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30/01/2020

Nomes feios

crianças


Como crianças brincamos no recreio e, por qualquer capricho, chamamos nomes feios aos outros quando não ficamos em primeiro lugar no jogo. Ou, quando ficamos em primeiro lugar e os outros amuam. Substituímos os é batotice, és burro, és camelo e quem diz é quem é por néscio e, claro, por fascistas, racistas, feministas, marxistas e demais insultos arremessados entre trincheiras que, sobrevoadas por um olhar mais distante, pouco se distinguem entre si.


O nosso é um recreio de escola rica ou, pelo menos, remediada. E quanto mais insultamos os outros, mais claro fica que não sabemos o que são tragédias, dramas ou dificuldades, como a fome, a pobreza, a solidão, a guerra e o genocídio.


A nossa fomezita é de a do prato menos cheio na cantina na escola, mostrada em reportagem televisiva para servir de argumento da oposição quando um qualquer governo faz cortes porque o país está endividado até ao tutano, a mesma cantina que meses depois serve para falar do combate à obesidade e da necessidade de uma alimentação mais saudável. Não é a fome que cola as paredes da barriga, a da subnutrição, da magreza extrema, não é aquela que se espelha num olhar que salta da cara e tenta disfarçar quando pousa num prato de sopa e um naco de pão, transformado em ambrósia, o manjar dos deuses. Não é uma fome envergonhada.


A nossa pobreza é a das casas de bairro frias, com humidade e rachadelas. É a do pão com rissol ao almoço, a da roupa, do calçado e dos guarda-chuvas baratos do chinês. É a do calor forte nas férias do verão, com piscinas insufláveis de plástico na varanda e a ventoinha ligada na sala, junto à televisão que, às vezes, faz cair o quadro eléctrico, quando a ela se soma o grelhador das febras. É a do carro com tinta desbotada e enferrujado estacionado à porta de casa. Não é a das moscas pousadas na cara, das tendas montadas na lama, das filas para aceder à água potável, ao alimento ou à aspirina, ou dos barracos de lata, dos piolhos, das pulgas, do esgoto e fossa a céu aberto, e do buraco comunitário. Não é a pobreza da mulher que sonha com uma cama de lençóis lavados e macios e uma retrete e um lavatório com água como quem deseja um palácio. Não é a de quem nunca teve nada ou ficou sem nada. Nada. Não é uma pobreza muda.


A nossa solidão é a do egoísmo. A do cada um por si. É contra os outros. Às vezes contra todos os outros. É a das angústias existenciais e circunstânciais. É a da distracção, da falta de tempo, do menosprezo. Não é a solidão do mendigo que dorme nos cartões à nossa porta, perdido de bêbado ou simplesmente perdido nos pensamentos de tanto tentar afogar algum desgosto familiar, desespero financeiro ou doença mental. Não é a solidão do Sr. António que já muito velho foi resgatado da rua e alojado e empregado por um qualquer benfeitor e que, no dia em que lhe foi feito um lanche para cantar os parabéns dos 80 anos, revelou ter sido a primeira vez na vida que festejava um aniversário. Não é a solidão calada de uma vida inteira.


A nossa guerra é a guerra das televisões, dos misseis que caem em países lá longe, que não sabemos bem onde ficam no mapa, por não fazerem parte dos nossos roteiros turísticos, mas ficamos a conhecer por as gentes de lá, com telemóveis como os nossos, nos fazerem visitas guiadas às cenas de conflito. É a guerra de estratégia dos políticos e generais de facções, das conferências da ONU, das declarações vãs de boas intenções dos seus secretários-gerais. É guerra de quartel ou protegida, que dá belas historietas para almoçaradas e palmadinhas nas costas dos comensais ou puro aproveitamento para protagonismos. Não é a guerra calada das vísceras à mostra do camarada em agonia, não são os segundos decisivos para o soldado matar ou morrer, não são as solitárias e difíceis decisões do graduado. Não é a guerra do olhar silencioso e cúmplice entre camaradas quando se diz o nome de um homem, de uma terra ou de uma data.


O nosso genocídio não é, simplesmente. Não é o cheiro sentido por uma criança da carne da sua mãe, do seu pai, dos seus irmãos, a ser queimada e da visão das cinzas a cair nos seus pés. Não é, ainda.


