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30/04/2022

A ver

A ver na SIC o programa 60 Minutos sobre a capacidade de destruição da Rússia através de ciber-ataques, nomeadamente no sector da energia incluindo a nuclear, e a forma como os Estados Unidos se preparam para os ditos e pretendem retaliar.


De recordar que Portugal, como vários países, foi alvo em Fevereiro último de ciber-ataques com origem numa bem estruturada máfia de hackers russa a empresas do sector das telecomunicações, saúde, audiovisual e financeiro.


De lembrar que essa máfia ataca em bloco através de milhares de pontos espalhados pelo mundo. 

Ex-pata

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Há uma noção básica de bom senso que muitos não conseguem perceber ao comentarem a invasão da Ucrânia pela Rússia, habituados que estão ao sensacionalismo e à linguagem de claque do futebol. Condenar com clareza a invasão, os crimes de guerra, o facínora do Putin e a sua clique não implica beatificar os Estados Unidos. Ser cauteloso ou mesmo crítico do papel dos norte-americanos no mundo não é incompatível com tomar posição pelo lado certo. É tão só ser prudente e, em muitos casos, tirar lições da História.


Digo isto bem ciente de também ter feito no passado o papel de pato ou, no caso, de pata, ao entrar no pingue-pongue infantil anti-comunismo versus anti-americanismo, cuja consequência é a eternização do conflito, e com isto não estou obviamente a defender a rendição da Ucrânia.

A apropriação

Muitas das lenga-lengas ideológicas a propósito por exemplo da música são anedóticas. E quem diz música, diz pintura ou literatura. O branqueamento da realidade passada em beneficio do endeusamento dos bens amados vigentes é um exercício de pura desonestidade. Mas é isso que vinga. A verdade fica sempre mais escondida e recatada, apesar da moda dos ardilosos polígrafos, que prescrevem aparentes verdades. O que interessa é fazer associações primárias ou falsas para defender os privilegiados do regime que se dizem todos muito solidários com os desfavorecidos e oprimidos, mas de modo que não os faça parecer anacrónicos - dizem-no numa retórica moderna e sofisticada que sou incapaz de reproduzir. Essas ladainhas de sucessivas efabulações disseminaram-se na sociedade de tal modo que os últimos se convenceram de tais "verdades" suportando com ignorância e voto o status dos primeiros. Até ver, começam a desconfiar.


Não há sentido crítico de espécie alguma, mas apenas mexerico e maledicência para entreter elites de fancaria e populaça, que têm vivido em profunda harmonia nesta paz podre pronta a explodir.


Não há concessões ao sensato, não há respeito pela verdade multiplicando-se à exaustão as historietas de evangelização e as lavagens cerebrais com milhões de notícias ditas muito factuais e opiniões fofinhas plagiadas - passadas a papel químico neste tempo insano em que não se ousa parar e pensar. Condena-se sumariamente todo aquele que disser o razoável caso não vá ao encontro dos estreitos quadros mentais que suportam os mitos em voga. Além de se enxovalhar quem chame a atenção para o perigo de visões únicas e para a iminência da substituição destas efabulações por outras mais perigosas, às quais muitos aderirão por cansaço e desconfiança da mentira. A menos que se comece a respeitar de facto e não através de aparente tolerância as visões e aspirações legítimas que vão sendo abafadas pelo ruído da evangelização, muitos quererão substituir engodo por engodo por necessidade de arejo e os chicos-espertos do costume que dominam os jornais, blogues e redes sociais e o espaço público de opinião estarão agarrados como lapas aos confortáveis postos do regime actual até ao dia em que este cair e passarem, com enorme convicção, a grandes educadores no novo sistema. São os sempre em pé, disfarçando-se de grandes democratas e defensores do pluralismo enxovalham todos quantos não pertencem às tribos de interesses ou não aderem à visão única do momento ou tão só aos que se mostrem um pouco mais rectos não usando maginâncias em política e que poderiam ser salvação ao extremismo, preferindo elogiar a inteligência e sagacidade política dos oportunistas, alçando-os à governação. Alegam que de forma perspicaz se limitam a relatar ou descrever factos, camuflando a forma como, associados e encostados em tribo alargada que debita a mesma oração diária nos espaços públicos, evangelizam a opinião pública condicionando o voto. E cheios de prosápia chamam a pessoas como eu radicais, aconselhando-as a se quiserem ser consideradas vergarem-se aos argumentos dos iluminados. Têm o Governo que quiseram e merecem: bem à imagem da elite rasca e pretensiosa que doutrina o país.

A ler

Álvaro Siza Vieira, 30 anos depois do Pritzker: "Há muitos melhores do que eu. Ai de mim quando a dúvida já não existir", no Observador.



Ao longo dos anos recebeu mais críticas construtivas ou disparates?
Construtivas são todas as que forem bem feitas, mas nós movemo-nos entre dúvidas, não há certezas em relação a atividade nenhuma. Acha que um escritor que está a escrever um livro está convencido que aquilo é genial? Não, tudo o que seja trabalho de criação contém uma grande percentagem de dúvida e a dúvida é o elemento mais útil e mais eficaz na arquitetura. Trabalhamos a partir de sequências de dúvidas, não podemos partir de certezas ou de iluminações súbitas caídas do céu. Há sempre um balanço entre convicções e dúvidas e não podemos supervalorizar uma e ignorar a outra, se não as certezas são capazes de derrapar. A dúvida pauta a atividade de qualquer criador.


Ainda costuma ter muitas dúvidas?
Muitas, principalmente no arranque dos projetos, mas não fico atormentado porque já tenho a experiência suficiente para saber que ela é necessária. Pode custar, exige uma concentração muito grande, pode causar inclusive sofrimento, mas é o elemento de trabalho certo, disso não tenho dúvidas.


*



Sábias palavras.


Com desfaçatez direi que em termos de habitação social a visão e concretização de Siza Vieira ficou muito aquém da intenção que acredito ser o mais séria possível de chegar e beneficiar os menos favorecidos. Covinha alguma praticidade agregada ao génio.


Adorei a entrevista ao venerável senhor arquitecto, por quem tenho a maior admiração. Fiquei com vontade de ir à Casa de Chá da Boa Nova. Bom pretexto para sair de casa, ou talvez não. Passou a ser espaço elitista.

Toshiko Akiyoshi



Diário

Escrever desde a primeira linha sem qualquer noção prévia do que nela ficará registado começa a ser uso. Mesclas ideias que vais tendo ao longo do dia e não estão na maioria maturadas. Será um hábito insensato além de (falta-te a palavra) leviano (talvez tenhas acertado). No tempo em que todos insultam a grosseria alheia mesmo sendo incivis e todos se querem fazer ouvir e a qualquer momento se confrontam com insultos à ignorância (não, hoje não vais falar de pavões; todos quanto te lêem já sabem do que se trata e os que venham a ler terão oportunidade de saber), não parece muito inteligente dizer o quer que seja sem freio ou sem ser num textinho muito bem calçado numa qualquer concepção aprovada pelas vozes dominantes. Mas é isso mesmo que acontece. Não foste catar temas palpitantes para dissertar, apesar de fazeres por te informar não tens opinião fechada sobre muito do essencial do correr dos dias no mundo. Sentes o Universo e tomas posição procurando não te exibires cegamente (os puristas não gostam de advérbios e tu não tens pachorra para o tédio) mais digna e com mais autoridade do que os restantes habitantes do planeta.


Trabalhaste a ritmo acelerado, a rotina dos dias corridos voltou. Intervalaste aquilo que tinhas começado a estudar. Na próxima semana deves retornar. Não tens páginas de livros para fotografar e colocar no blogue. Tens lido pouco (livros) e está muito bem assim. Convém desenjoar. O que não está bem é estares muito encafuada em casa. Situação a alterar nos próximos fins-de-semana se as estrelas permitirem.


