
Devia começar a colocar o título "Natureza morta" neste tipo de postais. Teriam muito mais sainete.

Devia começar a colocar o título "Natureza morta" neste tipo de postais. Teriam muito mais sainete.
Fechando o estaminé.
Mais um mês terminado, mais uma etapa encerrada. Que virá por aí em Junho? A sucessão, o prosseguir do ponto A para o B, a consciência deles e da distância/diferença é que dão sentido ao percurso. Que seríamos nós sem calendário ou sem conhecimento dele? Que seríamos nós sem as convenções?

Se a primeira já não fazia sentido, há que insistir com segunda. Gosto particularmente do que não faz outro sentido senão ao que apetece. Chamam-lhe mania. E tão ralada fico. Os dias parecem todos muito parecidos, mas só à superfície de peças de roupa e sapatos iguais ou semelhantes ou o mesmo trajecto ou o mesmo edifício como local de trabalho ou as tarefas análogas.
Quem sem noção do pouco que é se vê ou almeja heroicidade e destaque na vida não se conforma com dias ou peças de roupa iguais, sente-se credor do privilégio do reconhecimento da sua autoridade. Vivo a ouvir e ler quem se crê uma autoridade em matérias várias, aliás, na própria vida. Merecedor de distinção, remunerações ou outras regalias pelos serviços inestimáveis que presta à comunidade. Pena que averiguando a sua sapiência se perceba que na maioria dos casos não passe de parlapiê ou de aproveitamento de efectivo (ah, os novos aristocratas da gramática não gostam deste tipo de palavras) trabalho e talento alheio.
Conversa fiada e oportunismo, eis as grandes competências que deveriam constar dos currículos de muita gente de grande sucesso, lado a lado com o elenco dos amigos que interessam. Em muitos casos é quanto baste ao currículo português de sucesso: parlapiê, oportunismo e amigos convenientes. Pronto, concedo: e coragem (lábia) e investimento de tempo para memorizar e argumentar.
E nem sequer fazem um juízo negativo de tudo disto: acham normalíssimo. Chamam a isto inteligência, competência e até, pasme-se, rigor. E apesar das balelas sofisticadíssimas que debitam para impressionar papalvos podem não ter a mais pequena ideia como se resolvem questões práticas da vida, como por exemplo as dificuldades de gerir uma empresa ou de como cumprir com empenho e dedicação tarefas diárias de um qualquer posto de trabalho. Sobretudo, em quase tudo relevam uma enorme falta de reflexão e bom senso; uma colossal ausência senso de justiça. Daí a prosápia que manifestam. Gente que se têm por iluminada e por isso não se sujeita ou resigna a trabalhar ou executar aquilo que considera funções menores, preferindo e achando-se uma autoridade ao debitar pareceres, opiniões, juízos e, naturalmente, a dirigir ou chefiar atento saber vender esta aparência de perfil de líder. Coisa de gente superior, enfim. Merecedora de todas as vénias e salamaleques. Neste país de ridículos sabichões. Peritos da treta que vivem do paleio, vivem a denunciar as incompetências alheias da sociedade civil, sendo incapazes de compreender que eles próprios são o cancro maior do país.
Bom dia.
Fez-me lembrar as voltas à mesa e à casa a matutar.
E agora vou ler uma jerica chatérrima que sabe umas coisas que me interessam. Ossos deste ofício que é viver. Oh infortúnio. Oh inclemência.

Razão inicial para fotografar: sapatos sem graxa. Não há graxa azul, só incolor e não resolve. Desvio usual da ideia inicial para o que vem à cabeça. Muita cor. Parolice boa. Liberdade. Ouvindo Tchaikovsky. Fim da sobriedade e sofisticação oca. Mudanças de gosto. O que é hoje não será amanhã, posso voltar a qualquer momento ao preto e bege. Variedade de cores a uso no dia-a-dia. Hoje, cor-de-rosa. Cor odiada por quem me educou. Blusa made in China. Lata. Manifesto exibicionista. Desenhos-animados: Popeye, Pantera Cor-de-Rosa, Beep-beep. Televisão. Westerns. Segunda-Guerra Mundial. Dallas. Uma Cidade Chamada Alice. Era nisto que pensava na habitual caminhada da manhã.
Até iria fazer um post com estes pontos, "só é que" antes de sair de casa tive a peregrina ideia de tomar em jejum medicação que esqueci ontem após o jantar (coisa que se fica a tomar depois de fazer o bypass gástrico, nada de mais). Vai daí a chegada à empresa correu francamente mal. Entre outros sintomas bons que não interessa descrever: suores frios e tonturas fortes. Uma alegria. Nada de que não se recupere até por haver trabalho a fazer. Afinal sempre me gabei de ser portadora de um organismo que recupera e regenera rápida e eficazmente. Não me tem deixado ficar mal. De qualquer modo, a indisposição retirou-me mais uma hora de trabalho de manhã pelo que não há tempo para enlaçar os tópicos do primeiro parágrafo e fazer enredo. Fica assim mesmo. Não deixa de ser mais um tintim por tintim.
Adenda: quatro coisa(s) num texto de 20 linhas é demais, até para mim que sou fã do "coisa". E como o que é demais é exagero, já corrigi.

*
Sabes que te perdes em abstracções e, em muitos casos, pecas por falta de nomear os problemas reais. Foges consciente das abordagens usuais que ocupam os jornais e as páginas virtuais. Não tomas para ti a todo o tempo, como é timbre dos utilizadores dos espaços de opinião, o papel de escrutinadora dos poderes fácticos e de defensora das verdades do momento. Não o fazes quer por falta de talento quer por ausência de vontade. Não é esse o papel que desempenhas - presunçosa e pouco dada à falsidade reconheces que o tens, mas cada macaco no seu galho e o teu quer-se recolhido
Muitas vezes referiste a aversão aos ditos e actos de superioridade e desrespeito pelos outros – possivelmente uma das ideias que mais te consome a vida, ao longo da qual te foi dito ou feito sentir diversas vezes que acusavas o toque com demasiada facilidade. Em tua defesa, esclareces que nunca serás imune à falta se sensibilidade e há muito te deixaram de impressionar os exemplos do domínio pela força gratuita ainda que dissimulada em palavras buriladas.
O que a muitos parece opinião, a ti afigura-se como ofensa. E não é por falta de consciência dos benefícios da liberdade de expressão e da democracia, nem sequer no plano mais mundano por falta de hábito de debate – cresceste e amadureceste a discutir e a defender com vigor o que acreditas. Felizmente, cresceste e amadureceste a ser contrariada, criticada, ridicularizada e nada disso te incomoda por aí além.
Sucede que cedo tomaste consciência, apesar da controvérsia e ironia te serem muito chegadas, que o hábito do debate não é um valor benigno per si, tal como o humor não é um valor benigno per si. Ao contrário do que é aceite como ideia unanime – e quanta unanimidade fictícia existe no presente – a livre opinião e o humor não são inócuas. São das mais perfeitas armas de combate e tanto servem na defesa dos mais nobres tesouros, como para saquear o adversário ou o próximo dos seus valores e potencialidades, tudo dependendo do coração e cabeça de quem peleja.
Dizes isto ciente que não há civilização ideal sem livre opinião nem humor, a menos que se tome a ignorância e a escravidão como um mal necessário. Mas também consciente, e aqui é que dói à maioria que perora de forma vã sobre democracia e tolerância, que a opinião e o humor para serem livres têm de ser universais. Não podem servir apenas as coutadas que se impõem não pela razão justa, mas pela força mediática em torno de mesquinhos interesses de cada tribo e que mantém o País manta de retalho de pequenas e grandes corrupções, conveniências, apetites e futilidades, incapaz de se sujeitar à justa autoridade dos princípios.
