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08/10/2022

Lido

Os GNR foram a banda portuguesa que mais ouvi nos anos 80 (e 90). Nunca percebi a animosidade dos auto-investidos entendidos face a estes músicos portuenses e a forma como os primeiros foram fazendo a cabeça de tantos que ouvem o que é impingido sem qualquer critério de qualidade. Tendo ido a poucos concertos pop-rock (fui a bastantes de piano/música clássica), não faltei em 1993 a vê-los no Estádio das Antas - já depois do concerto em Alvalade, tema desta entrevista.


*


Há 30 anos os GNR fizeram história em Alvalade


Foram a primeira banda portuguesa a atuar num estádio de futebol em nome próprio. 30 anos depois, recordam o convite inesperado, uma noite sem nervos e explicam porque não o voltariam a fazer., no Observador.



Serem a primeira banda portuguesa a encher um estádio de futebol mudou alguma coisa?


TCM: Acho que não aproveitámos bem o feedback positivo que existiu. Não tínhamos, e se calhar ainda não temos, uma grande visão e uma grande veia para isso. Naquela época não queríamos fazer determinadas coisas, recusámos participar em programas de televisão, não fazíamos publicidade nem playbacks.


RR: Sim, não íamos aos programas da manhã.


TCM: Não é que me arrependa, mas acho que não aproveitámos a onda que se gerou à nossa volta.


JR: O concerto correu bem, mas não foi muito capitalizado por nós. Agora seria impensável fazer uma coisa destas pela sua singularidade.


RR: Hoje uma coisa destas seria aproveitada para ter milhões de visualizações e teria muito marketing nas redes sociais, iria deixar mais rasto. A consequência foi quando fizemos outro disco, o Sob Escuta em 1994, parece que reaparecemos.


TCM: Comercialmente, nunca repetimos o que fizemos, tentámos apresentar sempre coisas diferentes e isso nem sempre foi uma coisa benéfica. Em termos criativos não sentimos nenhuma pressão pela expectativa.


RR: Lembro-me de ter recusado um anúncio de um shampoo para a caspa, não me apetecia nada aparecer para fazer aquilo [risos].


JR: Se fosse hoje, até eu fazia, até fazia contigo [risos].


RR: O ano seguinte foi igualmente bom, em junho de 1993 enchemos o estádio das Antas, também foi importante, tivemos umas 25 mil pessoas, veio gente do Algarve e da Galiza.


JR: Acho que ganhámos público, mas também devemos ter perdido outro, faz parte.


RR: A grande mudança foi mais para o público e não propriamente para nós. Se calhar deixaram de ter vergonha de ir a espetáculos nacionais, havia muito esse preconceito, aliás, ainda há. Os estrangeiros é que são bons e as pessoas são capazes de pagar balúrdios para os verem ao vivo, mas pagar 15 euros para ver uma banda portuguesa já acham escandaloso.


JR: Este concerto nunca tirou os pés do chão.


TCM: Foi bom e fez sentido na altura, mas também foi um acidente de percurso, muito sinceramente aquilo, nunca foi o nosso campeonato. Nunca fomos uma banda mainstream para encher estádios, toda a gente sabia disso.


JR: Aliás, no fim de semana seguinte voltámos logo ao país real, tivemos um concerto em Santo Tirso, numa feira da alheira qualquer.


TCM: Lembram-se de um concerto que fizemos depois em Leiria num pavilhão que estava tão cheio que até escorria água do teto?


JR: Sim, sim. Os concertos seguintes passaram a estar muito mais cheios.


TCM: Ainda andámos uns dois ou três anos com seguranças atrás de nós. As pessoas queriam mesmo vir aos camarins falar connosco e aquilo tornava-se meio exaustivo. Depois fizemos um disco novo e a coisa acalmou um bocadinho.