Preguiça boa e Sábado desanuviado. Ontem foi dia de voltar a almoçar com uma amiga - espero que se torne hábito. É engraçado: depois de dois anos de convívio diário, passaram quase duas décadas em que nos vimos duas ou três vezes em circunstâncias que não proporcionavam conversa desempedida e demorada. Restava-nos apenas os anuais votos de Bom Natal. Em aparte digo que nunca aceitei bem que se desvalorizassem essas mensagens ou cuidados na época festiva. Há quem ache hipócrita, de gente que se esquece o ano inteiro dos outros e os recorda apenas por praxe. Não concordo. Penso em vários amigos do passado ao longo do ano. Se a poucos - cada vez menos - mantenho o hábito de desejar Bom Natal é por franca vontade de os saber bem. Voltando à graça que pode haver em 19 anos de afastamento. É como se largasse alguém numa margem do rio e a fosse encontrar décadas depois mais adiante na margem contrária. Há 19 anos as filhas desta amiga, uma força da natureza com mais 14 anos do que eu, eram crianças pequenas, hoje estão formadas ou a acabar de formar, a trabalhar e a viajar sozinhas. Há todo um lapso de tempo que faz da história da mãe delas, do correr do tempo recente do país e do meu tempo motivo de conversa, desabafo e incentivo para o que aí vem. Numa outra perspectiva faz-me avaliar, através do testemunho profissional dela, aquilo de que me afastei decidida e definitivamente aos 29 anos: o exercício da advocacia e tudo quanto tivesse ligação ao mundo jurídico.
Combinei para a semana um cafezito com outra amiga, desta feita mais nova 20 anos. Descobrimos na semana passada que trabalhamos a 200 metros de distância. Ele há sortes. Neste caso, remando a minha barcaça apanhei-a há três anos já longe da fonte, mas ainda no afluente do rio principal. É todo um mundo por abrir e aqui a graça reside no apreciar dos arrebatamentos, das ganas e da confiança. Vê-la partir do pressuposto que tudo tem tudo para correr pelo melhor. Admito que o empréstimo desta alegria é um nada contagiante e me faz bem.
Entretanto e por estar numa de leveza esta manhã fui à marginal marítima de Gaia reservar espaço para um almoço de início de Dezembro. Em vez de esperar para o ano para festejar os 50, resolvi já este ano despedir-me da casa dos 40 com família e amigos. Será uma reunião informal em local de muita simplicidade. Hoje estava com disposição de visitar três ou quatro sítios para escolher, mas logo na primeira porta a simpatia e despretensão com que fomos recebidos pelo gerente e empregado de mesa levou-me em poucos minutos a fazer a reserva. O almoço conjunto de família e amigos é quase uma estreia já que não costumo juntar uns e outros. Depois de meia-dúzia de chamadas à hora de almoço fiquei contente com os simpáticos "sins". A ver vamos se nos próximos dias consigo reunir quem quero. Vai ser difícil. Desde os 45 anos que encalacro a decisão deste almoço.
De resto, dormi de tarde para compensar ter acordado antes das sete. Li uns contos. À noite lerei mais 20 páginas da História de Portugal - e rende, rende. Devagarinho, está-me a saber bem. E assim passará mais um Sábado.