Um país que festeja impante a liberdade todos os anos, mantém parte substancial da sua população a sobreviver de salários miseráveis e ambições pífias. Os estratos superiores da pirâmide social – hoje aferidos pelos recursos económicos e pela imagem -, egoístas e mesquinhos vão contando hipocritamente a anedota do elevador social. Na verdade, precisam da desigualdade como pão para a boca. Não só no sentido material da coisa, porque as desigualdades de rendimento são efectivas e gritantes, mas no sentido cultural também. O seu relevo na sociedade depende da sobrevivência de uma maioria pobre, inculta e resignada. E por isso se assustam tanto com os radicais.
Um país onde tudo se compara e a inveja é rainha, onde ser alguém significa possuir no mínimo o quadruplo rendimento dos seus administrados, onde assim que se chega a um patamar económico confortável se tenta mimetizar a etiqueta tradicional para impressionar a maioria dos portugueses que a desdenha, e se lê livros cujo léxico e conteúdo não é acessível nem inteligível à maioria da população. Um país onde a classe média é apenas remediada e onde muito poucos têm muitíssimo, quantas vezes à custa de negócios espúrios e da exploração dos impostos pagos por essa mesma classe média. Um país onde a grande corrupção não pode ser definitivamente repudiada por falta de legitimidade de parte substancial da população habituada a praticar ou consentir a pequena trapaça.
Um país que prefere continuar as bravatas contra a direita populista ou a esquerda radical, em vez de se unir em favor do justo, aceitando como boas quando razoáveis e merecidas as ideias de uns e de outros. Apesar da consciência de que são usadas apenas como pretexto para hastear bandeiras populistas, correspondem muitas vezes a anseios justos da população, que são a todo o momento desdenhadas e espezinhadas nos textos dos jornais e espaços de debate das mais respeitáveis figuras da opinião. E aqui está a ofensa que ninguém quer ver, mas existe, é real e magoa. Podem desmontar estes argumentos indo buscar os clássicos e os oitocentistas – que como as estatísticas dão para todas as leituras, para provar tudo e o seu contrário -, podem tentar colar-te o rótulo de lírica, ingénua ou ressentida. Tu sabes e eles também que estás a dizer a verdade que não lhes convém.
Não te cansarás de o dizer, ainda que só. É preciso ouvir a voz da população descontente, não só a que vota nesses partidos radicais, mas sobretudo a zangada que não vota há anos. Há que deixar de falsas declarações de pesar pela abstenção a cada eleição, retirar o peso da fúria e tirar espaço ao oportunismo. Não é normalizar, como dizem os desatentos ou desleais que se acham superiores aos seus compatriotas, até porque normalizada está ela, por enquanto mais pelo silêncio do que pelo reivindicação - até quando? É preciso esvaziá-la do que tem de maligno – a fúria da tirania, peneirando as razões válidas de descontentamento uma a uma. Trazê-las para o espaço moderado.
Antes se ridicularizassem as elites - as antigas e as recém ascendidas -, que fingem pelejar pela justiça e democracia quando tudo quanto fazem é falar em pobreza ao mesmo tempo que recusam acesso a melhores salários e rendimentos, e sempre arranjam bons e liberalíssimos argumentos como a falta de produtividade. Pena que não usem igual raciocínio em causa própria. Enchem a boca para falar em educação e da necessidade de mais leitura, mas pouco lhes dá mais prazer e ser do que olhar cima da burra para os boçais e ignorantes. Se fosse a justiça e a democracia que os preocupasse não se dedicariam tanto tempo a desprezar os compatriotas, menorizando-os e achincalhando-os. Estariam a dar exemplo. Não sentiram desdém pela pobreza e ignorância. Estariam, sem disso se gabar em proveito próprio, a educar e regozijar cada vez que alguém passasse a viver em melhores condições. A alegrar-se cada vez que alguém se sentisse respeitado e percebesse o significado de democracia e liberdade na pele.
Não te venham com histórias da carochinha da defesa da democracia. Não é a ideia de que o poder está nas mãos do povo e no proveito dele que vês defender, apenas os interesses mesquinhos de tribos mais ou menos trapaceiras. E desta forma não há País, nem autoridade, nem Nação. Somos coisa nenhuma.
Fim de tarde domingueira e popularucha em casa. Descemos a pé até ao destino. Passámos pela feira e ganhei uns minutos a observar e fotografar gente a divertir-se neste Porto aconchegante. Em seguida entrámos no centro comercial para comprar duas lembranças para os aniversariantes do final de Maio - uma delas ia ser um caderninho Moleskine, mas tirei o cavalinho da chuva: 40 euros por um caderno é um insulto e um absurdo a que só adere quem se preocupa demasiado com a aparência. Ao contrário do habitual neste centro comercial (tantas vezes aqui elogiei a atenciosidade), o atendimento em dois locais foi de franca falta de cortesia. Esta última deve ter ficado soterrada nas camadas de tinta das tatuagens e das unhas de gel - lamento o meu preconceito e antipatia, mas são justificados e reactivos: nos últimos tempos tenho assistido a muita má-criação de gente grosseira que está convencida de ser dona do mundo. Jantámos com as galinhas na hora sossegada. Os pratos demasiado cheios fizeram-nos deixar metade; no meu caso até pelo carregar no caril. Valeram os bicharocos camarões e a manga de que sou fã. Nada como gostar e gozar a nossa terra. Apanhámos Uber para regressar porque chovia bem. A seguir vou colocar de novo My Hometown de Bruce Springsteen, vá-se lá saber porquê. Óbvia, és tão óbvia, rapariga.
É aborrecido ser repetitiva, mas aconteceu mais uma vez estar a trabalhar e a magicar um post, embrulhando de tal modo as ideias e actividades que creio não sobrar nada do pensado durante o dia para efeito de blogue. Lá vou parar uns segundos para puxar pela memória. Esperem um pouco, sff. Uma ideia estava agora mesmo aqui e escapuliu-se, a sacana, e era filha única - dói mais assim, quando não sobra nada. Esperem mais um pouco, sff. Se conseguir encontrá-las, elenco-as para ser mais fácil.
Hum, primeira pipoca: a forma como somos (todos) sugestionados e orientados pelos assuntos de actualidade e o pensamento dominante sobre eles, por mais juízo crítico estejamos convencidos possuir. Segunda pipoca: não perder mais tempo a procurar resposta para o que não tenho solução e colocar a questão: será que a voz dominante obedece a algum critério de lógica e tem uma proveniência identificável que exerce controlo ou entramos em roda livre? Vou-me ficar por estes dois itens. Já não faço a mais pequena ideia do que pensei enquanto trabalhava, mas vou tentar escrever ao correr da pena, aliás, dos dedos.
Melhor ou pior conheço muita gente que está em cima do acontecimento. Cada vez há mais gente em cima da actualidade. E também sempre conheci gente que procura desvincular-se do mundo das notícias para sobreviver saudável. Funciona por fases: momentos de mergulho da actualidade entremeados com um certo situar nos interesses próprios para chegar a ter vida sem carregar o peso do mundo às costas. Sim, porque salvo aqueles que vivem o mundo das notícias de modo lúdico-profissional – género jogador de Las Vegas – ou aqueles que sabem relativizar, adequando o mundo da informação aos próprios interesses - género pragmático -, quem tem sensibilidade dificilmente consegue sobreviver lúcido depois de se atolar no mundo da informação ou desinformação. O despejar constante de factos e contra-factos, opiniões e contra-opiniões é atordoador e paralisante, podendo inibir mentes e vidas saudáveis.
Independentemente do modo como protegemos os nossos interesses, do género de cada um - no fundo somos sempre um misto entre o que mergulha a fundo nas notícias e o que delas tira proveito ou guarda distância para prosseguir os seus próprios interesses -, todos sucumbimos em maior ou menor grau às verdades do momento. Quanto mais não seja e na melhor das hipóteses damos por nós a dizer coisas redondas para não enfrentar os ditames da vida moderna. E por mais eriçados se mostrem alguns - os anti qualquer coisa, por exemplo, anti politicamente correcto ou puritanismo na linguagem – numa série de outros assuntos já sucumbiram aos ares do tempo. Cada um guarda ou começa a promover à medida que vai envelhecendo o reduto de conservadorismo que convém, aquele que considera indispensável para se manter à tona social, económica, moral ou intelectualmente.
