Discretíssima, contida, de poucas palavras. Assim era a minha avó paterna, em absoluto contraste com a avó materna, conversadora nata e excessiva. A cozinha de ambas definia bem as personalidades. Nos dias de reunião familiar, no Porto e em Valinhas nas cozinhas grandes da avó Isabel com as velhas paredes de tinta desbotada, tudo se ia fazendo no meio de muita gente. As empregadas, a avó acabada de arranjar e descer as escadas e todos os restantes recém chegados iam parar à cozinha: as tias e tios, os primos e manos, os meus pais. Por revoadas cabia lá tudo. Os fogões e fornos estavam ligados até à última, tábuas de cortar legumes e talheres em cima da grande mesa central, compras a chegarem, traços de lombo a ser cortados com a barulhenta faca eléctrica, pacotes de nata e queijo para os pratos de forno, doces a acabarem de ser terminados, travessas à espera de alimento. Uma algazarra constante.
Nos dias dos jantares ou almoços de Gaia, em General Torres, tudo era mais sereno, a avó Rosa estava sempre seráfica no cimo das escadas no primeiro andar com o seu sorriso comedido. Acabávamos por reunir no corredor junto à entrada da cozinha, que nunca vi desarrumada, pelo contrário, sempre primorosamente organizada, tudo com um ar cuidado e nada a denunciar uso. Dir-se-ia que nada se passava, que daí a uns minutos não subiríamos mais um andar para as salas da minha tia, onde nos sentaríamos à mesa a provar o melhor bacalhau cozido ou rojões que algum dia comemos - não é exagero, a avó Rosa era absolutamente perfeita nos pratos que fazia habitualmente. No seu pequeno laboratório não havia nada à vista que fizesse lembrar que alguém ali cozinhara. Tinha o hábito de arrumar tudo antes de chegarmos acondicionando o nosso repasto dentro do forno e dos armários.
Sempre que recebo gente em casa (poucas vezes) tento imitar a avó Rosa, mas por não gostar de sentir zerichia na cozinha na chegada dos comensais. Não gosto de ver tachos, panelas e talheres por lavar ou arrumar. Gosto de ter tudo planeado, travessas e restante loiça recolhidas e destinadas, tudo mentalmente antecipado - já sei, é mau princípio de vida. Além de tudo tendo mau feito detesto palpites. Terá muito glamour a imagem de uma cozinha bonita com meia dúzia de pessoas com copos de vinho na mão enquanto alguém corta pleno de perícia pimentos coloridos com uma chiquérrima faca afiada, mas o que acontece normalmente é que quem entra na cozinha além de empecilho gosta de palpitar: porque não liga o exaustor?, porque não tens o fogão em lume brando? Com o meu bom feitio natural fico logo com vontade de abrir a porta da rua e enxotar os e as sábias dali para fora. Aquelas imagens idílicas são óptimas para as fotografias revistas e secções lifestyle, não para a realidade. Por isso procuro tratar dos jantares (ou lanches) como a avó Rosa. Tudo pronto antes e resguardado. A conversa boa é para ser tida à mesa e aí já saberei se me apetece ser encantadora. Antes disso disfarço mal o bicho maldisposto que trago dentro de mim. Mais tarde já podem vir todos para a cozinha, conversar, fumar, pousar pratos, buscar copos. O que quiserem. Até dar palpites. Mas à entrada, não. Preciso de ordem, daquele momento de ordem.
De origem humilde a avó Rosa era muito regrada, organizada e delicada, tendo passado a vida dedicada aos outros. Em primeira linha ao meu avô Júlio que vivia no mundo da lua. Depois cuidando das tias do marido a quem acompanhou toda a velhice e de todos quantos a rodeavam. Quando se aproximou a sua própria velhice tratou de tudo com medo de vir a dar trabalho aos outros. Precavida fez obras no rés-do-chão, que já havia sido casa de tantos a quem prestara cuidados, para o caso de não conseguir subir os muitos degraus. Morreu discretamente aos 71 anos por falência do coração antes de poder gozar dos desvelos dos outros consigo.
Nunca foi de afagos. Não me lembro de alguma vez me ter feito uma festinha - coisa com que lidava bem já que não podia ter carências: no lado materno a mimalhice era mais do que muita. Mas tinha um sentido de justiça a toda a prova, tanto que hoje estaria na moda pelo modo como prezava a igualdade de género. Afinal foi uma vanguardista: sempre que oferecia carrinhos aos meus irmãos, dava-me a mim também. Tal como aos meus primos e prima. Creio que se fossemos mais raparigas do que rapazes, eles à época já teriam sido presenteados com bonecas. O importante é que não houvesse diferenças. Já fora assim, na regra, na parcimónia e no sentido de justiça que educara o filho e a filha. E era assim que tratava os quatro netos queridos que viviam na mesma casa, ao levar à noite um quadradinho de chocolate a cada um.
Nunca lhe ouvi uma palavra desagradável sobre alguém, virtude herdada pela minha tia, cujo bom humor aliado à herança de delicadeza da mãe faz de si uma pessoa muito especial. A avó Rosa falava baixinho, passou pelo mundo ligeira e discreta para facilitar a vida aos outros, com uma abnegação fora de série. Gostava de passear aos fins-de-semana na Quinta da Conceição em Leça da Palmeira. Dizia que aquela era a sua quinta e não dava trabalho nenhum.
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Da mesma saga existem os seguintes postais:
Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima
Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos
Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade
Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil
Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade
Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001
Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch
Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas
Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos
Fragmento 10. Tílias - Avó
Fragmento 11. Tílias - Virinha
Fragmento 12. Tílias - Sonhos
Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância
Fragmento 14 - Tílias - Café
Fragmento 15 - Tílias - Cozinhotes
Fragmento 16 - Tílias - Anciãos