãe e uma queijada de cenoura para a filha, e viemos para casa almoçar juntas. Foi um fim de manhã feliz. Hoje ainda não houve tempo para jornais, mundo, tragédias e sabedorias. A minha vida faz-se de insignificâncias, do comezinho, de pessoas e sentimentos e não só de opinião e pensamento. Ao fim da tarde tomarei café com o meu pai e vou ver se investigo mais histórias do seu passado.
Mandei a fotografia abaixo para o grupo de WhatApp que mantenho com os meus irmãos colocando na legenda mais ou menos a frase de abertura deste postal - só tenho dois grupos de WhatsApp, ambos de quatro elementos, o outro com amigos de adolescência. Obtive um "muito bem" e sorriso, um polegar para cima e umas palmas. O meu mundo próximo não é extenso, mas é bom e cúmplice. Por falar nisso, a minha sobrinha Pipa teve quatro cachorritos há dois dias.
Seja nas duas lojas seja no boteco fui muito bem atendida. Na Natura e no boteco com muita simpatia. Na C&A com grande atenção e delicadeza. É o tipo de coisa ou momentos que nem sempre acontecem e me fazem ter orgulho de ser portuguesa: o cuidado e atenção aos outros.

(Roupa e botas compradas a 15 de Outubro de 2022 na cama do segundo quarto.)