Mas de onde virá esta voz global dominante que nos põe todos a falar dos mesmos assuntos e, em muitos casos, a criar uma onda de artificial coincidência de opinião ou de barricada? Somos orientados?, como nos dizem as paranóicas teorias da conspiração? Por quem? Desde que o mundo é mundo por quem quer poder e quem quer ganhar dinheiro. A busca de poder e dinheiro e as consequentes lutas e divisões por causa deles sempre dominaram os destinos da humanidade. Nada de novo.
Será uma visão pessimista mas não acredito em grande parte das declarações de defesa de nobres causas no espaço público. O comportamento dos que esgrimem argumentos denota vontade de defender mais a sua esfera de influência – ou da sua tribo - do que benefícios da comunidade. É só abrir os jornais ou ligar as televisões para verificar que toda a gente berra desaustinada frontal ou dissimuladamente – não se pense que quem fala mais alto o faz de modo honesto - pelo seu quinhão de “direitos” e privilégios, estando-se a marimbar para o funcionamento regular da comunidade como um todo. O que vinga é a ganância de parte a parte. Por exemplo, os que defendem um Estado mais forte e interventivo fazem-no na perspectiva de uma vida de regalias sem esforço ou à custa do esforço alheio, os que defendem o Mercado Livre almejam poder impor a lei do mais forte, a lei da selva. Ah e tal, que visão simplista, dizem. Ao que respondo: é só conversar umas horas com uns e outros e estar atento aos percursos de vida de uns e outros para perceber que é disto mesmo que se trata.
Acabei por me perder nas ideias e não falar nas formas de sugestionar populações inteiras, nem no facto de estarmos a cair em roda livre. Fica para outro dia. Hoje não estou capaz. É cansaço.
Na sexta-feira tinha previsto escrever acerca da passagem do tempo como revelação e a facilidade de destruição da imagem ou reputação do comum mortal. Entretanto meteu-se um longo e reles Sábado de permeio (aos que gostam de tentar estragar os dias aos outros, informo que se o desprezo é tão grande, é escusado darem tanta atenção; arranjem uma vida com interesse e logo verão que não precisam perder tempo comigo), fazendo-me esquecer o que tinha intenção de escrever, mais uma vez sem antes estar delineado.
O primeiro item do tempo como congregador de conhecimento, como cola de peças desavindas e desconexas, é a ideia simples da lenta progressão da aprendizagem por contraste com a ostentação de parcelas de verdade momentânea. E não me apetece dizer muito mais do que isto.
O segundo ponto da destruição da imagem e reputação do comum mortal é apenas a constatação da frivolidade reinante no espaço público. O que tem valor não vinga a menos que ceda aos vendilhões da praça. Sempre que surge alguém que questiona as podridões da sociedade e defenda mínimos de dignidade, é vexado e desacreditado através da manipulação retórica. Uma onda de gozo e crítica feitos pelos grupelhos de interesse e influência que dominam o aparentemente sofisticado mercado nacional da informação e entretenimento e com eles as vendas políticas, jornalísticas e culturais. Nunca seremos um país para levar a sério se a voz da mediocridade disfarçada de competência e erudição se sobrepõe e abafa o valor através da manipulação. Seremos sempre um país de faz de conta, de chico-espertos a tentar dar ar de eruditos.
É muito fácil destruir outrem. Ninguém está a salvo de ver reduzida a cinzas a sua imagem e, uma vez que hoje não se distingue uma da outra, ninguém está a salvo de ver destruída a sua dignidade. E para os imbecis ou tontos que vêem aqui uma ameaça e para os que sempre vêem segundas más-intenções, aprendam a ler e a perceber o que lêem, em vez de tentarem mostrar-se muito sofisticados e de se chorarem tanto por não haver leitores em Portugal. A constatação de não haver limites à manipulação da opinião associada aos mecanismos de Inteligência Artificial é assustadora. Já a primeira é perigosa o suficiente, acrescentando as máquinas, o perigo torna-se exponencial. Devia fazer pensar. Todos.
*
Vou lendo pela rama o que sobra dos acontecidos. Já que apesar da torrente informativa cada vez temos menos acesso à consciência do realmente sucedido. A todo o momento se criam controvérsias, de tudo se faz caso e casinho sob pretexto de cabal esclarecimento para uso do jogo sujo que já nem é pelo poder formal, mas pelo protagonismo. Expele-se fel em tom de gracejo acumulado por erros próprios que não se assumem nem se corrigem, investindo tudo na construção artificial de imagem de grande tolerância. Cada vez mais se defende ou dá guarida à ideologia cega dominante, ao insulto e à injuria - vendidos como defesa de importantes valores. Cada vez se cava mais o fosso entre a propaganda globalizada e os que a ousam contestar, tantas vezes de forma irracional. As contradições dos segundos são sempre enxovalhadas sem piedade, os absurdos da primeira sempre inquestionados e idolatrados, potenciando esta intolerância conflitos e danos irreparáveis para o mundo. Sem pejo abrem-se alas à divisão da população entre bons e maus e disso se faz gala, como se tivesse descoberto a pólvora.
Ainda sem vontade de opinar apesar de em vários casos ter formado espessa e decepcionante ideia sobre a cada vez maior prevalência do juízo fácil e da caricatura tomados por factos. A inconsequência e os anátemas passam a definir as relações de poder de forma decisiva. Os meios de difusão de informação impõem um campo de reeducação globalizado.
Se for capaz (não estou muito convencida disso) amanhã voltarei a passar pelos jornais da semana e escreverei um postal sobre actualidade. Por agora vou nadar.
(Este texto nasceu como resposta ao post Mundo Novo do blogue Imagens.)
Mecanizar as conversas e as pesquisas é mais um passo no desenvolvimento da tecnologia que se vem fazendo com os bots há 40 anos. Quem há quase 40 anos programava nos velhinhos Spectrum já fazia qualquer coisa muito incipiente nessa matéria. Há mais de 20 anos nos chats era habitual essa ferramenta, claro que em moldes nada comparáveis aos que estamos a falar hoje. Não faço a menor ideia do que aí vem. Deixo pouco mais do que sensações.
Primeiro. Uma ideia um tanto simplista: também a televisão durante 80 anos foi um meio de disseminação de visões do mundo, tantas vezes adulteradas.
Segundo. A dúvida se é a tecnologia que anda a reboque da realidade ou esta daquela. Ou seja, a televisão, que já fora usada para a propaganda por Hitler (tal como o controlo e perversão da imprensa) popularizou-se nos anos após a Segunda Grande Guerra, num ambiente de vitória dos valores democráticos e da Liberdade. Na Europa, num ambiente de renascimento e cooperação entre Estados. O desenvolvimento da tecnologia de transmissão de imagens por via electrónica, apesar de ter começado a dar os primeiros passos nas vésperas do horror nazi, está mais associado a momentos felizes, digamos assim. Por cá, crescemos a ver as guerras ao longe (no caso português, apesar de estarmos envolvidos em guerra nos anos 60/70), a assistir à denúncia dos regimes totalitários. Esse é o testemunho que sobressai da televisão. Apesar disso, criaram-se na comunicação social, sobretudo na televisão, mas não só, mitos e simplismos, dividindo o mundo, nas últimas décadas, entre os puros e os perigosos fascistas - nos últimos anos também entre os puros e os perigosos comunistas -, desprezando todo o contributo que qualquer individuo considerado mais radical de direita ou esquerda possa dar. Por exemplo, é muito comum em Portugal haver absoluta incapacidade para ler uma pessoa válida, informada, culta e lúcida, por estar conotada com a defesa do Salazarismo - tal como há, em meios com menos audiência até há pouco, anticorpos inultrapassáveis em ouvir gente que tenha estado empenhada nos anos 70 na defesa da criação de um Estado Socialista e não renegue esse passado. E quem dá estes exemplos dá outros mais actuais. Seja o caso dos defensores da privatização da Saúde e dos protectores do Serviço Nacional de Saúde. As incompreensões em tempos de crise e de sensibilidades à flor da pele acicatam de parte a parte a agressividade (tantas vezes disfarçada de cinismo) e tornam mais engenhosos e cada vez mais radicais e cheios de razão os defensores de cada lado das barricadas, não permitindo chegar a pontos de confluência de interesses e valores, a bem do país.
