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31/10/2021

Cozinhados & Ansiedade

Manhã de sorna a ver programas de culinária – uma absoluta excepção. Diverti-me imenso a ver a Luísa Sobral a preparar um roast beef entremeado com presunto e queijo coberto com béchamel. Gostei da sobremesa de frutos vermelhos, se bem que costumo acrescentar amoras para contraste de cor, mas sobretudo apreciei a boa disposição da apresentadora do programa de culinária da SIC Mulher. Vi também outros dois cozinhotes na TV Kitchen. Camarões preparados na cafeteira de café – que tantas vezes usei em criança para fazer café, depois de passado no moinho (que aroma, céus) – e espetadas de picanha acompanhadas de migas de broa com couve galega cortada para caldo verde.


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Finda a manhã, encomendei Japonês para o almoço. Copo de vinho entornado na mesa. Dizem que é bom sinal.


 


Tarde de sorna, afastada de tudo quanto me aborreça. A ansiedade acumulada e as arrelias - ainda haverá alguém que use esta palavra? -, deviam sair do nosso cérebro à moda da ideia dos angolanos no passado: um pequeno golpezinho na testa para sair a dor.

José Ángel Hevia

Diário/Meia-noite

Apesar da veemência e acinte que coloco nas palavras, estou em constante dúvida e temo estar a tomar como realidade aquilo que julgo ser o melhor para o país. A ser ingénua, digamos assim. Resolvi então fazer uma sondagem e ouvir opiniões de quem gostar é inabalável por opinião divergente. A questão versa sobre o meu tema recorrente na última semana e que espero encerrar por uns tempos com este postal – País e PSD: Rio versus Rangel.


Foi um fim de tarde e uma noite diferente do habitual. Pôr a conversa em dia com gente de quem gosto. Aproveitar o ensejo para matar dois coelhos de uma só cajadada.


Houve quem não estivesse nem aí por não ser de outra cor política.


Houve quem me dissesse que ainda acreditou que Rio pudesse fazer um acordo ao centro, que permitisse viabilizar as reformas que o país precisa desde a fundação. E não tenha gostado que Costa as inviabilizasse juntando-se à esquerda radical. Mais, não gostando nem de Rangel nem de Rio, veja o último como mais verdadeiro, mas incapaz de ser reeleito, quanto mais não seja por os apoios estarem todos com Rangel. Quando coloquei a hipótese de uma Europa varrida pela extrema-direita, a resposta foi que nem um nem outro seriam apetecíveis como Primeiro-Ministro, um por já se ter coligado com o Chega nos Açores, outro porque o faria à primeira necessidade/oportunidade.


Há quem vá votar no Rangel por acreditar ser a forma de correr com o PS, o principal responsável pela destruição do país e por a entourage de Rio ser velha e enquistada no regime.


Há quem nada saiba sobre Rangel e diga que nunca dará o voto a Rio na qualidade de portuense e portista.


Há quem veja Rangel como establishment e não se sinta representado por ele. E acrescente que não se pode ser conservador não favorecendo o Estado Nação face a qualquer federação. E veja Rio como um Trump ou Bolsonaro a 0,3 volts, quando os outros funcionam a 1000 volts. Ache-o popularucho e sem capacidade para espremer as ideias como os outros, apesar de graças a Deus não ser mentecapto. Concordando comigo quanto às elites, descreva Lisboa como cada vez mais burguesa no mau sentido e recorde o fado da Amália, Lisboa não sejas francesa.


Posto isto, resumo o que penso. Não votaria em Rangel por representar o pior da direita: da insensibilidade social, da conversa da treta sobre reformas que nunca são feitas e são transformadas em cortes avulsos, do aumento das discrepâncias entre ricos e pobres, da apologia do empreendorismo e do mérito quando nada se faz nesse sentido, da retórica bacoca de quem tem interesse em ascender aos lugaritos e manter os interesses instalados.


Nunca votaria PS, mas para ser franca e dizer a verdade se for o Rangel a ir às legislativas é indiferente ser Rangel ou o PS a ganhar. Vai dar ao mesmo: não vão fazer nenhum.


