(Este texto nasceu como resposta ao post Mundo Novo do blogue Imagens.)
Mecanizar as conversas e as pesquisas é mais um passo no desenvolvimento da tecnologia que se vem fazendo com os bots há 40 anos. Quem há quase 40 anos programava nos velhinhos Spectrum já fazia qualquer coisa muito incipiente nessa matéria. Há mais de 20 anos nos chats era habitual essa ferramenta, claro que em moldes nada comparáveis aos que estamos a falar hoje. Não faço a menor ideia do que aí vem. Deixo pouco mais do que sensações.
Primeiro. Uma ideia um tanto simplista: também a televisão durante 80 anos foi um meio de disseminação de visões do mundo, tantas vezes adulteradas.
Segundo. A dúvida se é a tecnologia que anda a reboque da realidade ou esta daquela. Ou seja, a televisão, que já fora usada para a propaganda por Hitler (tal como o controlo e perversão da imprensa) popularizou-se nos anos após a Segunda Grande Guerra, num ambiente de vitória dos valores democráticos e da Liberdade. Na Europa, num ambiente de renascimento e cooperação entre Estados. O desenvolvimento da tecnologia de transmissão de imagens por via electrónica, apesar de ter começado a dar os primeiros passos nas vésperas do horror nazi, está mais associado a momentos felizes, digamos assim. Por cá, crescemos a ver as guerras ao longe (no caso português, apesar de estarmos envolvidos em guerra nos anos 60/70), a assistir à denúncia dos regimes totalitários. Esse é o testemunho que sobressai da televisão. Apesar disso, criaram-se na comunicação social, sobretudo na televisão, mas não só, mitos e simplismos, dividindo o mundo, nas últimas décadas, entre os puros e os perigosos fascistas - nos últimos anos também entre os puros e os perigosos comunistas -, desprezando todo o contributo que qualquer individuo considerado mais radical de direita ou esquerda possa dar. Por exemplo, é muito comum em Portugal haver absoluta incapacidade para ler uma pessoa válida, informada, culta e lúcida, por estar conotada com a defesa do Salazarismo - tal como há, em meios com menos audiência até há pouco, anticorpos inultrapassáveis em ouvir gente que tenha estado empenhada nos anos 70 na defesa da criação de um Estado Socialista e não renegue esse passado. E quem dá estes exemplos dá outros mais actuais. Seja o caso dos defensores da privatização da Saúde e dos protectores do Serviço Nacional de Saúde. As incompreensões em tempos de crise e de sensibilidades à flor da pele acicatam de parte a parte a agressividade (tantas vezes disfarçada de cinismo) e tornam mais engenhosos e cada vez mais radicais e cheios de razão os defensores de cada lado das barricadas, não permitindo chegar a pontos de confluência de interesses e valores, a bem do país.
Terceiro, o aparecimento e massificação da internet, uma ferramenta criada inicialmente para troca de conteúdos entre universidades, está a dar-se num momento de decadência da Liberdade. Não sei explicar a raiz dessa decadência. Ainda será cedo para entender ou serei lenta, é bem possível. Claro que há gente que a explica de uma penada com a ignorância, a falta de exigência no ensino e a desvalorização da importância do conhecimento do passado – às vezes vejo a defesa destes argumentos feita por gente que a todo o momento revela abundância de preconceitos e profunda ignorância não tendo a menor consciência dela. É verdade que a falta de juízo crítico e a notória falta de conhecimentos de História (às vezes, em supostos estudiosos da área) de vasta percentagem da população não augura nada de bom, mas não sei se isto por si só explica a decadência. Afinal o mundo nunca deixou de ser assim: uma elite com acesso ao conhecimento e ao poder face a populações manipuláveis. Apesar de hoje compostas de cada vez maiores camadas de gente mais “informada”, com mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos do que nunca - e mais convencidas da sua ciência do que nunca.
Quarto. Há um factor que distingue decisivamente a televisão da internet: a obscuridade da identidade de quem tem acesso ao poder. Sempre tivemos demagogos e manipuladores na televisão, mas sabíamos quem eram, tinham face. Na internet a identidade é diluída. A manipulação da opinião pública, ou dos utilizadores das redes sociais, é feita sem os constrangimentos que a coragem do assumir da identidade por inteiro acarreta. A disseminação das falsidades e o uso de perversidades são feitos muitas vezes sob anonimato ou pseudónimo. E mesmo que não haja anonimato há uma certa capa de protecção que o mundo online confere retirando susceptibilidades e fragilidades que o mundo físico impõe.
Quinto. A vida online permite interacção, tornando-se por isso mais viciante do que o mera atitude passiva de assistência da televisão ou dos outros meios de comunicação social. A interacção potencia a ideia que se faz parte da rede – uma convicção de aparente democraticidade por participação cívica. Pode induzir na ideia errada de que se tem mais poder e influência do que efectivamente existe. Ou seja, quanto menos preparado e, simultaneamente, mais ambicioso o individuo for mais perigosa será para si a utilização da internet – acabará por ser engolido pelo próprio logro.
Sexto. No entretanto, o mundo online permite a ascensão à governação e ao mundo das influências e interesses sociais, económicos, políticos e culturais daqueles que sempre a eles acederam: os que valorizam e sabem gerir as redes de relações interessadas e os mais habilidosos na retórica e no uso da tecnologia, hoje sob a égide dos grandes grupos económicos, nos quais também figuram as grandes empresas tecnológicas, a quem tudo quanto interessa é vender e ganhar mais, compactuando se preciso for com ideários totalitários, de esquerda ou de direita. Se hoje se inclinam mais para um lado, amanhã mudarão: o dinheiro não tem cor, cede a quem der mais.
Sétimo. O ChatGPT como “aperfeiçoamento” de pesquisas e conversas mecanizadas é tanto mais perigoso quanto se tiver em consideração os pontos anteriores. Não deixando de ser verdade o que digo, será lutar contra a evolução e o futuro dizer que é um instrumento tecnológico apto a ser usado para manipular a opinião pública e que pode ser utilizado na propaganda sendo desaconselhável na organização de entidades públicas e privadas por já todos conhecermos as enormes deficiências e contra-indicações das máquinas que conversam connosco. Apesar do susto de ver uma ferramenta em potência insensível e ignorante ser utilizada em termos universais, ela vingará quer barafustemos ou não. Sempre foi assim que os progressos tecnológicos se impuseram no mundo. Cabe-nos apenas perceber que, como a televisão, esta ferramenta fundada na IA pode ser usada para fins de manipulação, de propaganda totalitária e puritana, ou ser utilizada de forma a promover os valores democráticos e a Liberdade. E se hoje é usada para debitar uma cartilha tendencialmente de esquerda e identitária, é porque é isso que vende. É por haver comprador. Isso sim devia levar muitos bem pensantes e orientadores de opinião na comunicação social e redes sociais a pôr a mão na consciência e perceber que mentalidade dominante ajudaram a criar nas últimas décadas. Inverter a situação não passa por ser reaccionário, mas por fazer contrapeso sensato e corajoso. Em Portugal, em concreto, há anos de atraso no que diz respeito à aceitação de algumas ideias moderadas (tidas erroneamante por radicais) de direita que são pura e simplesmente enxovalhadas na comunicação e redes sociais, sempre que ditas em voz alta. Mas para que elas sejam aceites é preciso acabar com duas pechas de direita: a típica prosápia infundada e a falta de sensibilidade social.