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28/02/2023
27/02/2023
Varanda
Esta segunda-feira.
Banalidades. Coisas comezinhas.
As tulipas trazidas de Amesterdão no início de Outubro de 2022.
Reparei que despontaram a 21-12-2022
Raparei com desenvolviam a 28-01-2023.
A primeira floriu no dia 14-02-2023.
A segunda já estava florida no dia 17-02-2023.
O caule acabou por desenvolver depois de florirem, visto a 21-02-2023.
A primeira a nascer deu sinais de velhice a 25-02-2023.
O peso fez tombar um pouco a segunda, ontem, 26-02-2023.
Na manhã de hoje a segunda estava bem erguida por si própria, não coloquei qualquer apoio. A primeira parece estar a envelhecer devagar.
Bom dia.
RAP
Há muito não via um Alta Definição. Acabo de assistir na box à entrevista transmitida ontem a Ricardo Araújo Pereira. Um homem indubitavelmente inteligente e reflectido. Nem vale a pena referir a graça, é desnecessário por ser de tal forma evidente. Deixo, não obstante, duas notas até para confirmar aquilo já aqui foi dito várias vezes quando me referi directa ou indirectamente a RAP. Por mais que invoque estudos para provar que não tem peso como orientador de opinião, e enaltecer um humor supostamente inócuo sob o ponto de vista moral e político, reduzindo-se apenas ao regozijo da liberdade de em democracia fazer piadas parvas e não sensatas, a verdade é que muito poucas figuras em Portugal têm o mesmo peso e influência na opinião pública nacional.
E a questão da demarcação do moralismo é no mínimo divertida. Parece um paradoxo, mas não é: os denunciadores dos moralistas e do moralismo são sempre os que mais valores morais propagam. No caso de RAP, posso até estar próxima da evangelização através da ironia que vai fazendo ao longo dos anos, mas não deixo de anotar o quão moralista é.
Por fim, fico sempre com pena que gente bem-sucedida evoque tanto o trabalho – chave indispensável do sucesso, não haja dúvida -, mas não sublinhe a felicidade de ser fadada por natureza com facilidades e talentos que tocam a poucos.
26/02/2023
Excepções no espaço público
A não perder Nuno Rogeiro hoje no Leste/Oeste, na SIC Notícias. Um diplomata de mão-cheia.
Pergunta semi-retórica
É de mim ou temos Marcelo Rebelo de Sousa a governar o país em tempo real nas televisões?
Varanda

Este Domingo.
A que nasceu depois ficou maior e por isso tomba um pouco.
Enquanto ponho esta fotografia, o arroz de berbigão para almoço acaba de fazer-se. Enquanto escrevi o post anterior uma borboleta fazia jogos de sombra na cortina; não a cheguei a ver, mas apenas o típico vôo errático nas cortinas como uma sombra chinesa.
Está um belo dia de sol.
Breve nota
Às vezes o que é, é mesmo o que é. O sarcasmo, a perversidade no pensamento e a necessidade de esmiuçar por desconfiança, tidas por sofisticação intelectual, só demonstram medo e falta de inteligência.
This Race Called Life
Bom Domingo.
Agora, depois deste momento pueril, vou fazer compras no Continente online.
(Dito assim parece que o Continente patrocina este blogue; ãh, que tal? Tudo vos soa muito vulgar, não é?)
Dois tópicos
Na sexta-feira tinha previsto escrever acerca da passagem do tempo como revelação e a facilidade de destruição da imagem ou reputação do comum mortal. Entretanto meteu-se um longo e reles Sábado de permeio (aos que gostam de tentar estragar os dias aos outros, informo que se o desprezo é tão grande, é escusado darem tanta atenção; arranjem uma vida com interesse e logo verão que não precisam perder tempo comigo), fazendo-me esquecer o que tinha intenção de escrever, mais uma vez sem antes estar delineado.
O primeiro item do tempo como congregador de conhecimento, como cola de peças desavindas e desconexas, é a ideia simples da lenta progressão da aprendizagem por contraste com a ostentação de parcelas de verdade momentânea. E não me apetece dizer muito mais do que isto.
O segundo ponto da destruição da imagem e reputação do comum mortal é apenas a constatação da frivolidade reinante no espaço público. O que tem valor não vinga a menos que ceda aos vendilhões da praça. Sempre que surge alguém que questiona as podridões da sociedade e defenda mínimos de dignidade, é vexado e desacreditado através da manipulação retórica. Uma onda de gozo e crítica feitos pelos grupelhos de interesse e influência que dominam o aparentemente sofisticado mercado nacional da informação e entretenimento e com eles as vendas políticas, jornalísticas e culturais. Nunca seremos um país para levar a sério se a voz da mediocridade disfarçada de competência e erudição se sobrepõe e abafa o valor através da manipulação. Seremos sempre um país de faz de conta, de chico-espertos a tentar dar ar de eruditos.
É muito fácil destruir outrem. Ninguém está a salvo de ver reduzida a cinzas a sua imagem e, uma vez que hoje não se distingue uma da outra, ninguém está a salvo de ver destruída a sua dignidade. E para os imbecis ou tontos que vêem aqui uma ameaça e para os que sempre vêem segundas más-intenções, aprendam a ler e a perceber o que lêem, em vez de tentarem mostrar-se muito sofisticados e de se chorarem tanto por não haver leitores em Portugal. A constatação de não haver limites à manipulação da opinião associada aos mecanismos de Inteligência Artificial é assustadora. Já a primeira é perigosa o suficiente, acrescentando as máquinas, o perigo torna-se exponencial. Devia fazer pensar. Todos.
25/02/2023
Nota breve
Continuam os ataques cobardes sob anonimato ou assinados e ainda assim dissimulados. O que fazer? Ignorar os grupelhos de cobardes. Nunca passarão disso.
Recapitulando uma vez mais
Guerra na Ucrânia
Só se tivesse perdido completamente o juízo ou a capacidade de avaliação da realidade e não fizesse a mais pequena ideia do que são as leis que regem as relações internacionais é que não perceberia que o que se passou na Ucrânia foi uma invasão e não distinguiria de modo claro o agressor Rússia do facínora Putin da agredida Ucrânia - não acordei para a questão há dois meses, já me referi à previsível invasão em Abril de 2021, aqui e aqui, tal como me foi instintiva a tomada de posição desde o primeiro momento desta segunda investida de Putin na Ucrânia, aqui e aqui, sobre cujos antecedentes já aqui tive oportunidade de explanar.
Malgrado os forçados argumentos baseados no vínculo histórico-cultural comum esgrimidos pelos defensores da posição de força russa, a ingerência de Putin ao longo destes 20 anos, máxime através Viktor Yanukovych, é manifestação evidente do esforço de hegemonia regional russa na tentativa de impedir um Estado Soberano de prosseguir os seus interesses ao dar os passos necessários para se juntar a entidades supranacionais - no caso União Europeia e NATO - em clara violação do direito da liberdade de associação entre estados.
Usando de um tipo de manha que já não passa no tempo moderno face à capacidade da comunicação social desmontar a cada minuto as mentiras forjadas - e, diga-se em abono da verdade, com igual capacidade da mesma comunicação social para as criar em favor de uma qualquer campanha de mentalização tida momentaneamente por superior - Putin foi preparando a invasão ao mesmo tempo que a desmentia, tentando enganar o mundo e acabando por investir contra o país vizinho, independente desde 1991, sob pretexto de manter a paz nos territórios separatistas de Luhansk e Donetsk. O feitiço virou-se contra o feiticeiro sendo os russos confrontados com o inigualável espírito e capacidade de resistência ucraniano, apoiado pelas boas intenções das vozes internacionais audíveis e pelo fornecimento de equipamento militar por diversos países ocidentais.
Apesar da contra-ofensiva do país cuja soberania foi violada, a dura realidade no terreno deixa a descoberto um cenário de destruição das principais cidades ucranianas, e das vilas e aldeias que, como bolsas de resistência, ficam a caminho desses pontos urbanos. Os ataques com misseis de longo alcance russos destruíram não só muitos dos activos militares ucranianos, como foram bombardeadas zonas administrativas, residenciais e hospitais. O caso mais chocante de crise humanitária é talvez o da cidade portuária de Mariupol, no sudeste da Ucrânia que, pela sua posição estratégica de acesso ao Mar de Azov, foi alvo de cerco e bombardeio durante semanas pelas forças russas, causando centenas de mortes de civis. Nas últimas semanas equipas de voluntários reúnem relatos e provas no terreno de crimes guerra e infracções dos direitos humanos.