Hoje (ontem) caiu um daqueles dias maus em que os maus vícios deste país de impunidade para trafulhas se revelam. Mas depois de te chateares e discutires acabaste por ficar numa onda de deixar rolar. Queres acreditar que as leis da Natureza acabam por funcionar. Ainda ontem (anteontem) tiveste oportunidade de verificar que às vezes se faz justiça por portas travessas. Gente que se portou muito mal contigo há menos de um ano está a ser castigada por canalhice de terceiro. Ontem (anteontem) notaste que amadureceste, ou melhor, enrijeceste. O teu usual pensamento numa ocasião como esta seria o dito correcto, ficando solidária e esquecendo o mal que te fizeram. Mas começas a perder essa postura imbecil e a regozijar em pensamento com os merecidos castigos cujo carácter enviesado não permite que a justiça da situação seja compreendida pelos alvos da divina magistratura. Não fazes questão nenhuma em beneficiar pessoalmente com a correcção e que o teu caso seja vingado - não queres nem enriquecer nem subir a nenhum pedestal. A Natureza encarrega-se de tratar do assunto à sua maneira e segues tranquila o teu discreto caminho.


Por agora é isto, esperas amanhã acordar bem-disposta e com vontade de tirar partido do fim-de-semana. Ah, só acrescentar que hoje (ontem) te deu mais um daqueles vaipes de querer mudar qualquer coisa no quotidiano. Nos últimos tempos voltaste a ponderar zarpar temporariamente do blogue, passando a concentrar a atenção nas Tílias e nos Verdes em modo caseiro e regressando ao foco na vida mais palpável. A verdade é que isto dos blogues, tal como as redes sociais (aliás, consideras os blogues uma das redes sociais) conduz a certa alienação. A menos que as relações familiares e de amizade (reais) sejam sólidas e presentes a coisa tende a não ser saudável - e isto não é só conversa para criancinhas. Sucede que este mundo estranho passou a ser o real e inevitável. A vida online impôs-se, fazendo perder tempo e disposição para o que é mais importante. Só não bates nesta tecla habitualmente porque tens reparado que quanto mais se faz esta crítica e alimenta teses sobre o assunto, mais se vive alienado das relações reais - deve ser para disfarçar. Regressando aos vaipes, concluíste hoje que te vais deixar ficar e tentar equilibrar os dois mundos não dissociando um do outro - a fórmula certa de tudo descambar. Apesar das circunstâncias recorrentes que te irritam - umas da tua responsabilidade outras não - sentirias a falta da escrita quotidiana exposta à crítica. E para seres totalmente franca a ideia de há dois anos (no primeiro destes três anos eram menos apesar da maior publicidade) teres uma dúzia de visitantes diária criou em ti um sentimento de lealdade. Se fazes companhia por alguns minutos que sejam a um punhado de "alguéns" é porque serves para alguma coisa e não estás de maneira nenhuma a minimizar-te ou vitimizar, pelo contrário, é a maneira natural como vês e sempre viste o mundo. Como já aqui escreveste, nos bons momentos sentes-te como se estivesses sentada ao serão na camilha de Valinhas, só que agora entre pouquinhos desconhecidos e conhecidos. É a tua medida.


De resto, não podes evitar os momentos maus. É esperar que passem e costumas fazer por que isso aconteça.

29/04/2022

Ponto de situação

Depois de um dia mau - nem sempre acordar com bom espírito é suficiente para conseguir tragar as dificuldades a enfrentar -, cá me preparo para o exercício de escrita de banalidades. Parece que engatou isto de escrever diariamente. Logo se verá o que sairá mais tarde.

Lembrete

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Resultado da votação a 2 de Março de 2022 na Assembleia Geral da ONU da resolução contra a invasão na Ucrânia pela Rússia.

A ler

Saíram da Ucrânia até Setúbal, para fugir a mísseis, tanques e soldados russos. Mas no gabinete de apoio aos refugiados da Câmara de Setúbal, liderada pelo PCP, foram recebidos por russos. Os documentos são copiados e perguntam às mulheres onde ficaram os maridos. O medo deles voltou, no Expresso.

Diário da República

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Sexta-feira

E fim do mês. Yeahhh.


Começando o dia na usual mimalhice do gato.

28/04/2022

GNR

Intervalo

Em seguida intervalo nas entradas de jazz com os grandes GNR.

Elos de conhecimento

Pode dar ideia que misturo ideias tirando ilações erradas, mas talvez não seja assim. Das coisas que mais gozo me dá é ver gente nascida por exemplo na segunda metade da década de 90, agora na casa dos 20, a declarar-se apaixonada pelo talento de grandes músicos do século passado já desaparecidos e, em muitos casos, afastados das lides públicas já aquando do nascimento destes mais novos admiradores. O papel dos pais e outros familiares é neste campo essencial. Por vezes o conhecimento chega por outras vias: gente que se vai cruzando na vida dos mais novos - veja-se o caso dos professores -, que dá os lamirés necessários para o despertar da curiosidade. Quem fala de música, fala de literatura, pintura e demais artes. É uma delícia ler comentários das entradas no Youtube vendo a confluência de várias gerações num mesmo espaço irmanadas pelo gosto do que é bom – pena não ter muito tempo.


Ao longo da vida lidei com pessoas – entre muitas outras, felizmente – que desdenhavam, tantas vezes ridicularizando, o gosto dos mais velhos nas mais diversas áreas. Desde a gastronomia, à moda ou à música. O cliché do conflito de gerações - tema muito na moda quando era novita - mina o que se pode concluir deste desdém. Justificá-lo apenas com a natural evolução e necessidade de modernização, atirando o antigo para o campo do anacrónico quando não defeituoso ou nefasto, é a fórmula certa de deseducar os mais novos. A natural necessidade de afirmação e demarcação das novas gerações e o seu contributo como sangue novo, ímpeto e rasgo não faz esquecer que não há verdadeira abertura de espírito, evolução e civilização sem conhecimento e respeito pelo passado. Convém fazer perceber que não nasceram de geração espontânea tal como todas as descobertas - tantas vezes apresentadas como inquestionáveis achados dos novos tempos - não nascem do acaso, mas da linha contínua de contributos de gente muito válida das gerações anteriores - às vezes ostracizada pelas elites actuais por desencontros ideológicos com os lugares-comuns em voga no presente. Confirmei ao longo da vida que quanto mais desconhecedoras e desrespeitadoras do antigo são as pessoas, mais ignorantes ou certas da bondade dos valores que vingam no presente estão, e mais fáceis de manipular na adesão inconsequente às modas ou falsas contra-modas, tantas vezes inchadíssimas ao invocarem a ciência e a erudição (da treta) para efeito.


Isto não obsta a que reconheça que viver com a cabeça no passado e a falta de capacidade de compreensão do presente e novo conduz a uma certa alienação. Como em quase tudo, o meio termo faz a virtude.


Batendo numa das teclas habituais das Comezinhas, isto é, continuando a ser chata como a potassa ou chata como a ferrugem (assim me diziam em pequena), acrescento que a má fama do que é antigo funda-se também no mau exemplo da prosápia de muitos ditos connaisseurs que rejeitam e desprezam as abordagens desempoeiradas, os registos despretensiosos e o uso de plataformas e suportes mais modernos onde o conhecimento pode ser disseminado, utilizando-os à socapa em proveito próprio para robustecer as ideias sem pagar o devido tributo. Trata-de de gente e grupos que mais do que conhecimento buscam auto-gratificação, pose e auto-promoção. Em muitos casos apesar da aparência pouco valem como transmissores de pensamento, ciência e arte.


Mais uma vez: se tudo isto parece evidente e básico para tantos, para quê perder tempo? Por uma razão simples, o que parece lana-caprina a uns, não é imediato para outros. Dir-se-ia que a rejeição da pompa pelos mais novos ou desempoeirados é imediata não precisando de alerta e que qualquer indivíduo adulto medianamente inteligente percebe a importância do passado sendo escusadas as linhas naïf que dediquei ao assunto.