Por isso, não me venham com merdas de marxistas e fascistas, sff.

29/01/2020

OIP


Só por compaixão à falta de mundo e de sensibilidade aturo, sem chorar a rir, delírios e ilações que, das duas uma, ou são barro à parede a ver se pega ou foram aprendidas em sessões de psicanálise de fazer chorar as pedras da calçada de tão comoventes.

28/01/2020

Preguiça e divertimento

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Pode ser que o um dia me predisponha a escrever um post à séria. Pleno de substância, rigor, dados estatísticos discutíveis, análises comparadas, conclusões absolutas, mas enquanto isso não acontece por preguiça vou falando, com os meus botões por gosto e divertimento, sobre coisas que verdadeiramente me interessam: a natureza humana e o nosso carácter integral feito de virtudes e pechas.

De rebolar a rir

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Os banhos de ética e as declarações do género: sou muito honesto/a, nunca minto, nunca finjo. Só falta mesmo a cereja em cima do bolo do 'estou de consciência tranquila', a frase que descansa qualquer alma.

As novas lavadeiras

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Um nico de presunção não faz mal a ninguém e sempre alivia o tédio. Vamos lá a isto.


O que repele na argumentação de seitas e tribos do Twitter e do Facebook é o grau de infantilismo e de vulgaridade que assombra os cerebrozitos. Desde o tempo dos grupinhos de liceu – normalmente de meninas desinteressantes, porque há trinta anos a maioria dos rapazes não ligava a assuntos fúteis -, não via gente a perder tanto tempo a dissertar sobre o acerto ou desacerto do aspecto do cabelo, o tamanho e padrão do vestido, a piroseira da marca da camisola ou do fato mais justo, o cenário fashion ou kitsch - como se fossem manifestações essenciais ao carácter -, o diz-que-diz-que, o leva-e-traz, a pura intriga e revanche, tudo isto disfarçado de opinião ou pensamento sobre actualidade, política e cultura.


A sensação que tenho é que os cochichos fúteis das senhoras de outrora foram convertidos pela boa democracia em popular mexerico de tanque comunitário, sendo as novas lavadeiras, na maioria dos casos, homens com idade para ser avô e, em certos casos, ditos intelectuais.


E diverte particularmente ver os/as próprios/as - as novas lavadeiras - a desdenhar da falta de urbanidade, das fake news e do cariz desprezível das redes sociais, como se fosse um fenómeno inteiramente novo. Não, gente. Não é. A única diferença é que há microfone comunitário e é mesmo plural. Esta coisa da democracia é uma chatice para quem queria aceder aos privilégios que via em poucos e, agora, vê alargados a quase todos. Que aborrecida é igualdade. Onde estará o pedestal cobiçado?


Com diria a minha avó: ‘ainda estão muito perto’.

27/01/2020

As Teresinhas e o SNS

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Hoje, na consulta, a médica do alto de relativa juventude e usual fácies e tom sobranceiro, depois de me tratar como débil mental, como episodicamente acontece entre a classe médica e os pacientes, informou: a reunião é a 11 de Março. Não quer anotar? Acho que não preciso, respondi. Ãh, não? É uma data célebre, acrescentei perante o olhar insistente. Reacção dela: É? Ãh.

26/01/2020

Da brecha

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Julgo conhecer bem e perceber o argumento conservador e retrógrado de não se poder abrir a brecha, sob pena de não mais suster a força da reivindicação. É a lógica da firmeza e irredutibilidade usada em certos discursos. O que me ocorre ao ouvir esse argumento é a imagem da barragem, a constatação de que não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe e a interrogação do que é o bem.


A constatação de que a barragem com todas as comportas cerradas conduzirá a que o leito do rio fique repleto e penetre nas terras adjacentes ao longo do percurso e, por fim, galgue a própria barragem engolindo tudo quanto encontra a jusante.


A contestação da leviandade da ideia de que o futuro é sempre melhor do que o presente e este sempre melhor do que o passado; de que o mundo tem sido um contínuo de avanços civilizacionais, quando o facto é que corre em soluços de avanços e retrocessos.


