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17/05/2023

A Guerra

Já jantei. Arroz de berbigão. Hoje juntei ervilhas e não me arrependi. É um dos menus recorrentes nos últimos meses. Outros costumeiros: salmão com batata cozida, massa com cogumelos, grão com massa e carne de rojões com chouriço, salada russa com maionese, massa tortellini com almôndegas, salada de grão, salada com ovos mexidos, por aí. Só coisas antiquadas ou triviais. Nem um pratinho com truques e sapiência de amante da gastronomia nem um quê chique e sofisticado da modernidade. Esta é uma casa muito enfadonha, não tem o appeal lifestyle. É uma maçada.


Este serão para compensar tive direito à cadeira da mesa do computador só para mim. Tenho-a dividido com o gato, que nos últimos dias parece uma galinha choca agarrado à cadeira. Hoje desalojei-o a bem das minhas costas. Isto de me sentar na pontinha para o bicho continuar a dormir tem de acabar. Bem sei que é da praxe dizer que o gato é um animal doméstico cheio de personalidade e que por isso manda nos donos. É, manda com limites. Ainda não estamos todos tolos.


Na busca do razoável pondero a possibilidade de cada vez que fico danada com qualquer situação de se tratar de reacção contra uma das inevitabilidades da condição humana e do universo físico ou de efectiva e legítima razão de queixa com possibilidade de mudança pela denúncia, com possibilidade de correcção. Afinal é disso que tem sido feita a evolução (histórica) da humanidade, com avanços e retrocessos.


Num tempo de luta entre agressores que vestem o traje de inocentes conservadores e progressistas puritanos, entre cínicos e excitados das causas identitárias é bom conseguir um reduto de sensatez que permita a convivência civilizada. Afinal se é certo o perigo do fundamentalismo e da censura e se não desconheces que o progresso na história da humanidade não é linear, também não ignoras que várias conquistas civilizacionais decorreram de tempos de excesso de retórica e violência. O progresso é manifestação e decorre dos ajustes necessários por mais catalogado de estúpido seja por quem se assusta com as tempestades sociais e culturais dos tempos de mudança veloz. Tempos de querela.


A querela vende e por isso rende ou perdura. É alimentada pela comunicação e redes sociais. Haverá sempre quem se excite com a possibilidade de orientar e doutrinar os outros em função das suas obsessões e paranóias puritanas seja em matéria, por exemplo, de políticas de saúde pública (tantas vezes alimentadas por interesses económicos), de gostos gastronómicos, culturais ou de preferências de orientação sexual. Não chega ser livre ou ver os seus direitos individuais garantidos. É preciso condenar os outros a vidas que espelhem a orientação dominante dos doutrinadores. Quem não adere, estrebucha, manifestando-se com igual intransigência na defesa de valores sagrados ou tradicionalistas. Às causas do ressentimento e voluntarismo idiotas dos progressistas e à sua busca de autoridade moral e poder fáctico opõe-se a reacção indignada dos valores adquiridos e instalados que conferem segurança, estatuto e poder retrógrado e hierarquizado por moral arbitrária. Todos os dias há tema de polémica. Numa época em que a escolarização já foi democratizada e há acesso generalizado à informação, num tempo em todos têm opinião - gostam e pior ou melhor sabem argumentar, tendo a maioria muitas certezas e vontade de as expressar, mas nunca dúvidas -, quem explora os jornais, televisões e redes sociais esfrega as mãos: tudo isto vende. A opinião obtusa, ao contrário da lógica, é produto com muita procura. O mercado da querela moral e da combatividade é fulgurante. Tem muita audiência. Vale a lei da força de quem fala mais alto, de quem é mais visível, de quem mais manipula. Como interessa a intensidade e provocar comoção, salta-se de indignação em indignação sem parar para avaliar as contradições e ilações que daí se podem retirar. Sem criar o distanciamento suficiente para ver o panorama, afundando no lodaçal da discussão infrutífera. Debate improdutivo para nós meros peões, mas muito lucrativo para quem explora as entidades e plataformas onde este debate de desenrola e, claro, para todos os artistas de palco que usam a retórica e os floretes de oratória para daí obter protagonismo e com ele ganho reputacional e acesso ao poder. É o pretenso mundo das ideias e opiniões sujeito às leis do mercado e dos joguetes de poder com a chancela de Democracia.


Não foi nada disto que pensei durante o dia. Não era isto que ia escrever. Enfim. Foi o que saiu a partir da pequenina ideia (uma das muitas que me ocorreram durante o dia e não tomei nota) que me passou pela cabeça de manhã: as irritações com as injustiças a que fui e vou sendo sujeita (todos temos um capital de choraminguice) são arbitrariedades que decorrem da estupidez alheia ou antes da condição humana e da natureza das coisas?


Vou inserir isto na série A Guerra já que há apontamentos que se referem ao espírito do tempo e por isso entremeei com aquelas notas caseiras que fazem isto ficar desajustado quanto baste para não ser levado a sério.