*
Há quase 20 anos talvez me satisfizesse com uma posição maniqueísta da situação, vendo de um lado a vítima e do outro apenas um único agressor. Quando tive o primeiro blogue - creio que em 2003 - lembro-me da reagir mal às críticas à hipocrisia norte-americana. O mundo dividia-se entre posturas anti-comunismo e anti-americanismo, assemelhando-se às discussões Porto-Benfica por adeptos fanáticos. À época era uma tonta que tomava partido pelo lado americano. Típica discussão infantilóide na qual só me perdoo ter alinhado por na altura estar na casa dos 20 e saber pouco da vida. Por isso me é tão estranho continuar a ver as mesmas lengas-lengas e a forma leviana de tratar a guerra em gente com idade para ter juízo e experiência de vida da qual não parece tirar lições.
Há uma série de questões que sempre que se colocam despertam reacções raivosas inconsequentes de gente excitada ou fanáticos, habituados a viver num mundo pintado a preto e branco pela comunicação social menos exigente, que são meras decorrências do pensamento de quem não gosta de ser leviano quando tenta perceber a realidade em que vive.
As razões do ímpeto belicista de Vladimir Putin estejam ancoradas numa estruturante mágoa pela quebra de status da Rússia na geopolítica internacional com o colapso da União Soviética e numa visão imperialista e não democrática do mundo, ou tenham também por base um ressentimento anti-americano pela preponderância dos Estados Unidos nas relações internacionais através do uso da força militar, não devem ser negligenciadas ou omitidas sob pena de não se perceber o que está a acontecer.
Tal como a inegável e crucial ajuda norte-americana à Europa na Segunda Guerra Mundial - e, sobretudo, na sequência dela -, o seu papel de grande país democrata acolhedor de milhões de emigrantes fugidos da pobreza e da violência de estados totalitários e a partilha dos valores ocidentais, não nos deve fazer reféns da gratidão e cumplicidade, mantendo-nos com palas nos olhos, cegos às evidências dos interesses em jogo nos dias de hoje.
Não é por a China ser um país autocrata desrespeitador dos direitos humanos que deixa de ser verdade a acusação aos Estados Unidos de promoverem ou facilitarem a Guerra na Ucrânia como forma de lucrarem economicamente com a substituição do fornecimento à Europa do gás russo pelo gás norte-americano, numa altura em que estavam com maior dificuldade em escoá-lo.
Não é por não merecerem todo o nosso apoio e ajuda que não é notório que os martirizados refugiados ucranianos tiveram maior compreensão dos restantes europeus que acorreram a acolhe-los do que os escoiceados refugiados sírios. E falar em migração económica num país destruído por 10 anos de guerra, com a participação de diversos países ocidentais e seus interesses, e onde foram usadas armas químicas não abona muito a favor de quem invoca para a Ucrânia toda a defesa dos mais nobres valores mas é incapaz de ter a sensibilidade de perceber que os direitos humanos não são bandeirinhas para hastear apenas para o lado daqueles com quem simpatizamos ou para o lado das vítimas dos que detestamos.
Para terminar, deixo a sensação que decorre em qualquer alma com um pingo de compaixão pelo sofrimento alheio: o absurdo hiato entre o cenário de crime e violência circunscrito à Ucrânia a quem os países europeus e demais Ocidente vai fornecendo armas para se defender ao mesmo tempo que tudo fazem para que o cenário de horror não extravase fronteiras, assistindo à tragédia com a leve penalização do agravamento temporário da inflação, que acabará por favorecer as suas economias.
O pretexto tão real quanto conveniente da ameaça de conflito nuclear tem permitido à Europa e aos Estados Unidos manterem-se confortáveis enquanto a guerra está circunscrita, de nada valendo a regra, noutras circunstâncias tão invocada - desde a intervenção da NATO na Jugoslávia para defesa dos direitos humanos no Kosovo -, de que as intervenções militares podem ter justificação no caso de violações maciças dos direitos humanos, permitindo mesmo a invasão de um Estado Soberano.
A Invasão da Ucrânia
Na próxima hora vou reunir aqui neste post as ligações para as entradas nas Comezinhas acerca de Ucrânia e de Putin. É tarefa demorada, mas faço desta forma o apanhado geral.
Feito.
Adenda. Resolvi colocar além dos meus textos, as entradas para as notícias dos jornais, que aqui fui mencionando. Ficou desconfigurado, mas não vou corrigir. Exigiria paciência. § Afinal reconfigurei, haja paciência.
*
Momento Miss Universo, em 09.04.20; O espanador - Rússia e Ucrânia, em 04.04.21; A ler, em 18.04.21; Jornais, em 17.06.21; Agenda, em 04.08.21; A ler, em 19.01.22; A ler, em 21.01.22; A ler, em 24.01.22; A ler, em 03.02.22; A ler, em 08.02.22; Jornais russos, em 15.02.22; Mimetismo, em 17.02.22; Guerra, em 22.02.22; Sentimento do dia, em 25.02.22; Passo a passo, em 25.02.22; A parte mimada do mundo - o pacifismo de sofá -, em 26.02.22; Pormenores, em 27.02.22; Vendo parágrafos, em 01.03.22; Verdade, em 01.03.22; Mexerufada de ideias, em 05.03.22; A ler, em 05.03.22; A direito: é preciso matar Putin, em 07.03.22; O espanador - Ucrânia - actualizado -, em 13.03.22; Relações abertas, em 17.03.22; Oráculos, em 21.03.22; Ouvindo, em 23.03.22; Sinais preocupantes, em 23.03.22; Três e Meio em Um, em 02.04.22; A Guerra, em 06.04.22; A ler, em 09.04.22; Guerra na Ucrânia, em 13.04.22 (destaco este); Agradecimento, em 13.04.22; Mais uma mexerufada, em 16.04.22; A ler, em 18.04.22; A ler, em 26.04.22; A ler, em 29.04.22; Lembrete, em 29.04.22; Ex-pata, em 30.04.22; A ler, em 01.05.22; Diário, em 07.05.22; "A palavra menos obscena nesta música é foder", em 26.07.22; Ouvido, em 21.08.22; A ler- actualizado -, em 22.08.22; A ler, em 03.09.22; Vladimir Putin, em 30.09.22; Lido- actualizado -, em 08.10.22; Lido, em 09.10.22; Espanando ao de leve- actualizado -, em 25.12.22; E que tal uma Petição a Favor da Eliminação de Putin?- actualizado -, em 20.02.23; Hiatos- actualizado de novo devido ao excesso de "vezes" -, em 21.02.23.
Pode ainda ser pior?
Ontem surgiu na minha mioleira ideia medonha. Sempre critico as redes de interesse, os consequentes vãos elogios tribais e a falta de mérito no acesso ao poder e aos lugares ao sol na sociedade. Pus-me a pensar se é pior do que penso: se o carácter poucochinho da maioria do que é enaltecido e vendido como se tivesse qualidade for sinal não só da promiscuidade dos interesses e das excitações momentâneas, mas da real inexistência de valor. Será que não há gente com pensamento estruturado e independente? Não haverá onde recrutar gente de valor? Entre recrutadores e recrutáveis só haverá vendilhões de lugares-comuns, bandeiras de facção e intriga palaciana de algibeira? Ou estará escondida, essa gente? A conversar em família e com amigos, a trabalhar com seriedade e a viver o dia-a-dia com as dúvidas, os erros e os acertos e todas as vicissitudes próprias do comum dos mortais, evitando a todo o custo expor-se num mundo que privilegia o que vende e vende fancaria, bazófia e vacuidade?
Não é uma visão muito optimista, não. E, claro, há excepções. Mas não passam disso mesmo num país onde reina a imagem e não o valor em si.
Varanda
Este Sábado.
Lei da vida. A que nasceu primeiro já dá sinais de velhice. Entretanto as hastes acabaram por desenvolver normalmente.
Lido
Sem acordos à vista, Durão Barroso admite situação idêntica à das Coreias: "Vai ser dificílimo durante muito tempo; nem guerra, nem paz", no Observador.
Questionado sobre até onde o Presidente russo poderá ir, Durão Barroso também não se socorreu de eufemismos. “Putin está a jogar tudo o que pode, e vai continuar a jogar, na permanência desta guerra”, considerou o antigo presidente da Comissão Europeia, explicando que, ao contrário do que acontece com a Federação Russa, para quem o conflito em curso não é “uma guerra existencial”, para Putin a guerra — ou a vitória na guerra — é uma questão de vida ou morte (política e de facto).