Há contudo um aspecto que vejo sempre bastante esquecido: o escusado hiato entre mundos díspares. Numa sociedade que se diz muito tolerante e plural, na qual toda a gente parece ter opinião e ser ouvida, a questão base fica por resolver - chegar ao outro não é apenas deixá-lo exprimir o que pensa e sente. É respeitar. É integrar no seu o que é válido no pensamento do outro não batendo o pé por ignorância militante, necessidade de afirmação, vontade de achincalhar ou por perceber que o conflito fútil rende dividendos reputacionais ou venais. Enquanto estrategicamente se confundir respeito com pensamento único, fazendo-o confundir com aquilo a que se chama respeitinho, aproveitando para o fazer cair no ridículo, não se percebe o essencial.


É também aqui que reside a causa da incultura e atraso da sociedade portuguesa, muito mais do que nos lugares-comuns sempre atirados para a discussão: o atraso económico do país, a falta de meios na educação, a falta de hábito de leitura. Nem o país é pobre, nem as dotações para o ensino são parcas, nem os miúdos lêem tão pouco (e não vou entrar na discussão estéril e também falsa da qualidade da leitura) quando comparados com as gerações anteriores. Enquanto vingarem a aparência, os clichés sobre os benefícios da leitura disseminados por gente que se percebe não entender o que lê, beatificando o ritual e a imagem em vez do lógico e real não vamos sair da cepa torta. O país beneficiaria sim, se os pretensos sábios nas mais variadas áreas profissionais descessem dos pedestais infundados e percebessem que a democracia (ai, credo, democracia escrita em minúscula) não existe para favorecer os mais fortes nos dotes de retórica e na capacidade de agremiação e auto-promoção, mas para dar a oportunidade a todos de viverem melhor e em liberdade, o que só se consegue com acesso generalizado e igualitário ao conhecimento - não confundir com acesso às peanhas da bazófia e do estéril, os bens maiores por que tantos se engalfinham em Portugal.


À devida escala todos os indivíduos são elos de conhecimento, por parco que seja. E quanto mais humilde se é a mais gente se chega. Como dizem as empregadas domésticas companheiras de viagem de autocarro, com quem muito aprendo: não levas o dinheiro para a cova. Nem a bazófia, acrescento.

Ray Charles

Empresa NOS

Nesta entrada elogiei a NOS. Da qual tenho, em regra, boa imagem. Porém como habitual nem sempre podemos confiar na palavra das empresas de serviços - apesar das gravações. Foi-me dito que na sequência da chamada iria ser contactada por outro departamento para agendar a visita do técnico - mais: só não seria marcada naquele momento por problema no sistema. Em vez disso comecei a receber sms para me deslocar a uma loja para entrega do equipamento antigo e aviso que me seria remetido por estafeta o novo. Telefonei hoje e face à pergunta fui informada que não se tratando de nova adesão (mas mera alteração) teria que pagar 40 euros pela deslocação do técnico. Não tenho pago esse serviço apesar das diversas alterações que fui fazendo ao longo dos anos. Assim, o que pouparia com o novo pacote vai ser absorvido parcialmente por este pagamento extra. A isto se chama desonestidade. Mais, faz toda a diferença a postura do funcionário que atende e trata do assunto. Quem trabalha na área dos serviços há muitos anos sabe perfeitamente que a maior parte das alcavalas cobradas são amiúde contornadas pelo bom senso de quem está atrás da linha. Como vivemos num país em que não se penaliza os artistas que aligeiram responsabilidades invocando ordens superiores, nada pode funcionar com lisura.

27/04/2022

Jantar

Vai ser Yakisoba de Camarão. Mnham.


Rematado com um Harumaki de chocolate.


Ele há vidas difíceis. ;)


(Hoje nem as palavras desagradáveis nem as indirectas parvas de quem tenho que aturar me tiram a boa disposição; este dia já cá canta.)


Adenda: 22h00 - vou dormir. 

Diário

Acordei bem-disposta. Resultado de quase nove horas de sono. Nos últimos dias andava a esticar-me nas desoras, a estragar a disposição. (who cares?, lá vem a fulana com estas tretas insignificantes de intimidade que não adiantam nem atrasam a vida a ninguém senão a dela; falta de noção do ridículo e grande umbigo; não se tocará?, arre.) Só o facto de não apressar a rotina da primeira hora da manhã, não ter que fazer o café a correr, a praguejar, não ficar furibunda por me esquecer da meia hora de antecipação do primeiro comprimido do dia (agora são 8 diários) sobre o pequeno-almoço e sair de casa a horas para chegar só um pouco atrasada já faz melhorar o dia. (interrompi aqui o texto há três horas para tratar das tarefas que me competem – é para isso que me pagam - e agora já não sei o que ia escrever; seca.) Bem, os tempos não estão para alegrias, haja em vista os sinais de conflito e tensão nos mais diversos pontos do globo, porém o facto é que fiquei contente por tirar o guarda-chuva da carteira (gosto de chuva, mas não de carregar o chuço) e o sol está a dominar as nuvens com breves interrupções. (creio que ia referir a minha infantilidade, mas já não sei a que propósito, pelo que fico na dúvida de atirar a coisa assim sem contexto.) Cabeça-de-alho-chocho, chamavam-me em pequena quando como sempre chegava atrasada ao carro de manhã sem livros nem casaco. Agora ponho o casaco na cadeira do +1 e durante semanas seguidas visto o mesmo (tal como calço os mesmos sapatos e uso a mesmíssima carteira). Julgo que há quem note e ache a coisa no mínimo estranha neste mundo onde se gasta imenso tempo a pensar nos trapos a vestir até para ir trabalhar. A imagem, ai a imagem. Que seria deste mundo moderno sem a imagem? Vá, mas hoje também dei por mim a reparar na dentuça – é o que dá levantar-me a horas. Ao fim de três meses de uso dos alinhadores já começa a estar um nada melhorada – mais um ano e fico de novo com os dentes bonitos. Ah, lembro-me que ia mencionar que a carga elevada de mimo de que sou portadora (não tenho culpa, reclamem com os meus que me carregaram e carregam dele) se nota na forma um tanto ingénua de escrever. No fundo é o que dá cunho ao resultado (olha a pretensão, céus). Ajuda também alguma falta de vergonha e inconsequência – há quem lhe chame estupidez -, que fazem com que não precise de lançar mão do hermético, da ficção ou outra máscara para disfarçar o extravasar do que vai dentro. Nem esconder o que sou, por mais infantil que a forma seja. É a rejeição total ao asséptico e sem graça tão apreciado, valorizado e elogiado pelos ilustres (vaidosa a menina hoje, hein?). Mas sobretudo a consciência de que viver em permanente cálculo e em bicos dos pés na forma e substância valorizando o aparente rigor, a ironia forçada, o rebuscado, o supérfluo e a ambição revelam existências vazias. O outro que tanto aprecio era o Poeta Militante, fico-me pela ingénua militante. E sabe tão bem.


Acrescento: na paragem de autocarro à hora de almoço levei um forte encontrão de um homem. Estava isolada, bem fácil de contornar. Não pediu desculpa, pelo que não foi distracção. Não percebi se estava bêbado ou drogado, ou se simplesmente seria tolo. As pessoas à volta fizeram os comentários habituais - olha, olha, ele há cada um! -, limitei-me a ficar com o ar de parva natural. Seguiu a gesticular e só em casa fui ver a carteira para ver se não tinha sido técnica de larápio. Mas não, devia ser mesmo só maluco. Aquele poiso parece íman de tolos - acabei de elaborar uma tese: há zonas da cidade mais propícias a atrair malucos.

