Nem sabes muito bem o que digas. Há cinco segundos não pensavas no que cuidavas no instante anterior a escrever cinco por extenso e ficares a pensar na causa de te acontecer numas alturas grafares em algarismo, noutras por extenso. Tal como não sabes a razão para tanta coisa sair ao lado do ideal ou sequer do normal. Que te fará trazer esse desajeito se és perfeccionista na ideia e ao concretizá-la tudo resulta rasurado? Será fado essa eterna falta de jeito, esse permanente borrão de vida? Esse modo desastrado de seres que faz do percurso um desastre sempre à espreita e do cômputo da vida um acidente consumado.
Lá fora faz frio e não sabes bem se é bluff o burburinho entre as figuraças que dominam o mundo ou já a ante-câmara de um conflito à escala mundial com uso do nuclear. Não consegues julgar ou antecipar por teres concluído que muito do marcar posição e das declarações anteriores fazem parte de encenações recíprocas e mais do que nunca sentes que o futuro está sujeito às flutuações de ânimo, interesses, falta de compaixão e, sobretudo, ao incerto destino.
Dás por ti a rememorar os tempos de maior aflição. Se não foste muito fadada para a depressão (quem diria, com textos que começam como este) e sim para as empolgações passageiras, recordas bem os tempos de há quinze, dezasseis, dezassete anos: o desespero ao perspectivar o futuro e não veres forma de conseguires estabilidade, de te sustentares e poderes teres uma vida qualquer, por mais insignificante fosse. À parte dos desgostos de amor - por mais duros sejam moem mas não matam - esse foi o momento que antecedeu a fase mais dramática da tua caminhada. Achares-te incapaz de tomares conta de ti e pensares que chegaria o momento em que ao invés de independente estarias completamente só, abandonada à tua miséria.
Pensas nisto por causa da guerra, imaginando um futuro para muitos, incluindo o teu, igual ao dos ucranianos que de repente ficaram sem chão - e sem filhos, pais, irmãos, amigos. Não é bom antecipar a tragédia até porque pode não se verificar e é desgaste perdido. Mas nos últimos dias tens colocado a hipótese de ficares sem emprego e sem o conforto da vida tranquila de menina mimada.
Como embaraças as ideias tentas perceber o que seria justo pensar em relação aos próximos passos no conflito na Ucrânia. O coração dita o justo: a Ucrânia não deve sofrer sozinha os horrores de uma guerra sem justificação razoável - como se as houvesse, enfim. A intervenção da NATO corresponderia então ao módico de humanidade. Sucede que há momentos em que a escalada de violência, o alastrar da guerra e o uso de armas nucleares manda o coração calar em prol da razão (será oportunismo?) e lá se vai a solidariedade com a Ucrânia para o brejo. Com isto joga quem manipula o tabuleiro da guerra. Com a cobardia de quase todos, incluindo a tua. Admitir isto não é bonito. Têm mais saída as constantes declarações e manifestações de grande coragem nas quais tropeças todos os dias. Essas são grátis e próprias de quem está sempre em cima do acontecimento e alinhado com a voz dominante do seu tempo, certa ou errada. A verdade titubeia, dói e pesa um pouco mais, apesar da baixa cotação no mercado do bitaite.
Por isso, se logo no segundo dia da invasão russa falaste na solução mágica e mais dramática, ficas agora a pensar se tinhas razão para dizer que afinal não é solução ou se o tal combate longo e tacticista, que antecipaste e se verificou, vai afinal esfumar-se por obra do Espírito Santo. Por comodismo tentas emprenhar pelos ouvidos e sonhar com negociações de paz bem sucedidas em Maio. Mas sempre cais num obstáculo aparentemente inultrapassável: e Vladimir Putin? Quem o vai tirar do poder? Quem o vai capturar? Quem o vai julgar? Quem o vai matar?