24/02/2023
Agenda

Aqui na serenidade da lufa-lufa. Ah, as contradições, mas é isso mesmo: o movimento que traz tranquilidade. Também ajuda ter estado a ouvir Chopin enquanto trabalho e agora um cocktail de música clássica sugerida pelo YouTube - não ser criteriosa dá-me a bênção de ser brindada com coisinhas boas sem saber bem o que oiço: doces enlevos da ignorância. Aqui a saber que estou 24 minutos atrasada no plano de tarefas do dia. Nada de grave, há dias em que não planeio a jornada de trabalho e a vida acontece na mesma. Mas o facto é que gosto dos dias em que vou marcando mentalmente horários para terminar as sucessivas tarefas e consigo cumprir. As metas ajudam e facilitam o quotidiano. Nada pior do que jornadas baralhadas de todo. Não é que não façam falta e o acaso, a surpresa e mesmo as contrariedades não sejam férteis, mas a rotina com objectivos permite um certo bem-estar físico e mental difícil de alcançar doutro modo.
Agora estou atrasada 27 minutos. A ver se só me retardo meia-hora.
Deixo neste meu moleskine a céu aberto dois tópicos que hoje me pipocaram na ideia. Talvez os desenvolva mais tarde. Ficam em agenda:
- a passagem do tempo como revelação;
- a facilidade na destruição da imagem ou da reputação do comum mortal.
(Atrasei-me 38 minutos; 18 deles por causa do blogue.)
Adenda. O que vale é que isto funciona como na Fórmula 1, nas últimas voltas no sossego do prego a fundo (ah, as contradições) acabei por recuperar o tempo perdido e terminei todas as tarefas até aos três minutos para as sete. Não sei em que lugar fiquei, mas isso não me preocupa minimamente - mentalidade lorpa de concurso: ah, o que interessa é participar -, sei é que estou francamente bem-disposta por ser sexta-feira e ter um fim-de-semana pela frente.
23/02/2023
Diário
Acabo de ligar o aquecedor ponderando se aqui vou estar tempo suficiente que justifique o gasto. Este mês a factura da luz aumentou. Nos últimos anos até achei que estávamos a dosear os custos, sendo as contas mais simpáticas. Recordo-me de em Bessa Leite gastar mais, apesar do fogão ser a gás. Aqui é tudo eléctrico, o que me agrada, deixando-me contudo dependente de uma única fonte de energia, situação que não é aconselhável. Duas observações. A primeira para dizer que não se costuma considerar educado falar de aspectos financeiros pessoais em público. O que é estranho. Ao contrário da maioria dos meus compatriotas que gostam sempre de dizer que em Portugal é assim e lá fora é assado, não sei como é lá fora, por nunca ter vivido tempo suficiente fora do meu país para tomar pulso aos hábitos arreigados. De qualquer modo, há sensações. E, claro, a verdade universal de em todas as partes do mundo haver gente com educações muito diferentes, de nos quatro cantos do mundo haver gente mais e menos educada. Mas em termos genéricos dizem-me elas, as sensações, que povos mais criteriosos, com costumes prudentes e racionais, não fogem à discussão e ao enfrentar das questiúnculas económicas. Dos aspectos práticos da vida. Coisa pouco apreciada neste país de poetas de quadras em verso de pé quebrado. Talvez seja por isso que alguns países sejam mais desenvolvidos, mais ricos e alguns povos gozem de melhor qualidade de vida. Por cá falar de dinheiro, sobretudo com realismo e verdade, é falta de educação, como era para alguns na primeira metade do século passado falar de doenças. Uma das minhas bisavós quase teve um chilique - contido, obviamente -, ao ouvir à mesa de jantar alguém referir-se a uma dor de dentes. Ficou vexadíssima pela má-criação. Compreendo-a perfeitamente: em novita quando num jantar em casa de um ex-namorado, com a família dele, vi circular uma pomada para zonas íntimas no final da refeição, fiquei para morrer, apesar de ter sabido disfarçar, de já estar na casa dos 20, de até então já ter presenciado muito que pasmasse a maioria dos conterrâneos e por natureza ser pessoa pouco dada a mariquices e etiquetas que tais. Mas quão absurdo será falar disto num tempo em que à hora do jantar se atira na televisão com publicidade a pomadas para a candidíase vaginal, e para quem logo no primeiro emprego a fazer sondagens políticas se viu forçada no meio do questionário a perguntar aos entrevistados se conheciam certa marca de laxante? Brilhante. Além disso, a maioria dos conterrâneos pensará: mas onde está o problema?, por considerarem este tipo de sensibilidades coisa de gente esquisita, anacrónica e hipócrita, o que remete para outro momento grande da minha experiência de vida quando, aos 14 anos, no Instituto de Línguas Lencaster College o professor Nick comentava não se habituar à visão dos portugueses cuspirem no chão, ter assistido à reacção de uma colega, dizendo: então, para onde é que a gente havia de cuspir? Julgo que no momento corei por ela e pelo país inteiro, e ainda hoje sinto um nojo imenso quando passo por um desses selvagens na rua.
Bem, eram duas observações, mas estendi-me tanto na primeira, que me esqueci da segunda. Vou reler para ver se me recordo. Até já. Voltei e não me lembro. Passo por isso para outro item, ficando apenas presa ao tema anterior por espanto: quando é que ia adivinhar que contaria aqueles episódios? E porquê hoje? Não faço a mais pálida ideia. Saiu hoje. Os astros conjugaram-se e fizeram-me expelir estas lembranças agora, como podiam ter aberto outras gavetas da mioleira. Não faço esforço, a coisa “flói”, por isso não deve ter valor. Como se sabe tudo quanto tem valor exige esforço e é sofrido. Ora tudo quanto escrevo agora é apenas fruto de lembrança puxa lembrança, associada à falta de vergonha na cara para deixar fluir.
O item novo e simples, em três linhas. Como aspectos mínimos na vida nos podem fazer sentir bem: a capa nova do telemóvel e o novo filtro dão-me todos os dias a sensação de limpeza e mudança. Gosto. E foi uma pequeníssima alteração no quotidiano.
Ainda uma ideia básica, já expressa num post anterior. Como navegamos na máquina do tempo e do espaço pela leitura. Estamos em Fevereiro e ainda não comecei a ler novos livros. Isto é, talvez tenha começado, mas essa parte é irrelevante. Decidi sim, terminar quatro livros deixados a meio ou no fim o ano passado. Há quem deixe livros a meio ou no início por não gostar, eu cometo a proeza de gostar imenso e ainda assim abandoná-los por meses – antigamente eram anos, estou a melhorar, qualquer dia chego ao ponto de os ler de enfiada a todos; então?, tudo é possível se agora acordo antes do despertador. Será preguiça ou tolice, mas é assim mesmo: deixo os livros a meio ou no fim. E que universos temporais e espaciais me chegam à mioleira através da leitura desses quatro livros? O Brasil do século XIX, o Afeganistão da viragem para o século XXI, o Oriente ao longo dos milénios e Inglaterra há 100 anos. E querem que os leia de enfiada? Preciso de dar tempo às personagens e ao autor para se ambientarem ao meu tempo e confesso: o que menos me interessa é saber da intriga e do final da história. Na adolescência sim, e talvez na juventude, até saltava directo para o fim. Cada vez me interessam menos as miudezas e mais o tutano da vida, saboreá-lo como quem chupa o interior do osso da galinha, nem que seja como os cães, o enterre por meses, para voltar a gozar mais tarde. Pelo meio intercalei umas crónicas bem-dispostas, que estão na mesinha cabeceira só para aqueles dias em que me deito mais cedo e me apetece ler 10 minutos antes de dormir – o tomo das crónicas divertidas lá está há mais de um ano e possivelmente ficará mais um, já que são raros os dias em que leio na cama. Nesta fase prefiro o sofá. Dos quatro referidos há pouco, acabei dois. Nas próximas semanas tenciono acabar mais dois. E só então darei verdadeira entrada aos livros deste ano. Serão poucos, julgo, como usual.
São 23h30 e vou desligar o aquecedor do +1.
Avarias
Ontem durante o fim da tarde, noite e esta madrugada, algumas zonas de Ramalde (freguesia) e o Carvalhido, no Porto, estiveram sem serviço da empresa de comunicações NOS. Uma avaria por corte de cabo de fibra óptica. Abrangeu uma zona extensa e populosa.
Claro que não pude deixar de me lembrar do post Conversas Íntimas de Agosto de 2020. Interessa-me perceber como se pode acidentalmente ou não cortar as redes de comunicação. Manias.
22/02/2023
As aparências
De manhã ao descer a rua ouvi uma conversa atrás de mim: ainda é caro, são quatro euros por mês, mas para ter acesso a (…) de cultura vale a pena, posso entrar em Serralves, por exemplo, sem pagar. Fui ultrapassada por dois homens na casa dos 30 talvez, ar entre o negligé e o maltrapilho. Confirma-se: gente preocupada com a cultura. Nos pés sapatilhas brancas – ténis para os possidónios –, nas costas pequenas mochilas pretas: Adidas e Fila. No meu tempo (diverte-me escrever isto) eram pochetes ou carteiras de couro, os looks da cultura hoje são Adidas e Fila. Antes a minha mochila da piscina azul marinho, marca incógnita, comprada no chinês. A proveniência é a mesma, o trabalho escravo o mesmíssimo, só não obedece às certificações Iso e, claro, não confere o estatuto aparente de alma preocupada com a acerto do mundo.
