
Tens onze anos e queres que um buraco se abra no chão, quando dás conta que a turma respondeu alto e em uníssono ‘sem fronteiras’, e tu titubeaste um frágil ‘com fronteiras’. O professor perguntava se o mundo seria melhor com ou sem países, sem fronteiras. Fraca ou firme, errada ou certa, inconsequente ou fundamentada, a solidão da tua voz e o embaraço iriam acompanhar-te sempre. Passaram muitos anos e não sabes bem a razão porque respondeste aquilo. Queres acreditar que sabias destrinçar e dar peso relativo a duas realidades que tanto gostavas: um dos grandes momentos lúdicos da televisão, os Jogos sem Fronteiras, e a dos livros de História de Portugal, mas estarias a dourar a pílula, não eras tão esperta quanto isso. Imaginas que fosse por teres atravessado três ou quatro fronteiras até essa idade, por te terem ensinado a estar em silêncio ao ouvir o hino nacional e a não acreditar em tudo quanto te diziam, por teres nascido numa província ultramarina, numa colónia, que quis ser país independente, por folheares, ainda criança pequena, os atlas geográficos e por tentares, até hoje sem sucesso, fixar as cores e formas nas bandeiras dos países do mundo, por gostares de mapas, por reparares que os mapas são diferentes ao longo dos séculos, por te ser mais familiar a Mafalda, do Quino, do que o Imagine, do John Lennon.