26/04/2022

Agenda

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Nestas entradas dedicadas ao jazz queria chegar ao sangue novo ou mesmo aos entradotes, mas a qualidade da velha guarda vai-se impondo. Lá chegarei. Ou então, começo a entremear. Até porque estou com saudades de voltar a trazer Esperanza Spalding. Ou Norah Jones - sim, também gosto dos registos mais comerciais - jazz diluído (valerá a expressão?). Há 20 anos gostava bastante de Diana Krall, entretanto enjoei sem culpa dela, mas por a ter ouvido em excesso. Logo verei o que se seguirá.

Betty Carter

A ler


(Há dois meses fui alertada para a importância desta questão por via de alguém que vive na Austrália.)


*



In late March, journalists revealed that China and Solomon Islands had signed a policing agreement. Someone from within Solomon Islands government also leaked a broader draft security agreement with China. In April, this agreement was finalised and signed. (Its text hasn’t been released but appears likely to be very similar to the draft.) You can see the draft here. It’s short and clear. Solomons can ask China to provide police and military assistance. If, and only if, Solomon Islands government of the day consents, China can “make ship visits to, carry out logistical replenishment in, and have stopover and transition in Solomon Islands, and relevant forces of China can be used to protect the safety of Chinese personnel and major projects in Solomon Islands.” Permanent bases are not mentioned.


*


One of the most senior US officials in the Pacific has refused to rule out military action against Solomon Islands if it were to allow China to establish a military base there, saying that the security deal between the countries presented “potential regional security implications” for the US and other allies.


[...]


“Of course, we have respect for the Solomon Islands sovereignty, but we also wanted to let them know that if steps were taken to establish a de facto permanent military presence, power projection capabilities, or a military installation, then we would have significant concerns, and we would very naturally respond to those concerns,” he said.


[...]


Pressed on whether he would rule out the prospect of the US taking military action against Solomon Islands were a naval base to be established, and, if not, whether he was comfortable with Australian prime minister Scott Morrison’s talk of the base being a “red line” for Australia, he said: “I don’t have a lot to add beyond what I’ve already stated.”


 


No The Guardian

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A Maluquinha de Arroios.

A ler

Suécia e Finlândia coordenam pedidos de adesão à NATO, de Guilherme Pinheiro, no Público.




O jornal finlandês Iltalehti informou que o governo sueco expressou à Finlândia o seu desejo de que ambos os países se inscrevessem no processo de adesão à Aliança Atlântica de forma conjunta na semana de 22 de Maio.


[...]


Pela primeira vez, uma sondagem do instituto Novus, na Suécia, afirma que a maioria da população quer juntar-se à Aliança Atlântica — é a vontade de 51% dos suecos, mais 16% do que no início da guerra na Ucrânia. Os sociais-democratas, agora no Governo, têm assumido estar contra a adesão à NATO, mas a invasão do território ucraniano está a mudar a opinião pública e traz de novo o debate ao Parlamento.



Em simultâneo, na vizinha Finlândia ganhou palco a mesma discussão e a ministra dos Negócios Estrangeiros, Tytti Tuppurainen, já assumiu ser “altamente provável” que o país venha a aderir à NATO. “O povo finlandês parece já ter tomado a sua decisão e existe uma enorme maioria a favor”, afirmou. De acordo com o jornal Helsingin Sanomat, 59% dos finlandeses concordam com a adesão.


 


25/04/2022

Recapitulando


Nós e os outros


por Isabel Paulos, em 21.02.21


 


Bem sei que estamos todos muito convencidos de saber como são ou deixam de ser os outros, mas talvez fosse mais prudente neste mundo de aparências e julgamentos fáceis perceber que não se conhece outra pessoa nem a sua vida através do que se depreende do que escreve à distância. Apesar de termos a pretensão de achar que a leitura nos permite entrar no mundo do outro, sobretudo, quando se expõe, a verdade é que para conhecer alguém é preciso abertura de espírito, diálogo franco e confiança. E já nem falo de ausência de canalhices, mentiras e identidades camufladas, mas de um módico de decência. Tudo o resto são suposições sobre suposições, que na maioria dos casos não interessam nem servem a rigorosamente ninguém.



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Escrito suspenso

Anteontem escrevi longas linhas sobre amigos e gente em que tropecei. Percebi que não ia publicar. Duas razões. Nos (poucos) amigos a menção directa a par das virtudes de tantos defeitos - por isso mesmo gosto tanto deles - feita de forma pouco cuidada poderia parecer incorrecta e não dar a real dimensão da importância que têm ou tiveram para mim. Sobre os mais do que amigos nunca tive a desinibição suficiente para escrever como se fizesse uma crónica, por um lado por me parecer desleal por outro por ter muito presente a imagem reles dos homens e mulheres que exibem as suas conquistas para se sentirem gente. O Nuno é a excepção na falta de vergonha pela importância que tem na minha vida e por se ter transformado em família com toda a intimidade e segurança mútua que daí advém - vá, e sendo realista, por ser o único que teve real paciência para me aturar.


Isto a propósito do tal texto sobre o muito que os outros me trouxeram, que queria bem mais alargado, chegando a mais tipos de relações como as profissionais, sociais, ocasionais, já que das familiares vou falando bastante. Enfim, a ideia seria mesmo o simples contar como me tocaram as pessoas com quem me cruzei na vida.


Sucede que ainda não cheguei à fórmula certa. Pretendo que seja mais uma vez uma mexerufada que envolva todos sem desrespeitar ninguém.


Hoje perguntei ao Nuno se esta coisa de expôr tanto a vida familiar e pessoal não seria uma menoridade. Enfim, as crises de consciência do costume com que o maço. Respondeu-me que não acha uma menoridade, mas tão só manifestação de orgulho nos meus - acrescentou que tenho razão para o ter. É um risco viver com uma pessoa tão tolerante, até porque fiquei contente.

Liberdade

Mais do que a maioria das balelas que se dizem habitualmente sobre o 25 de Abril, o que a mudança de regime permitiu aos portugueses foi acesso a maior qualidade de vida - resultado da abertura ao mundo e com ela a integração na Europa. Mais do que a troca de cadeiras de poder e privilégios em sociedade que se verificou, mais do que as odes à liberdade de alguns como se fosse a de todos e a narrativa melodramática ou fantasiosa de quem foi tendo voz nos últimos 48 anos e pintou um tenebroso quadro do antes - sem um átomo de aspectos positivos - face às maravilhas celestiais do imaculado após, o facto é que o grosso da população passou a viver melhor.


Neste 25 de Abril fui por isso pagar tributo ao desenvolvimento económico que a Revolução permitiu. Desloquei-me à Worten para comprar um monitor e uma televisão. O primeiro por o do Nuno, que tinha 15 anos, ter pifado há meses e por de vez em quando lá ser preciso ver para poder ajudar nalguma avaria dos computadores - de resto ele usa-os sem monitor. A segunda por há 4 anos quando mudámos para esta casa uma das televisões ter ficado com o écran estragado no transporte, vendo-se apenas uma mancha abstracta. Ora, sendo uma fonas e estando bom o som achei que podia servir perfeitamente para o escritório do Nuno, e assim ficou. Acontece que ele se considera merecedor de uma televisão a funcionar e, pronto, tive que concordar.


O momento mais bonito neste dia da liberdade passou-se nas escadas do Centro Comercial Arrábida, ao assistir ao entusiasmo no guinchinho de uma criança falando com os pais: já não é preciso máscara? Yeahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!


Isto sim, é liberdade.


Sobre o levantamento da obrigação de uso de máscara noto também o reverso das benesses da liberdade. O facto de todos terem opinião - e é evidente que não estou a negá-la - resulta nas maiores parvoeiras. Enquanto foi obrigatório era ver os fanáticos a acusarem e denegrirem quem não usava máscara ou não a colocava nos termos certos, agora que se pode andar sem é-se olhado com desdém e escárnio quando se usa. Lá está a liberdade dá para tudo até para se ser imbecil.


Andando de autocarro diariamente acabo por fazer alguns metros na rua com a máscara posta. É suficiente para ver o escárnio dos inteligentes da liberdade de opinião. Primos dos espertos da opinião livre que se agastavam quando alguém não punha a máscara nos últimos dois anos. Viva a Liberdade. Viva a Estupidez.

