A vida é pequena, mais pequena se dividida em pedaços de espaços temporais. Se regressar à primeira metade dos anos 90, vejo-me no rame-rame de adormecer às quatro ou cinco da manhã, acordar tarde e ir para faculdade. De vez em quando lá assistir a uma aula sem quer, a menos que fosse uma cadeira que me interessasse. A conversa com os colegas que ficaram lá atrás perdidos no tempo, por não ter mantido essas ligações. A biblioteca onde passava horas e ler sobretudo o que não era recomendado para fazer as cadeiras, com os auriculares do leitor de cassetes a rodar música clássica. Todas as noites, o café e a treta com os amigos de Gaia que se prolongava por horas e se convertia em saídas aos bares às sextas ou sábados – o Aniki bóbó, na Ribeira, o Labirinto, na N. S. Fátima, o bar do Rivoli, o 31, no Passeio Alegre, o Quando Quando, na Avenida Brasil, mais tarde o Bonaparte, também na Avenida Brasil e o Triplex, na Av. da Boavista - revisitei quase todos já no início deste milénio com o Nuno, ou um pouco mais tarde novamente com grupos de amigos, até que em 2007 acabaram-se as saídas à noite. Voltando aos anos 90, ia a outros com menos frequência. As discotecas depois das duas da manhã: Industria, Swing, Estado Novo. E os périplos pelos bares gay, que quem é ou quem tem amigos homossexuais sempre conhecem: a começar no Café da Praça, para passar para Moinho de Vento ou Boys ’r’ us. Ocasionalmente ida a Lisboa, ao Bairro Alto, Frágil, Docas, até uma ida única ao Trumps. E, claro, o aconchego familiar que permita tudo rolasse dentro dos parâmetros desejáveis – há uns meses um amigo dessa altura dizia-me: sim, mas tu ias para casa e tinhas uma família. Só há relativamente poucos anos tive a perspectiva de que os amigos mais chegados me achavam bafejada pela sorte, claro que eu me considerava um Calimero e a eles os donos do mundo, cheios de vida. Sempre invejamos – no bom sentido, porque estou a falar de gente de quem gosto muito e sei que gosta de mim – a vida dos outros. Dessa época mantenho contacto regular com uma amiga (sem interrupções) e um amigo (com hiatos) que, juntamente, com um primo-amigo e três aquisições mais recentes (vá, uma delas já com cerca de 15 anos) constituem o núcleo duro de amigos que me fazem manter alguma normalidade na vida. Um punhado de gente que me é vital.
Reparo agora que ia escrever sobre as pequenas deslocações de Uber e desatei a falar sobre amigos. A ideia era apenas percorrer fases da vida para mostrar como os interesses e as vivências são diferentes ao longo dela. Se recuar há 12/13 anos era um vazio total, cujo momento que costumo recordar com mais intensidade, apesar de na altura passar o dia a trabalhar como uma camela, é dos interessantes serões deitada no sofá a ver novelas (as últimas que vi) e a devorar batatas fritas – grande programa de vida: casa trabalho, trabalho casa. Se recuar 11 anos vejo-me a começar a reconstruir uma vida a dois, a paz e a cumplicidade dos anos que se seguiram. Se retroceder 40 anos, vejo-me de kilt ou calças de jardineiro à volta dos bichos em Valinhas ou a moer o juízo dos meus irmãos (e eles a moerem o meu), nos baloiços da escola primária ou de castigo a fazer cópias e composições. Retrocedendo 30 e poucos anos vejo-me a contestar qualquer coisa que fosse dita nas aulas, a ler crónicas e poesia, a rir com amigos no café Glass, na biblioteca a ler jornais e livros de astrologia ou sobre pintura, quando era suposto estudar para os testes, distraída com os devaneios e as paixonetas. Se recuar 14 anos até tremo – na verdade já não tremo, mas foi mau, mesmo mau. Se retroceder 25/20 anos dou por mim a testar com empolgação os limites do que um coração e um cérebro podem dar de si. O desacerto total entre fim da faculdade e início