Outra vez, que tédio
As matilhas ansiosas por ascender ao poder enchem muito o peito, gabam-se muito de coragem sem saber o que isso seja. Usam intimidação sistemática para tentar enfraquecer aqueles que vêem como inimigos, quando a estupidez natural nem sequer permite percebam quem é o inimigo. Nada pior do que a cegueira fanfarrona dos grupelhos de interesse, que só sabem agir em matilha e à traição.
A lucidez há-de andar sempre pelo seu pé, indiferente às tentativas de intimidação.
21/02/2023
Hiatos
Os dias são cheios de hiatos temporais. Mais uma vez de rajada, a primeira ideia, antes de avançar para algumas esboçadas em pensamento: daí o que escreves sair tantas vezes com tempos verbais aparentemente discordantes. As ideias atropelam-se em tempos – ou pessoas – diferentes. Quando lês os teus posts em voz alta acontece corrigirem-te o tempo verbal. Já pediste diversas vezes que não o fizessem. Isso poderá aprimorar-te e fazer coincidir mais com o tido por correcto, mas descaracteriza e tira verdade ao que dizes. E tens consciência do que são faltas de concordância. Todos os dias te atrapalhas em fazer concordar o singular do sujeito com o predicado. Às vezes a dúvida reside em saber que sujeito prevalece. Enfim, dramas existenciais enquanto vais ouvindo pela enésima vez os The Doors. Continuas a adorar ouvi-los como há 30 anos. Teres colocado ontem o vídeo deve-se ao facto de uma colega de trabalho ter dito que estava bem-disposta de manhã por haver ouvido (no carro, crês) uma música deles. Associas sempre os The Doors a uma das primeiras saídas nocturnas. A passagem de ano quando tinhas 13 ou 14 (nunca sabes, erras sempre por 12 meses). Acompanhando os teus irmãos e o grupo de amigos deles – por volta dessa altura criarias laços de amizades próprios, precisavas de independência e também de ter e dar atenção a gente com quem sentisses afinidade. Nessa noite passaram música dos Doors: e não esqueces da impactante frase de abertura: Ladies and gentlemen from Los Angeles California The Doors, antes da enérgica entrada da bateria. Aquilo era todo um mundo e a música fabulosa – ficavas anestesiada ao ouvir a bateria, a guitarra e a voz de Jim Morrison, tal como ficas hoje. Nos anos seguintes ouvirias vezes sem conta a cassete de um dos teus irmãos – nem sabes bem de qual dos dois mais velhos. Parece que têm gostos musicais muito diferentes. Não fazes questão de saber quais, vais, como foste sempre, aproveitando daqui e dali.
Vejamos, estás a ouvir um concerto do início dos anos 70, com toda a ambiência, sonoridade e fumos da época, saltaste até uma discoteca em meados da década de 80, numa das primeiras saídas à noite – durante os anos seguintes as saídas a bares e discotecas foram raras, só começaste a sair com frequência mais tarde. Até aos 18 tinhas o hábito – e perdurou por vários anos – do café em grupo depois do jantar e até tarde, mas nos cafés das redondezas de casa. E estás a contar isto, agora, nos anos 20 do século XXI, muito para lá do que imaginavas quando adivinhavas o futuro. Lembras-te de em novita pensares no ano 2016. Não sabes porquê, também não é importante. Ontem, numa noite dos anos 20 do século XXI, quase acabaste um livro começado há meses, cujo enredo se desenrola no século XIX. Deliciada com a pureza de sentimentos, ris-te com o facto de teres pesquisado hoje informação sobre o romance e descobrires uma enormidade de intrincados significados que apesar de entenderes bem, sempre achas excessivos e dispensáveis. Ah, a sofisticação, a necessidade de explicação e rebusque é tanta. Quando quase tudo quanto retiras para ti do romance que acabarás hoje de ler, é que o devias ter lido nessa altura que ouvias The Doors numa discoteca pela primeira vez. Era tudo tão mais simples na vida, apesar dos críticos literários conseguirem sempre juízos do arco-da-velha para ter o que dizer sobre o óbvio. Tudo isto no entremeio de conversas sobre o facínora do Putin que é figura fruto do século XX, florescida em pleno na primeira vintena de anos do século XXI.
Hoje discursou, a besta. E claro o mundo parou para o ouvir. Há uma coisa que te assusta na atitude pensante de muitos comentadores. Chamas: estupidez de menina tonta. Parece misógino e talvez seja, mas se não admitisses que assim apelidas não estarias a ser honesta, e não gostas de fugir à franqueza. Mas onde está a estupidez, afinal? No constante desacreditar da inteligência de Putin. E a menina tonta de onde vem? No facto de conheceres entre muitas meninas este tipo de argumento: ah, é racista porque é ignorante, é machista porque é ignorante, é xenófobo porque é ignorante. A menina tonta pensa erroneamente que o conhecimento é garantia de bondade. Não é. As meninas e os meninos tontos julgam que a informação, a leitura afastam os homens da barbárie. Não afastam. Era bom que assim fosse. Os jornais e as livrarias ocupariam as farmácias, os jornais e os livros substituiriam os ansiolíticos, os antidepressivos e antipsicóticos. Era muito bom que assim fosse, mas infelizmente a realidade é um pouco diferente. Isto a propósito das análises aos discursos de Putin, que menorizam a inteligência do facínora ou a sua falta de conhecimentos históricos, militares ou de qualquer outra natureza. Subvalorizar o inimigo não é muito inteligente. E bem sabes que se vive na sociedade de informação e imagem veloz, na qual se pode destruir um perfil através da montagem artificial de retrato pejorativo. É claro que pode haver uma estratégia de desacreditação para enfraquecer o criminoso. Isso faz sentido, o que não faz é acreditar em fraquezas do inimigo que não existem. O perigo não está em exteriorizar a fraqueza de Putin, expondo-a, mas interiorizá-la, acreditando nela. Voltemos à bondade do conhecimento. Dizem-me que há qualquer coisa de Platão nisto. Há, mas não vou explorar. Obrigar-me-ia a ler e quero continuar o presente texto. Procurem a coincidência entre o bem e a sabedoria por contraposição da correspondência entre o mal e a ignorância. Tudo isto para dizer que se este facínora suspendeu o mundo não é com certeza burro. É um criminoso, mas não um imbecil. Tal como o Ocidente não é a entidade virtuosa impoluta propalada na comunicação social, pelo que conviria ouvir como Putin a demoniza.
A vida é feita também de pequenos episódios. No Domingo compraste finalmente uma nova capa transparente e maleável para o telemóvel. Há mais de um ano andavas para mudar a tua, que já metia nojo de tão amarelecida. Tinhas tentado comprar, mas não encontrando logo, acabaste por protelar. O caso típico de procrastinar – quem diria vires a utilizar este verbo em coisa tão pequena -, constitui, esse sim, um irritante para a vida. Mais do que as grandes decisões que dariam origem a grandes arrependimentos. O facto é que há mais de um ano em várias situações quando vais pousar o telemóvel nalgum lugar visível aos outros, pensas: dá mau ar, está com um ar sujo. Mas não havias tomado a decisão de resolver o pequeno irritante até à semana passada. Mandaste vir da internet uma – que só hoje viste estar na caixa de correio -, mas como passaste no Domingo em frente a uma loja de capas no centro comercial acabaste por comprar outra, além de colocar novo filtro, e trazer – gratuito, dizem eles; só rindo – uns auscultadores pretos de fio. Ficaste contente com este terceiro artigo gratuito por andares sempre com fios brancos que berram muito. Preferes a discrição dos pretos. Só não te habituas aos de prender apenas na orelha, sem fio. Trapalhona como és, se os levasses para a rua, perdê-los-ias no primeiro dia.