A dúvida se o bem que se quer proteger é a justiça no acesso lícito de todos ao conforto material e liberdade ou a manutenção de privilégios de poucos.

Hakuna Matata

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(Terraço no Porto, 26 de Janeiro de 2020)

Ouvi dizer

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Hoje Nuno Rogeiro, na SIC Notícias, ao recomendar o livro Le Siècle Vert, do filósofo Régis Debray, sublinhou a ideia de que o homem também tem que reagir contra aquilo que se chama o mal natural. Se virmos bem a natureza é um mundo onde triunfam os mais fortes e, portanto, o homem também tem de moderar a natureza que o envolve.

25/01/2020

Descanso de mar

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(Póvoa de Varzim, Julho de 2016)


 

Deduções

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A prática dos media - que competem com as redes sociais ao fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas na lavagem cerebral à população em matéria de racismo, reclamações do funcionamento de entidades públicas e da vida empresarial, da actuação das forças de ordem pública, da protecção aos animais e ao ambiente etc. -, é a da dedução alentejana, representada na seguinte anedota.


O ti Manel sai de casa de madrugada e vê uma vez mais o vizinho à sua porta. O outro cumprimenta com um bom dia, compadri. E ele põe-se a pensar: bom dia? Ora, dia noite, noite lua, lua céu, céu estrela, estrela serra, serra queijo, queijo leite, leite vaca, vaca boi.... hummm querem lá ver que o filho de uma magana me está...

24/01/2020

A ladrão de casa nada é vedado

ladrão.Portugal no seu melhor: um ladrão, filho de líder do gangue, a dividir mesa com jornalistas, e com o maior desplante e cobertura dos media, a perorar sobre a falta de seriedade de uma ladra, filha de líder da pandilha.


É por estas e por outras que não há leaks que surpreendam.

23/01/2020

Sonsos & trogloditas

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O exibicionismo do carnaval identitário provoca bestial reacção. Da toca onde viviam calados e dissimulados saltam perigosos trogloditas que, a pretexto da moral e bons costumes ou do resgate de velhas liberdades, disfarçam obscenidades de carácter que fariam corar de vergonha o mais liberal participante do corso da diversidade. Os sonsos voltaram a ser visíveis, e em força. E o mais moderno jogo de retórica é: Quem quer ser mais sonso? Não consigo apurar resultados preliminares, para ver quem está a vencer: identitários ou trogloditas.

Luaty Beirão

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22/01/2020

Ouvi dizer

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Ao activista e professor universitário angolano Domingos da Cruz, na SIC Notícias, sobre a investigação Luanda Leaks: não é um jogo desinteressado, não há intenção de ajudar o povo angolano, pelo contrário, há um reposicionamento estratégico no xadrez geopolítico internacional com vista a manterem os seus interesses em Angola, uma vez que o poder mudou de mãos.

Isabel dos Santos

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Desculpem qualquer coisinha, mas por onde andam os vibrantes defensores do Estado de Direito e furiosos denunciadores dos julgamentos em praça pública de outrora? Talvez tenha a visão toldada, mas estou com dificuldade em vê-los.

Indizível

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Dizem que há matéria íntima ou de consciência inconfessável, mas na qualidade de péssima estratega digo o que penso: entre tantos liberais impolutos e doutrinadores – da esquerda à direita - sinto-me conservadora: mantenho os maus hábitos e voto quase sempre no PSD, quando me chateiam em branco e se me enfurecem no PCP. Em suma, só voto em conservadores.

Pulverização partidária

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Sobre a pulverização partidária poderei estar a confundir o que é ou será com o que deveria ser mas, apesar de algum temor, não estou convencida da inevitabilidade da degradação da democracia em Portugal por contaminação de radicalismos e populismos. Não me esqueço de há dezoito anos alguém de esquerda me anunciar a morte do PS como grande partido de poder, prevendo a ascensão de BE a votações na ordem dos 20%. E de voltar a ouvir semelhante comentário mais tarde.
Para o melhor e para o pior Portugal é o país do ‘temos que ser uns para os outros’ e isto em política traduz-se por sacrificar a ideologia em troca de uma fatia de poder ou influência (para os eleitos) e de conforto financeiro (para os eleitores). E os arranjos fazem-se ao centro e não nas franjas, pelo que a reconfiguração pode traduzir-se em 'parte baralha e volta a dar' alargando um pouco a influência às franjas. Na esquerda já se verificou. Na direita, a ver vamos se recompõe e faz esse o caminho.


