Gostas da sensação de não se vislumbrarem obrigações para amanhã. Há uma leve ideia que te esqueceste de qualquer coisa. Mas não há-de ser muito importante. O grosso está tratado. As comunicações relativas às obras de Santa Engrácia estão feitas. Engraçada a forma a quem diriges isto. A ti ou a todos? A alguns? É absolutamente indiferente. Ou melhor, varia de momento para momento. Direccionado para o exterior personalizado ou não, ou mera conversa com os teus botões? A tal que te acompanha desde sempre. Tentas recordar as voltas que davas ao recinto do ciclo preparatório para fazer horas, tentando perceber se já à época conversavas contigo e com os outros a andar a pé, como fizeste anos a fio, ou deixavas a imaginação solta sem diálogo. Não interessa.
Esta semana foste tratando de outras pendências, relativas à saúde familiar, como a confirmação da mudança de médica de família do Nuno. No meio do caos que vês na comunicação social, mais uma vez contigo correu tudo primorosamente. No fim de Setembro falaste com a médica contando que a clínica do teu companheiro se reformou e que ainda estava registado na antiga freguesia de residência, pedindo que o colocasse na sua lista de espera. Em Dezembro recebeste a confirmação de que já estava inscrito no teu centro de saúde, como paciente da mesma médica (agora, verdadeiramente, de família). Na semana passada pediste marcação de consulta se possível para o início da manhã. Em 15 minutos obtiveste resposta ao email com a marcação para o início de Março, às 8h40. Impecável. Não há urgência.
Hoje levantaste-te um pouco mais tarde, perto das 10. Depois da ronha matinal de fim-de-semana, foste buscar em vão as calças que havias entregado para bainhas na semana passada. Estariam prontas na terça-feira passada, mas esqueceste-te. Nada de grave, até porque a costureira não as tinha prontas: confundiu a terças. Percebes perfeitamente. Hoje estás numa de total paz e amor. Reparas agora que começaste hoje a escrever este texto e vais acabar amanhã. Foste deixar o Nuno no barbeiro, depois de largarem o plástico, papel e vidro no ecoponto, e seguiste para o primeiro supermercado do dia (hoje foste a três, coisa muito rara). No Pingo Doce compraste rojões (carne de porco) e fígado. Este último por indicação da endocrinologista em atenção aos baixos índices de proteína. Já havias comido esta semana, e não te importas nada por gostares bastante do sabor e textura. O Nuno é que achou pouca piada à invenção de colocar fígado na feijoada. Sempre que não gosta de qualquer coisa diz que é adocicada. O fígado não caiu no goto. Frito ainda o tragou. Mas na feijoada? Pois é, não a fazes com as carnes habituais, gostas da carne de rojões por ter menos gordura e hoje introduzis-te o fígado. Apanhaste-o já de cabelo quase cortado e pouco depois seguiste com ele para o Froiz de onde trouxeste bananas da madeira, verdes e péssimas, e tangerinas nacionais, a saber a remédio.
Depois do almoço fizeste uma primeira tentativa no cabeleireiro. Também tu estavas bem necessitada de corte. Mas agora é sempre necessária a marcação. Agendaste para as 17h30 e voltaste a casa um pouco para ligar a máquina da roupa e preparar a mochila da natação. Foste nadar. Tirando os balneários tudo estava frio. O espaço e a água da piscina. Em nova queixavas-te do excesso de aquecimento. Contaram-te que ali há muitos anos também era esse o vício de espécie de sauna, mas pelo visto agora está-se em maré de poupar na energia. A água estava fresquinha ao entrar, estava. Tudo bem, pensaste, é bom para tonificar. Paz e amor, hoje estavas numa de paz e amor. À falta de filas vazias, entraste numa das extremidades, que estava ocupada apenas por um homem da tua idade, talvez mais novo. Tudo correu bem até ao momento de se juntar à fila um grupo de cinco jovens brasileiras. Percebendo que não tencionavam nadar, mas confraternizar, continuaste a nadar como se nada fosse, até chegares às bandeirinhas colocadas sobre a piscina a cinco/seis metros da parede inicial onde se encontrava o grupo. Quando chegaste à outra ponta, o homem que ainda não se tinha decidido a continuar a nadar disse-te: assim vai ser difícil fazer a piscina inteira. Respondeste: eu vou até às bandeirinhas. Na segunda volta, diz-te ele ainda parado na outra ponta: até às bandeirinhas, é isso? É, respondeste, naquele espírito diplomático de quem tentar harmonizar o mundo. À terceira volta, ele diz: elas estão só a chapinhar, é isso?, não é? Respondeste: sim, e a confraternizar. Ele alinhou na regra das bandeirinhas. À 11ª ou 12ª volta desejaste-lhe bom fim-de-semana tentando passar um pouco do teu espírito de paz e amor, até porque as meninas já avançavam um pouco para cá das bandeirinhas, fazendo tábua rasa de qualquer regra de utilização da piscina apesar de toda a condescendência dos dois utilizadores iniciais. Há duas semanas era uma família portuguesa de cinco, toda encostada numa das pontas em confraternização.