Terceiro, o aparecimento e massificação da internet, uma ferramenta criada inicialmente para troca de conteúdos entre universidades, está a dar-se num momento de decadência da Liberdade. Não sei explicar a raiz dessa decadência. Ainda será cedo para entender ou serei lenta, é bem possível. Claro que há gente que a explica de uma penada com a ignorância, a falta de exigência no ensino e a desvalorização da importância do conhecimento do passado – às vezes vejo a defesa destes argumentos feita por gente que a todo o momento revela abundância de preconceitos e profunda ignorância não tendo a menor consciência dela. É verdade que a falta de juízo crítico e a notória falta de conhecimentos de História (às vezes, em supostos estudiosos da área) de vasta percentagem da população não augura nada de bom, mas não sei se isto por si só explica a decadência. Afinal o mundo nunca deixou de ser assim: uma elite com acesso ao conhecimento e ao poder face a populações manipuláveis. Apesar de hoje compostas de cada vez maiores camadas de gente mais “informada”, com mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos do que nunca - e mais convencidas da sua ciência do que nunca.
Quarto. Há um factor que distingue decisivamente a televisão da internet: a obscuridade da identidade de quem tem acesso ao poder. Sempre tivemos demagogos e manipuladores na televisão, mas sabíamos quem eram, tinham face. Na internet a identidade é diluída. A manipulação da opinião pública, ou dos utilizadores das redes sociais, é feita sem os constrangimentos que a coragem do assumir da identidade por inteiro acarreta. A disseminação das falsidades e o uso de perversidades são feitos muitas vezes sob anonimato ou pseudónimo. E mesmo que não haja anonimato há uma certa capa de protecção que o mundo online confere retirando susceptibilidades e fragilidades que o mundo físico impõe.
Quinto. A vida online permite interacção, tornando-se por isso mais viciante do que o mera atitude passiva de assistência da televisão ou dos outros meios de comunicação social. A interacção potencia a ideia que se faz parte da rede – uma convicção de aparente democraticidade por participação cívica. Pode induzir na ideia errada de que se tem mais poder e influência do que efectivamente existe. Ou seja, quanto menos preparado e, simultaneamente, mais ambicioso o individuo for mais perigosa será para si a utilização da internet – acabará por ser engolido pelo próprio logro.
Sexto. No entretanto, o mundo online permite a ascensão à governação e ao mundo das influências e interesses sociais, económicos, políticos e culturais daqueles que sempre a eles acederam: os que valorizam e sabem gerir as redes de relações interessadas e os mais habilidosos na retórica e no uso da tecnologia, hoje sob a égide dos grandes grupos económicos, nos quais também figuram as grandes empresas tecnológicas, a quem tudo quanto interessa é vender e ganhar mais, compactuando se preciso for com ideários totalitários, de esquerda ou de direita. Se hoje se inclinam mais para um lado, amanhã mudarão: o dinheiro não tem cor, cede a quem der mais.
Sétimo. O ChatGPT como “aperfeiçoamento” de pesquisas e conversas mecanizadas é tanto mais perigoso quanto se tiver em consideração os pontos anteriores. Não deixando de ser verdade o que digo, será lutar contra a evolução e o futuro dizer que é um instrumento tecnológico apto a ser usado para manipular a opinião pública e que pode ser utilizado na propaganda sendo desaconselhável na organização de entidades públicas e privadas por já todos conhecermos as enormes deficiências e contra-indicações das máquinas que conversam connosco. Apesar do susto de ver uma ferramenta em potência insensível e ignorante ser utilizada em termos universais, ela vingará quer barafustemos ou não. Sempre foi assim que os progressos tecnológicos se impuseram no mundo. Cabe-nos apenas perceber que, como a televisão, esta ferramenta fundada na IA pode ser usada para fins de manipulação, de propaganda totalitária e puritana, ou ser utilizada de forma a promover os valores democráticos e a Liberdade. E se hoje é usada para debitar uma cartilha tendencialmente de esquerda e identitária, é porque é isso que vende. É por haver comprador. Isso sim devia levar muitos bem pensantes e orientadores de opinião na comunicação social e redes sociais a pôr a mão na consciência e perceber que mentalidade dominante ajudaram a criar nas últimas décadas. Inverter a situação não passa por ser reaccionário, mas por fazer contrapeso sensato e corajoso. Em Portugal, em concreto, há anos de atraso no que diz respeito à aceitação de algumas ideias moderadas (tidas erroneamante por radicais) de direita que são pura e simplesmente enxovalhadas na comunicação e redes sociais, sempre que ditas em voz alta. Mas para que elas sejam aceites é preciso acabar com duas pechas de direita: a típica prosápia infundada e a falta de sensibilidade social.
Há momentos em que te sentes como o bicho da fruta. Quando passas noutros poisos, lês posts e entras pelas palavras adentro, comendo sentidos que encontras ao comentar com atrevimento o que dedos alheios teceram em papel ou pixeis.
Não passas de uma minhoca nas leituras, desde sempre. Nestas e noutras. Nas leituras das palavras e das acções. Do corpóreo e do incorpóreo. Enfias-te curiosa, escarafunchando, mastigando a polpa alheia, como se o mundo fosse todo teu. Como bicho, de fruta em fruta vais crescendo, minhoca. Não te sintas mal, já te chamaram arado da Natureza.
Esta noite regressei ao velho hábito do computador no colo enquanto estirada no sofá. Televisão na SIC Notícias para me ligar ao mundo – bom, ao mundo com tempo de antena. Já ontem a deixei ligada após o jantar para ir ouvindo o que se passa por aí. Dois dias de notícias, ena.
Ontem dei por mim a ouvir um dos blocos informativos, no qual um comentador que considerava, pelo registo franco e honesto, demonstrou já se ter deixado corromper nas ideias. Até há poucos anos dizia o que pensava, hoje limita-se a debitar a irritante lenga-lenga do mainstream informativo-opinativo – aquilo a que durante muitos anos chamei mentalidade de jornalista e hoje é a mentalidade dominante no mundo. Deixou de contar, senão para a contabilização do amontoado de gente que se vende às exigências da falsidade e de modo perigoso encaminha o país para o canto da sereia da autoridade. Sejamos optimistas: pode ser que não corra mal e ainda haja tempo. Pode ser que possa continuar a acreditar que não é irremediável o caminho para a vitória do populismo autoritário (por enquanto vivemos de populismo democrático). Pode ser que não esteja enganada como nas últimas eleições, mas a força da mentalidade acima referida é avassaladora e assim sendo é muito difícil vingar o bom senso no quotidiano político e nas urnas – a população sente-se desnorteada com toda a razão e os mantras da comunicação social são de uma pobreza de rectidão insuportável. Não me vou demorar no tema, por já muito escalpelizado nas Comezinhas. A ideia é simples: a lei da rolha imposta pelo politicamente correcto ou tonteria dos zelotes da imaculada democraticidade das almas tem como consequência o engrossar das hostes ditas radicais. O caminho deveria ser o do esvaziar do populismo pelo encarar com verdade e sem falsos pudores as questões melindrosas. Trazê-las para o espaço de debate dito respeitável sem os habituais anátemas. Resolvendo-as. Pegar nas várias bandeiras populistas e encará-las sem medo, por representarem capital de queixa das populações, que jamais devem ser metidas debaixo do tapete ou sufocadas, minando desta forma a saúde da Democracia. Abafar melindres (tantas vezes maioritários, apesar de não reflectidos no voto) significa calar as populações, o que nunca é boa ideia. Mas, lá está, isto é chover no molhado e muito tempo passará e eleições se realizarão antes que estas constatações sejam absorvidas no discurso dominante. Sendo os portugueses gente de meias-tintas pode ser que passemos entre os pingos da chuva, fazendo de conta que não percebemos o que se passa à nossa volta e dizendo frases simpáticas e falsas que quase todos fingem gostar.
