Pesquisar neste blogue

05/01/2020

Pegadas

transferir


Há quanto tempo não te via por cá. Como vais? Essa é a pergunta que não deves fazer a um português, já sabes que te respondo. Com uma terrível dor de costas, uma guinada a cada dedada no teclado, nem sei como te consigo responder. És uma piegas, como boa portuguesa. Deixa-te de queixumes e conta-me coisas. Vi-te na esplanada com gente que nunca tinha visto antes. Como de costume, diga-se. Ou isso, ou a andar a pé, sozinha. Que queres, é a minha sina, andarilhar de porta em porta, de alma em alma. À procura, sempre à procura. E nunca te cansas? Canso, claro, faço as minhas desintoxicações de estranheza. De tempos a tempos, e sem dar por isso, faço uma vida normal e poiso e tudo. Um luxo, nem queiras saber. Dá ideia que sou uma pessoa normal e levam-me a sério e tudo. Até assusta, confesso. Como assim? Ora, já pensaste na responsabilidade de se ser normal? Não, pois não? As pessoas normais não costumam perder tempo com esses pensamentos. Ouve, mas tens responsabilidades, sustentas-te, trabalhas, tens casa e vida organizada, família, amigos. Não me venhas com a treta de que és diferente. Sempre foste é preguiçosa e crítica. Ressabiada, queres tu dizer. Não disse isso. Mas pensaste. Não, digo apenas demasiado crítica. Lá está, estás a levar-me a sério. Mas deixa, isso passa-te, amanhã aqui mesmo, em vez de te cruzares comigo, vai aparecer outra pessoa e tu vais ter uma conversa que consideras decente, ele vai perguntar pela tua família inteira e, a propósito da tua sobrinha que está doente, vão dissertar sobre o estado da saúde no país, vão concordar que o sns está um caos, mas menos mal, porque ainda o temos, não é como nos Estados Unidos de Trump, esse assassino do general Soleimani, culpado de toda a violência que venha a acontecer na Europa, e vão comentar, porque a tua cunhada está imbuída do espírito do amor à natureza que despontou no momento que olhou para os três vasinhos de ervas aromáticas poisados no parapeito da janela da cozinha, e está envolvida no projecto inovador daquele instituto público onde trabalham quatro familiares e cinco amigos, vão falar sobre a miserável responsabilidade do homem nas alterações climáticas, e vais contar que o teu irmão no passado fim-de-semana deu um passeio no terceiro carro eléctrico que comprou nos últimos quatro anos – porque os dois primeiros não eram verdadeiramente amigos do ambiente – e passou por aquela aldeia remota do país, onde vivem as pessoas que tu gostas de zombar porque falam aos arranques como as focas e são brutas de modos. O teu irmão, que tem um misto de saudosismo da terra dos teus avós já desaparecidos e de ambição de fazer qualquer coisa grande, acabará por comprar a quinta maior da zona, que hoje está ao abandono, e lá aplicará boa parte dos rendimentos que a família e amigos ajoeiraram no instituto público. E vão também lembrar-se do vosso bom amigo comum, teu colega e que, apesar do perfil no linkedIn, nunca acabou nenhuma das duas licenciaturas nem dos três mestrados em que se meteu, mas sempre ensinou tudo. Continua a andar de país em país, a fazer consultoria internacional, a destratar colaboradores e a condenar empresas à morte, seguindo as regras da liturgia da consultoria financeira. Impante, é um profundo conhecedor do mundo e da natureza humana. Pena que não faça a mais pequena ideia de quem é e que sofra tanto por isso. Poucas vezes vi tanta solidão num olhar. E gostava que fosse diferente. Além claro, do primo culto e bem-instalado, com quem almoçaste no mês passado. Nas três horas cronometradas pelo empregado de mesa que bem queria sair para poder ver se tinha ficado pronta a pequena obra aos estragos do telhado em casa, por causa do último temporal, conseguiram perorar sobre os erros do partido político adversário e dos ódios pessoais aos membros do partido com que simpatizam por mero desporto ideológico, e no qual o teu amigo sempre conta ter um lugarzito de prestígio, desde que não dê trabalho ou contrariedades, as últimas aquisições do vosso clube de futebol, de duas mulheres bonitas que vos fariam virar a vida do avesso, e são amigas das filhas das vossas paixonetas de há vinte anos, de nomes e apelidos, relações de sangue e de amizade dos conhecidos que ocuparam, ocupam e irão ocupar cargos de relevo nesta provinciazita de vaidades, dos bons argumentos das séries da netflix, dos livros escritos pelos amigos, amigos dos amigos e por eles recomendados, do vinho que beberam e de todos os de boa casta, enquanto do lado de fora da janela do restaurante, passa a correr um rapaz novo, envergando calções pretos de licra, t-shirt laranja fluorescente cavada e o relógio contador de passos, calorias e batidas cardíacas. E contou a última, quando pediram o café, duzentos metros adiante. O vosso azarado empregado de mesa, depois de conseguir que o patrão o deixasse sair antes de acabarem a refeição, foi dar com o rapaz caído. Chamou o 112, mas não foi a tempo. O barulho irritante que vos fez dar por terminado o almoço era o da sirene.