Na sexta-feira tinha previsto escrever acerca da passagem do tempo como revelação e a facilidade de destruição da imagem ou reputação do comum mortal. Entretanto meteu-se um longo e reles Sábado de permeio (aos que gostam de tentar estragar os dias aos outros, informo que se o desprezo é tão grande, é escusado darem tanta atenção; arranjem uma vida com interesse e logo verão que não precisam perder tempo comigo), fazendo-me esquecer o que tinha intenção de escrever, mais uma vez sem antes estar delineado.
O primeiro item do tempo como congregador de conhecimento, como cola de peças desavindas e desconexas, é a ideia simples da lenta progressão da aprendizagem por contraste com a ostentação de parcelas de verdade momentânea. E não me apetece dizer muito mais do que isto.
O segundo ponto da destruição da imagem e reputação do comum mortal é apenas a constatação da frivolidade reinante no espaço público. O que tem valor não vinga a menos que ceda aos vendilhões da praça. Sempre que surge alguém que questiona as podridões da sociedade e defenda mínimos de dignidade, é vexado e desacreditado através da manipulação retórica. Uma onda de gozo e crítica feitos pelos grupelhos de interesse e influência que dominam o aparentemente sofisticado mercado nacional da informação e entretenimento e com eles as vendas políticas, jornalísticas e culturais. Nunca seremos um país para levar a sério se a voz da mediocridade disfarçada de competência e erudição se sobrepõe e abafa o valor através da manipulação. Seremos sempre um país de faz de conta, de chico-espertos a tentar dar ar de eruditos.
É muito fácil destruir outrem. Ninguém está a salvo de ver reduzida a cinzas a sua imagem e, uma vez que hoje não se distingue uma da outra, ninguém está a salvo de ver destruída a sua dignidade. E para os imbecis ou tontos que vêem aqui uma ameaça e para os que sempre vêem segundas más-intenções, aprendam a ler e a perceber o que lêem, em vez de tentarem mostrar-se muito sofisticados e de se chorarem tanto por não haver leitores em Portugal. A constatação de não haver limites à manipulação da opinião associada aos mecanismos de Inteligência Artificial é assustadora. Já a primeira é perigosa o suficiente, acrescentando as máquinas, o perigo torna-se exponencial. Devia fazer pensar. Todos.