Ontem surgiu na minha mioleira ideia medonha. Sempre critico as redes de interesse, os consequentes vãos elogios tribais e a falta de mérito no acesso ao poder e aos lugares ao sol na sociedade. Pus-me a pensar se é pior do que penso: se o carácter poucochinho da maioria do que é enaltecido e vendido como se tivesse qualidade for sinal não só da promiscuidade dos interesses e das excitações momentâneas, mas da real inexistência de valor. Será que não há gente com pensamento estruturado e independente? Não haverá onde recrutar gente de valor? Entre recrutadores e recrutáveis só haverá vendilhões de lugares-comuns, bandeiras de facção e intriga palaciana de algibeira? Ou estará escondida, essa gente? A conversar em família e com amigos, a trabalhar com seriedade e a viver o dia-a-dia com as dúvidas, os erros e os acertos e todas as vicissitudes próprias do comum dos mortais, evitando a todo o custo expor-se num mundo que privilegia o que vende e vende fancaria, bazófia e vacuidade?
Não é uma visão muito optimista, não. E, claro, há excepções. Mas não passam disso mesmo num país onde reina a imagem e não o valor em si.