Oscar Peterson

24/04/2022

O reverso do lugar-comum

Sendo a leitura fonte de estímulo e sabendo que há gente mais permeável e penetrante a cada incentivo, pergunto-me se não seria mais sensato aceitar cada um como é, não insistindo na tecla de entupir tais cérebros com excesso de leitura, permitindo o normal escoamento do pensamento. A sobrecarga de estímulos tem efeitos nefastos.

A ler

Uma história da maçonaria: pilar do mundo moderno ou “quatro séculos de excentricidade masculina”?, de José Carlos Fernandes, no Observador.


 



The craft: How freemasons created the modern world (2020), de John Dickie, que chegou a Portugal com o título A maçonaria: Como os pedreiros-livres construíram o mundo moderno, pela mão das Edições 70 e com tradução de Jaime Araújo, fica mais para o lado do balão vazio: o livro sustenta-se num sólido trabalho de pesquisa, revela poder de síntese, está escrito de forma fluida e clara e proporciona uma leitura agradável e proveitosa, mas fica muito aquém de persuadir o leitor de que a maçonaria desempenhou na construção do mundo moderno um papel mais decisivo do que o agrafo.


[...]


A maçonaria no século XXI


Estas questões tornam-se mais pertinentes quando, por outro lado, se percebe que, nas 400 páginas desta história da maçonaria, o autor é incapaz de enumerar contributos objectivos e positivos da maçonaria para a sociedade ao longo da sua história de 400 anos. Que aportou ela ao progresso tecnológico e científico, ao bem-estar, ao combate às desigualdades sociais?


É certo que algumas lojas contribuem para obras de beneficência – por exemplo, a veneranda United Grand Lodge of England, descendente da pioneira loja fundada em 1717 em Londres e que continua a ser a mais relevante obediência maçónica da Grã-Bretanha, proclama no seu website estar entre os principais contribuintes neste domínio, apontando um total de 51 milhões de libras em doações em 2020. Porém, há na Grã-Bretanha pelo menos 40 instituições cujo contributo para acções humanitárias é superior. Fica-se, pois, com a ideia de que as obras de caridade são um aspecto secundário da maçonaria – e a verdade é que Dickie praticamente não as refere no livro.


Algumas lojas maçónicas reclamam ter desempenhado importante papel na luta por conquistas civilizacionais, como a abolição da pena de morte e da escravatura, mas a verdade é que estes assuntos dividiram os maçons (como dividiram a sociedade), não podendo afirmar-se, que a maçonaria fosse genericamente pró-abolicionista – talvez por esta razão, Dickie também pouco ou nada diz sobre o assunto.


Embora diferentes pessoas possam buscar coisas diferentes na maçonaria, o seu propósito principal parece continuar a ser permitir aos seus membros “estabelecer extensas redes de contactos e fazer amigos influentes” (Dickie). Mas para que serve esta angariação de extensas redes de contactos e amigos influentes se não for para obter um favorecimento pessoal, ainda que dentro dos limites estabelecidos pela lei? Espanta-se a maçonaria por suscitar na sociedade um sentimento de desconfiança, reforçado pela aura de secretismo que caracteriza a instituição? Poderá alegar-se que o secretismo da maçonaria tem apenas uma função ritual e é inócuo, mas compreende-se que possa ser olhado com suspeição num país democrático onde existe liberdade de expressão e de associação. As redes de contactos e o secretismo da maçonaria tornam-se ainda mais dissonantes num tempo em que existe uma pressão da sociedade e da opinião pública para que o Estado se reja por regras transparentes, isentas e meritocráticas – ora, como se aceita que a legislação impeça que o titular de um cargo público celebre contratos entre o Estado e uma empresa detida por um familiar seu mas não se preocupe com a possibilidade de tala empresa ser detida por um Irmão maçónico do titular do cargo?



Sublinhados meus.

Recapitulando


Obrigada.


*


Associações discretas


por Isabel Paulos, em 19.03.21


 


Qual a reacção imediata de um democrata ao ler a notícia de que o líder do principal partido da oposição defende a obrigatoriedade para os deputados e detentores de cargos públicos de declarar a pertença a organizações ‘discretas’ como a Maçonaria e a Opus Dei?


Obviamente, negativa. Em atenção à fundamental liberdade de associação e à basilar liberdade de consciência, de religião e de culto. Assunto resolvido. Será? Pela realidade representada por essas associações, mas valia ir pela via da lei do lobbing. Seria mais esclarecedor.


É que a imediata rejeição da ideia estaria muito bem se não soasse ao lavar de mãos de Pilatos. Em Portugal o drama parece ser sempre o mesmo. A perversão da lei pela realidade faz com que as fundamentais liberdades enunciadas sirvam de escudo defensor de práticas lesivas dos interesses do país.


A desfaçatez, a cara de pau (como dizem os brasileiros) é de tal ordem que podemos ouvir ou ler membros da Maçonaria e da Opus Dei denunciar a endogamia na sociedade portuguesa. Nada a fazer senão rir da paródia. É como se juiz e carrasco se juntassem no momento da decapitação para declaração conjunta: desculpe qualquer coisinha, somos até contra a pena de morte. Rir muito do ridículo e aproveitar para reparar como se escarnece com cobiça dos velhos conservadores e dos seus anacrónicos ódios aos maçons, esquecendo que a velha reaccionária portuguesa é tão velha quanto a velha e falsa ressabiada que trepa e tenta usurpar o trono. Nada de novo: guerra pelo poder.


O que espanta é que não se fale com seriedade - seja no jornalismo seja entre bem pensantes -, do peso do nepotismo e da corrupção por acção da Maçonaria no sector político, cultural e também económico e da Opus Dei no sector económico e financeiro - designadamente na banca. As abordagens ao tema Opus Dei e Maçonaria são sempre de uma pobreza franciscana. Os poucos que se interessam por essas matérias têm uma espécie de deslumbramento rasca e ávido por intriga policial. Tratam a coisa com o espírito de quem acabou de ler um livro de Dan Brown e se prepara para comentar a notícia do Correio da Manhã sobre o homicídio de uma mulher de duas cabeças e três pernas. Fala-se da faca e do alguidar e às vezes dos lugaritos, sem nunca perceber que se está a tratar de uma das principais causas da podridão e atraso sistémico do país.


Em Portugal falta independência e coragem e vozes libertas das redes de interesse impostas pela pertença aos guetos, sejam eles discretos ou às escâncaras. Os que supostamente pensam estão na maioria dos casos encostados nas conveniências. Vivem em tribo ou grupelho pelo que é natural que entre os da sua tribo exista algum membro destas associações ditas discretas ou mesmo que não haja, têm com elas uma atitude complacente. Até por se sentirem identificados. Aliás, com verdade, nem vêem nada de mal no nepotismo e corrupção. Acham absolutamente normal. É assim que estão habituados a viver.


Tão mal vai quem propõe que se obrigue os políticos a declarar a pertença a uma associação, como quem é conivente por acção ou omissão com o nepotismo e a corrupção.


17/03/21



 


Correu bem

Por vezes compensa ser picuinhas. Ontem na área de cliente da NOS dei ordem de rescisão do contrato. Em causa apenas a cobrança acrescida de 1 euro mensal, ou melhor, a questão de princípio da forma incorrecta como esse valor fora obtido. Tive dúvidas de o fazer, pensei no trabalho que iria ter ao mudar para outra operadora - sabendo que a forma de funcionamento de cada uma não difere -, no transtorno de passar algum tempo sem serviços. Mas também na hipótese remota de me ligarem da NOS a rever a posição da empresa.


Hoje recebi a chamada desejada com a correcção e simpatia do funcionário (os Guerreiros costumam ser delicados) que pude testemunhar na maioria dos contactos em todos os anos de cliente desta operadora - nunca usei os serviços de outra. Fez-me uma proposta de melhoria dos serviços por menos 4 euros mensais. Naturalmente aceitei.

