Ridícula até ao fim
E sempre volto ao princípio. A acreditar. Num momento de alegre entrega e concretização, de promessa, de riso solto e inconsequente.
Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.
Aprender.
Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.
Aprender.
Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar o ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar o ar de saber mais do que sabe. Não dar o ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.
Aprender.
Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.
Aprender.
*
Abafo
As paixões passam: vividas e devaneadas. Consomem o que têm de melhor, os ímpetos, os sonhos, a vontade. Labaredas descontroladas não se compadecem do razoável e conveniente. Bem pode dizer que é perda de tempo, que é de todo inadequado ou mesmo nocivo, mas entrega-se em silêncio ao homem ou à ideia de um homem, imprudente, de mãos abertas, sem freio, absorvendo o mundo que ele transporta. Eis que o tempo vai passando, depara-se com ilusões e enganos. O fogo vivo faz-se brasa mais quieta. O assomo de realidade, de contrariedades, de pé no chão faz-se abafo. A brasa dos sonhos desencantados amorna até se transformar em cinza para adubar um coração mais sofrido, mais rico. Saiba ele fazer chegar à mioleira o que aprendeu.
Queria que ele soubesse o além do visível e do que pode ser. Como se tivesse passado um par de anos e já pudesse haver o que contar, imaginava o que recordaria desses dias. De acordar de peito desfeito em milhões de pequenos estampidos, só ao ver-se com ele num tempo e lugar remoto. Os cenários e os dias volviam como páginas do livro velho e amarelecido que leu milhentas vezes e onde sempre encontra o que procura. O livro entre os livros. A história entre as histórias. O sorriso dele a olhá-la desfazia-a por dentro, roubava todas as forças, deixando-a ali pasmada de amor, sem energia para querer compreender nada. Por uma vez sem argumentar, entregue. As mãos e braços a envolvê-la e o calor e cheiro do corpo dele embrulhados na voz densa a soltar palavras. Ela inebriada não distinguia nem sílabas quanto mais o sentido. A cócega inteira e inelutável. A certeza de num ímpeto não conseguir resistir: reunir toda a vontade ao abraçá-lo com paixão e esconder-se nele para sempre.
*

Se te cobiçam
o pequeno engenho
e louvam as tuas penas,
não te perdoam
o riso desajeitado
e a reserva de ternuras.
Querem-te inspiração corrosiva
e não te absolvem
a distância nem a dissonância.
Supõem-te ora explosiva ora esfuziante
Trova boba do circo mental,
mas coerente e cooperante.
Desejam-te a lavrar sentidas baboseiras
que enchem os corações de logros,
a esboroar à simples chamada da razão
de quem sem meneios ama,
e sucumbidos ao interesse sórdido
de quem engana.
E dás por ti de juízo tolhido,
corroída por mentir,
a pedir a quem te ama
e finge não ver
saiba ler na tua alma
segredo tão nu.
E que te iluda também,
como sabes foi capaz.
Na sabedoria faça desta trama
uma justa novela,
sem amantes despojados –
ainda que inventados -,
de armas desiguais.
*
Não posso

*
Queres abalar?
Murmura
sedutor
o mar.
Já afundada
no desatino
de correntes,
águas revoltas,
redemoinhos,
respondes:
não posso.
Esbracejas,
alcanças
a areia
e a sós
acalmas
a loucura.
*

*
Não posso
ser quem quero
sequer saber
quem sou
e no que
creio.
Não digo
nem quero dizer:
é impulso
e aperto.
Consome
o dito
sentido,
por arames
preso
no pensamento,
corre solto
mas não livre.
A cura
há-de vir
esquecer
e refrear
o sentido
não dito;
escrito.