(Na sequência do post Absurdo e seus comentários.)
Há matérias em que o que os outros possam pensar é-me rigorosamente indiferente, mas não todas. E, sobretudo, interessa-me verificar se aquilo que os outros pensam em contraposição ao que afirmo possa vir a coincidir (no todo ou em parte) com aquilo que eu venha a pensar no futuro. Estamos sempre a evoluir, é importante não fazer juízos precipitados por mal fundamentados ou injustos, caso contrário está-se a cair no erro que se critica nos outros.
Dou exemplo: diz-me a sensibilidade que todo o gozo e desprezo dos jornais e comentadores por Boris Johnson é fruto de preconceito e ignorância. Mais ainda sobre a situação actual da demissão de Liz Truss, logo rotulada de absoluta incompetente, em consequência da agitação dos mercados e queda da libra, supostamente provocada pelo plano económico por ela apresentado. Creio que o Reino Unido está a ser um tubo de ensaio do mundo futuro, do que nos espera - aquelas ilhas estiveram muitas vezes um passo à frente. E se agora os europeus continentais e a comunicação social dominante vêem o RU como adolescente ingovernável que está a pagar o preço por ter saído de casa, é por ainda não terem visto o filme todo.
Sucede que se eu quisesse discutir a questão em termos que me percebessem teria de assentar em conceitos económicos para explicar a mim e a quem lê a razão da agitação dos mercados, tal como teria de assentar explicações de ordem sociológica e até psicológica para justificar o Brexit e os anos subsequentes no RU. E teria de fazer uma longa História do fenómeno de manipulação da opinião pública pelos meios de comunicação de massas, pelo quarto poder, que hoje têm um papel semelhante ao da igreja ou dos governantes nos regimes absolutistas em séculos passados. Têm um enorme poder de chantagem - investindo-se a si mesmo de garantes da Democracia e dos Direitos, Liberdades e Garantias Fundamentais (a eternidade do presente) quem terá coragem de denunciar os seus abusos e incongruências? Tanto mais que os próprios e as populações vivem na doce ilusão de que estão a praticar o bem ao alinharem no tal espírito de manada. Há gavetas arrumadas no cérebro de quem tem voz que não se abrem nem um milímetro ao razoável para alegada salvaguarda de valores civilizacionais, quando na verdade estão a enterrar os ditos mais e mais fundo. Tudo isto gera reacção: a semente de violência latente.
Gosto de ter cuidado como que digo, porque a linha entre dar um bitaite e ter uma opinião fundamentada é ténue. Por admitir falta de conhecimento em várias matérias, vou confiando na sensibilidade, mas pode não ser suficiente. Ainda assim a sensatez serve-me para ajuizar o que leio, e leio por aí muitos textos eloquentes, cheios de certezas e referências, aparentemente muito estruturados nos factos e na sua leitura, de gente que não sabe admitir que não tem conhecimento. São textos que pouco valem. Por pura especulação as opiniões em catadupa fazem o caminho dos mercados financeiros (aliás, influenciam-os fortemente). Quanto mais se argumenta e contra-argumenta com "factos", mais se perde o pé. A palavra não tem valor facial. Vivemos na aparência, criando-se à volta de cada um dos milhares desses textos uma rede, uma teia de opinião cada vez mais afastada do essencial, do que de facto existe.