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09/10/2022

Memórias

Ontem, após leitura rápida e livre de parte da História de Portugal para Pessoas com Pressa, de José Manuel Garcia, imaginei começar por Portugal o novo Espanador. Seguir o exemplo da Filosofia no ano passado e acompanhar este livro com consulta da obra de Rui Ramos. Pessoa que me encanita muitas vezes pelo facciosismo ideológico e todos os tiques que caracterizam os maus hábitos da elite pensante portuguesa, já repisados nas Comezinhas à exaustão, apesar de reconhecer o facto de Rui Ramos saber muito de História (vou seguindo alguns dos podcasts E o Resto é História no Observador, um dos melhores programas dos jornais). Tenho a sua História de Portugal desde 2009, mas admito que o abri apenas algumas vezes para consulta. Não é coisa em que me empenhe a ler de fio a pavio de uma vez só. Hoje de manhã caí em mim no recorrente: pois, lá está, intenções mil, mas tempo e concretizações poucos; falas sempre antes do tempo.


Que sei eu da História de Portugal para lá do aprendido nos anos de escolaridade? E de tudo o resto?, afinal é disso que se trata, apesar de parecer muito infantil rememorar os anos de ensino oficial para introduzir este assunto. Depois dos primeiros anos em criança como boa aluna vieram os anos conturbados da rebeldia da adolescência, em que cheguei ao ponto de ser expulsa da sala de aula com mais do que justificados motivos do professor de Matemática. Houve um professor de Matemática no liceu de Gaia que um dia me contou ter dado aulas em Felgueiras ao meu irmão T., para logo concluir que éramos da água para o vinho. Lembro-me de um dia olhar para mim e dizer: como é possível serem irmãos? Éramos assim uma espécie de anjo e diaba que lhe pairavam no espírito. Já estava habituada. A minha professora da primária (terceira e quarta-classe) tinha uma enorme paixão pelo T.. Não é que não gostasse de mim quando me apanhou três anos depois, mas digamos que estava anos luz da simpatia que nutria pelo meu irmão. Com feitio conciliador o T. sempre granjeou muitos admiradores, amigos e respeito. O certo é que as aulas e compêndios de História (os únicos manuais que guardei) me agradavam, apesar de no décimo e décimo-primeiro ano lidar com a professora mais preguiçosa e desinteressante que tenho memória (cujo nome não me lembro). Ao contrário a conhecedora e seriíssima professora de Português, Beatriz Florido de seu nome, deu-me Francês no oitavo ano e Português no décimo e décimo-primeiro para minha fortuna, e ao lado da professora também de português no ciclo preparatório Rosa Leite - com quem aprendi duas noções: a necessidade de rasgo e coragem para escrever e o que é falsa modéstia (ao referir-se a um autor que visitou a escola disse-me que não gostava da forma como não se assumia como escritor, que aquilo era falsa modéstia, e eu achei-me gente grande a compreender noções difíceis) - e da minha própria mãe, constituem o triunvirato de almas femininas que me incutiram o interesse e respeito pela nossa língua.


Da faculdade não se pode dizer que herdei muito em termos da nossa História, salvo a preparação que fiz para lá entrar. Como já contei nas Comezinhas tudo quanto li de História do Direito Português foi o índice do compêndio e ainda assim deu para fazer a oral (sabia umas coisas poucas de História de Direito Romano já que tinha lido, mais do que as sebentas académicas, alguns dos tomos do Primeiro Homem de Roma, de Collen McCullough. Já de Direito Constitucional (e da nossa história nessa matéria) estudei e sabia bastante, apesar de ninguém ter notado isso. Também não faz mal, porque já esqueci tudo quanto soube nessa altura.


Sou filha de um licenciado em História de uma licenciada em Filosofia que, com paixão e dedicação, deu aulas de Português e História no ciclo preparatório. Assisti a algumas aulas da minha mãe. Punha as crianças a fazer teatro com episódios marcantes do nosso percurso como nação (no fim da aula e não em substituição das lições). Os alunos adoravam. Sempre considerou que o nosso ensino não valorizava a expressão dramática e a oratória pelo que os alunos deveriam ser estimulados nessas áreas. Uma vez por outra conta-me que sonhou ou pensou nos antigos alunos: os de Angola (ainda esta semana me contou que do nada os reviu em pensamento com saudade; acho piada como quase 60 anos depois ainda sorri ao dizer os nomes dos alunos), os de Felgueiras, os de Gaia. É invejável ter uma vida profissional de 40 anos a fazer aquilo que se gosta e para o que se tem vocação. Cresci numa casa apinhada de livros e colecções de História. Sou capaz de ter passado os olhos por alguns. Mas nunca fui muito estudiosa, nem disciplinada na leitura.


No fim do décimo-segundo ano achei-me baralhada, disse para mim mesma que precisava assentar os muitos episódios soltos da História de Portugal (agora o que me vem à cabeça são As Ondas, de Virginia Woof, e a ideia da importância da explicação encadeada para satisfação da naturezas humanas curiosas). Na altura li a Breve Interpretação da História de Portugal, de António Sérgio, que havia em casa e que considero ser o meu ponto final esclarecedor no liceu. Comprei há dois anos na Feira do Livro a primeira edição de 1972, mas ainda não a reli; também comprei a Brevíssima História de Portugal, de Oliveira Marques. Na casa dos 20 voltei à sensação desagradável de me sentir perdida e por isso lancei mão da História Portugal por Datas. Sinto sempre falta das cronologias e parece-me boa política fazê-las acompanhar de leituras mais aprofundadas e densas.


Por fim, nada nos faz ter mais conhecimento de História do que a leitura de romances e mesmo poesia portuguesa. É como ir lá à História e vivê-la através do olhar dos nossos escritores e poetas (deveria dizer prosadores e poetas?, ou apenas escritores?, não sei). Nunca perdendo de vista que sendo testemunhos são também perspectivas subjectivas e não factos fechados inquestionáveis como tantas vezes são interpretados por leitores de menor sensatez, arcaboiço e educação histórica.


Pena saber tão pouco. Pena ter lido tão pouco. E não ter meia-dúzia de vidas para saber tudo quanto gostava de saber. Ainda assim a vida hoje parece-me boa. Ontem, como faço algumas vezes, li na diagonal postais dos últimos meses aqui das Comezinhas e senti-me em paz: mal ou bem, pobre ou rico, desfasado ou concordante com o real, certo ou errado, tenho um mundo meu de traço definido. É a sensação de hoje, espero que perdure. Estou em casa.