Quanto a Rio, temo ser ingénua e pode parecer pacóvio o que penso, mas tenho-o um pouco à imagem de Cavaco Silva e não tenho tão má imagem de Cavaco como quase todos. Fez alguma coisa pelo país. Foi a altura em que tivemos crescimento. Bem sei que começaram os fundos europeus, mas a verdade é que nos anos seguintes houve mais fundos, que foram desbaratados. No tempo de Cavaco sempre se aproveitou qualquer coisa e crescemos coisa que se visse. Do Rio gosto da experiencia na Câmara do Porto. Gostei que tivesse travado o emprego público. Ao contrário do que era habitual e do seguinte não meteu gente para angariar votos. Conseguiu arrumar as contas públicas. Bem sei que isto soa a salazarento, mas às vezes convém tratar do comezinho, do bom senso, de tratar de uma higiene mental mínima, porque muito do resto é politiquice e zoeira.


De resto sobra quem verdadeiramente condena o destino do país: as elites de Lisboa, sobretudo, as emigradas para Lisboa – comentadores, jornalistas e vips que conduzem a opinião pública sem critério, conforme os apetites do dia, das amizades, do chove ou não chove. Sem critério de justiça ou de qualquer outra ordem de razoabilidade. Se Rio tem esse critério? Não sei. Se as pessoas que o rodeiam são velhos enquistados no regime? Também já me tinha colocado essa questão, temo isso e mais: que não tenham vontade ou força para fazer diferente. Mas os do Rangel não são menos enquistados no poder e são dos que mais mossa fazem. Talvez seja ingénua, talvez acredite que Rio seja pessoa de bom senso e capaz de algum rigor. Entre as pessoas que se apresentam é a única em que acredito minimamente por me parecer mais verdadeira. Não que seja pessoa que desperte interesse nem que nos deixe extasiados com a sua retórica, mas considero-o. Faz o que tem de ser feito. E francamente desde quase a fundação que andamos a inventar, quando tudo quanto é preciso, é limitarmo-nos a fazer o que tem de ser feito, em vez de fazer rodriguinhos com as palavras.


Sucede que Lisboa, a televisão, os jornais e as redes sociais não vêem nada disto e estão a puxar pelo Rangel, pelo que tem a caminha feita. Resta saber quem ganha: se Rangel (e os outros partidos de direita com os quais está condenado a coligar-se apesar do delírio da maioria absoluta que diz ter), se o PS e a caranguejola ressuscitada.


Como nota final digo apenas que tenho plena consciência que escrever tudo o que se pensa sem estratégia é meio caminho andado para ver os argumentos manipulados por outros. É a vida, não deixarei de ser quem sou.

30/10/2021

Diário/Meio-dia

O acordar normal de fim-de-semana, o pequeno-almoço do costume: iogurte e café. Saída ao centro comercial para comprar duas lembranças para aniversários que se aproximam. A loja de bijuteria, três simpáticas e prestáveis meninas muito jovens a atender. E uma volta sem grande atenção por dois dos pisos do edifício. Ainda pensei comprar qualquer coisa para vestir, mas a saga de mais de 90% das lojas não terem tamanhos muito grandes fez-me desistir. Como comprei um fio, uns brincos e uma pulseira de metais não nobres, deitei o olho distante às ourivesarias a que nunca presto atenção. Houve tempos em que tive umas poucas peças, porém levaram tudo num assalto a casa em 2008 ou 2009. Às vezes penso que foi abençoado: não me fazem falta nenhuma, salvo na memória do carinho das pessoas que as deram e essa ninguém pode roubar. Lembrei-me da proliferação da caça ao ouro que houve nos anos piores da crise.


Depois fomos ao take-away aqui da zona, tinha encomendado rosbife para três. Já não ia lá há algum tempo e é sempre uma conversa alegre. Trocados os cumprimentos da praxe, provoquei: então, lá nos estamos a preparar para outra? O educado dono do estabelecimento falou da pandemia, ao que acrescentei: a essa junta-se a outra, a da economia. Ele retorquiu: ah, fala pandemia da Assembleia? E daí disparamos por menos de um minuto para as discussões irresponsáveis de meninos irresponsáveis: dos 18 ao 80. Até que ele interrompeu: sabe, vejo cada vez menos televisão, oiço muita música, vejo um filme ou outro quando me apetece. Depois falou-me de San Sebastián e de Woodie Allen. Do filme Rifkin's Festival. Ao que parece a história não é grande coisa, mas sempre se vêem as ilhas de San Sebastián. Lembrei-me de ter dito a um amigo no ano passado para não ver tanta televisão evitando dar o tilt por causa do ataque massivo de informação alarmante relativa à covid.