Esta semana numa das vezes em que atravessavas o jardim da rotunda da Boavista, foste abordada por uma mãe e duas crianças pequenas, a miúda de talvez cinco anos e o pequenino de dois anos. Procurava um supermercado, indicaste o Continente por ser o mais próximo e também por ser aquele até o qual te podiam acompanhar. Contou-te que chegara a Portugal há três dias. Ainda estavam meios perdidos. Quando a mãe comentou com o pequenito que teria de esperar por chegar a (…) para pôr a pomada para curar a arranhadela do joelho que fez ao cair quando corria atrás das gaivotas e pombas, completaste as reticências com a palavra “casa”. O pequeninito balbuciou qualquer coisa que não percebeste, mas tens a certeza que casa para ele ainda significa um conjunto de paredes algures no Brasil. Desejaste felicidades e foste trabalhar. Também esta semana, outra mãe com dois filhos, também brasileiros, desta vez crianças um pouco mais crescidas, perguntava-te como podia ir para Serpa Pinto. Respondeste que faltava um minuto para o autocarro e que também ias nesse. O rapaz mais velho, talvez 10 anos, teimava que aquela linha não dava para eles. A mãe confiou em ti e fê-los entrar. Saíram na mesma paragem que tu. Dois dias depois, na sexta-feira, ouviste a algazarra de miúdos a fazer paragem quando o autocarro já ia a sair. Eram eles. Começaram a usar a linha. A mãe viu-te à saída e comentou: parece que combinamos, rindo-se. Pois, parece. Sorriste. No teu prédio vivem vários brasileiros. Na zona muitos brasileiros e africanos. Alguns venezuelanos. Tem havido um aumento significativo nos últimos anos.
À vinda da piscina passaste no Continente para comprar as cápsulas do café e outra tigela de grés com tampa de bambu, das colecções de selos. Gostas de ir juntando algumas dessas peças das campanhas do Continente, e gostas do supermercado em si, por ser limpo, arejado, espaçoso, bem organizado e com funcionários simpáticos e sem grandes intimidades, o que aprecias bastante. Como não há bela sem senão, é muito concorrido. Seguiste para o cabeleireiro. Ficaste a saber o que não sabias: tens o cabelo encaracolado. Disse-o quem te cortou e penteou: parecia liso mas é encaracolado. O cabelo ganha manias e vida própria, não lhe passas cartão. Respondeste apenas que não são caracóis (mas mania, pensaste). Trocaste umas breves palavras sobre a evidente perda de cabelo e passado um pouco ouviste cochichar. Tendo vindo a dona perguntar com ar cuidadoso: emagreceu, não foi? Explicaste que fizeste cirurgia com esse propósito por desconfiares já haver ali ideia de cancro. Confusão muito habitual nestes casos de emagrecimento rápido e razão pela qual as pessoas têm medo de fazer perguntas inconvenientes.
Chegaste a casa e tiraste as fotografias da praxe para entre várias escolher uma aceitável. Como só és penteada duas ou três vezes ao ano ao cortares o cabelo, aproveitas. De resto são 362 dias de despenteado natural. Até porque nem vale a pena tentar criar ordem onde ela não pode existir. Deve ser a mioleira que transmite energia revolucionária aos fios de cabelo. Não há nada que enganar. Estranho seria se fosses penteada, não jogaria a bota com a perdigota. És uma assumida despenteada das ideias.
Jantaste. Não prestaste atenção ao Jornal da Noite. Por falar nisso ao almoço o Nuno disse-te coisa rara. Quando comentavas a greve dos professores, sugeriu que não escrevesses o que acabavas de dizer no blogue ou comentasses num café. Descansaste-o. Não tinhas essa intenção. Hoje é paz e amor e cada vez mais te apetece emitir menos opinião. Longe vão os tempos em que nos enunciados dos testes de liceu, em substituição das respostas, escrevias o que pensavas sobre as greves dos professores – razão talvez para conseguires tirar notas entre o 6 e o 17 à mesma disciplina (nota relevante: 17 nunca foi uma nota que representasse o teu percurso estudantil). Estendeste a roupa. Juntamente com o Nuno compraste um disco externo na Worten online. E assististe a mais umas aulitas de excel. Até agora é quase tudo do teu conhecimento, salvo a inserção de imagens. Nos próximos dias, nos níveis mais avançados, vais precisar atenção e ver se aproveitas para exercitar questões que se colocam no dia-a-dia.
Mais uma vez tudo escarrapachado tintim por tintim.