
Se a primeira já não fazia sentido, há que insistir com segunda. Gosto particularmente do que não faz outro sentido senão ao que apetece. Chamam-lhe mania. E tão ralada fico. Os dias parecem todos muito parecidos, mas só à superfície de peças de roupa e sapatos iguais ou semelhantes ou o mesmo trajecto ou o mesmo edifício como local de trabalho ou as tarefas análogas.
Quem sem noção do pouco que é se vê ou almeja heroicidade e destaque na vida não se conforma com dias ou peças de roupa iguais, sente-se credor do privilégio do reconhecimento da sua autoridade. Vivo a ouvir e ler quem se crê uma autoridade em matérias várias, aliás, na própria vida. Merecedor de distinção, remunerações ou outras regalias pelos serviços inestimáveis que presta à comunidade. Pena que averiguando a sua sapiência se perceba que na maioria dos casos não passe de parlapiê ou de aproveitamento de efectivo (ah, os novos aristocratas da gramática não gostam deste tipo de palavras) trabalho e talento alheio.
Conversa fiada e oportunismo, eis as grandes competências que deveriam constar dos currículos de muita gente de grande sucesso, lado a lado com o elenco dos amigos que interessam. Em muitos casos é quanto baste ao currículo português de sucesso: parlapiê, oportunismo e amigos convenientes. Pronto, concedo: e coragem (lábia) e investimento de tempo para memorizar e argumentar.
E nem sequer fazem um juízo negativo de tudo disto: acham normalíssimo. Chamam a isto inteligência, competência e até, pasme-se, rigor. E apesar das balelas sofisticadíssimas que debitam para impressionar papalvos podem não ter a mais pequena ideia como se resolvem questões práticas da vida, como por exemplo as dificuldades de gerir uma empresa ou de como cumprir com empenho e dedicação tarefas diárias de um qualquer posto de trabalho. Sobretudo, em quase tudo relevam uma enorme falta de reflexão e bom senso; uma colossal ausência senso de justiça. Daí a prosápia que manifestam. Gente que se têm por iluminada e por isso não se sujeita ou resigna a trabalhar ou executar aquilo que considera funções menores, preferindo e achando-se uma autoridade ao debitar pareceres, opiniões, juízos e, naturalmente, a dirigir ou chefiar atento saber vender esta aparência de perfil de líder. Coisa de gente superior, enfim. Merecedora de todas as vénias e salamaleques. Neste país de ridículos sabichões. Peritos da treta que vivem do paleio, vivem a denunciar as incompetências alheias da sociedade civil, sendo incapazes de compreender que eles próprios são o cancro maior do país.
Bom dia.