Para terminar uma alusão à ida de hoje ao supermercado, que o André Ventura vai gostar. Precisavas de comida para o gato e, julgavas, café. Afinal tinhas uma caixa de cápsulas em casa. Lá foste, trouxeste também morangos e bananas – gostas da ligação destes frutos. Nos últimos anos tens ingerido mais fruta, por influência do Nuno, que não passa sem ela. Antes de viveres com ele tinhas perdido um pouco o hábito, mas regressaste em força e hoje a fruta é um alimento fundamental cá de casa, como se deve notar pelas fotografias da cozinha. Voltando ao supermercado. Foste para a caixa. Quando ias começar a ser atendida por um português de origem africana, reparaste que atrás dele, na outra caixa, estava um casal originário do Sul da Ásia. Como sabes as proveniências? É evidente que num caso pode ser português há várias gerações e no outro podiam até ter vindo de outra parte do mundo, mas as feições, a tez e a língua assim o indicavam. A filha do casal, que teria por volta dos sete anos, começou a mexer nas caixas de cartão pousadas sobre a mesa do funcionário. Retirou qualquer coisa que meteu ao bolso. Viste. Não disseste nada, mas devias ter dito. Em seguida tirou mais coisas, o empregado da caixa viu. Olhou para ela, mas não disse nada, ficou hesitante, com medo. A mãe da miúda olhou, percebeu e riu-se. Entretanto ao meteres as coisas no saco não sabes se a miúda devolveu o que tirou, mas crês que não. E foi assim. O certo seria tu teres feito sinal ao caixa para que percebesse de início que a criança estava a furtar qualquer coisa ou mesmo dirigires-te directamente à criança. O certo seria que o caixa pudesse dizer à criança que devolvesse o que tirou. O certo seria que a mãe repreendesse a filha. Nada disto se verificou e isto não é bom sinal. Uma coisa simples que é o instinto de uma criança que deve ser educada, como qualquer criança que faz asneiritas, é empolada pela lata ou distracção da mãe e o silêncio e medo de melindrar do caixa e teu. Silêncio e medo resultante da mentalidade dominante: das acusações disparatadas ou exageradas de xenofobia. É preciso distinguir o certo do errado. É errado não tratar bem estrangeiros, o certo é tratá-los de modo igual aos nacionais, com correcção, mas não é certo temê-los quando agem de modo impróprio, vingando o silêncio e a permissividade. E isto será válido para o caso da criança ser portuguesa. Porque também aí existe silêncio e medo de fazer reparos a quem age mal. Quantos vêem atitudes reprováveis de gente sem educação – portuguesa ou estrangeira - e fecham os olhos para evitarem problemas?
Sonho
Seguia ou seguíamos, não sei bem quem seguia, por uma estrada de serra, daquelas nacionais com mata dos dois lados. Muito bonita paisagem. E decidia onde haveria uma reentrância para a praia. A praia não o era. Nem sequer uma fluvial. Antes uma piscina, sem o aparato das piscinas azuis. Tudo em tons naturais da terra, pedra e vegetação e uma água, céus, uma água translúcida, límpida. Houve dois ou três momentos distintos, se bem que não sei fazer os separadores. Os sonhos não são lógicos e inteligíveis à primeira. No primeiro separador, na sequência de ter entrado num dos tais caminhos laterais que era eu quem decidia onde poderiam nascer em função da sinuosidade e inclinação do terreno, surge em volta de uma piscina de água límpida, um belo casario caiado. Casas térreas brancas numa rua tranquila de paralelo junto água. Essa tinha sido uma “praia” aconselhada e no sonho tinha nome de localidade portuguesa, que esqueci. Um lugar belíssimo. No outro separador a tal outra piscina natural ou lago com fundo cor de pedra enquadrada na vegetação, plena de água pura e cristalina até às bordas. E o contraste: quando saía de dentro da água, ao pousar os pés junto à vegetação, que era mato, tudo ardia baixo rente ao solo, ali junto aos pés e à água que em leve ondulação quase beijava o lume. Levantei os olhos e a vista era ampla e descoberta: toda a serra ardia, sem que tenha sentido sinal de medo. Em tranquilidade via a chama mansa e quente, como se fosse veludo, queimar a vegetação, mas seguia sempre por onde não queimava. A temperatura tépida era perfeita. Não havia fumo de espécie alguma e pensava sem me assustar em momento algum do sonho: há água e posso chegar à estrada, é tranquilo.
Varanda

Esta terça-feira de Carnaval.
O caule foi desenvolvendo há depois das tulipas florirem.
Esta tarde tenciono escrever dois postais. Um sobre o sonho de hoje, outro sobre impressões destes dias.
20/02/2023
E que tal uma Petição a Favor da Eliminação de Putin?
Até hoje só tenho memória de ter assinado uma petição. Foi há anos, numa Feira do Livro, contra o Acordo Ortográfico, matéria que não me comove muito. Creio ter subscrito outra, mas já não tenho memória do teor. Hoje só me vejo a assinar a Petição a Favor do Assassinato de Putin - essa sim seria uma petição a favor da paz. Num tempo que se fazem petições por futilidades, isso sim, mereceria atenção. Não ignoro os argumentos contrários: a eliminação (eufemismo de assassinato) do facínora é considerada contraproducente, havendo quem defenda que isso sim seria o início da Terceira Guerra Mundial, com recurso ao nuclear. Há quem ache que Putin ainda terá uma réstia de pudor, que quem ficasse não teria. Há quem preveja a desagregação da Rússia e efeitos avassaladores para a Europa e o mundo. Enquanto nos entretemos a conjecturar tudo isto, ouvindo sábios e especialistas, cujo sustento é a própria opinião sobre guerra, a Ucrânia e os ucranianos vão sendo sacrificados. Virão outros depois, e quem comodamente acha que se deve conter os estragos às fronteiras ucranianas, ainda não percebeu que de uma forma ou outra vai levar com a guerra na tromba. O que se tem estado a fazer é apenas adiar. O assassinato de Putin, que defendo desde o primeiro momento, é imperativo e urgente.
Entre tantos sábios, não haverá quem saiba lançar uma petição nesse sentido? Para começo, depois logo se veria com outros sábios, como executá-la.
Dizem-me que ao escrever este post revelo falta de bom senso. Seja. Também devo revelar burrice. Seja. Ficou escrito.
*
Alguém mais sensato e conhecedor do que eu, diz-me: era melhor o comandante (máximo) do Grupo Wagner - que opera em diversos pontos do mundo - e uns subordinados principais.
19/02/2023
Varanda

Este Domingo.
Depois de muita sorna tenciono jantar fora. Repetir a segunda-feira, excepcionalmente. Não é provável que vá fazer a viagem planeada para o Verão deste ano, por isso posso permitir-me certos desafogos. Irei comprar uma máquina de café Dolce Gusto. A antiga pifou esta manhã, depois de alguns avisos prévios. Bebemos por isso Nescafé. Só me chateia o facto das cápsulas não serem recicláveis (bom, é possível abri-las e separar o pó do plástico e do alumínio, mas não é prático). Se não sou maníaca das questões ambientais, considero que devemos consumir de forma racional, prudente e não gosto de desperdício. Se bem que fico a pensar naquela enzima que come plástico: como andará esse processo? Seduz-me a ideia do homem sempre se adaptar à Natureza e da capacidade de engenho ser prodigiosa. Esses são os assombros da vida, da ciência que interessa. À parte destas importantes considerações só me ocorre outra. A S. recordou-me hoje que andar a pé - o exercício físico - faz bem à memória. Não me posso esquecer disso. Bem tenho descido de manhã e à hora de almoço a pé para o trabalho. É para continuar, não posso perder o hábito de andar a pé, para olear a máquina cinzenta, de modo a não ficar parvinha de todo.
Umbigo
Depois de horas de pura pasmaceira, cá estás tu. O tempo que ficas parada a pensar na morte da bezerra daria uma outra vida. Talvez um terço da tua esperança de vida na proporção do tempo acordada - talvez seja exagero, mas dá a ideia que é muito, e é de facto. Quantos feitos poderias ter alcançado nesses anos de suspensão? Estás a escrever de rajada, sem planear esta entrada que saiu no momento só por teres reparado nisto: anunciaste que escreverias em seguida e ficaste parada mais de uma hora - depois de outras duas paradíssimas. Há vidas difíceis. Quando, até aos trinta e poucos, demoravas horas a adormecer, ficavas assim nessa letargia física, mas sempre mentalmente viva. Uma canseira, ufa. Quantos assuntos poderias ter estudado à exaustão?, quantas centenas de livros podias ter lido?, quantas centenas de filmes e séries podias ter visto? Quantas decisões imperativas poderias ter tomado?, quantas acções podias ter empreendido? Quantos livros poderias ter escrito? Dá ideia de arrependimento? Pois, ele é zero. Sabes hoje que a cera que fizeste toda a vida construiu o que és. Nem melhor nem pior do que és. Podias ser melhor? Pois, com certeza. Podias ser pior? Sem dúvida. Uma coisa é certa: não serias o que és nem o que sentes e disso não arredas pé. Teimosa como uma mula.