*


Adenda. Texto inicialmente publicado na caixa de comentários do blogue Delito de Opinião.

21/01/2020

Vieira de Leiria

VieiraDeLeiria(Praia da Vieira, Junho de 2019)

20/01/2020

Rancho de corrupção

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Grão bom inatacável (oh, que pena!) para a panela; grão mau inatacável (ossos do ofício, o que não mata engorda) para a panela; grão mau para o lixo (ah, que prazer) e pedras para quem as apanhar.

De ginjeira

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Para quem percebeu nos anos oitenta que a diferença existe e devemos respeitá-la; para quem passou parte da segunda metade dos anos noventa a acompanhar amigos gays ao Boys’r’Us, ao Moinho de Vento, ao Frágil e até ao Trumps, porque era o espírito do tempo e o da amizade e por não lhe passar pela cabeça discriminar alguém pela sua orientação sexual, e só se espantou um pouco por alguns - poucos, felizmente - não perceberem que respeitar a diferença não é alardeá-la e que, com sobriedade e sensibilidade, se pode estar  – presente e solidário - do lado da diferença, esta pantomina da doutrinação identitária não é totalmente estranha, mas tem extrapolado os limites do razoável e, nem é tanto pelo folclore (ou pimbalhada), porque vá, por mais patético que seja cada um que se expresse como quer, é por se voltar a confundir direitos com dogmas de fé, por se reinventar um reino dos céus, agora bem terreno e palpável e vedado aos impuros, violentando a liberdade de cada um a expressar o  pensamento, caso não seja pautado pelos cânones e jargão da diversidade.

Depois do Luanda Leaks

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Fico na expectativa que o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação liberte o Lisboa Leaks.

19/01/2020

Ouvi dizer

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Na televisão, a um chinês: Portugal é um dos poucos países em que não temos Chinatown, nós sentimos ser acolhidos pelos portugueses.


*


Que venha o Rato e que possamos continuar a contar com os chineses. Fazem-nos falta.

18/01/2020

Astrofísica

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Astrofísica para Gente com Pressa, Uma Viagem Rápida e Iluminante ao Cosmos, de Neil deGrasse Tyson.

Japoneira

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Janeiro 2020


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Janeiro 2019


*


No ano passado, como estava bonita toda ela era pose, este ano esconde-se atrás das folhas, feita tímida.

Arte

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*


Mais


do que


sentidos,


estudo,


dádiva


estética,


viagem


de ida e volta


ao lado


de fora.

Açores

PaisagemSeteCidades


(A caminho das Sete Cidades - São Miguel, Junho 2017)

17/01/2020

Do lado de fora

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Conheces a menoridade do registo confessional e dos paralelos. Vais ao ponto de revelar medo do equívoco, e explicas a razão dos quase vinte anos da forasteira ou dos dezasseis (ou dezassete) do fora do baralho e de te conservares, desde sempre, do lado de fora. Segues caminho com ar de tonta, eternamente descabida e ridícula e, em regra, para além da indiferença arrancas pouco mais do que escárnio por ingenuidade e presunção. Sabes que o pouco que sabes é infinitamente menos do que o desejável, mas além do julgado. Reconheces o talento e o esforço de quem questiona, estuda e aprofunda a informação e o conhecimento, mas sabes que isso não chega ao saber. Viste demasiados homens e mulheres atolados em conhecimento, sem conseguirem discernir, não só pelo peso de tanta matéria e falta de espaço e tempo para pensar, mas também por de si não saírem e a si ou a algum amo servirem. Não é só a sobrecarga de informação que degenera, mas a sobrecarga de conhecimento mal assimilado por confusa percepção sensorial e submissão a amores e rancores ou simples pagas de favor. Vês o mundo sensorial impor-se fazendo prevalecer sentimentos de pertença e de rejeição como se equivalessem ao bem ou à verdade. E sabes que quem não consegue sair de si, suster-se do lado de fora, não pode ser capaz de discernir, por estar servindo a si ou ao amo, por estar preso e condicionado, servindo sensações, amores e rancores sem os compreender.

