

Aos 14 anos tive um tagarela da Linea, marca de manteiga. A minha mãe trouxe-o do supermercado numa compra em promoção. Amarelo de lado, mostrador branco com letras da palavra Linea coloridas e na parte detrás vermelho. Foi o meu despertador mais de 25 anos. Voou muitas vezes e sobreviveu vários anos de vidro rachado. Creio já ter alertado os visitantes das Comezinhas que sou bastante fonas. Quando finalmente o ia deitar fora coloquei-o em cima do piano do Nuno para tirar a fotografia de recordação e o danado, que não funcionava há meses com a pilha encravada, desatou a mexer os ponteiros como se pedisse misericórdia. Claro que já não tive coragem de o deitar fora. Está arrumado numa gaveta. A cena dos relógios que do nada desatam meses depois e por minutos a dar horas é recorrente. Nesta casa já aconteceu com mais de um dos relógios da cozinha. Desisti de comprar novos: sejam do chinês sejam nórdicos ao fim de algum tempo baratinam do juízo por mais pilhas novas lhes dê.
Na semana passada não resisti a um tagarela prateado de mostrador ornamentado a Quarto em Arles do Museu Van Gogh. É grande, possante e muito barulhento. Só o pus a despertar de manhã uma vez e seguiu para a sala em atenção ao sossego dos residentes cá em casa. O Ritz que de manhã, quando me vê mexer um milímetro antes do despertador dar sinal sai dos pés e vem para o colo pedir mimalhice, quando o bruto neerlandês tocou deu um salto e estremeceu todo saindo disparado do quarto muito assustado. Além de mais, achei que os vizinhos, mesmo os do último andar do lado contrário do prédio, têm direito a dormir para lá das oito.
Na revista do aeroporto tive de abrir a mala e confrontar-me com o olhar desconfiado do segurança a pegar o despertador na mão até que lhe desse as explicações para trazer tal objecto. Pareceu-me um gague de filme cómico de terceira categoria: trazer uma bomba na mala a espoletar por um potente tagarela só de gozo. Só faltava fio vermelho, fio preto e alicate. Numa próxima em Amesterdão não posso deixar de ir a uma loja de ferramentas - aliás, reparei abundarem.
Para não fazer mais estragos pu-lo na sala, mas nem todos nesta casa se habituaram ao novo elemento. O Ritz estranha o barulho do motor e avanço dos ponteiros, pelo que ao fim de uma semana continua em conversações diplomáticas com o relógio tagarela holandês. Não sei se chegarão a um consenso que satisfaça as duas partes ou se terei de criar duas zonas de influência separadas por um qualquer paralelo.