Depois aprendeste a adormecer assim que cais na cama. E a arranjar espaços solitários ao longo do dia para voltares a esse sossego contigo mesma. Nem gostas muito que falem contigo nesses momentos. Tens de te conter para não responderes torto. Precisas do teu espaço, tempo de solidão para conversares contigo. Para pensares sem interrupções. Tempo nada sofrido, antes pelo contrário. Essa é a regra. Dás-te muito bem contigo mesma. Claro que houve momentos em que não eras assim. Momentos de doença. E há momentos pontuais em que voltas a amuar contigo e à sensação de incompreensão dos outros. Cada vez menos. Toca a todos e convém aprender a lidar e saber ultrapassar as contrariedades da vida. Claro que dizes isto hoje, assim leve, por estares bem-disposta. Noutro dia pintarás o quadro menos cor-de-rosa. Mas a bem da verdade tendes mais para a alegria do que para a negritude. Não tens muita pachorra para grandes tristezas. Mal te vais afundar nelas, cansas-te. Cansas-te com facilidade. Será feitio, uma questão de enfado e gosto pela mudança. E como dizem as tuas colegas de trabalho: quem muda, Deus ajuda.
Tudo isto é fácil dizer se preenchidos certos requisitos básicos do bem-estar. Possuir trabalho e independência económica, independentemente das frustrações que sempre existem. Bem te lembras que a fossa mais fossa (à moda brasileira) onde te enfiaste teve a ver com a angústia de te achares incapaz de sobreviveres independente sob o ponto de vista económico. Achares-te incapaz de te sustentar, projectando-te num futuro negro e solitário. Nem gostas muito de imaginar a hipótese de estares sem emprego – e não é que não seja provável, mas haja fé no futuro. Viver em paz e confiança com a pessoa com quem divides a vida. Poderes dizer o que pensas e sentes sem medos de ser mal interpretada ou incompreendida. Bem te lembras como era guardares para ti mágoas e sonhos e de quanta insegurança isso te trazia. Viver com confiança e a cumplicidade de quem te quer bem e se preocupa contigo e a quem queres bem e com quem te preocupas confere propósito e tranquilidade ao quotidiano, independentemente de todas as contrariedades presentes e dúvidas quanto ao futuro. Haver saúde e bem-estar entre os familiares e amigos. Haver bom ambiente de trabalho. E estás numa fase na qual estes factores parecem confluir pela positiva. Agora, uma parolice: apetece-te bater na madeira para que esta paz não se desfaça – fazes mais gosto em ter aprendido estas pequenas superstições do que nas grandes ilustrações para as quais, apesar de toda a curiosidade e pontual interesse, nunca terás tempo suficiente, por estares ocupada a devanear e a viver contente.
Não era nada do que está para trás que ias escrever. Se bem te lembras o aspecto do umbigo que ias tocar era outro. Puxando pela cabeça, por te haveres esquecido. Um compasso de espera. Coças a ponta do nariz, a cabeça, o cantinho do olho direito. Sobes os óculos com o indicador. A Smooth diz que é “a melhor companhia enquanto trabalha” e ris-te sozinha: se isto é trabalho vais ali a já voltas. Ah, é isso: perfeccionismo e medo de desagradar. É uma recorrência: será que o medo de avançar (para quê?, avançar para quê, se toda a vida foi um contínuo?) se prende com perfeccionismo e vontade de agradar. A primeira é mais fácil de chutar para canto. Nunca foste perfeccionista, caso contrário não serias o monte de imperfeições, distracções e pequenas despaciências que és. O perfeccionista combate com disciplina e método a preguiça e as imperfeições. Não tens estas qualidades. Ponto. Medo de desagradar. Bom, aqui a doutrina diverge. Ris-te. Sim, queres agradar, procuras ser simpática com todos (salvo sob reacção ao que te aborrece ou fere), mas não perdes uma oportunidade para desagradar se isso te puser em paz como o que és. Querer agradar é humano. Mas não a qualquer custo. Produzir uma imagem ou pensamento agradável contra o que pensas e sentes não é de todo teu timbre. Agora juntando a ideia da eterna dúvida e hesitação que confere a tal aparência de busca da perfeição e vontade de agradar a todos. Não é. Desde criança não consegues ficar-te por uma ideia isolada. Ao pensamento acorre-te sempre pelo menos a afirmação e a negação, a luz e a sombra. Desde criança à ideia vem-te sempre um novelo. Nunca foste pragmática, senão por obrigação de sã convivência. Tinhas de viver, tinhas de decidir, por isso andaste para a frente indo e decidindo às vezes com grande desembaraço outras de modo mais desajeitado, mas sempre na dúvida. Na dúvida se tinhas feito bem, escolhido bem, dito bem, escrito bem, respondido bem. E a dificuldade não estava necessariamente entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Não há aqui perfeccionismo. Nem o problema é o de agradar. Está além disso: sempre foi uma monumental dúvida íntima. Eterna dúvida e eterna insatisfação com que aprendeste a viver, começando a entender que o teu maior medo é o de fugires ao que acreditas, ao que consideras verdade, ao que és. Se estiveres enganada, estás tramada. Cai tudo por terra: cais tu própria. Uma aposta furada. Ou não. Uma mão cheia de nada. Ou não. É um risco viver.
18/02/2023
Varanda

Este Sábado.
Depois de uma directa, uma tarde a dormir e uma noite de pasmaceira, escreverei qualquer coisa daqui a pouco sobre umbiguices, possivelmente.
A (des)propósito do ChatGPT
(Este texto nasceu como resposta ao post Mundo Novo do blogue Imagens.)
Mecanizar as conversas e as pesquisas é mais um passo no desenvolvimento da tecnologia que se vem fazendo com os bots há quarenta anos. Quem há quase quarenta anos programava nos velhinhos Spectrum já fazia qualquer coisa muito incipiente nessa matéria. Há mais de vinte anos nos chats era habitual essa ferramenta, claro que em moldes nada comparáveis aos que estamos a falar hoje. Não faço a menor ideia do que aí vem. Deixo pouco mais do que sensações.
Primeiro. Uma ideia um tanto simplista: também a televisão durante oitenta anos foi um meio de disseminação de visões do mundo, tantas vezes adulteradas.
Segundo. A dúvida se é a tecnologia que anda a reboque da realidade ou esta daquela. Ou seja, a televisão, que já fora usada para a propaganda por Hitler (tal como o controlo e perversão da imprensa) popularizou-se nos anos após a Segunda Grande Guerra, num ambiente de vitória dos valores democráticos e da Liberdade. Na Europa, num ambiente de renascimento e cooperação entre Estados. O desenvolvimento da tecnologia de transmissão de imagens por via electrónica, apesar de ter começado a dar os primeiros passos nas vésperas do horror nazi, está mais associado a momentos felizes, digamos assim. Por cá, crescemos a ver as guerras ao longe (no caso português, apesar de estarmos envolvidos em guerra nos anos 60/70), a assistir à denúncia dos regimes totalitários. Esse é o testemunho que sobressai da televisão. Apesar disso, criaram-se na comunicação social, sobretudo na televisão, mas não só, mitos e simplismos, dividindo o mundo, nas últimas décadas, entre os puros e os perigosos fascistas - nos últimos anos também entre os puros e os perigosos comunistas -, desprezando todo o contributo que qualquer individuo considerado mais radical de direita ou esquerda possa dar. Por exemplo, é muito comum em Portugal haver absoluta incapacidade para ler uma pessoa válida, informada, culta e lúcida, por estar conotada com a defesa do Salazarismo - tal como há, em meios com menos audiência até há pouco, anticorpos inultrapassáveis em ouvir gente que tenha estado empenhada nos anos 70 na defesa da criação de um Estado Socialista e não renegue esse passado. E quem dá estes exemplos dá outros mais actuais. Seja o caso dos defensores da privatização da Saúde e dos protectores do Serviço Nacional de Saúde. As incompreensões em tempos de crise e de sensibilidades à flor da pele acicatam de parte a parte a agressividade (tantas vezes disfarçada de cinismo) e tornam mais engenhosos e cada vez mais radicais e cheios de razão os defensores de cada lado das barricadas, não permitindo chegar a pontos de confluência de interesses e valores, a bem do país.
Terceiro, o aparecimento e massificação da internet, uma ferramenta criada inicialmente para troca de conteúdos entre universidades, está a dar-se num momento de decadência da Liberdade. Não sei explicar a raiz dessa decadência. Ainda será cedo para entender ou serei lenta, é bem possível. Claro que há gente que a explica de uma penada com a ignorância, a falta de exigência no ensino e a desvalorização da importância do conhecimento do passado – às vezes vejo a defesa destes argumentos feita por gente que a todo o momento revela abundância de preconceitos e profunda ignorância não tendo a menor consciência dela. É verdade que a falta de juízo crítico e a notória falta de conhecimentos de História (às vezes, em supostos estudiosos da área) de vasta percentagem da população não augura nada de bom, mas não sei se isto por si só explica a decadência. Afinal o mundo nunca deixou de ser assim: uma elite com acesso ao conhecimento e ao poder face a populações manipuláveis. Apesar de hoje compostas de cada vez maiores camadas de gente mais “informada”, com mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos do que nunca - e mais convencidas da sua ciência do que nunca.
