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14/10/2022

Corridinho

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Há muito não faço um corridinho de pensamentos à medida que surgem. Pois venha ele. Acabei de ter a boa sensação de me levantar do sofá no fim do Jornal da Noite e sentir frio. Ah, coisa boa. Ir ao guarda-fatos buscar um casaco de malha velho para me aconchegar o resto da noite. Como é possível não se gostar desta época do ano? Bem sei que temos mais sono e mais fome. Mas lá está, a miraculosa máquina combinada - cérebro e corpo - adapta-se à nova estação e consequente meteorologia. Ia dar enter para fazer parágrafo, mas fiquei na dúvida se os corridinhos têm parágrafos. Ainda não fiz doutrina sobre o assunto, o que faz sentido já que passaram apenas alguns segundos sobre a primeira vez que coloquei a questão. Pensando bem, isto revela arcaísmo e desfasamento dos tempos modernos. Pois qualquer par de segundos já daria base suficiente para um imberbe defensor das causas histéricas tomar uma atitude séria de condenação ou retaliação ancorado numa certeza absoluta de momento nunca posta nos pratos da balança do conflito de interesses ou direitos e o trio de segundos seguinte seria bastante para qualquer troglodita mais velho, armado em sensato sábio conservador sem a mais pequena ideia do que isso seja, insultar o imberbe e maldizer a mentalidade persecutória. Não sem que passasse um quarteto de segundos e um dos mil sintetizadores amadores ou profissionais de opinião, que se multiplicam em referências mimetizadas, chegasse à conclusão que o troglodita é um artista predestinado a ficar na história pela acuidade e arte com que prevê o futuro na senda de tantos outros pensadores do passado. Sendo que o sintetizador nada compreende, apenas se excita com a manifestação de virilidade do troglodita, que por sua vez nem artista nem "pitoniso", limita-se a acusar o toque por lhe estarem a calcar os calos, estrebuchando vigorosamente por reduzirem a possibilidade impôr a lei do mais forte e da agressividade, e o imberbe será o idiota útil do seu tempo até amadurecer e se transformar num troglodita ou sintetizador, conforme seja activo ou passivo. Uma mariquice só. Biak. Pouca vergonha, daquela que não interessa a ninguém, de tão enfadonha. Pronto, a mariquice enjoa, vou estabelecer a regra da necessidade de parágrafo para desanuviar - qual déspota não esclarecida. Doravante, os corridinhos têm parágrafos. Por falar nisso, já não me lembro se as Redacções da Guidinha de Sttau Monteiro tinham ou não parágrafos. Teriam?


Voltemos ao guarda-fatos, do qual tratarei depois de escrever o presente post no intuito de descobrir peças que me sirvam para conjugar com as que escolherei amanhã. Sim, finalmente tomei a decisão de ir às compras à séria para adquirir roupa nova do meu tamanho. Bem sei que comprei três pecitas no último ano, no pós-cirurgia, mas de resto tenho andado sempre com coisas recicladas. Ora para quem emagreceu 40 quilos nos últimos dez meses, convém dar um arejo aos trapinhos. Vi-me numa ou outra fotografia dos últimos tempos e percebi que nado dentro da roupa. E é vergonhoso chegar à dentista, de quem estou íntima, já que é a pessoa que mais visito no último ano e, numa das nossas conversas espirituosas, ouvir um gracejo sobre as minhas calças. Concedi: estão fora de corpo. Se bem que não emagreço desde Agosto - ao que tenho comido é normal. Por via das dúvidas, e não confiando nem um pouco em mim nesta matéria, não me vou desfazer dos tamanhos grandes. Nunca se sabe o que acontecerá no futuro. Posso ficar uma bola outra vez. Conheço várias pessoas que fizerem a cirurgia sleeve e voltaram a engordar, mas não conheço gente que tenha feito o bypass gástrico. Talvez consulte o oráculo Google para saber as probabilidades do futuro. Fazem-me falta os fóruns do início da internet, onde se discutia tudo e mais um par de botas. Participei nalguns há 20 anos. E mais tarde, numa fase em que me isolei um pouco dos amigos, não participando e tendo dúvidas sobre questões comezinhas, burocráticas, domésticas - do género: obras e custos em casa - escrevia no motor de busca o que pretendia seguido da palavra fórum e lia os contributos dos intervenientes. Aprendia-se muito, desde características e preços de casas de madeira pré-fabricadas ao tempo médio de reembolso do IRS ou produtos dietéticos.


Depois das compras de manhã, à tarde nadarei e plantarei dois bolbos de tulipa. Sou uma filha interesseira. Trouxe um saco de sarapilheira de bolbos como lembrança, mas cravei um para pôr na minha varanda. Mãos largas como é, a minha mãe devolveu dois, contra os meus protestos por excesso de generosidade. É mês de plantar as tulipas, diz o calendário (na fotografia), presente outonal, anual e costumeiro da minha mãe.


Fim de corridinho. Bom fim-de-semana.