da vida profissional – desde a simultaneidade do estágio com os primeiros trabalhos em bancos (é antiga esta mania de arranjar dois trabalhos – coisa de tuga que tem de se desenrascar para chegar a ter vida), a precariedade e a confrontação entre a fantasia e a realidade, a frustração ainda revoltada (depois habituamo-nos) - e o desajuste das escolhas sentimentais – desde o namorico inconsequente à sequência de paixões nada recomendáveis. O pot pourri decepção profissional/emocional que arrasaria aquilo que fora antes – um esteio de gente, torto vá, mas esteio – para me transformar num ser frágil, titubeante e susceptível a qualquer pequeno abanão da vida. Valeram-me as viagens. Se recuar 15/17 anos vejo-me desligada, a viver os dias, a profissão e as relações com frieza e indiferença. Frieza na vida pessoal e profissional enquanto escrevia rompantes em blogues. Descrente. Valeram-me as viagens. Se recuar 3/2 anos vejo-me satisfeita por ter concretizado qualquer coisa na vida ao escrever - temo que volvidos estes 3 anos volte a sensação de que não vale a pena. Independentemente do valor que tenha, terminar qualquer coisa deu-me um gozo especial. Há quem diga que teve uma enorme sensação de triunfo ao terminar o curso. Nem me lembro bem como foi, fico sempre com a ideia que fiz o curso ao acaso e não tenho ponta de orgulho nele – não é desdém, é franqueza. Há quem sonhe com o dia de casamento e essa seja uma grande conquista. Nunca foi um sonho meu, tinha outros ao lado que a vida tratou de concretizar e mostrar que experimentamos muitas vezes o que sonhamos, mas não da forma como sonhamos. A coisa sai sempre um pouco ao lado. Há quem diga que o grande dia das suas vidas foi o nascimento do filho ou dos filhos e aí, naturalmente, calo-me. Nada pode ser mais importante. É simplesmente a razão de tudo. Sucede que, mais do que uma escolha – gosto sempre quando me atiram à cara que há escolhas na vida, como se me quisessem castigar -, há vidas mais afortunadas do que outras, há gente mais talhada para a felicidade do que outra. De facto nunca fiz por ter filhos – eu que não me levo a sério, nem me tenho em grande conta e já perdi a vergonha, jamais seria irresponsável ao pôr um filho no mundo tendo tantas reservas sobre a capacidade de ser uma boa mãe e de um filho meu poder vir a ser saudável e feliz. Além do que se algum dia essas reservas tivessem sido superadas, a vida emocional e profissional (onde pesa a componente financeira) nunca se conjugaram no sentido de favorecer a decisão de ter filhos – no fundo também por viver num país onde ter filhos é um luxo só acessível a gente rica ou pobre, e pouco recomendada a gente remediada. Por todas estas razões nunca pus um filho no mundo, ou sequer me deixei engravidar. Não me levo a sério, mas não gosto de brincar com o fogo quando se trata do mais importante na vida. Em miúda achava que ia adoptar um filho, mas pelo ritmo que levo, a adoptar agora, só um neto. De qualquer modo, falava de concretizações. Escrever é a minha concretização, e também consolo, era a ideia deste último trecho que acabou por se estender além da minha intenção, como sempre.
Bom, se calhar as conversas tidas nas deslocações de Uber e no Intercidades ficam para outro dia. Ia dizer apenas que agora o meu rame-rame são as conversas com os motoristas da Uber, os blogues, as idas e vindas de Almada, a vida profissional e familiar e as tropelias do Ritz. O que interessa é que o Nuno está de coração mais sossegado depois do susto que apanhou na sexta-feira e nos fez ir a Almada este fim-de-semana.
Dando assim uma olhadela à posteriori ao texto parece-me uma vida parecida com a de muitos portugueses da minha geração. Curiosamente, não são estas vidas que usualmente vejo retratadas.