Quarto. Há um factor que distingue decisivamente a televisão da internet: a obscuridade da identidade de quem tem acesso ao poder. Sempre tivemos demagogos e manipuladores na televisão, mas sabíamos quem eram, tinham face. Na internet a identidade é diluída. A manipulação da opinião pública, ou dos utilizadores das redes sociais, é feita sem os constrangimentos que a coragem do assumir da identidade por inteiro acarreta. A disseminação das falsidades e o uso de perversidades são feitos muitas vezes sob anonimato ou pseudónimo. E mesmo que não haja anonimato há uma certa capa de protecção que o mundo online confere retirando susceptibilidades e fragilidades que o mundo físico impõe.
Quinto. A vida online permite interacção, tornando-se por isso mais viciante do que o mera atitude passiva de assistência da televisão ou dos outros meios de comunicação social. A interacção potencia a ideia que se faz parte da rede – uma convicção de aparente democraticidade por participação cívica. Pode induzir na ideia errada de que se tem mais poder e influência do que efectivamente existe. Ou seja, quanto menos preparado e, simultaneamente, mais ambicioso o individuo for mais perigosa será para si a utilização da internet – acabará por ser engolido pelo próprio logro.
Sexto. No entretanto, o mundo online permite a ascensão à governação e ao mundo das influências e interesses sociais, económicos, políticos e culturais daqueles que sempre a eles acederam: os que valorizam e sabem gerir as redes de relações interessadas e os mais habilidosos na retórica e no uso da tecnologia, hoje sob a égide dos grandes grupos económicos, nos quais também figuram as grandes empresas tecnológicas, a quem tudo quanto interessa é vender e ganhar mais, compactuando se preciso for com ideários totalitários, de esquerda ou de direita. Se hoje se inclinam mais para um lado, amanhã mudarão: o dinheiro não tem cor, cede a quem der mais.
Sétimo. O ChatGPT como “aperfeiçoamento” de pesquisas e conversas mecanizadas é tanto mais perigoso quanto se tiver em consideração os pontos anteriores. Não deixando de ser verdade o que digo, será lutar contra a evolução e o futuro dizer que é um instrumento tecnológico apto a ser usado para manipular a opinião pública e que pode ser utilizado na propaganda sendo desaconselhável na organização de entidades públicas e privadas por já todos conhecermos as enormes deficiências e contra-indicações das máquinas que conversam connosco. Apesar do susto de ver uma ferramenta em potência insensível e ignorante ser utilizada em termos universais, ela vingará quer barafustemos ou não. Sempre foi assim que os progressos tecnológicos se impuseram no mundo. Cabe-nos apenas perceber que, como a televisão, esta ferramenta fundada na IA pode ser usada para fins de manipulação, de propaganda totalitária e puritana, ou ser utilizada de forma a promover os valores democráticos e a Liberdade. E se hoje é usada para debitar uma cartilha tendencialmente de esquerda e identitária, é porque é isso que vende. É por haver comprador. Isso sim devia levar muitos bem pensantes e orientadores de opinião na comunicação social e redes sociais a pôr a mão na consciência e perceber que mentalidade dominante ajudaram a criar nas últimas décadas. Inverter a situação não passa por ser reaccionário, mas por fazer contrapeso sensato e corajoso. Em Portugal, em concreto, há anos de atraso no que diz respeito à aceitação de algumas ideias moderadas (tidas erroneamante por radicais) de direita que são pura e simplesmente enxovalhadas na comunicação e redes sociais, sempre que ditas em voz alta. Mas para que elas sejam aceites é preciso acabar com duas pechas de direita: a típica prosápia infundada e a falta de sensibilidade social.
17/02/2023
Varanda

As tulipas não fecham completamente, mas têm um movimento de resguardo, acautelando-se um pouco.
Afinal a loja de artigos em segunda-mão não está interessada nas três colunas Logitech (duas mais subwoofer). Ainda bem que liguei antes de partir em viagem com o saco. Disseram que não há compradores para este tipo de produtos electrónicos. Entendo: os computadores de mesa deixaram de ser usados. Fiz uma segunda tentativa para oferecê-las à Associação Emaús, aqui mesmo na rua, mas estavam fechados.

Vai daí, resolvi colocá-las na mesa de trabalho do +1, ligando-as ao portátil. E não é que afinal têm bom som? Vou conservá-las.
A testá-las, Amy Winehouse.
E foi assim, um dia sem trabalhar. São 19h00.
Varanda

Agora já abriram as duas. Parece impossível, saio de casa para ir almoçar com a B. e a E. e quando volto a segunda tulipa vermelha - quis a Natureza e a sorte que me saíssem duas vermelhas - também dá o ar da sua graça. O almoço foi óptimo, duas horas e meia de muita treta e gargalhadas. No fim deu-me um sono desgraçado que não sei de onde vem - devo-me ter picado num fuso. Agora vou sair para despachar umas colunas de som numa loja de produtos em segunda-mão. Se vier a tempo do anoitecer ainda mostrarei as tulipas a fecharem.
Varanda

Uma manhã em casa permite ver uma tulipa abrir. Foi esse tempo que tive na infância. E que me faz passar por figuras tristes na rua ainda hoje. Ontem à hora do almoço lá parei por poucos segundos duas ou três vezes no caminho para levantar a cabeça e tentar descobrir entre os ramos das árvores de onde vinha o piar dos pássaros. Essas coisas despertam-me a atenção, mesmo quando tenho controlados os três ou quatro minutos entre fechar o computador na empresa e entrar no autocarro.
É um nada surreal falar destas coisas quando o mundo audível à maioria se começa a dividir e extremar perigosamente entre esquerda e direita. Só falta de bom senso de parte a parte.
Pequeno-almoço
Durante trinta anos não tomei outro pequeno-almoço que não fosse um café. Continua a ser a única bebida que me sabe bem de manhã. Depois de várias tentativas de ganhar juízo ao longo das três décadas, nos últimos anos lá consegui introduzir um iogurte. Levava-o para a empresa e depois de passada uma hora ou mais de lá estar, comia-o. Demorei meses a habituar-me, e ainda assim sentia muitas vezes tomar aquilo como remédio. Nos últimos meses substituí o iogurte por uma banana. Prefiro. Tal como o iogurte às vezes esqueço-me dela. Não há problema nenhum, fica para lanche.
Mas ninguém me tira o café. O ano passado não achei piada nenhuma a estar três meses sem beber café. Já reestabeleci há meses o hábito dos três, quando não quatro, por dia. Ao jantar nem sempre bebo, apesar de não me fazer diferença quanto ao sono. Detesto descafeinado.
Recordo dizer há 20 anos que o café era a minha religião e pensar quais seriam os alimentos e bebidas base que escolheria se me reduzissem o leque das possibilidades. Água, evidente. E café, pão e queijo. Seria capaz de viver assim, só disto. Ah, e açúcar ou substituto para adoçar o café - não tenho paciência para as teses pretensiosas sobre a heresia de adoçar o café. Não seria infeliz com este leque de alimentos.
Recapitulando
Deixas a escrita doce e bela para as circunstâncias em que faz sentido. Não serias capaz de dizer o que não sentes para embelezar sentimentos inexistentes ou encobrir amarguras e sofrimentos. Mil vezes passar por insensível à falsidade.
Esperas que o tempo te ajude a desembaraçar cada sarilho da vida, como ajudou há pouco a trazer luz e razão às trevas que te penalizaram injustamente durante tanto tempo. Ah, há matérias em que a razão não é chamada. Não crês: a razão é sempre chamada.
Não fazes a mais pequena ideia do que vai ser o futuro, como nunca soubeste, apesar de muito devanear. Conheces mal até os teus desejos, muito menos foste fadada com engenho para programar. Não tens talento para transformar sonhos e desejos em alvos. A tua escrita tesa e decidida é enganadora. A tua preocupação é a de manter tudo o mais desenleado possível e fiel ao que sentes. Não enganar. Tentar agir pelo certo. Tentar e às vezes escorregar. Procurar viver de cabeça erguida, acreditando na boa-fé dos outros, por não fazer sentido ser de outra forma apesar dos pesares. Estiveste demasiado tempo em reclusão e amadurecimento defendida dos outros e de ti para te veres regressada à vida em vão.
Se a vida fosse como querias – nunca é, sabes bem -, cada um saberia o que sentes, ainda que não soubesses dizer exactamente o que sentes, muito menos o que queres. Da mesma maneira que gostarias que assim agissem contigo. Sem sarilhos nem enredos.