Temos que viver com elas, a pandemia e a economia. As flutuações impostas pelo exterior, impostas por essa neurótica especulação financeira e a falta de juízo das populações que aderem aos clichés da moda. Desde a linguagem à saúde ou à cozinha passando pela política, não distinguindo verdade de mentira, bem do mal, original de imitação. Escudados sobre a aparência das bandeiras da tolerância, da liberdade de expressão, da livre opinião, vão irresponsavelmente - nalguns casos, intencionalmente - utilizando a retórica para inquinar todos estes valores da democracia, desvirtuando-os na miragem da supremacia de uma direita muito mais fanática do que a rasteira e oportunista direita populista do Chega, fácil de domar em Portugal. Difícil de tomar neste país é a direita dos clubes dos interesses, da corrupção, do desrespeito pela vida dos portugueses.


A direita egoísta, arrogante, falsária, que se diz grande empreendedora e de defensora do mérito, quando na prática tem zero de preocupação com o mérito, zero de preocupação com a justiça. É a direita que nos venderam em 2011 e nos querem voltar a vender agora. A que nos entra todos os dias em casa através da televisão, dos computadores, dos telemóveis. A que depressa se venderia aos interesses externos e às ondas ideológicas radicais que se vão levantando na Europa. A que se diz muito conhecedora e muito preparada, traduzindo preparação por capacidade em produzir mais mensagens ou postais politiqueiros no Twitter e no Facebook. É experiente aqui ou na Europa a produzir intriga política. A preparar golpes palacianos. A acusar de fanatismo e radicalismo os que se limitam a tentar levantar a voz contra a lavagem cerebral feita por esta elite de fancaria que calhou a Portugal - experiente na arte da persuasão: a tentar convencer os portugueses que o bicho papão da direita radical está noutros, quando eles mesmo são os portadores do vírus anti-democrata.


Espero com franqueza, mas sem grande esperança, que os portugueses topem quem são os intrujões. Continuo a confiar sempre muito mais em quem tem dúvidas e diz que não sabe isto ou aquilo, do que naqueles  que falam sem parar, sempre com certezas absolutas. Naqueles que nunca vêem qualidade alguma nos adversários e só vêem virtudes nos apaniguados. 


Quando era criança havia um dito que sempre usávamos: quem diz é quem é. Ao que parece tenho bastante sangue judeu e algum faro para ver de onde vem o mal.


Era para ser um simples diário e acabei por escrever sobre as diatribes da direita. Já desliguei a televisão. Música. Vou ouvir muita música nos próximos dias para tentar abstrair desses irresponsáveis que pululam as televisões, os jornais e as redes sociais.


(continua)

Fingimento

Parece que terminou o finge que somos ricos dos últimos anos. Andamos a fazer de conta que não tínhamos dívida por causa dos juros baixos. 


Não haja dúvida que é a altura ideal para eleger irresponsáveis, desde os que lá estiveram até agora aos anteriores que em bicos de pés e as habituais propostas avulsas de cortes injustos não sabem o que é uma política económica de rigor aumentando as disparidades económicas e sociais.


A crise e a dívida são para ser pagas pelos portugueses. E não pelos do costume que vêem as suas vidas destruídas, ao passo que muitos outros se mantêm a salvo ou pior a aproveitar-se do mal alheio.

29/10/2021

Sexta-Feira

Muito trabalho, muitos contratempos. O que vale é que vem aí um fim de semana prolongado.


Boa Sexta-Feira.

28/10/2021

Eficiência, segurança e absurdo

Hoje para lá das tarefas normais parte substancial do dia foi passada em torno da segurança da informação. Consegui estar focada três horas, o que para um cérebro macerado é obra. Fiz mentalização antes: vais escutar, vais-te focar no que é dito e a participação saiu natural. A ideia era não partir com ideias preconcebidas e ouvir o que era dito.


