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07/05/2023

Diário

Um fim-de-semana arredada das notícias. Quase não li jornais. O pouquíssimo contacto que tive com a actualidade é absolutamente superficial: aquele chamariz com que somos inundados ao abrir os telemóveis e os portais online. E vi pouco mais do que a abertura dos jornais televisivos como acompanhamento distraído do almoço e jantar.


Ontem desperdicei a manhã quase toda apesar de acordar cedíssimo e entre os milhentos pensamentos enredei-me a cogitar que sempre tratei como perda de tempo e preguiça os momentos de devaneio. E afinal, isso que faço desde criança (gastar tempos infindos embrenhada nos pensamentos, mais do que em diálogo com outros, apesar de conversar também ser um dos meus prazeres) criou o lastro necessário e esta torrente de escrita. Ainda que não seja útil para os outros e não tenha importância nenhuma, teve-a para mim. Por dar sentido a esta fase da vida, que com probabilidade se esvanecerá como as anteriores. Dar sentido a esse tempo perdido. Faz-me pensar no tal fio condutor que dá sentido à vida e que nada é por acaso. Melhor: pouco é por acaso.


Li um capítulo da alemã, de quem manifestamente não gosto nem um pouquinho, mas vou continuar a ler para conhecer o que não sei ou já me esqueci. O livro rende, rende. Devagarinho, mesmo em segunda leitura. Fiz intervalo nos podcast E o Resto é História, por estar com falta de paciência. Reguei as plantas. Vi que a nespereira está com um verde mais escuro e além das folhas novas no topo está cheia de rebentos nos finos troncos (quando a plantei, deitei dois caroços à terra e nasceram duas nespereiras paralelas). Acho que gostou do fertilizante líquido que deitei há dois meses. A japoneira também está com as folhas mais saudáveis. Já a alegria morreu em dias depois de receber o fertilizante. Vá-se lá entender estas camoecas de plantas sensíveis. Dormi um pouquinho de tarde. Fui ao supermercado e comprei rosas para dar hoje à minha mãe. À noite fiz cera. Perdi mais tempo. E antes de dormir ouvi a minha bruxinha que me preconizou optimismo e realizações. Sabiamente aconselhou que pusesse travão em pensamentos negativos ou conflituosos (ela não diz isto exactamente, mas interpreto sempre como quero ou como é útil). No fundo aconselhava-me a pacificar comigo mesma e a aceitar a vida e as limitações. Não haja dúvida que é sensato não perder tempo com a negatividade. Por curiosidade vi que aconselhava outros a pararem de julgar tudo e todos (a si próprios e aos outros) por rigidez e preconceito. Pararem de controlar e manipular. E vi-a fazer uma dissertação pertinente sobre a forma como vinga no mundo a falta de crença na sociedade e nos outros. Curiosamente falou nas certezas e intolerância associada, mas disso já me escuso falar – nas Comezinhas já explanei reiteradamente o que penso sobre o assunto. Referiu-se também à desconfiança resultante da falta de cura de decepções emocionais. Enfim, tretas, dirão os iluminados que vêem em todo o esoterismo uma crença perigosa, nada mais do que ignorância e desonestidade. Seja, a mim, que sou um calhau cheio de defeitos neste tempo em que todos estão certos, servem-me estes lugares-comuns do mundo esotérico. De tudo quanto retiro desta semana é que devo afastar a negatividade e a perda de tempo com conflito. Dir-me-iam que para isso não era preciso ler ou ouvir bruxas, bastava bom senso. Em regra quem diz isto não perde tempo em buscar saber o que os outros sentem. Dá muito trabalho.


Hoje acordei ainda mais cedo do que ontem. Tomei café a deambular pela casa e o +1 - das coisas que mais gozo me dão aos sábados e domingos. Gozar de tempo para deixar arrefecer o café e bebericá-lo entre brincadeiras com o gato, espreitar o dia por segundos através janela e fazer ronha. Julgo que transferi o prazer das noitadas para as manhãs do fim-de-semana. São os momentos mais felizes da semana. Mas, ao contrário da manhã de ontem, o estado de espírito nesta manhã não era nada bom. Ainda assim não há como mexer. Fui nadar e passei no chinês para comprar collants. Conversei com a dona da loja mais do que um minuto pela primeira vez. Segui com a minha mãe (hoje era o seu dia) em busca de cortinas. Um presente de aniversário com dois meses de atraso. Compradas no Leroy Merlin. Seguimos para o Espaço Casa, onde comprei um carrinho multiusos em promoção. À chegada a casa conversei com a vizinha do quarto andar, que estava nervosíssima com mais do que motivos: um dos seus gatos caiu no fosso do prédio. Assisti da janela ao salvamento do bichano e do que me pareceu saiu sem graves mazelas. A ver vamos. Amanhã vou subir pela primeira vez ao quarto andar para saber se ficou tudo bem.   


Depois do almoço dormi a meia hora que me retemperou. Vi uma mensagem bonita de WhatsApp da minha mãe com a fotografia dos ramos de flores que recebeu. E segui com o meu pai para Gaia ao encontro do meu sobrinho na nova morada. Entreguei-lhe as cortinas da sala. E gozei da companhia de avô e neto. Regressada a casa desempacotei o carrinho de metal preto, de péssima qualidade - as pechinchas dão nisto. Uma imitação de outro carro de arrumação do IKEA que já cá tinha em casa e é bem acabado. O Nuno montou-o sozinho. Tataranha como sou limitei-me a descrever de uma vez as instruções e a passar as peças. Bom, em abono da verdade, também contribuí com a minha estupidez natural ao contrariá-lo na direcção dos parafusos. Em segundos percebi que ele tinha razão como costuma acontecer em quase tudo quanto seja preciso usar a lógica. Uma vez montado trouxe-o para o +1 substituindo o do IKEA, que por ser azul inglês fica a fazer pandã na sala. O melhor efeito útil da novidade é libertar espaço do móvel da televisão e permitir dar desafogo ao meu dilecto Buda, a quem não tenho dado a atenção que merece e tanta paz me trouxe numa fase importante da vida não muito distante. Porém a ideia inicial é ter onde poisar “coisas” na sala. Espero não a estar a atafulhar. Para dar uso ao novo elemento da casa tomámos um whisky antes do jantar, coisa raríssima e que vai sendo cada vez mais pontual nas noites de fim-de-semana. Jantei e vim para aqui escrever este diário, sabendo que a humanidade não poderia sobreviver sem tão importantes notas do dia-a-dia.