16/02/2023
Momento da greve dos professores
«Este Governo não pode continuar surdo para um grito tão ensurdecedor de tantos professores neste país. Nós somos pessoas licenciadas, com mestrados, com doutoramentos. Nós não somos ignorantes.»
Declaração de um professor em manifestação para as câmaras de SIC, ontem no Jornal da Noite.
Moleskine
Ontem deste por ti a pensar que começas a perder mão no que escreves. Até há um ano lembravas os posts passados por associação de ideias. Agora começas a ter aquela noção: ãh?, escrevi isto? Talvez resulte de no último ano (ano e meio, dois?) teres passado a papel a ecrã bastante mais quantidade de divagações. As Comezinhas começam a encorpar. Lembras de há pouco tempo planeares uma suma das ideias recorrentes, aquelas em que és chata como a ferrugem - a insistência deve ter sentido para além do obsessão ou de qualquer outra explicação pela negativa que a psicologia costuma gostar de esmiuçar para rotular com simplismo. Alguma razão hás-de ter e convém dar consistência às ideias (algumas delas). Com propósito: chegar à conclusão ou dar resposta simples a uma pergunta que ficou a martelar o teu cérebro e que na maior parte do tempo nem sequer consegues concretizar. Mas percebeste que o peneirar do passado (e é tão recente, caramba; se fizesses isso com a vida estarias bem arranjada) é tarefa aborrecida. Até há pouco era fácil correr o blogue todo, deixou de ser. Mas sabes que mais cedo ou mais tarde acabarás por dar uma ordem nisto. Não sentes pressa nenhuma. Nem pressão. Ao menos no momento. Agora ocupa-te mais a ideia de te desfazeres de tralha em casa: ciclicamente precisas de libertar tralha para criar espaço e ideia de espaço. Precisas de umas horas a mexer em quinquilharia, roupa, marroquinarias, sapatos, etc.. Escolher e desfazeres-te do que estando acumulado há anos, não faz sentido guardar. Uma forma como outra qualquer de te organizares mentalmente. Quanto ao blogue depois logo se verá.
As agendas vão ajudando a manter um rumo (sempre errático, ou nem tanto). Isto a propósito de uma entrada visualizada hoje em que dizes fazer das Comezinhas o teu moleskine a céu aberto. É isso, e também o permitir que venham à luz do dia as infindas horas de divagações solitárias e em andamento. Por vezes entrecortadas com trocas de impressões com quem te cerca. Algumas das agendas ficam por isso mesmo, já estará tudo dito, noutras não. A ideia mais ou menos desenvolvida virá ou não a seu tempo.
15/02/2023
Agradecimento
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Agradeço uma vez mais à equipa da SapoBlogs o destaque de ontem.
Aproveito para agradecer as visitas e comentários aos leitores das Comezinhas.
Faço muito gosto de os ter por cá.
Recapitulando
Pode dar ideia que misturo ideias tirando ilações erradas, mas talvez não seja assim. Das coisas que mais gozo me dá é ver gente nascida por exemplo na segunda metade da década de 90, agora na casa dos 20, a declarar-se apaixonada pelo talento de grandes músicos do século passado já desaparecidos e, em muitos casos, afastados das lides públicas já aquando do nascimento destes mais novos admiradores. O papel dos pais e outros familiares é neste campo essencial. Por vezes o conhecimento chega por outras vias: gente que se vai cruzando na vida dos mais novos - veja-se o caso dos professores -, que dá os lamirés necessários para o despertar da curiosidade. Quem fala de música, fala de literatura, pintura e demais artes. É uma delícia ler comentários das entradas no Youtube vendo a confluência de várias gerações num mesmo espaço irmanadas pelo gosto do que é bom – pena não ter muito tempo.
Ao longo da vida lidei com pessoas – entre muitas outras, felizmente – que desdenhavam, tantas vezes ridicularizando, o gosto dos mais velhos nas mais diversas áreas. Desde a gastronomia, à moda ou à música. O cliché do conflito de gerações - tema muito na moda quando era novita - mina o que se pode concluir deste desdém. Justificá-lo apenas com a natural evolução e necessidade de modernização, atirando o antigo para o campo do anacrónico quando não defeituoso ou nefasto, é a fórmula certa de deseducar os mais novos. A natural necessidade de afirmação e demarcação das novas gerações e o seu contributo como sangue novo, ímpeto e rasgo não faz esquecer que não há verdadeira abertura de espírito, evolução e civilização sem conhecimento e respeito pelo passado. Convém fazer perceber que não nasceram de geração espontânea tal como todas as descobertas - tantas vezes apresentadas como inquestionáveis achados dos novos tempos - não nascem do acaso, mas da linha contínua de contributos de gente muito válida das gerações anteriores - às vezes ostracizada pelas elites actuais por desencontros ideológicos com os lugares-comuns em voga no presente. Confirmei ao longo da vida que quanto mais desconhecedoras e desrespeitadoras do antigo são as pessoas, mais ignorantes ou certas da bondade dos valores que vingam no presente estão, e mais fáceis de manipular na adesão inconsequente às modas ou falsas contra-modas, tantas vezes inchadíssimas ao invocarem a ciência e a erudição (da treta) para efeito.
Isto não obsta a que reconheça que viver com a cabeça no passado e a falta de capacidade de compreensão do presente e novo conduz a uma certa alienação. Como em quase tudo, o meio termo faz a virtude.
Batendo numa das teclas habituais das Comezinhas, isto é, continuando a ser chata como a potassa ou chata como a ferrugem (assim me diziam em pequena), acrescento que a má fama do que é antigo funda-se também no mau exemplo da prosápia de muitos ditos connaisseurs que rejeitam e desprezam as abordagens desempoeiradas, os registos despretensiosos e o uso de plataformas e suportes mais modernos onde o conhecimento pode ser disseminado, utilizando-os à socapa em proveito próprio para robustecer as ideias sem pagar o devido tributo. Trata-de de gente e grupos que mais do que conhecimento buscam auto-gratificação, pose e auto-promoção. Em muitos casos apesar da aparência pouco valem como transmissores de pensamento, ciência e arte.
Mais uma vez: se tudo isto parece evidente e básico para tantos, para quê perder tempo? Por uma razão simples, o que parece lana-caprina a uns, não é imediato para outros. Dir-se-ia que a rejeição da pompa pelos mais novos ou desempoeirados é imediata não precisando de alerta e que qualquer indivíduo adulto medianamente inteligente percebe a importância do passado sendo escusadas as linhas naïf que dediquei ao assunto.
Há contudo um aspecto que vejo sempre bastante esquecido: o escusado hiato entre mundos díspares. Numa sociedade que se diz muito tolerante e plural, na qual toda a gente parece ter opinião e ser ouvida, a questão base fica por resolver - chegar ao outro não é apenas deixá-lo exprimir o que pensa e sente. É respeitar. É integrar no seu o que é válido no pensamento do outro não batendo o pé por ignorância militante, necessidade de afirmação, vontade de achincalhar ou por perceber que o conflito fútil rende dividendos reputacionais ou venais. Enquanto estrategicamente se confundir respeito com pensamento único, fazendo-o confundir com aquilo a que se chama respeitinho, aproveitando para o fazer cair no ridículo, não se percebe o essencial.
É também aqui que reside a causa da incultura e atraso da sociedade portuguesa, muito mais do que nos lugares-comuns sempre atirados para a discussão: o atraso económico do país, a falta de meios na educação, a falta de hábito de leitura. Nem o país é pobre, nem as dotações para o ensino são parcas, nem os miúdos lêem tão pouco (e não vou entrar na discussão estéril e também falsa da qualidade da leitura) quando comparados com as gerações anteriores. Enquanto vingarem a aparência, os clichés sobre os benefícios da leitura disseminados por gente que se percebe não entender o que lê, beatificando o ritual e a imagem em vez do lógico e real não vamos sair da cepa torta. O país beneficiaria sim, se os pretensos sábios nas mais variadas áreas profissionais descessem dos pedestais infundados e percebessem que a democracia (ai, credo, democracia escrita em minúscula) não existe para favorecer os mais fortes nos dotes de retórica e na capacidade de agremiação e auto-promoção, mas para dar a oportunidade a todos de viverem melhor e em liberdade, o que só se consegue com acesso generalizado e igualitário ao conhecimento - não confundir com acesso às peanhas da bazófia e do estéril, os bens maiores por que tantos se engalfinham em Portugal.
À devida escala todos os indivíduos são elos de conhecimento, por parco que seja. E quanto mais humilde se é a mais gente se chega. Como dizem as empregadas domésticas companheiras de viagem de autocarro, com quem muito aprendo: não levas o dinheiro para a cova. Nem a bazófia, acrescento.



