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25/05/2023

Moralismos à quinta-feira

Breves palavras para deixar registo hoje, apesar de muito atrapalhada de tempo. Mais considerações miúdas. Novamente sobre a mentalidade lifestyle. Uma para registar o sufoco a que somos sujeitos com o bombardeamento de conselhos: não coma aquilo de manhã, não beba aquilo à noite, não se sente assim, não vista isto, não dê isto ao gato, não diga isto aos seus amigos, enfim. Uma infinidade de alvitres, na maioria dos casos correspondentes não ao bom senso, mas a modas. E se em muitos tem a consequência de os fazer muito senhores dos seus actos, disseminando esses doutos pareceres nos contactos diários sem querer saber da sua oportunidade e veracidade, outros há que ficam cilindrados com tanta sabedoria alheia, incapazes de formular pensamento próprio por exaustão de consumo de pseudo-informação.


Há dias o telemóvel dizia-me que as pessoas que pedem muitas vezes desculpa têm problemas emocionais. Afirmando peremptórios que não é uma questão de educação, mas de insegurança e falta de auto-estima. E estamos nisto. A psicologia lifestyle lida muito mal com as regras de educação e assim se cria e alimenta uma sociedade cheia de si e pronta a atropelar os outros. Mais uma vez refiro: pensar em conflito de interesses e conflito de direitos é coisa fora de moda. A palavra de ordem é “afirma-te”, “gosta se ti”, “impõe-te”, “és o maior da tua rua”. Nada contra se daqui se fosse buscar ânimo e segurança para quem deles precisa e não se tratasse de incentivo constante ao abuso e desrespeito pelos interesses e espaço alheio e de estimulo à falta de consciência do real valor por auto-enaltecimento oco.


Não falar de cima da burra ou de modo crespo ou com condescendência como se fosse possuidor de algum especial valor ou ascendente sobre os outros, é uma regra de boa educação. E pedir desculpa é, em regra, sinal de civilidade. Só numa sociedade podre como a nossa está a ficar é que vinga a ideia do “as desculpas não se pedem, evitam-se”. A soberba incivil dos cheios de certeza que nunca erram chega a este ponto. Dar a imagem de estar num pedestal só convence os que não têm amor-próprio ou procuram favores. É esta a razão de gente inescrupulosa estar rodeada de “adeptos” como se de uma claque de clube de futebol se tratasse. Gente presumida que leva tudo e todos à frente sem considerar ou respeitar o que os outros pensam e sentem, a menos que daí tire vantagem, poderá até ter sucesso aparente, mas viverá sempre na solidão ainda que rodeado de família e muitos "amigos" e "adeptos".


E pronto, foram as notas morais das Comezinhas de hoje. Para moralistas encapotados, moralista e meia assumida. Afinal há que fazer frente aos que se fazem passar sempre por muito sábios, isentos, rigorosos e avessos aos puritanismos e todos os dias disseminam a sua mensagem puritana disfarçada. 


Não sei se abra uma rubrica: moralismos à quinta-feira. Afinal gosto de sermões. Tão fora de moda. Não é nada sexy nem excitante - assim não arranjo casamento. Que maçada.