Tílias - Avó Rosa

Discretíssima, contida, de poucas palavras. Assim era a minha avó paterna, em absoluto contraste com a avó materna, conversadora nata e excessiva. A cozinha de ambas definia bem as personalidades. Nos dias de reunião familiar, no Porto e em Valinhas nas cozinhas grandes da avó Isabel com as velhas paredes de tinta desbotada, tudo se ia fazendo no meio de muita gente. As empregadas, a avó acabada de arranjar e descer as escadas e todos os restantes recém chegados iam parar à cozinha: as tias e tios, os primos e manos, os meus pais. Por revoadas cabia lá tudo. Os fogões e fornos estavam ligados até à última, tábuas de cortar legumes e talheres em cima da grande mesa central, compras a chegarem, traços de lombo a ser cortados com a barulhenta faca eléctrica, pacotes de nata e queijo para os pratos de forno, doces a acabarem de ser terminados, travessas à espera de alimento. Uma algazarra constante.


Nos dias dos jantares ou almoços de Gaia, em General Torres, tudo era mais sereno, a avó Rosa estava sempre seráfica no cimo das escadas no primeiro andar com o seu sorriso comedido. Acabávamos por reunir no corredor junto à entrada da cozinha, que nunca vi desarrumada, pelo contrário, sempre primorosamente organizada, tudo com um ar cuidado e nada a denunciar uso. Dir-se-ia que nada se passava, que daí a uns minutos não subiríamos mais um andar para as salas da minha tia, onde nos sentaríamos à mesa a provar o melhor bacalhau cozido ou rojões que algum dia comemos - não é exagero, a avó Rosa era absolutamente perfeita nos pratos que fazia habitualmente. No seu pequeno laboratório não havia nada à vista que fizesse lembrar que alguém ali cozinhara. Tinha o hábito de arrumar tudo antes de chegarmos acondicionando o nosso repasto dentro do forno e dos armários.


Sempre que recebo gente em casa (poucas vezes) tento imitar a avó Rosa, mas por não gostar de sentir zerichia na cozinha na chegada dos comensais. Não gosto de ver tachos, panelas e talheres por lavar ou arrumar. Gosto de ter tudo planeado, travessas e restante loiça recolhidas e destinadas, tudo mentalmente antecipado - já sei, é mau princípio de vida. Além de tudo tendo mau feito detesto palpites. Terá muito glamour a imagem de uma cozinha bonita com meia dúzia de pessoas com copos de vinho na mão enquanto alguém corta pleno de perícia pimentos coloridos com uma chiquérrima faca afiada, mas o que acontece normalmente é que quem entra na cozinha além de empecilho gosta de palpitar: porque não liga o exaustor?, porque não tens o fogão em lume brando? Com o meu bom feitio natural fico logo com vontade de abrir a porta da rua e enxotar os e as sábias dali para fora. Aquelas imagens idílicas são óptimas para as fotografias revistas e secções lifestyle, não para a realidade. Por isso procuro tratar dos jantares (ou lanches) como a avó Rosa. Tudo pronto antes e resguardado. A conversa boa é para ser tida à mesa e aí já saberei se me apetece ser encantadora. Antes disso disfarço mal o bicho maldisposto que trago dentro de mim. Mais tarde já podem vir todos para a cozinha, conversar, fumar, pousar pratos, buscar copos. O que quiserem. Até dar palpites. Mas à entrada, não. Preciso de ordem, daquele momento de ordem.


De origem humilde a avó Rosa era muito regrada, organizada e delicada, tendo passado a vida dedicada aos outros. Em primeira linha ao meu avô Júlio que vivia no mundo da lua. Depois cuidando das tias do marido a quem acompanhou toda a velhice e de todos quantos a rodeavam. Quando se aproximou a sua própria velhice tratou de tudo com medo de vir a dar trabalho aos outros. Precavida fez obras no rés-do-chão, que já havia sido casa de tantos a quem prestara cuidados, para o caso de não conseguir subir os muitos degraus. Morreu discretamente aos 71 anos por falência do coração antes de poder gozar dos desvelos dos outros consigo.


Nunca foi de afagos. Não me lembro de alguma vez me ter feito uma festinha - coisa com que lidava bem já que não podia ter carências: no lado materno a mimalhice era mais do que muita. Mas tinha um sentido de justiça a toda a prova, tanto que hoje estaria na moda pelo modo como prezava a igualdade de género. Afinal foi uma vanguardista: sempre que oferecia carrinhos aos meus irmãos, dava-me a mim também. Tal como aos meus primos e prima. Creio que se fossemos mais raparigas do que rapazes, eles à época já teriam sido presenteados com bonecas. O importante é que não houvesse diferenças. Já fora assim, na regra, na parcimónia e no sentido de justiça que educara o filho e a filha. E era assim que tratava os quatro netos queridos que viviam na mesma casa, ao levar à noite um quadradinho de chocolate a cada um.


Nunca lhe ouvi uma palavra desagradável sobre alguém, virtude herdada pela minha tia, cujo bom humor aliado à herança de delicadeza da mãe faz de si uma pessoa muito especial. A avó Rosa falava baixinho, passou pelo mundo ligeira e discreta para facilitar a vida aos outros, com uma abnegação fora de série. Gostava de passear aos fins-de-semana na Quinta da Conceição em Leça da Palmeira. Dizia que aquela era a sua quinta e não dava trabalho nenhum.


*


Da mesma saga existem os seguintes postais:


 


Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima


Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos


Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade


Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil


Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade


Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001


Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch


Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas


Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos


Fragmento 10. Tílias - Avó


Fragmento 11. Tílias - Virinha


Fragmento 12. Tílias - Sonhos


Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância


Fragmento 14 - Tílias - Café


Fragmento 15 - Tílias - Cozinhotes


Fragmento 16 - Tílias - Anciãos

23/04/2022

Check

Burocracias pendentes: check.

Recapitulando


Guerra na Ucrânia


por Isabel Paulos, em 13.04.22


 


Só se tivesse perdido completamente o juízo ou a capacidade de avaliação da realidade e não fizesse a mais pequena ideia do que são as leis que regem as relações internacionais é que não perceberia que o que se passou na Ucrânia foi uma invasão e não distinguiria de modo claro o agressor Rússia do facínora Putin da agredida Ucrânia - não acordei para a questão há dois meses, já me referi à previsível invasão em Abril de 2021, aqui e aqui, tal como me foi instintiva a tomada de posição desde o primeiro momento desta segunda investida de Putin na Ucrânia, aqui e aqui, sobre cujos antecedentes já aqui tive oportunidade de explanar.


Malgrado os forçados argumentos baseados no vínculo histórico-cultural comum esgrimidos pelos defensores da posição de força russa, a ingerência de Putin ao longo destes 20 anos, máxime através Viktor Yanukovych, é manifestação evidente do esforço de hegemonia regional russa na tentativa de impedir um Estado Soberano de prosseguir os seus interesses ao dar os passos necessários para se juntar a entidades supranacionais - no caso União Europeia e NATO - em clara violação do direito da liberdade de associação entre estados.


Usando de um tipo de manha que já não passa no tempo moderno face à capacidade da comunicação social desmontar a cada minuto as mentiras forjadas - e, diga-se em abono da verdade, com igual capacidade da mesma comunicação social para as criar em favor de uma qualquer campanha de mentalização tida momentaneamente por superior - Putin foi preparando a invasão ao mesmo tempo que a desmentia, tentando enganar o mundo e acabando por investir contra o país vizinho, independente desde 1991, sob pretexto de manter a paz nos territórios separatistas de Luhansk e Donetsk. O feitiço virou-se contra o feiticeiro sendo os russos confrontados com o inigualável espírito e capacidade de resistência ucraniano, apoiado pelas boas intenções das vozes internacionais audíveis e pelo fornecimento de equipamento militar por diversos países ocidentais.


