Sempre temeste os equívocos. Gente com saudável confiança em si própria - e não auto-estima balofa que não prezas - não costuma perder tempo em considerações sobre aquilo que os outros possam pensar. Mas tu sempre perdeste. É uma menoridade, uma das muitas que fazem de ti esse amontoado de pechas. A verdade é que te chateia a ideia de que te imaginem uma interesseira, capaz de se vender a troco de uma qualquer benesse. Só a ideia enoja-te. Um enjoo que nasceu contigo.
Sabes que não deves andar com um rótulo na testa a dizer: não estou à venda. Mas este postal é pouco mais do que isso. Por mais defeitos que tenhas - e são muitos - estás longe de ser uma vendida sonsa - uma daquelas pessoas virtuosas e cheias de qualidades tão auto-proclamadas e reconhecidas por tantos que enchem o mundo de aparência. Tens nítida preferência por gente imperfeita e frontal. Sempre te deram muito mais e souberam receber o que lhes deste sem dissimulação e cálculo. Foi muito o que recebeste e deste sem interesse, coisa que gente que se tem por perfeita parece não saber o que é. Além do que os desalinhados que conheceste tinham o hábito ver o mundo com um olhar mais verdadeiro do que gente exemplar tida por referência de correcção.
É, estas são as tuas diatribes usuais. Não tens assuntos mais prementes a tratar. Não sobram temas, estão todos esgotados de tão primorosamente dissecados pelas dezenas de iluminados que enchem as páginas dos jornais, das redes sociais e dos blogues com o seu brilhantismo, pertinência e superior moralidade. Estão tão certos, é tudo tão perfeitamente claro na mente destes iluminados que não sobra espaço para a tua imperfeição e para a imperfeição dos que te acompanham no desalinho. Para quê incomodar e molestar gente tão contente consigo mesma e o sucesso das suas certezas com as nossas burrices, falhas e dúvidas? A bem devíamos ser escondidos em sítios pouco visíveis para não incomodar o brilho das verdades do momento. Talvez façamos falta para trabalhar e fazer aquilo que os iluminados jamais se sujeitariam, na qualidade de gente auto-convencida de ser superiormente dotada de qualidades intelectuais e sempre capaz de criar a rede de interesses, de elogio e promoção mútua - mais vale cair em graça do que ser engraçado dizia o teu avô. Ou então para fazer de figurantes ou de idiotas úteis no jogo farsolas de debate pluralista nalgum espaço populista desde que não incomodemos com verdades chatas. Quiça na qualidade de bizarrias imprevisíveis sirvamos para que aproveitem meia dúzia de expressões ou ideias para o joguete argumentativo quando estão falhos de ideias. É usar e deitar fora. De resto, o mundo está lotado, os assuntos estão lotados pelas certezas, não sobra muito oxigénio para respirar senão para essa gente intelectual e moralmente perfeita e de sucesso que de possuir cérebros tão bem oxigenados consegue sempre ver a luz, mesmo nas trevas.