Escrever desde a primeira linha sem qualquer noção prévia do que nela ficará registado começa a ser uso. Mesclas ideias que vais tendo ao longo do dia e não estão na maioria maturadas. Será um hábito insensato além de (falta-te a palavra) leviano (talvez tenhas acertado). No tempo em que todos insultam a grosseria alheia mesmo sendo incivis e todos se querem fazer ouvir e a qualquer momento se confrontam com insultos à ignorância (não, hoje não vais falar de pavões; todos quanto te lêem já sabem do que se trata e os que venham a ler terão oportunidade de saber), não parece muito inteligente dizer o quer que seja sem freio ou sem ser num textinho muito bem calçado numa qualquer concepção aprovada pelas vozes dominantes. Mas é isso mesmo que acontece. Não foste catar temas palpitantes para dissertar, apesar de fazeres por te informar não tens opinião fechada sobre muito do essencial do correr dos dias no mundo. Sentes o Universo e tomas posição procurando não te exibires cegamente (os puristas não gostam de advérbios e tu não tens pachorra para o tédio) mais digna e com mais autoridade do que os restantes habitantes do planeta.
Trabalhaste a ritmo acelerado, a rotina dos dias corridos voltou. Intervalaste aquilo que tinhas começado a estudar. Na próxima semana deves retornar. Não tens páginas de livros para fotografar e colocar no blogue. Tens lido pouco (livros) e está muito bem assim. Convém desenjoar. O que não está bem é estares muito encafuada em casa. Situação a alterar nos próximos fins-de-semana se as estrelas permitirem.
Hoje (ontem) caiu um daqueles dias maus em que os maus vícios deste país de impunidade para trafulhas se revelam. Mas depois de te chateares e discutires acabaste por ficar numa onda de deixar rolar. Queres acreditar que as leis da Natureza acabam por funcionar. Ainda ontem (anteontem) tiveste oportunidade de verificar que às vezes se faz justiça por portas travessas. Gente que se portou muito mal contigo há menos de um ano está a ser castigada por canalhice de terceiro. Ontem (anteontem) notaste que amadureceste, ou melhor, enrijeceste. O teu usual pensamento numa ocasião como esta seria o dito correcto, ficando solidária e esquecendo o mal que te fizeram. Mas começas a perder essa postura imbecil e a regozijar em pensamento com os merecidos castigos cujo carácter enviesado não permite que a justiça da situação seja compreendida pelos alvos da divina magistratura. Não fazes questão nenhuma em beneficiar pessoalmente com a correcção e que o teu caso seja vingado - não queres nem enriquecer nem subir a nenhum pedestal. A Natureza encarrega-se de tratar do assunto à sua maneira e segues tranquila o teu discreto caminho.
Por agora é isto, esperas amanhã acordar bem-disposta e com vontade de tirar partido do fim-de-semana. Ah, só acrescentar que hoje (ontem) te deu mais um daqueles vaipes de querer mudar qualquer coisa no quotidiano. Nos últimos tempos voltaste a ponderar zarpar temporariamente do blogue, passando a concentrar a atenção nas Tílias e nos Verdes em modo caseiro e regressando ao foco na vida mais palpável. A verdade é que isto dos blogues, tal como as redes sociais (aliás, consideras os blogues uma das redes sociais) conduz a certa alienação. A menos que as relações familiares e de amizade (reais) sejam sólidas e presentes a coisa tende a não ser saudável - e isto não é só conversa para criancinhas. Sucede que este mundo estranho passou a ser o real e inevitável. A vida online impôs-se, fazendo perder tempo e disposição para o que é mais importante. Só não bates nesta tecla habitualmente porque tens reparado que quanto mais se faz esta crítica e alimenta teses sobre o assunto, mais se vive alienado das relações reais - deve ser para disfarçar. Regressando aos vaipes, concluíste hoje que te vais deixar ficar e tentar equilibrar os dois mundos não dissociando um do outro - a fórmula certa de tudo descambar. Apesar das circunstâncias recorrentes que te irritam - umas da tua responsabilidade outras não - sentirias a falta da escrita quotidiana exposta à crítica. E para seres totalmente franca a ideia de há dois anos (no primeiro destes três anos eram menos apesar da maior publicidade) teres uma dúzia de visitantes diária criou em ti um sentimento de lealdade. Se fazes companhia por alguns minutos que sejam a um punhado de "alguéns" é porque serves para alguma coisa e não estás de maneira nenhuma a minimizar-te ou vitimizar, pelo contrário, é a maneira natural como vês e sempre viste o mundo. Como já aqui escreveste, nos bons momentos sentes-te como se estivesses sentada ao serão na camilha de Valinhas, só que agora entre pouquinhos desconhecidos e conhecidos. É a tua medida.
De resto, não podes evitar os momentos maus. É esperar que passem e costumas fazer por que isso aconteça.