Vi também o programa de debate risonho entre o humorista intelectual, o candidato a ministro da cultura de direita e o comentador da voz comum com as antenas atentas mas ainda criticas à voz dominante. O primeiro citou a clássica ‘nada do que é humano me é alheio’ e discorreu sobre as modernas adulterações, o segundo fez uma piada sobre ir a despacho por emoji naquele ar de quem se ora se diverte ora se enfada com este mundo de gente desprovida de decoro e inteligência, e o terceiro chutou para o canto de problema laboral uma dessas questões que provocam imenso pipocar nos corações dos comentadores dos floreados. Disseram muito mais, mostraram muito calo retórico e inteligência e eu estava em simultâneo a tratar de uma qualquer tarefa. Há muito não os ouvia e julgo que passará outra larga temporada sem o fazer. Já houve tempo em que acompanhava esse e outros debates. Cansei.
Hoje a propósito de leituras nos jornais dei por mim a congeminar qual será a corrente não só de estilo e linguagem, tout court, como de semântica, que vingará daqui a 40 ou 50 anos? À parte da sucessão de correntes há sempre aquilo que acrescenta à bola de neve conferindo nova dimensão. É a isso que me refiro e não a movimentos conjunturais. Fico a pensar se será um certo despojo por distanciamento dos depósitos de erudição. Por mais que respeite gente conhecedora de toponímia, referências cinematográficas, literárias, artísticas, históricas etc. e tal, textos com profusão destes expedientes, num tempo de multiplicação de dados, informação e conhecimento, podem cair em desuso. Claro que virão os excitadinhos do costume falar da promoção e vitória da ignorância, na luta inglória pela cultura, nas cruzadas pela erudição. O caso, pelo contrário, é de exigência. Depósitos e catálogos continuarão a ter o seu espaço, mas serão isso e não reflexões. Pensar implica conhecimento, mas também distanciamento dele. Depuramento dos dados, distância da informação. Se puser a mão em cima dos olhos deixo de a ver.
Melhor momento da semana. Sozinha, a fechar o estaminé com tudo tratadinho. Sem pendências, como as da semana passada que deixaram peso na consciência - maçadas que já não se usam; não prestem muita atenção que isto é coisa para fazer mal à mioleira.
Agora é só estrafegar o fim-de-semana como bem entender. Estragá-lo todinho como me der na real gana.
Isto não interessa a ninguém? Who cares? Interessa-me a mim e isso chega - a melhor das formas de estar na vida é entreter-nos com as nossas próprias alegrias, sem precisar de audiência. Só desejo que o ânimo perdure.
E quem vier com provocações e sensaborias, com intenção ou só por distracção, tirar-me o bom espírito leva na tromba - de modo figurado, friso, não vá alguém acusar-me de ameaça de agressão física.
O fim-de-semana promete. Acabo de ler aqui na página principal da Sapo que num vôo sul-coreano um homem decidiu abrir a porta do avião. Se tinha a sensação que o mundo havia ensandecido, agora possuo a prova. O mundo transformou-se numa anedota de loiras.
Bom fim-de-semana, gentes.
Vim pelo caminho a pensar com os meus botões como é costume, interrompida pela confirmação de a partir daquele dia em que aqui escrevi que a Igreja da rua de N. S. de Fátima só estava aberta uma vez por semana, passou a estar de porta aberta todas as manhãs. Voltei a entrar uns minutos não sei se em busca do tal sentido da vida. O certo é que não o perscrutei lá. Encontro-o mais facilmente ao observar o casal de melros com que me cruzo diariamente no jardim da rotunda ou mesmo com os artefactos do parque de diversões que está a ser instalado, como todos os anos, para o S. João. Comovo-me mais ao observar os aviões presos nas hastes giratórias, os carrinhos de choque e o foguetão do que as imagens dos lugares sagrados. A vida é como é.
Os pensamentos presos aos pés eternamente caminhantes estavam longe destas considerações espirituais. Explicava-me, imaginando que ia escrever um post. Na sempre presente necessidade de tornar pensamento e sentimento transparentes. Lisos, limpos. Mas para quê?, pensei ao sentar-me aqui. Por mil palavras use nada é palpável: o que penso e sinto e a verdade de como tudo acontece nunca hão-de de ser visíveis tal qual são. Não vale o esforço sobretudo se tudo é reduzido ao ridículo e ao leviano.
Por minutos entrei em modo retrospectivo que sempre me dá alento. Nada como a perspectiva. Afinal tudo é passageiro e esse é o segredo da sobrevivência humana. Se assim não fosse a loucura e a infelicidade imperariam. Tudo passa. Haja esperança.
Sim, os vídeos de gatinhos são insuportáveis. Enfadonhos e imbecis. Salvo se forem do nosso gato. Aí têm todas as bênçãos.
Breves palavras para deixar registo hoje, apesar de muito atrapalhada de tempo. Mais considerações miúdas. Novamente sobre a mentalidade lifestyle. Uma para registar o sufoco a que somos sujeitos com o bombardeamento de conselhos: não coma aquilo de manhã, não beba aquilo à noite, não se sente assim, não vista isto, não dê isto ao gato, não diga isto aos seus amigos, enfim. Uma infinidade de alvitres, na maioria dos casos correspondentes não ao bom senso, mas a modas. E se em muitos tem a consequência de os fazer muito senhores dos seus actos, disseminando esses doutos pareceres nos contactos diários sem querer saber da sua oportunidade e veracidade, outros há que ficam cilindrados com tanta sabedoria alheia, incapazes de formular pensamento próprio por exaustão de consumo de pseudo-informação.
Há dias o telemóvel dizia-me que as pessoas que pedem muitas vezes desculpa têm problemas emocionais. Afirmando peremptórios que não é uma questão de educação, mas de insegurança e falta de auto-estima. E estamos nisto. A psicologia lifestyle lida muito mal com as regras de educação e assim se cria e alimenta uma sociedade cheia de si e pronta a atropelar os outros. Mais uma vez refiro: pensar em conflito de interesses e conflito de direitos é coisa fora de moda. A palavra de ordem é “afirma-te”, “gosta se ti”, “impõe-te”, “és o maior da tua rua”. Nada contra se daqui se fosse buscar ânimo e segurança para quem deles precisa e não se tratasse de incentivo constante ao abuso e desrespeito pelos interesses e espaço alheio e de estimulo à falta de consciência do real valor por auto-enaltecimento oco.
Não falar de cima da burra ou de modo crespo ou com condescendência como se fosse possuidor de algum especial valor ou ascendente sobre os outros, é uma regra de boa educação. E pedir desculpa é, em regra, sinal de civilidade. Só numa sociedade podre como a nossa está a ficar é que vinga a ideia do “as desculpas não se pedem, evitam-se”. A soberba incivil dos cheios de certeza que nunca erram chega a este ponto. Dar a imagem de estar num pedestal só convence os que não têm amor-próprio ou procuram favores. É esta a razão de gente inescrupulosa estar rodeada de “adeptos” como se de uma claque de clube de futebol se tratasse. Gente presumida que leva tudo e todos à frente sem considerar ou respeitar o que os outros pensam e sentem, a menos que daí tire vantagem, poderá até ter sucesso aparente, mas viverá sempre na solidão ainda que rodeado de família e muitos "amigos" e "adeptos".
E pronto, foram as notas morais das Comezinhas de hoje. Para moralistas encapotados, moralista e meia assumida. Afinal há que fazer frente aos que se fazem passar sempre por muito sábios, isentos, rigorosos e avessos aos puritanismos e todos os dias disseminam a sua mensagem puritana disfarçada.
Não sei se abra uma rubrica: moralismos à quinta-feira. Afinal gosto de sermões. Tão fora de moda. Não é nada sexy nem excitante - assim não arranjo casamento. Que maçada.
