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09/04/2022

Diário

Uma noite em claro. Não acontecia há muito. Mas teve explicação: dormi durante a tarde de ontem e naturalmente de madrugada estava sem sono, tendo recolhido ao vale dos lençóis apenas depois das seis da manhã para acordar às oito. Procuro não fazer estas graças que eram constantes em mais nova pela noção que tenho do mal que me fazem ao juízo. Hoje retomarei os sonos em horários decentes.


Depois de ontem ter tido mais uma consulta de nutrição, de sair de lá cheia de grandes conselhos para uma vida saudável e de me desagrafarem mais uma vez a barriga que com tantos furinhos dá para fazer aquela piadola dos desenhos animados do efeito regador quando se bebe água, hoje levantei-me e andei bastante a pé para começar a repôr algum ritmo de exercício perdido nas últimas semanas e fui para a sessão de tortura da depilação a laser - aquilo a que as mulheres se sujeitam é um mistério por resolver. Almocei salada de feijão frade com pataniscas de bacalhau - fiz mal, são fritas pelo que têm gordura que ainda tolero mal. E deitei-me a dormir no sofá. Acordei com a minha mãe - em criança escrevia Mãe com maiúscula, como deve ser, mas que fazer, desaprendi - a acabar a leitura de hoje ao Nuno. Começaram a minha A Criação do Mundo, de Miguel Torga, que nunca cheguei a terminar. Dentro do livro encontrou além de uma cópia do meu Bilhete de Identidade de novita, uma folha de bloco com os nomes, nicks e números de telefone de um grupo de gente que conheci há 21 anos. Outras vidas. Hoje já nem consigo associar a maioria os nomes às caras, apesar de me recordar desse almoço. À saída cruzou-se com o meu pai nas escadas. O curioso é que estando ambos a aproximar-se dos oitenta sobem ao segundo andar pelas escadas, enquanto filha preguiçosa vem a maioria das vezes pelo elevador. Sistema submarino: desce mãe, sobe pai para o café de Sábado. Nos dias que estive no hospital vieram cá a casa todos os dias para dar apoio. Dou por mim como se ainda tivesse doze anos a ser protegida pelo cuidado parental e sinto-me uma felizarda por isso, tanto mais que os vejo saudáveis e cheios de genica - até tenho medo de dizer estas coisas. A mãe continua a fazer diariamente as caminhadas sete a nove quilómetros naquele modo independente de quem prescinde que a aborreçam com demasiada presença. Acho um piadão ao cansaço com quem atende as milhentas chamadas diárias da família e amigas, achando-as inoportunas por interromperem as leituras, as séries e filmes ou o ovo estrelado. Continua com a mesma independência que a fez meter-se num barco aos dezanove anos e partir sozinha para Angola no intuito de dar aulas. O pai cá em casa além da conversa entretém-se com o Ritz que o adora. Pois pudera, engorda sempre que saio uns dias e fica aos cuidados do pai. O que é curioso por conhecer poucas pessoas tão preocupadas com a linha e os cuidados de saúde como o meu pai. Filha de pais tão disciplinados e regrados não sei bem por que razão saí assim, sem moderação.


Ao chegar ao fim do dia percebi que não tinha dado o jeito à casa como é costume aos Sábados. Não é preocupante, limitei-me a tratar da caixa do gato, pôr a roupa a lavar e tentei dar uma olhadela pelos jornais, mas tirando dois ou três artigos, quase me fiquei pelos títulos. Começo a sentir a pequena ansiedade de retomar na próxima quinta-feira o trabalho depois de mais de vinte dias afastada. De qualquer modo, nos últimos anos ganhei uma qualidade que não tinha de todo em mais nova: ao fim de uns dias em casa consigo abstrair das preocupações de trabalho. Creio que começo a aprender a não viver em permanente afogadilho e a saber enfrentar uma preocupação de cada vez. Creio, nestas coisas nunca tenho certezas. Amanhã tenciono retomar a matéria que comecei a estudar na semana passada e interrompi durante dois dias. Se tudo correr bem daqui a meio ano terei novidades boas.


Por agora vou estender a roupa.