Apesar da contra-ofensiva do país cuja soberania foi violada, a dura realidade no terreno deixa a descoberto um cenário de destruição das principais cidades ucranianas, e das vilas e aldeias que, como bolsas de resistência, ficam a caminho desses pontos urbanos. Os ataques com misseis de longo alcance russos destruíram não só muitos dos activos militares ucranianos, como foram bombardeadas zonas administrativas, residenciais e hospitais. O caso mais chocante de crise humanitária é talvez o da cidade portuária de Mariupol, no sudeste da Ucrânia que, pela sua posição estratégica de acesso ao Mar de Azov, foi alvo de cerco e bombardeio durante semanas pelas forças russas, causando centenas de mortes de civis. Nas últimas semanas equipas de voluntários reúnem relatos e provas no terreno de crimes guerra e infracções dos direitos humanos.


*


Há quase 20 anos talvez me satisfizesse com uma posição maniqueísta da situação, vendo de um lado a vítima e do outro apenas um único agressor. Quando tive o primeiro blogue - creio que em 2003 - lembro-me da reagir mal às críticas à hipocrisia norte-americana. O mundo dividia-se entre posturas anti-comunismo e anti-americanismo, assemelhando-se às discussões Porto-Benfica por adeptos fanáticos. À época era uma tonta que tomava partido pelo lado americano. Típica discussão infantilóide na qual só me perdoo ter alinhado por na altura estar na casa dos 20 e saber pouco da vida. Por isso me é tão estranho continuar a ver as mesmas lengas-lengas e a forma leviana de tratar a guerra em gente com idade para ter juízo e experiência de vida da qual não parece tirar lições.


Há uma série de questões que sempre que se colocam despertam reacções raivosas inconsequentes de gente excitada ou fanáticos, habituados a viver num mundo pintado a preto e branco pela comunicação social menos exigente, que são meras decorrências do pensamento de quem não gosta de ser leviano quando tenta perceber a realidade em que vive.


As razões do ímpeto belicista de Vladimir Putin estejam ancoradas numa estruturante mágoa pela quebra de status da Rússia na geopolítica internacional com o colapso da União Soviética e numa visão imperialista e não democrática do mundo, ou tenham também por base um ressentimento anti-americano pela preponderância dos Estados Unidos nas relações internacionais através do uso da força militar, não devem ser negligenciadas ou omitidas sob pena de não se perceber o que está a acontecer.


Tal como a inegável e crucial ajuda norte-americana à Europa na Segunda Guerra Mundial - e, sobretudo, na sequência dela -, o seu papel de grande país democrata acolhedor de milhões de emigrantes fugidos da pobreza e da violência de estados totalitários e a partilha dos valores ocidentais, não nos deve fazer reféns da gratidão e cumplicidade, mantendo-nos com palas nos olhos, cegos às evidências dos interesses em jogo nos dias de hoje.


Não é por a China ser um país autocrata desrespeitador dos direitos humanos que deixa de ser verdade a acusação aos Estados Unidos de promoverem ou facilitarem a Guerra na Ucrânia como forma de lucrarem economicamente com a substituição do fornecimento à Europa do gás russo pelo gás norte-americano, numa altura em que estavam com maior dificuldade em escoá-lo.


Não é por não merecerem todo o nosso apoio e ajuda que não é notório que os martirizados refugiados ucranianos tiveram maior compreensão dos restantes europeus que acorreram a acolhe-los do que os escoiceados refugiados sírios. E falar em migração económica num país destruído por 10 anos de guerra, com a participação de diversos países ocidentais e seus interesses, e onde foram usadas armas químicas não abona muito a favor de quem invoca para a Ucrânia toda a defesa dos mais nobres valores mas é incapaz de ter a sensibilidade de perceber que os direitos humanos não são bandeirinhas para hastear apenas para o lado daqueles com quem simpatizamos ou para o lado das vítimas dos que detestamos.


Para terminar, deixo a sensação que decorre em qualquer alma com um pingo de compaixão pelo sofrimento alheio: o absurdo hiato entre o cenário de crime e violência circunscrito à Ucrânia a quem os países europeus e demais Ocidente vai fornecendo armas para se defender ao mesmo tempo que tudo fazem para que o cenário de horror não extravase fronteiras, assistindo à tragédia com a leve penalização do agravamento temporário da inflação, que acabará por favorecer as suas economias.


O pretexto tão real quanto conveniente da ameaça de conflito nuclear tem permitido à Europa e aos Estados Unidos manterem-se confortáveis enquanto a guerra está circunscrita, de nada valendo a regra, noutras circunstâncias tão invocada - desde a intervenção da NATO na Jugoslávia para defesa dos direitos humanos no Kosovo -, de que as intervenções militares podem ter justificação no caso de violações maciças dos direitos humanos, permitindo mesmo a invasão de um Estado Soberano.


A ler

PCP: ocultar que há um agredido e um agressor, de José Pacheco Pereira, no Público.


Apesar de não subscrever o Público, pude ler JPP por alguém ter disponilizado a opinião aqui da SapoBlogs. Grata.

Herbie Hancock

Diário

A ouvir dias seguidos Carmen McRae. Estou fã. Entretanto tentarei fazer um postal - ainda não comecei -, mas com a movimentação habitual aos Sábados nesta casa a fornada só deve sair à noite. A disposição da manhã não foi grande coisa. Irritada com a consciência das afrontações gratuitas do último ano. Não é que não saiba que tenho mau feitio, muitas irritações e que entro em confrontação fácil, mas não gosto nem um pouco de ver afrontar gratuitamente. Muito menos do conflito oportunista entremeado de falinhas-mansas dissimuladas. É coisa infantilóide que não dá pica nenhuma nem é digno.


Na quinta-feira acabei por não tratar dos assuntos pendentes. São eles a atenção às contas bancárias, ao contrato com a operadora de telecomunicações e as papeladas relativas a saúde - mais exposição é impossível. Até há ano e meio andava sempre em cima do precário do banco para evitar a cobrança das comissões de manutenção - bastava conferir as condições de isenção que vão mudando de molde a sacar uns millhõezitos aos clientes. Tendo-me distraído no último ano apercebi-me que as ando a pagar. Verificarei as condições para recomeçar a usar os cartões de forma racional evitando os habituais e ardilosos abusos dentro da lei cometidos pelos bancos. Por outro lado, com as hospitalizações deixei passar o prazo de rever as condições dos seguros e convém verificar a que páginas ando. Relativamente às telecomunicações há uns dias subscrevi novo pacote e tendo reparado num ínfimo pagamento mensal acrescido nos últimos 3 anos conseguido de forma espúria quero decidir se abstraio ou entro em confrontação aproveitando o prazo de 14 dias para desistência - a verdade é que não quero mudar de operadora, com a qual sempre me entendi bem. Quanto à saúde as consultas, receitas e a carga de medicação têm sido muitas. Antes que perca o pé terei fazer um registo escrito calendarizado. Não cuido só da minha saúde como da do Nuno. Há-que enviar emails para os dois centros de saúde, fazer marcações e preparar os pedidos para as próximas consultas, verificar a medicação. À habitual medicação crónica, juntaram-se as temporárias e uma catrefada de vitaminas ou semelhantes que me fazem lembrar da avó Rosa. Dizia a avó que não sabia para quê almoçar se ao fim de tomar 13 comprimidos estava almoçada. Espero nesta matéria não sair à avó Rosa, sobre quem me apetece escrever o texto seguinte, já que morreu cedo, aos 71 anos.


Este foi um apontamento Big Brother sui generis. Para ser excitante devia ser palpitante - com apelo à imagem e intriga ou conflito e, claro, envolvido em muito amor -, mas esta é tão só a vida comum de uma pessoa comum.

22/04/2022

Sorriso

Fim-de-semana prolongado. Yupi. 

