
Como crianças brincamos no recreio e, por qualquer capricho, chamamos nomes feios aos outros quando não ficamos em primeiro lugar no jogo. Ou, quando ficamos em primeiro lugar e os outros amuam. Substituímos os é batotice, és burro, és camelo e quem diz é quem é por néscio e, claro, por fascistas, racistas, feministas, marxistas e demais insultos arremessados entre trincheiras que, sobrevoadas por um olhar mais distante, pouco se distinguem entre si.
O nosso é um recreio de escola rica ou, pelo menos, remediada. E quanto mais insultamos os outros, mais claro fica que não sabemos o que são tragédias, dramas ou dificuldades, como a fome, a pobreza, a solidão, a guerra e o genocídio.
A nossa fomezita é de a do prato menos cheio na cantina na escola, mostrada em reportagem televisiva para servir de argumento da oposição quando um qualquer governo faz cortes porque o país está endividado até ao tutano, a mesma cantina que meses depois serve para falar do combate à obesidade e da necessidade de uma alimentação mais saudável. Não é a fome que cola as paredes da barriga, a da subnutrição, da magreza extrema, não é aquela que se espelha num olhar que salta da cara e tenta disfarçar quando pousa num prato de sopa e um naco de pão, transformado em ambrósia, o manjar dos deuses. Não é uma fome envergonhada.
A nossa pobreza é a das casas de bairro frias, com humidade e rachadelas. É a do pão com rissol ao almoço, a da roupa, do calçado e dos guarda-chuvas baratos do chinês. É a do calor forte nas férias do verão, com piscinas insufláveis de plástico na varanda e a ventoinha ligada na sala, junto à televisão que, às vezes, faz cair o quadro eléctrico, quando a ela se soma o grelhador das febras. É a do carro com tinta desbotada e enferrujado estacionado à porta de casa. Não é a das moscas pousadas na cara, das tendas montadas na lama, das filas para aceder à água potável, ao alimento ou à aspirina, ou dos barracos de lata, dos piolhos, das pulgas, do esgoto e fossa a céu aberto, e do buraco comunitário. Não é a pobreza da mulher que sonha com uma cama de lençóis lavados e macios e uma retrete e um lavatório com água como quem deseja um palácio. Não é a de quem nunca teve nada ou ficou sem nada. Nada. Não é uma pobreza muda.
A nossa solidão é a do egoísmo. A do cada um por si. É contra os outros. Às vezes contra todos os outros. É a das angústias existenciais e circunstânciais. É a da distracção, da falta de tempo, do menosprezo. Não é a solidão do mendigo que dorme nos cartões à nossa porta, perdido de bêbado ou simplesmente perdido nos pensamentos de tanto tentar afogar algum desgosto familiar, desespero financeiro ou doença mental. Não é a solidão do Sr. António que já muito velho foi resgatado da rua e alojado e empregado por um qualquer benfeitor e que, no dia em que lhe foi feito um lanche para cantar os parabéns dos 80 anos, revelou ter sido a primeira vez na vida que festejava um aniversário. Não é a solidão calada de uma vida inteira.
A nossa guerra é a guerra das televisões, dos misseis que caem em países lá longe, que não sabemos bem onde ficam no mapa, por não fazerem parte dos nossos roteiros turísticos, mas ficamos a conhecer por as gentes de lá, com telemóveis como os nossos, nos fazerem visitas guiadas às cenas de conflito. É a guerra de estratégia dos políticos e generais de facções, das conferências da ONU, das declarações vãs de boas intenções dos seus secretários-gerais. É guerra de quartel ou protegida, que dá belas historietas para almoçaradas e palmadinhas nas costas dos comensais ou puro aproveitamento para protagonismos. Não é a guerra calada das vísceras à mostra do camarada em agonia, não são os segundos decisivos para o soldado matar ou morrer, não são as solitárias e difíceis decisões do graduado. Não é a guerra do olhar silencioso e cúmplice entre camaradas quando se diz o nome de um homem, de uma terra ou de uma data.
O nosso genocídio não é, simplesmente. Não é o cheiro sentido por uma criança da carne da sua mãe, do seu pai, dos seus irmãos, a ser queimada e da visão das cinzas a cair nos seus pés. Não é, ainda.
Por isso, não me venham com merdas de marxistas e fascistas, sff.














































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