Às vezes acordo com dúvidas existenciais e pergunto-me a direito: para que servem as entrelinhas e as leituras nas entrelinhas das meninas e meninos mais ou menos ressessas/os? Para reservar o que é reservado? Para combater a podridão? Para cultivar o que é justo e razoável? Ou pura e simplesmente para aldrabar os incautos e produzir intriga sobre intriga? Para ludibriar e burlar? Em manifestações de esperteza saloia.
Ah, cultivar o nobre silêncio e a digna discrição podem ser tão convenientes a quem engana e causa dano.
Cautelas e caldos da galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Deixo as linhas precedentes à consideração de quem se passeia nestas andanças nunca simples nem lineares.
Voltou a calmaria, felizmente.
Bom dia a quem vem por bem.
E distância de quem vive à custa da ofensa, da cobardia e das pedradas dissimuladas e pelas costas.
Que a vida reserve o que é justo a cada um.
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Agradeço uma vez mais à equipa da SapoBlogs o destaque.
Aproveito para agradecer as visitas e comentários aos leitores das Comezinhas.
Faço muito gosto de os ter por cá.
Deixo a entradas para os posts da série A Guerra, que retomarei quando calhar.
Ontem ao final da tarde dormiste um pouquinho. Tiveste um sonho impactante. Além de dois gatos trazidos pela mão de quem perdeste o ano passado, viste algo raro nos teus sonhos: animais de grande porte. É a segunda vez num ano e há muitos, muitos anos o teu mundo onírico não lhes dava atenção. Um boi saía desembestado do cativeiro em granito. Ao lado um elefante seguia os mesmos passos. Assomavam os dois à porta de patas levantadas visivelmente zangados por terem estado presos – imagem impressionante de se ver.
Hoje, depois de uma noite sem sonhos, acordaste zangada e com vontade de cortar com o que te faz mal: enredos estúpidos de ilusões, mentiras e dissimulações. Já passaram uns anos. Tentaste por todos os meios acreditar e ser clara e nessa contabilidade feia que não se deve fazer, salvo nos casos em que é preciso acordar para a vida de uma vez por todas: deste muito mais do que recebeste. Foste clara, escusas de voltar a bater na mesma tecla. Agora é cortar a direito com quem não sai do castelo esperando que lhe prestem vassalagem e regressar à realidade dos que te querem bem e a quem tu queres bem. De resto, só vaidades. O que não tem remédio, remediado está.
Nesta semana que passou consegui não fazer compras online. Afinal a rubrica passa a quinquenal. Ou talvez este post seja o último do género. Valeu pela graça. Os brinquedos do gato são repetidos da última encomenda, uma vez que não vieram à primeira. Espero desta vez conseguir.






A previsível e soporífera ladainha que referi no post Uns furos acima já se disseminou na comunicação social, blogues e redes sociais. Previsível. É muito mais fácil viver eternamente infantilizado do que encarar a realidade. Podia rebater a mentalidade de infantário, mas não vale a pena argumentar com crianças mimadas que ainda acreditam na bicho papão, ou então podia manifestar cansaço, mas limito-me a bocejar. Aliás, vou mesmo dormir um bocadinho. Afinal é Domingo, dia de descanso.
Os cães ladram a e caravana passa.
A ideia hoje é fazer roupa-velha dos acontecidos dos últimos dias que fui esquecendo. Apre, repetitiva. Mas que querem?, acontece-me sempre esquecer. Ainda ontem à tarde em cima do escadote a pendurar as cortinas em casa dos meus sobrinhos (eles colocaram a segunda), dizia-lhes que era a primeira vez que estava a fazer aquilo. Uma hora depois, já em casa é que caí em mim e lembrei as muitas vezes que o fiz. Esqueço-me, depois até posso passar por mentirosa. Lembro-me da cara da minha prima há uma década quando lhe disse que tinha 38 anos. Diz ela: tem graça, achava que eras mais velha que o meu irmão P., e eu: e sou. Pois, tenho 39, baralhei-me. Garanto que não é com o propósito de mentir, esqueço de coisas importantes. Baralho-me. Enfim, só faço vergonhas.
Ora, tentar apelar à memória. Ficou por contar no fim-de-semana passado que aquele telefonema desagradável com a CP para comprar bilhetes ainda teve mais consequências. Como cancelei a viagem de ida, a funcionária que atendeu enganou-se (outra pessoa diria foi intencional) e cancelou o bilhete de volta (que troquei e paguei). Vai daí, voltaram a vender os nossos bilhetes a outros passageiros. Já havia assistido a reclamações destas por parte de outros em viagens anteriores, mas nunca me tinha acontecido. Imaginam o desagradável da situação, de estar sentada com pessoas de pé ao lado na posse de bilhetes para o mesmo lugar. O revisor pediu as desculpas devidas e ao fim de algum tempo conseguiu arranjar lugar para os outros passageiros, mas o facto é que tudo quanto podia correr mal por incompetência nos telefonemas de Sábado, aconteceu. Se investissem mais energia a fazer bem o trabalho e menos greves, talvez estas pantominices não acontecessem.
Na tarde seguinte a escrever o post sobre a Igreja da rua N. S. de Fátima, passei de novo à porta e deveria haver alguma celebração já que a entrada estava enfeitada com flores frescas. Vi também que tinha um quadro com o horário, no qual nunca tinha reparado. Das duas uma: ou puseram nesse dia, ou não vira por distracção. De qualquer modo, observei que referem estar abertos todos os dias. Estranhei por ver sempre a porta fechada. Às tantas, está apenas encostada.
Ontem andei por aí em leituras não habituais. Há mundos diferentes. Como fico com a sensação de que deixo mais que venham até aqui do que vou até lá, procuro entrar em espaços que não leio habitualmente. Uma forma não só de enriquecer como de enrijecer o músculo mental. Fiquei com vontade de escrever sobre, mas ficará para depois, diluído em postais futuros.
Ontem passei parte substancial da manhã a acompanhar o Nuno num laboratório médico, para rotineiros exames e análises. É bom estarem abertos ao Sábado. Nos últimos anos marco sempre que posso os nossos exames e consultas para as 8h30 para evitar faltar.
Hoje li por breves minutos o Observador e o Público - os títulos e pouco mais. E ouvi o Leste/Oeste sem grande atenção. Foi tudo quanto chegou hoje de informação a esta mioleira. Estou naquela fase da vida em que tudo parece cíclico e manifestação de déjà vu, e isto vai das convulsões da política interna que me fazem lembrar as excitações do fim de ciclo de Sócrates, até à costumeira empolgação com o Clube de Bilderberg. Digamos que já pouco me comove.
Na actividade whatsapiana, recebi imagens familiares do navio-escola Sagres, atracado na movimentada Ribeira. E também da fragata D. Francisco de Almeida e de um navio patrulha de Sines. E de um amigo recebi fotografias de um troço lindo do Caminho de Santiago de Compostela na Galiza.
Tem sido um fim-de-semana atarefado, hoje ainda terei de trabalhar um pouquinho, não por vício em trabalho - essas paranóias já me passaram há muito -, mas por nesta última semana andar aluada relaxando em demasia: deixei acumular umas coisitas que preciso tratar. Não me apetece nada.
Hoje decidi que era quase Verão e vesti um daqueles três vestidos que comprei há semanas, mas o certo é que ainda está frio no Porto para estas levezas apesar de ver imensa gente de roupa estival. Entretanto a água da piscina estava outra vez fria (a caldeira deve ter avariado de novo) tal como estava frescote o caminho até aos balneários. Deve ser para nos espevitar e enrijecer. Acho muito bem: o clima na cidade do Porto e a natação não são para meninos.
Afinal não saiu roupa-velha já que não consegui envolver, isto foi mais um prato de cerejas, para tirar uma a uma – comprei hoje uma caixinha delas.


Esta manhã de Domingo, às 7h30.
As traseiras a Sul: a minha nespereira feita tronchuda, como se pôs nas últimas semanas; hoje ainda com as folhas um pouco cabisbaixo, mas logo espevita depois de receber água. A frente a Norte: o cafezito da manhã ao sol, que bate a esta hora na janela. A casa já se encheu de música: ouvem-se Ennio Morricone e Dulce Pontes. O gato acordou falador e anda nas correrias pelo corredor fora, a brincar. Mais daqui a umas horas vou nadar, até lá não sei se escreva, se me deixe a fazer cera.