16/01/2020

Subtileza

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La Galère d'Obélix, 1996.

15/01/2020

Esquerda/Direita

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Imagem do Expresso.


 


Para quê ter o trabalho de fazer o confronto de ideias entre esquerda e direita, se não são elas que determinam as políticas e comportamentos do país e dos portugueses. Para quê falar em mudar de regras? Se não há qualquer intenção de cumprir as (boas) que existem nem as (boas) que venham a surgir? Para quê manter o prazer de discutir? Se debater por debater e, por motivos fúteis, tudo questionar acaba por servir apenas para encobrir o poço sem fundo da vileza da nação?


Afinal, parece que tudo se resume a pouco.


À esquerda grosseira, arrogante e fanática. Convencida da superioridade moral expressa em meia-dúzia de slogans identitários berrados num qualquer simulacro de academia de ciências sociais e artísticas ou na confraternização em manifestações e acampamentos de excitados activistas das causas efémeras, com cada vez maior número de figurantes assalariados e bem remunerados. Na falsa presunção de legítimos e únicos herdeiros da divisa igualdade, solidariedade e liberdade, fazem-se senhores desta coutada de caça às bruxas em que se transformou o mundo e o país. Traduzem igualdade por amiguismo, solidariedade por facilitismo e liberdade por bandalheira. A coisa vai tão mal que se enaltecem verdadeiras nulidades, tomando-as por sumidades, bem pagas e subsidiadas e, por facciosismo e inveja, se desprezam e humilham sabedores.


À direita bem empertigada, vaidosa e insensível. Convencida da superioridade moral expressa em meia-dúzia de máximas rezadas numa qualquer faculdade abonada e conservadora de ciências jurídicas e empresariais ou nas reuniões sociais de punhado de amigos bem instalados em relações interesseiras com preocupações vagas por um país que os conserve sempre no topo a pirâmide ou lá os alce. A falsa presunção de que têm sido a educação, a inteligência e a capacidade de trabalho a reger o mercado nesta sombra de sociedade minada de alto a baixo por corrupção, injustiça e inveja.  A tradução de educação por etiqueta fajuta, leituras e pensamento balizados por dogmas tribais. Inteligência traduzida por habilidade de se impor aos demais e capacidade de trabalho por lábia em vender mais. A coisa é tão feia, que quem mais tem e pode manifesta inveja e raiva de quem nada ou pouco tem e não se deixa pisar ao retratar o mundo.


Aos saltitantes de cenário em cenário, tomando os piores ares e tiques das duas e mantendo-se à tona a debitar opinião conveniente em função da circunstância.


E aos sonhadores que, apesar da antipatia por tamanha vileza, se negam a refugiar no cinismo falsificado.

14/01/2020

Má-língua e arte

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Recordo com imprecisão ter lido, escrito há poucos anos em espaço virtual, conclusão de moderno estudo científico: a má-língua ou maledicência contribuíram para o aperfeiçoamento da inteligência humana. Não haveria precisão de tanta ciência para pôr a nu a certeza de que a imaginação e vontade de inovar não se esgotam na procura do essencial nem do bem e que não há bem que não compreenda o mal, nem mal que não contenha o bem.


O senso comum confirma as manifestas qualidades intelectuais de quem é capaz de ardilosamente imaginar e, com enredo, criar tensão e reacção. Coisa diferente é saber se tal propósito chega para haver génio e verdade.


Mal comparado é como o aprendiz de violino e vizinho do prédio com mau isolamento acústico. Se for virtuoso, até perdoamos os primeiros anos de chiares metálicos desentoados, mas tratando-se de voluntarioso não é de estranhar que façamos as malas com destino a lugar com maior amor à arte.

Gincana - Infopédia

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Sarcasmo - Infopédia

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13/01/2020

Amesquinhar - Infopédia

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Futilidade - Infopédia

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20/10

sem nome


*


 


Não tarda


tanto assim,


faz vinte anos:


o presente a entrar


sem aviso nem juízo


porta adentro.


No intervalo,


o tempo correu,


na aparência


pouco aconteceu.


