Cidadãos comuns tinham "relação do tipo clientelista e também paternalista", com a PIDE, entrevista a Duncan Simpson, no Observador.
A análise dos documentos permitiu-lhe concluir que os cidadãos comuns interagiam livremente com a PIDE, sem serem coagidos a isso. Com que objetivos é que o faziam?
Quando comecei a trabalhar o tema, e até antes de começar, apercebi-me que quase toda a historiografia é sempre direcionada para os oposicionistas e para a maneira como estes eram perseguidos e submetidos aos mecanismos de perseguição da PIDE, exercidos de cima para baixo, enquanto o resto da população raramente entra no quadro analítico utilizado, o que, pessoalmente, considero uma deficiência na historiografia do tema. Os oposicionistas não representam mais do que uma pequena minoria da população. Interessa deslocar o foco da análise para a maioria da população. Quando falo de “cidadãos comuns”, dou a essa expressão uma definição precisa, mas larga — são os portugueses que não se envolveram na ação política, em particular de oposição ao regime. Quando analisamos a matéria sobre o tema, primeiro é preciso definir como chegar à relação dessa grande massa com a PIDE. Há várias maneiras de o fazer. Com este livro, foco-me no material de arquivo [na Torre do Tombo]. Procurei quais seriam as formas de interação entre a PIDE e a população. São três as que emergiram nos arquivos, e são mesmo de interação, não são simplesmente de relacionamento: as denúncias espontâneas, e não estou a falar de informadores pagos, selecionados pela PIDE, que de uma certa forma têm uma relação semi-orgânica com a polícia política, estou a falar mesmo de cidadãos comuns; petições endereçadas a agentes da PIDE por cidadãos comuns, isto é, qualquer tipo de pedido de ajuda ou assistência; e candidaturas espontâneas enviadas por pessoas que queriam ou entendiam integrar a PIDE como agentes ou como informadores.
Isso fez com que o foco se mantivesse nessa minoria de vítimas, deixando o resto da população numa espécie de ângulo morto, ignorado pelos historiadores. Falei primeiro das razões circunstanciais, mas há também um lado ideológico, que vem da chamada historiografia antifascista, responsável por estudos mais sintéticos sobre a repressão do regime exercida pela PIDE. No campo académico, há uma mundivisão de teor marxista que a sustenta, e esta visão de teor marxista não é capaz de entender a posição do chamado “povo” como não sendo de vítima. Isso faz parte da própria teoria marxista, que vê o fascismo como uma forma quase extrema de capitalismo, contra a qual o povo se ia levantar e por baixo da qual se encontrava o povo subjugado. A sugestão de que as relações com a população não foram deste tipo, que foram muitas vezes mais de acomodação, de normalização, de instrumentalização da PIDE, até, não pode obviamente ser integrada neste tipo de interpretações. Penso aqui em autores como Fernando Rosas, Manuel Loff, pessoas que têm alguma influência no campo académico. De certa forma, decidiu-se quais os aspetos da relação sociedade-PIDE que deviam ser estudados e quais é que não mereciam tanto ser desenvolvidos.