Mover o mundo

O estardalhaço apesar de irritante e de mau gosto é neutro, pode ser positivo ou negativo. Ser ouvido mais longe, atingindo mais público, dá azo a propalar o benigno ou maligno. Mover o mundo através da influência discreta nessas bolhinhas barulhentas pode constituir um papel útil. Ninguém dá pelo cutucar, como dizem os brasileiros, nos detentores dos megafones e poder-se-á obter frutos positivos por mais ténues pareçam. Ver nascer migalhas de lucidez no meio do espalhafato das certezas já não é mau. Ainda que o estardalhaço continue dia após dia a enaltecer o aparente valor das pandilhas de promovidos.

Glenn Miller

Desarmonia

Não andas no ritmo e na direcção do tempo. Não faz mal. O mundo não está perdido. Muitos caminham assim, certos nas agulhas do presente - crentes de conhecerem as lições do passado e de que o futuro lhes dará razão. Há milhares de visões semelhantes com leves e convenientes nuances que permitem acreditar que há possibilidade da divergência vingar. Os registos exactos do sentimento dominante de cada dia não se perderão. Acrescentas pouco em matérias que não dominas - todas. Não estás certa de nada e é provável que o futuro não te dê razão. A cada um o que é seu.


Lá fora chove forte. Cá dentro já nem sabes como está o tempo.


É sono. Vais dormir.

Simples

O drama de complicar pensamentos ou diálogos profissionais é a tendência para o uso de floreados e julgamentos quando não de mentiras. Reduzir as tarefas ao simples e essencial pode parecer um pouco seco, mas retira muita carga fútil e prejudicial.


A necessidade constante de muitos profissionais de se mostrarem proficientes, de darem a imagem de gente muito inteligente e competente e de (plenos de auto-estima) se considerarem peritos - conduz a diálogos e discussões cheios de lixo prejudicial às relações e mesmo ao resultado da faina.


O que era um tique técnico ridículo de algumas classes profissionais converteu-se hoje numa mania generalizada transversal a toda a sociedade - o mundo está apinhado de connoisseurs da treta.

Encarar

Evaporares por uns dias e reapareceres talvez na próxima semana. Ou não, quem sabe amanhã será um belo dia. A incerteza permite acreditar manhã após manhã - levantar como se tudo pudesse vir a fazer sentido de novo. O sono repara quase todos os pequenos males e alguns dos grandes também. Hoje fizeste leitura pouco respeitada sobre a simbologia do mosquito. Deve-se estar preparado para o imprevisto, dizem. Com a idade a ideia torna-se menos atractiva. Será? Nunca deixaste de desejar mudança na vida. O que acontece é que agora estremeces a cada pequeno abanão, ao disparar dos alertas e travões - talvez seja questão de consciência. É tramado esse sentimento de ti mesma e do mundo. Tão mais fácil levar a vida por diante sem grandes considerações.


Talvez te dediques nos próximos dias às simbologias, ou talvez não.


Apanhaste um susto hoje ontem. É encarar. Pode ser que até seja positivo. Talvez apenas questão de disposição. Pode ser.

21/04/2022

Billie Holiday


Uma vida. Uma parte do mundo no século passado. Uma visão da vida não assim há tanto tempo.

A ler


 


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20/04/2022

Estopada

Programa deste fim de tarde: reunião de condomínio.

A ler

Pedi os meus dados a 70 empresas. Isto é o que elas sabem sobre mim, de Inês Rocha, na Renascença.


*


Uma das razões pelas quais estive fora do mundo online durante 10 anos. Entretanto marimbei.

Carmen McRae

19/04/2022

Sr. Castanho

Capturar.PNG


Desde o famoso príncipe nigeriano que não recebia estas pérolas.

Notas soltas

Persistir quando tudo parece ruir. Acreditar não sabes bem em quê quando não há razões para alegrias. Como diz o teu sogro: a vida é como os alcatruzes da nora, umas vezes para cima outras para baixo.


Seja. É aguardar ocupada por melhores ventos.


Por agora um amontoado de enguiços domésticos e outras miudezas arreliam-te (começaste a usar esta palavra depois dos quarenta, achas que em memória dos tempos antigos). Atiras para a próxima quinta-feira a resolução da maioria deles de modo a entrares no fim-de-semana mais leve de consciência, isto é, com sentimento de dever cumprido. 


A despropósito, quando num dia próximo tiveres mais tempo, hás-de fazer um apanhado de títulos de notícias sobre a Guerra na Ucrânia que exemplifique o folclore valorizado nos dias correntes – a par dos conteúdos que interessam.


Como já aqui confidenciaste não és dada a grandes palavras no momento da morte de figuras públicas por não gostares de te apropriares gratuitamente da imagem ou bom nome de outrem, mas hoje ouviste duas referências a Eunice Muñoz - justamente queridíssima da maioria dos portugueses -, que te encantaram. Vieram ambas pela voz de Virgílio Castelo. Contou a propósito da importância do talento nos percursos no mundo do Teatro que a grande actriz dizia que ninguém explica o factor sorte - é um mistério. E não deixou de sublinhar que Eunice Muñoz era uma figura única ao ter atingido dois exigentes patamares: excelência e humildade. 


Pode ser que ao mencionares Eunice Muñoz num postal corriqueiro de notas diversas faças justiça à grande senhora que era e não roubes nem um nico de dignidade ao momento de perda.

Nuances

E se os sujeitos que se mostram muito preocupados com o politicamente correcto e o perigo da purificação da humanidade fizerem parte eles próprios das tribos de grandes fabricantes de modelos de comportamento e cânones de personalidade arbitrários, usando permanentemente a coacção, constrangendo os outros a agirem segundo os seus ditames através da lei da força da retórica ou de tácticas de invólucro atraente?


É bom que não se menospreze o peso e capacidade de dano das palavras e se ignore que o acesso à retórica não é democrático. As relações de poder nos dias correntes fazem-se de um modo muito diferente do que acontecia no século anterior.


Invocar os grandes valores da liberdade e da democracia encobrindo o modo real como as relações de poder se estabelecem é um artifício ardiloso para manipular a razão e a verdade. 


O politicamente correcto é irritante, mas também muito confundido com reacções legítimas a agressões frontais ou dissimuladas de gente que, sentindo-se irmanada e apoiada por um grupo dominante, tem enorme prazer em desprezar ou lucrar com a exploração das fragilidades alheias. 


O mundo raramente é a preto e branco. 

Coincidências

Soa a coisa um tanto insana, mas é muito vulgar ter um qualquer pensamento que não expresso a ninguém - bem sei que as Comezinhas se revelaram um livro que de tão aberto já parece espalmado - e deparar-me com uma acção de outros em sentido convergente.


Ontem a propósito de estar a ouvir o concerto de Louis Armstrong e de uma das composições interpretadas ser essa, estive um bom bocado a pensar na Ópera dos Três Vinténs de Kurt Weill (apesar de curtinho e aparentemente fácil tenho sempre de verificar como se escreve o nome, tal como me enrolo sempre a dizer Erroll Garner) e hoje ao verificar as visitas do blogue vi que alguém abriu essa mesma entrada na versão de Chico Buarque. Sucede amiúde este tipo de acasos. Imagino que os postais de música sejam abertos por pesquisas aleatórias no Google, o que torna a coincidência ainda mais curiosa. Estas associações aleatórias parecem enganchar (gosto da palavra) naquela ideia meio tonta meio verdadeira de isto andar tudo ligado. 

Erroll Garner

Diário

Manhã de verdadeira azáfama. Os próximos dias serão acelerados para contrastar com a pasmaceira do último mês. Até será bom para não dar o nó. A cabeça parte nalguns momentos para parte incerta numa espécie de perplexidade: cada vez percebo menos do que se passa à minha volta. Há dias em que me sinto burra como um calhau. Noutros receosa das más interpretações. Noutros ainda com a nítida sensação que faço figura de urso ou estão a gozar com a minha cara.


"Mas é trabalhar" - é o melhor que faço.