Que postais tenho conjecturados para o mais imediato? Nem sei bem quantos são. Julgo que três. Aproveito esta entrada para pensar em voz alta, afinal a minha ideia é sempre a da transparência e da ausência do artifício que tanto critico. Se não os chegar a escrever fica ao menos o esboço. Já é alguma coisa. Penso solto e pouco estruturado no tal que referi há uns dias sobre a Ucrânia, os actores geopolíticos - o jargão poderia sugerir alguma solenidade, mas não, as ideias são simples como sempre - e o resvalar da realidade para o virtual. Gostava também de falar da Ucrânia de um modo mais humano, recordando o que dói verdadeiramente: as mortes, os ferimentos, o sofrimento das crianças, a fragilidade dos mais velhos, a destruição. E também o que o que é admirável: a nobreza de carácter e coragem dos ucranianos na persistência em lutar pela nação - tocou-me especialmente ver uma multidão em pé depois de assistir a um concerto em frente à Ópera de Lviv retirar ordeiramente quando as sirenes tocaram para recolher -, mas sem as excitações fáceis e grandes proclamações de apoio, que servem mais para apaziguar as almas inquietas que sobrevivem às imagens diárias da guerra nos jornais e às ondas de lugares-comuns, do que para revelar o sentimento de indignação e impotência que acomete a maioria do mundo.
Tendo a cair novamente numa ideia bem velha em mim: a repulsa pelos ascendidos. Seria o segundo post. Terceiro, aliás. Não necessariamente nos que se elevam a um patamar social ou intelectual superior, que além indivíduos muito válidos poderão ser excelentes pessoas, mas sim gente desde o príncipe ao pobre de pedir cuja ambição primária na vida é projectar-se e crescer à custa dos outros. Seja à custa no sentido mais material ou da aldrabice, seja de formas mais subtis de manipulação da realidade e do jogo de aparências em prejuízo dos outros e óbvio benefício próprio. A praça portuguesa com projecção está apinhada desta gente. Fazem definhar o país por não promoverem o valor intrínseco das pessoas e do pensamento, mas sim a aparência dele. Supostamente muito lidos e preparados, com argumentação muito bem fundamentada, a preguiça moral e falta de estrutura de carácter leva-os a puxar das gavetas e catálogos de valores mais apelativos sem lhes tomar o peso nem ponderar a aplicabilidade ao caso concreto. Vivem por isso de grandes proclamações e de guerrear todos quantos estudem, compreendam e questionem as fundações de cada princípio pronto a ser exaltado pelas marés do momento. Mais ou menos fáceis de identificar - pode demorar um pouco até se revelarem atendendo a que vivem de um fino verniz intelectual -, vivem em rede, enaltecem todo o contra-cliché que lhes dê sentido de pertença à tribo de privilegiados e naturalmente são pessoas votadas ao sucesso. Nos últimos 40 anos era mais fácil vingarem se tivessem uma costela mais à esquerda, hoje esbateu-se a diferença e a direita está também representada, impante. É assim que chegamos à existência do filósofo do regime, o humorista do regime, o poeta do regime, do editor do regime, do advogado do regime, o médico do regime, do jornalista do regime etc. Todos eles pródigos em pronunciarem-se sobre os grandes acontecimentos, efemérides e morte de ilustres, que imagino darem voltas na tumba ao sentirem-se homenageados pelo calibre de tão eminentes obituaristas. A morte de Agustina Bessa-Luís há três anos foi paradigmática nesta matéria.
O último postal seria para colocar os pontos nos is nas tretas da cultura do cancelamento e do politicamente correcto. É curioso ver que a pretexto da defesa da liberdade de expressão ou do mero bom senso surja há anos tão viva indignação por parte de gente habituada a agredir - energúmenos em tudo semelhantes aos grupos de rufias cool ou fixes dos liceus e que agora se choram por serem perseguidos. Não haja dúvida que se percebe que se sintam tocados. É natural que gente habituada a agir em matilha, a enganar, a agredir e injuriar frontal ou dissimuladamente fique tão perturbada com este coarctar da magna liberdade de criar prejuízo sério aos outros. Uns fazem disso profissão abertamente, outros vivem disso clandestinamente. Esta paranóia colectiva do politicamente correcto tira-lhes o sustento. Não há direito.
Acabei por dizer muito do que queria, salvo no primeiro tema. Deixo-o para outras núpcias. Ficam assim três postais e meio.