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12/02/2023

Continuação do diário de ontem

Como te foste esquecer das conversas ouvidas no cabeleireiro? Três clientes, incluindo tu, duas funcionárias e a dona do espaço. Alguém falou em bagaço, e uma das funcionárias associou-o a azeite. Vinha das azeitonas. Outra lesta explicou que provém das cascas dos bagos da uva, pois todos os anos vê o irmão fazer bagaço. Uma cliente mais velha contou que a mãe bebia um gole de aguardente logo de manhã e outro antes de dormir. A que te cortava o cabelo soltou muitos ais e uis de nojo quanto ao cheiro dessas coisas e do whisky. Mesmo acamada, confessou outra, a minha mãe tinha debaixo na almofada uma garrafinha de aguardente.


Gente que escreveis bem! Que andais a fazer na vida? Ide aos barbeiros e cabeleireiros, aos supermercados, aos autocarros, aos jardins para ouvir as conversas. E fazei qualquer coisa de útil pela vida. Em vez de perderdes tempo na defesa dos identitários ou no ataque primário aos identitários, ide conhecer a vossa gente. Em vez de copiares estereótipos da literatura, produzindo entediantes romances pejados de lugares-comuns e contra-clichés. Em vez de saltitar de barricada política ou cultural em barricada, em vez de saraquitar de tema quente em tema quente. Ide vê-los e ouvi-los. Aos que cá estão há mais séculos, aos que vieram há décadas e aos que chegaram há três dias. Que belo começo de conto ou novela daria uma garrafita de bagaço debaixo da fronha de uma velha mulher acamada. Ou o pequenito a pedir pomada para o arranhão do joelho, que está a 7500 quilómetros de distância.


Não tens vida nem tempo útil para isso, mas há tanta gente a escrever bem por aí. Por que não abrir os olhos?


Em vez de a cada notícia dos jornais surpreender-vos com o mundo, empolgar-vos por horas ou dias até outra vaga surgir, ide conhecer e ouvir o mundo. Ele está aí na porta da frente do vosso apartamento. Na vossa rua. Em todos os espaços por onde andais. O mundo vem até vós para vos facilitar a vida e ainda assim sois snobs espantados e esmagados com a realidade que televisão mostra?


Tens mais um plano futuro. Nos últimos meses reparaste que abriu mais uma barbearia na rua. Mas esta é de africanos. Já ouviste o bonito cantado de Angola por lá. Na próxima ida ao barbeiro vais convencer o Nuno a lá ir, o que não vai ser difícil. Não tens dúvida que vai correr animado. E é uma forma como outra qualquer de voltares à tua terra de nascença. O Universo anda a fazer-te a vontade, viajas mais em casa do que suporias possível.


Há só uma sensação má nisto de vizinhança. Quem sobe a rua, antes de chegar à loja do simpático casal chinês, uma clínica de fisioterapia com o nome Calvário. Embirras com aquele nome. Quase todos os dias atravessas na passadeira em frente e muitas vezes estão bombeiros ou ambulâncias de transporte de doentes. Até aí tudo bem, mas o nome, raios. Olhas para aquele nome e lembras-te da Via Sacra nas Filipinas. Não gostas. Definitivamente, e agora que tens a sensação que ficarias neste apartamento por muitos anos, embirras com aquela imagem que temes sempre se associe ao teu futuro. Bom, a tua mãe sempre te disse que não sabias nada de religião. Felizmente, sabes que pensa: felizmente. Até porque se esforçou para que tu não soubesses demais.


Por falar em mãe, na sexta-feira almoçaram as duas em boa conversa, acompanhada de filetes de pescada. No início do almoço caiu um comentário aqui nas Comezinhas com referência a Descartes, leste-o e a tua mãe completou-o: de dúvida em dúvida até ao ponto em que a religião o impedia de prosseguir. Depois lembrou-se de Teilhard de Chardin, que lhe chegou por via da minha avó e não por via académica. Ao que parece a tua avó tinha travado conhecimento com o pensamento deste jesuíta nos anos de Instituto de Francês e apreciava. Vês na Wikipédia que a tentativa de conciliação da ciência e religião lhe granjeou a antipatia dos representantes de ambas. Um homem caído em descrédito é com certeza um homem interessante de ler. Um dia vais espiolhar qualquer coisita. Será mais uma leitura leve, superficial, como são as tuas leituras, sempre.