Bom Domingo.
...
Às 8h20 ouve-se Going Home de Leonard Cohen.


Grau de dificuldade: facílimo.
Vantagem: refeição amiga do ambiente. Se habitualmente ligo por muito pouco tempo o fogão, neste caso: nicles.
Sim: as lulas recheadas caseiras podem ser melhores, mas dão trabalho e a era da escravatura já lá vai.
Cavaco Silva discursou na televisão. A pretexto de um qualquer evento de autarcas, mas não prestaste atenção aos pormenores essenciais de quem quer e sabe informar; não é tua função; a ti compete soltar os dedos sem te prenderes aos factos, soltar a mente sem atender ao que é dado. O mais experiente político português (que dizia não ser político e parece ser dos raros com a noção digna do que isso é) disse o que era preciso ser dito por alguém do PSD, deixando apesar de tudo um amargo de boca aos antigos eleitores deste partido: se é precisa a voz de Cavaco Silva é por não haver ainda quem possua o capital de respeitabilidade para o fazer – sim: ao ler isto muitos coçam a urticária anti-Cavaco e lá passará o país umas horas a ouvir as ladainhas soporíferas do costume, mas é bom que tomem anti-histamínicos. Estes meses dos pólenes logo passam e o país precisa de cortar a eito e começar a regressar à normalidade. Sair das insanidades sucessivas, destas tricas e laricas que enchem o espaço público de milhões de opiniões sobre ninharias.
Se o mais calejado político português de primeira linha considera que Luís Montenegro tem condições para enfrentar o trabalho e desafios que nos esperam, poderás reconsiderar – tal como muitos outros portugueses - e começar a prestar atenção nesta última levada de gente (demoraste imenso tempo a escolher o termo para seres o menos pejorativa possível) trazida pela actual direcção do PSD. Não será com entusiasmo com toda a certeza. Mas em política é preciso abstrair.
Quanto às críticas demolidoras, ao zurzir o Governo e ao desafio ao Primeiro-Ministro para que se demita (é assim que comunicação social passa a informação – e repare-se que não estás a fazer juízo de valor, apenas a sublinhar), tudo vai depender de como é passada a informação aos portugueses – se a transmitirem juntamente com a ladainha referida acima (já que agora os jornalistas raramente se atêm aos factos preferindo sempre os julgamentos e a ironia, não resistindo ao papel de comentador criativo) para descredibilizar o antigo Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República, António Costa rapidamente chutará para canto e continuará impante a permitir que o país vire esta anedota a que temos assistido da exibição dos artistas gerados ou aperfeiçoados nos blogues e nas artes da pseudonímia - trepadeiras rascas do poder à esquerda e à direita, sempre com péssimos resultados.
Se deixarem a comunicação fluir normalmente entre Cavaco Silva e os portugueses, sem lavagem cerebral, pode ser que estes entendam, e não restará a António Costa outra solução senão perceber a diferença entre ser Primeiro-Ministro e estar à vontadinha na boa tradição socialista da selvajaria. Resta perceber se ainda é possível acreditar na existência de uma geração de políticos não puros, que nunca existiram, mas ao menos uns furos acima desta rasteirice vulgar com que temos lidado.
Ainda um compromisso para esta tarde. Depois, quando chegar a casa de novo, dormirás ou escreverás, duas necessidades vitais que se começam a equiparar. Ou será apenas uma obsessão, escrever? Se ainda houver ímpeto, sairá mais um diário bem ensarilhado (deves o regresso ao uso desta palavra a outra bloguer aqui da plataforma). Ensarilhado de notas e pensamentos avulsos que não interessam a ninguém, sobretudo aos fins-de-semana, quando justa e sabiamente quase todos recolhem ao ninho (termo que outra bloguer usa para se referir à sua casa, tal como tu fazes) e ao que mais importa. Mas isso é o que menos interessa. À medida que o tempo passa cada post é como o largar pedrinhas do Polegarzinho para reconhecer o caminho para casa. Ris-te: estas são as tuas grandes referências literárias. Ah, se quiser ser considerada. Ah, se quiser que a levem a sério. Dizem os sábios do azedume, dos lugares-comuns e da pretensão. Voltando às pedrinhas. É assim que vês as linhas passadas. No Fora do Baralho e em tudo mais até às Comezinhas deixaste milho, comido pelas pombas, pelo tempo (e em rigor por tua acção de apaganço e rasganço - oh, sensação boa!, pena não ter ido rigorosamente tudo à viola, isso sim, teria sido uma medida profiláctica). As pequenas pedras parecem estar mais consistentes. Se resistentes ao tempo e aos teus vaipes não sabes. Mas também não interessa nada. O que interessa é que te trazem sempre a casa, reconstroem-te perante aquilo que foste e és, gostes ou não gostes. Te orgulhe ou te envergonhe. É como a vida assumida. A tua casa e o caminho para ela estão bem à vista de todos. Não vens do nada, por bela que seja essa imagem lírica da forasteira, traje que usaste (e usarás se te apetecer) tantos anos e te assenta bem. Explicado mil vezes: filmes western, versos de Ricardo Reis, gosto pelas viagens e eterna sensação de ser olhada com desconfiança ou desconsideração, apesar de amada e da atenção que te dedicam. Os primeiros três casos, os do passado. O último, uma descoberta mais recente. Engraçado, expressaste essa mágoa de incompreensão precisamente quando principiaste a achar que és injusta com algumas pessoas que reparas agora não só não desconfiam como te mostram as mãos abertas seja na vida física, dizendo-te abertamente o que pensam e sentem sem cálculo, seja aqui na internet, vindo conversar contigo directa e francamente das coisas mais comezinhas às mais densas, à vista desarmada, de quem está na vida com uma só cara, como procuraste sempre estar. Ficas grata, só podes ficar agradecida.
Ai, isto era para ser apenas uma linha e desembainhaste os dedos. Ao fim da tarde voltarás. Tomara o sono te permita continuar a deixar os dedos soltos.
O tempo contado e essa vontade de te elevares acima do trivial. Despegar das notícias qual gaivota presa a estrebuchar as asas depois de apanhada na corrente de crude. Relês postais antigos e dás por laivos de beleza no passado recente. Perguntas como é possível coabitar os dois planos: o da dita realidade crua que é cada vez mais fictícia e o mundo do belo, das sensações tão frágeis, intensas e apetecíveis. Quase tido por escape, como se não fosse ele a própria vida, a própria verdade. Corrompido, cada dia mais corrompido pela torrente pseudo-informativa. Tens pouco tempo. Muito pouco tempo para esperas e floreados. Segues de enfiada em demorada escolha de palavras ao acaso. Baralhas-te e não queres nem saber. Desejas chuva bem molhada, árvores que se vão despindo, sol a romper entre o céu enublado, rios desbragados em rodopios envolventes, vento frio qual lâmina cortante, serra altiva num gemido de delícias tremulas e esse mar desvairado de maré cheia a vazar forte em êxtase.