Sucederam,


todavia,


dez anos


de distância,


tu e o passado


bem amolgados,


cada um por si,


a reerguer.


Saboreavas


haver presente,


e de novo


o passado


se fez presente.


 Em história


digna de ser,


contigo esbarrou


renascido e delicado,


como só ele soube


e sabe ser.


Não tarda


tanto assim,


faz dez anos:


o passado a reentrar


sem aviso nem juízo


porta adentro,


em jeito de


ninho, futuro


e caminho.


 

12/01/2020

Noite

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Sentindo o mundo esboroar em querelas, questiúnculas e artifício e nada ser como antes, como a aranha, vais tecendo o fio fino e forte na saudade das badaladas do sino das igrejas de Unhão e São Cristóvão, não por devoção, mas por apego à noite fria, ao ranger nocturno da madeira das portas e dos guarda-vestidos, e ao canto da coruja, a companhia nas longas horas da madrugada a compor os sonhos, no quarto de criança enfeitado com o poster da Heidi, sentada nas montanhas e no imenso céu azul-escuro iluminado pela lua redonda e cheia, parecida com a que, do lado de fora das grossas paredes de granito, te deixa ver o bastante para andar de bicicleta na noite encantada por enormes sombras do esqueteto das tílias e do amparo das ramadas secas da videira.


Quase quarenta anos depois, sais do trabalho à noite, despegas como te apetece dizer em sorriso cúmplice, é sexta-feira e estás contente por haver dois dias inteiros para encher de nadas cheios de significado. Antes da paragem, ouves o usual praguejar do pedinte tolo a injuriar quem passa, confirmas no telemóvel que perdeste o autocarro e sentes a presença forte de qualquer coisa íntima e familiar. Levantas os olhos e lá está ela, redonda e cheia, entre os ramos das árvores da águia e do leão. Enches-te de alegria, porque sabes que ela veio para te dizer que o mundo faz sentido e ainda é como era. Chamas a Uber, chegas e dobras a esquina, enfias a chave na porta do prédio, voltas a pressenti-la, e de novo plena de calma e sabedoria teima em alumiar a tua rua a meias com os candeeiros, e promete voltar.

11/01/2020

Passeio das Virtudes

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(Porto, 11 Janeiro 2020)

10/01/2020

Monty Python


 

'Analismo' político

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Ao 'comentariado' político interessa a máxima: quanto pior, melhor. Vale tudo: inverter a razão, acusações à la carte, amnésia selectiva. A receita mágica para receber duas palmadas nas costas de amigos bacôcos. O País, esse, merecia menos voltas de cobra.

09/01/2020

Açores

LagoaDoFogo(Lagoa do Fogo - São Miguel, Junho 2017)


 

08/01/2020

Anda cá Mafalda, sff

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Tens onze anos e queres que um buraco se abra no chão, quando dás conta que a turma respondeu alto e em uníssono ‘sem fronteiras’, e tu titubeaste um frágil ‘com fronteiras’. O professor perguntava se o mundo seria melhor com ou sem países, sem fronteiras. Fraca ou firme, errada ou certa, inconsequente ou fundamentada, a solidão da tua voz e o embaraço iriam acompanhar-te sempre. Passaram muitos anos e não sabes bem a razão porque respondeste aquilo. Queres acreditar que sabias destrinçar e dar peso relativo a duas realidades que tanto gostavas: um dos grandes momentos lúdicos da televisão, os Jogos sem Fronteiras, e a dos livros de História de Portugal, mas estarias a dourar a pílula, não eras tão esperta quanto isso. Imaginas que fosse por teres atravessado três ou quatro fronteiras até essa idade, por te terem ensinado a estar em silêncio ao ouvir o hino nacional e a não acreditar em tudo quanto te diziam, por teres nascido numa província ultramarina, numa colónia, que quis ser país independente, por folheares, ainda criança pequena, os atlas geográficos e por tentares, até hoje sem sucesso, fixar as cores e formas nas bandeiras dos países do mundo, por gostares de mapas, por reparares que os mapas são diferentes ao longo dos séculos, por te ser mais familiar a Mafalda, do Quino, do que o Imagine, do John Lennon.

Informação

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