Isso fez com que o foco se mantivesse nessa minoria de vítimas, deixando o resto da população numa espécie de ângulo morto, ignorado pelos historiadores. Falei primeiro das razões circunstanciais, mas há também um lado ideológico, que vem da chamada historiografia antifascista, responsável por estudos mais sintéticos sobre a repressão do regime exercida pela PIDE. No campo académico, há uma mundivisão de teor marxista que a sustenta, e esta visão de teor marxista não é capaz de entender a posição do chamado “povo” como não sendo de vítima. Isso faz parte da própria teoria marxista, que vê o fascismo como uma forma quase extrema de capitalismo, contra a qual o povo se ia levantar e por baixo da qual se encontrava o povo subjugado. A sugestão de que as relações com a população não foram deste tipo, que foram muitas vezes mais de acomodação, de normalização, de instrumentalização da PIDE, até, não pode obviamente ser integrada neste tipo de interpretações. Penso aqui em autores como Fernando Rosas, Manuel Loff, pessoas que têm alguma influência no campo académico. De certa forma, decidiu-se quais os aspetos da relação sociedade-PIDE que deviam ser estudados e quais é que não mereciam tanto ser desenvolvidos.