Esta manhã andarilhei como de costume ao vir trabalhar. Ao passar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima vi estar aberta – reparo sempre haver um dia da semana em que a porta está aberta, mas nunca fixei qual o dia. Será sempre às sextas? Não sei. O certo é que entrei e lá estive talvez três ou quatro minutos. Tentei rezar as três únicas orações que consegui fixar na vida – foi uma ateia que me deu catequese em criança e sempre tive péssima memória, pelo que está explicado -, ainda assim saíram todas baralhadas. Menos baralhadas foram as negociatas desonestas que fiz com Jesus Cristo e Nossa Senhora – os meus olhos ainda demoraram a encontrá-la, apesar de estar bem visível. Também chamei Deus à negociata olhando para a abóbada – tudo muito visual e previsível, sou básica nestas e na maioria das coisas. Basicamente pedi que me desenrascassem dos nós que dou à vida e a vida a mim. Embaralho-me toda. Em suma, pedi o melhor dos mundos. A solução perfeita. E ai deles que não tratem de me ajudar - este desaforo é mentiroso, sou muito mais bolinha baixo do que se possa pensar, que isto é gente para me fazer passar as passas do Algarve, e tenho-lhes muito respeitinho. Já não entrava numa Igreja há muito. De vez em quando lá me dá para o fazer em memória dos tempos antigos, ou para agradecer qualquer coisa. Ou para pedir (a isto chamo negociata desonesta). Da última vez não fui atendida nem de perto nem de longe. Levei uma banhada de todo o tamanho. Só me fazem desfeitas, é o que é. Mas não consigo ficar zangada. Talvez por ter sido educada a respeitar e aceitar as contrariedades. A verdade é que apesar de me ter declarado ateia cerca de 20 anos - entre os 12 ou 13 e os 33 - nunca cortei os laços com esta gente insensível que tem manias e falsos rigores que nunca hei-de entender. Ainda não percebi onde é que os enfio no sentido último do Universo, mas ao que parece têm alguma ligação. São a minha forma mais familiar ou mais antiga de chegar ao dito sentido da vida. Era suposto dizer que me dão conforto, mas não seria verdade. Há inquietude. Invoco-os muito em pensamento, nomeadamente, em momentos de aflição, não sei se por tique se por real convicção. Enfim, sinto-me sempre uma batoteira.
E pronto, foi assim, e agora perdi-me e já nem sei porque contei isto. Devia vir a propósito de qualquer coisa, mas tenho de trabalhar que é para isso que me pagam.
Bom dia. Boa sexta-feira.
Fico com a sensação de ser a única a não perder um minuto de atenção com a Comissão de Inquérito à TAP. Salvo quando muito distraída a televisão berra miudezas enquanto almoço e janto interrompendo-me o mais importante: a conversa caseira. Ou quando leio títulos de jornais (nestes dias é muito recomendável não abrir os artigos e sobretudo crónicas). Ou quando leio amigos ou pessoas que respeito nos blogues. Ou quando falo ao telefone com familiares que me vão dando lamirés sobre o que se passa. Isto é, mesmo não querendo saber, apanho com a CIP na tola a toda a hora.
Socorro. Aí vem conversa de café. Podem (ai a conjugação do verbo) fechar já esta página que daqui não levam sapiência nem intrincados pormenores sobre as minudências dos factos, das provas e das leis, apenas bitaites em português mexilhão. As comissões de inquérito têm sempre a mesma lógica, desde que tenho memória, desde a de Camarate, passando pela do Banco de Portugal (a esse brilhante político premiado na Europa pela extraordinária competência, Victor Constâncio) em 2008 e pela do BES em 2014/2015.
Pingue-pongue puro. Lata e impunidade transcendental e montra de vaidades transvestida (obrigada Sócrates, sabia que me havia de ajudar nalgum momento da vida, foi hoje) de apuramento de factos e factinhos. Resultados visíveis: uns quantos falsos ais e uis de indignação de adversários políticos e sound bites para a comunicação social que depressa dissemina entre nós, os lorpas, conteúdo para graçolas ou comentários mais sérios mas sempre inconsequentes. Porque o país, esse, vai continuar (com um toque de adivinhação) a aceitar as conclusões de aparência das comissões de inquérito. E continuar a premiar a irresponsabilidade, a incompetência, a lábia e a desonestidade.
Não sei porque não acreditam em mim: somos mais desonestos do que honestos. E quando é assim a montanha pare sempre um rato. Só mudam os ratos. Os factos verdadeiros que interessam ficam em regra por revelar e ai de quem se atreva a mencioná-los porque está a lançar rumores e boatos. São só bocas de gente azeda e destemperada. É assim desde Camarate. Só sobra o conveniente à manutenção da podridão. Chamam-lhe sensatez, quando não mesmo: rigor - ironia das ironias.
Mas já sabem (ai credo, devia estar na segunda pessoa do plural): aqui só há conversa de taberna. Não percam (ai credo, outra vez) tempo. Estejam atentos, vejam tudo, liguem as televisões todas das vossas casas, oiçam todos os comentadores, as notícias nas rádios, leiam os jornais de fio a pavio, os sagrados polígrafos, sigam os vossos gurus no Twitter e outras redes sociais, sejam informados, não percam pitada, e expressem as vossas angústias circunstanciais todas. É uma forma como outra qualquer de passar a vida. Eu cá cada vez mais prefiro as conversas caseiras e intimidade. Menoridades e dúvidas existenciais.
E sempre volto ao princípio. A acreditar. Num momento de alegre entrega e concretização, de promessa, de riso solto e inconsequente.
Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.
Aprender.
Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.
Aprender.
Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar o ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar o ar de saber mais do que sabe. Não dar o ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.
Aprender.
Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.
Aprender.
As paixões passam: vividas e devaneadas. Consomem o que têm de melhor, os ímpetos, os sonhos, a vontade. Labaredas descontroladas não se compadecem do razoável e conveniente. Bem pode dizer que é perda de tempo, que é de todo inadequado ou mesmo nocivo, mas entrega-se em silêncio ao homem ou à ideia de um homem, imprudente, de mãos abertas, sem freio, absorvendo o mundo que ele transporta. Eis que o tempo vai passando, depara-se com ilusões e enganos. O fogo vivo faz-se brasa mais quieta. O assomo de realidade, de contrariedades, de pé no chão faz-se abafo. A brasa dos sonhos desencantados amorna até se transformar em cinza para adubar um coração mais sofrido, mais rico. Saiba ele fazer chegar à mioleira o que aprendeu.
Queria que ele soubesse o além do visível e do que pode ser. Como se tivesse passado um par de anos e já pudesse haver o que contar, imaginava o que recordaria desses dias. De acordar de peito desfeito em milhões de pequenos estampidos, só ao ver-se com ele num tempo e lugar remoto. Os cenários e os dias volviam como páginas do livro velho e amarelecido que leu milhentas vezes e onde sempre encontra o que procura. O livro entre os livros. A história entre as histórias. O sorriso dele a olhá-la desfazia-a por dentro, roubava todas as forças, deixando-a ali pasmada de amor, sem energia para querer compreender nada. Por uma vez sem argumentar, entregue. As mãos e braços a envolvê-la e o calor e cheiro do corpo dele embrulhados na voz densa a soltar palavras. Ela inebriada não distinguia nem sílabas quanto mais o sentido. A cócega inteira e inelutável. A certeza de num ímpeto não conseguir resistir: reunir toda a vontade ao abraçá-lo com paixão e esconder-se nele para sempre.
*

Se te cobiçam
o pequeno engenho
e louvam as tuas penas,
não te perdoam
o riso desajeitado
e a reserva de ternuras.
Querem-te inspiração corrosiva
e não te absolvem
a distância nem a dissonância.
Supõem-te ora explosiva ora esfuziante
Trova boba do circo mental,
mas coerente e cooperante.
Desejam-te a lavrar sentidas baboseiras
que enchem os corações de logros,
a esboroar à simples chamada da razão
de quem sem meneios ama,
e sucumbidos ao interesse sórdido
de quem engana.
E dás por ti de juízo tolhido,
corroída por mentir,
a pedir a quem te ama
e finge não ver
saiba ler na tua alma
segredo tão nu.
E que te iluda também,
como sabes foi capaz.
Na sabedoria faça desta trama
uma justa novela,
sem amantes despojados –
ainda que inventados -,
de armas desiguais.
*

*
Queres abalar?
Murmura
sedutor
o mar.
Já afundada
no desatino
de correntes,
águas revoltas,
redemoinhos,
respondes:
não posso.
Esbracejas,
alcanças
a areia
e a sós
acalmas
a loucura.
*

*
Não posso
ser quem quero
sequer saber
quem sou
e no que
creio.
Não digo
nem quero dizer:
é impulso
e aperto.
Consome
o dito
sentido,
por arames
preso
no pensamento,
corre solto
mas não livre.
A cura
há-de vir
esquecer
e refrear
o sentido
não dito;
escrito.