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18/05/2023

A carta

Ridícula até ao fim


por Isabel Paulos, em 19.04.23

 

E sempre volto ao princípio. A acreditar. Num momento de alegre entrega e concretização, de promessa, de riso solto e inconsequente.


Dizem os sábios que os românticos são patéticos. Expõem os pretensos lúcidos os ridículos suspiros e dores incuráveis dos sonhadores. Escondem-se os críticos atrás de suposta capacidade de análise e julgamento da ingenuidade alheia. Como se fossem capazes de se entregar à vida e ao amor. Como se soubessem viver sem calculómetro e amparo de uma sólida e oportuna rede de estereótipos.

 

Uma vida inconstante de tropeços e destemperos entre amarguras e contentamentos, mas uma vida verdadeira no meio de armadilhas e desenlaces honestos. Uma vida estranha aos criadores de figurinos de estilo sapiente que sentenciam ao ridículo tudo o quanto de mais autêntico os apavora. Quão cobarde é a aparente sofisticação. Quanta necessidade de diminuir a verdade cobrindo-a de julgamento hábil despido de sentimento. Quanta necessidade de abafar o amor esquadrinhando um plano perfeito e inteligente no qual tudo se reduza ao aceite na época, em mui razoável contra-cliché a debitar numa qualquer conversa de circunstância entre gente que se tem em grande conta.

 

E sempre volto ao princípio. À dúvida, à dor, à alegria, à entrega e ao riso. Ao amor. E sempre acredito. Até ao fim.

 

*




Ingenuidade


por Isabel Paulos, em 24.07.22

 




Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.


Aprender.


Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.


Aprender.


Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar o ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar o ar de saber mais do que sabe. Não dar o ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.


Aprender.


Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.


Aprender.


*


Abafo


por Isabel Paulos, em 25.03.22

 


As paixões passam: vividas e devaneadas. Consomem o que têm de melhor, os ímpetos, os sonhos, a vontade. Labaredas descontroladas não se compadecem do razoável e conveniente. Bem pode dizer que é perda de tempo, que é de todo inadequado ou mesmo nocivo, mas entrega-se em silêncio ao homem ou à ideia de um homem, imprudente, de mãos abertas, sem freio, absorvendo o mundo que ele transporta. Eis que o tempo vai passando, depara-se com ilusões e enganos. O fogo vivo faz-se brasa mais quieta. O assomo de realidade, de contrariedades, de pé no chão faz-se abafo. A brasa dos sonhos desencantados amorna até se transformar em cinza para adubar um coração mais sofrido, mais rico. Saiba ele fazer chegar à mioleira o que aprendeu.





*


Pasmada


por Isabel Paulos, em 15.02.21

 




Queria que ele soubesse o além do visível e do que pode ser. Como se tivesse passado um par de anos e já pudesse haver o que contar, imaginava o que recordaria desses dias. De acordar de peito desfeito em milhões de pequenos estampidos, só ao ver-se com ele num tempo e lugar remoto. Os cenários e os dias volviam como páginas do livro velho e amarelecido que leu milhentas vezes e onde sempre encontra o que procura. O livro entre os livros. A história entre as histórias. O sorriso dele a olhá-la desfazia-a por dentro, roubava todas as forças, deixando-a ali pasmada de amor, sem energia para querer compreender nada. Por uma vez sem argumentar, entregue. As mãos e braços a envolvê-la e o calor e cheiro do corpo dele embrulhados na voz densa a soltar palavras. Ela inebriada não distinguia nem sílabas quanto mais o sentido. A cócega inteira e inelutável. A certeza de num ímpeto não conseguir resistir: reunir toda a vontade ao abraçá-lo com paixão e esconder-se nele para sempre.


*





Dignidade


por Isabel Paulos, em 06.01.21

 




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Se te cobiçam


o pequeno engenho


e louvam as tuas penas,


não te perdoam


o riso desajeitado


e a reserva de ternuras.


 


Querem-te inspiração corrosiva


e não te absolvem


a distância nem a dissonância.


Supõem-te ora explosiva ora esfuziante


Trova boba do circo mental,


mas coerente e cooperante.


 


Desejam-te a lavrar sentidas baboseiras


que enchem os corações de logros,


a esboroar à simples chamada da razão


de quem sem meneios ama,


e sucumbidos ao interesse sórdido


de quem engana.


 


E dás por ti de juízo tolhido,


corroída por mentir,


a pedir a quem te ama


e finge não ver


saiba ler na tua alma


segredo tão nu.


 


E que te iluda também,


como sabes foi capaz.


Na sabedoria faça desta trama


uma justa novela,


sem amantes despojados –


ainda que inventados -,


de armas desiguais.


*


Não posso


por Isabel Paulos, em 13.05.20

 


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*


Queres abalar?


Murmura


sedutor


o mar.


Já afundada


no desatino


de correntes,


águas revoltas,


redemoinhos,


respondes:


não posso.


Esbracejas,


alcanças


a areia


e a sós


acalmas


a loucura.


 


*


 


A cura





por Isabel Paulos, em 28.03.20




 


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*


 


Não posso


ser quem quero


sequer saber


quem sou


e no que


creio.


 


Não digo


nem quero dizer:


é impulso


e aperto.


Consome


o dito


sentido,


por arames


preso


no pensamento,


corre solto


mas não livre.


 


A cura


há-de vir


esquecer


e refrear


o sentido


não dito;


escrito.