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04/04/2022

Transparente

Há momentos em te consideras rígida. Ou melhor há momentos em que achas que dás uma imagem de rigidez. Não te é fácil falar de sentimentos à toa. Não gostas de escrever sobre amor, paixão, ternura senão nas ocasiões em que o pensamento seja verdadeiramente tomado por eles. Não tens tendência para escritos apaixonados. Jamais te verias a escrever meses ou anos a fio dedicando todas as palavras ao sentimento que nutres por alguém ou mesmo por uma imagem idealizada. E isso por mais apaixonada que estivesses e por mais que amasses.


A vida é um todo tão complexo, há tanta matéria a tratar. Mesmo sendo o amor o sentimento supremo, quem sabe a razão última da existência, ainda assim não te ocupa por natureza a comunicação com os outros.


Se tentares sistematizar, há duas razões. Por um lado, a educação moldou-te a forma de expressar o amor por sinais mais subtis do que as declarações apaixonadas, os versos inflamados, os requebros, as manifestações ruidosas. Por outro, a natureza reservada faz-te querer sempre preservar o mais bonito da vida para aqueles que te enchem o coração e resistem em pé diante do que são e do que és, entregando-se como és capaz de te entregar.


Não falaste muitas vezes de amor e quando falaste estavas inteiramente apaixonada e convencida de que era amor o que sentias - nesses casos não deixaste nada por expressar. Não gostas é de fitas sem sentido, nem de palavras vãs. Nem de enganar ou ser enganada. É possível viver uma espécie de ligação sem que o amor seja chamado à colação e nesses casos não foste capaz nem serias de dizer mais do que sentias.


Se guardaste sentimentos? Se reprimiste emoções? Depende do que se chama reprimir. Se for não as declarar, obviamente que sim. Nem todas as paixões e amores se materializaram, alguns ficaram por viver, presos num tempo encantado que não chegou a vir, em sonhos belos, em palavras sussurradas para dentro, em sorrisos solitários, em tremores a solo. Aquilo que quem gosta de usar chavões diria: ficaram por desabrochar. Nada que não aconteça a tantos, imaginas que à maioria. Se bem que costumas pensar que ao menos na aparência a maioria das pessoas não deva ter embarcado em tantas paixões quantas tu, sobretudo, idealizadas - é como viver em quase eterna e sucessiva paixão. Mas se ponderares, também não dás de todo essa imagem, e sabe-se tão pouco dos corações de cada um.