Foi útil, mas como sempre nos últimos anos acabo por chegar à conclusão que tudo parece fazer sentido parcelarmente, contudo um vôo de pássaro que nos dê um panorama global da realidade mostra o absurdo para que caminhamos. Falo de eficiência e segurança. Trabalhar a informação mantendo-a íntegra, organizada e segura, tomando cada vez um maior número de procedimentos para o efeito parecerá a via desejável. Sucede que o futuro demonstrará que é contraproducente. Enquanto decorria a exposição estive atenta aos procedimentos e à lógica e benefício de cada um per si e tudo parecia fazer sentido. Sucede quando paramos para respirar, sair fora do negócio, do quadro mental, da lógica imediata e começamos a avaliar o trabalho implicado, percebemos que é totalmente irracional - a menos que esteja em causa a ironia imperceptível aos que insistem em profetizar o desemprego massivo da população mundial, que se consubstancia na necessidade cada vez maior de mão de obra à conta do absurdo. A incomensurabilidade de trabalho acrescido é a razão para pensar tantas vezes que argumentos parcelares lógicos e racionais podem perder toda a razoabilidade quando vistos numa perspectiva distante e (quase) integral – e não estou a falar de falácia, distorção da informação ou de má intenção, o assunto é outro.


Em suma, o instinto parece não me ter enganado quando no passado escrevi sobre o absurdo do trabalho das consultoras internacionais que destroem os tecidos empresariais dos países por onde passam, nem me engano quando digo que o incremento exponencial da informação e dos procedimentos levará a exaustão da actividade cerebral humana. É o que chamo despejar o mar a balde. Dir-me-ão que a robotização resolverá. Não me parece: alguém tem que criar, compreender, operar e fazer a manutenção das máquinas.


A sofisticação dos impérios tem consequências. A sofisticação das civilizações antigas teve o reverso. Teremos também o nosso e será tão só a forma do Universo se ajustar para sobreviver. O planeta não comporta a humanidade na dimensão e moldes actuais. Da natureza decorrerão os enormes e terríveis estragos por mais que lutemos contra a inevitabilidade - é natural e humano que o façamos, menos racional e aceitável é arranjar culpados em cada esquina, o que sempre acontece nestas épocas.


Na passadeira ouvi a conversa ao telemóvel de uma jurista: comentava que a jurisprudência determina que nestes casos se decida de determinada forma, recuei 20 anos e soou-me a um mundo antigo que não sobreviverá aos mais de duzentos caixotes de resmas de documentos do processo de Ricardo Salgado, ao conteúdo dos ficheiros constantes dos discos rígidos cujas passwords Rui Pinto entregou à Polícia Judiciária, aos “leaks” que o consórcio de jornalistas vai libertando conforme as conveniências ou a outros casos que surjam.


Deixei a agenda que fiz de manhã em branco. Não tive tempo. Bom, podia ter usado o tempo gasto para escrever este postal, mas não aconteceu assim.

Diário

Nos últimos dias os portugueses têm tido aulas de Ciência Política e Direito Constitucional. Avizinha-se a lição de Direito Internacional Público e Direito Comunitário. 

Que venha ele

 


Venha lá o segundo Orçamento.


 

O tempo dos Abutres

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Agenda

Se tiver tempo ainda hoje faço uma ronda pela imprensa - a que resta das cangalhas em que a puseram -, para apurar as razões aparentes da quebra de contrato da EDP com parceiros de fornecimento. As questões de navegação e dos transporte de mercadorias internacionais. O aumento dos preços dos combustíveis. A possibilidade do regresso da inflação. As movimentações em Taiwan. As questões da segurança informática.


Ver se me consigo informar à séria em vez de estar a perder tempo com as intrigas da politiquice rasteira portuguesa. Se conseguir fazer essa ronda ao fim do dia darei nota aqui.


Boa Quinta-Feira.

O tempo ajuda a perceber

Quando começaste a usar o termo forasteira para te definires, por causa dos westerns que viste em criança, dos versos de Ricardo Reis que leste na adolescência e das viagens que fizeste na juventude ainda não sabias descrever apesar de a sentires uma quarta razão: a da eterna desconfiança, quando não desconsideração, com que és olhada.


Há uns dias dizia quem te conhece bem: não, tu não és carente de afecto (pensaste: amor não me faltou) nem carente de atenção (pensaste: não, sempre me entretive), mas és carente de consideração (e disseste: daí o forasteira). 

Diário alternativo

Um dia comprido. E muitos convencidos de guardarem um grande segredo, uma grande sabedoria. As artimanhas do costume. O futuro a devorar o presente com voracidade nunca vista. Todos a manter a pose, como se soubessem o que andam a fazer neste mundo e quanto tempo lhes resta. Uns querem dar lições, como se fizessem a mais pequena ideia do que está em causa. Os mais cheios de si enterram-se nos clichés da literatura e da música. Outros já perderam o pé e não sabem nem querem saber o que se passa no mundo. Alguns recordam ficção a retratar tempos de guerra como aprendizes de heróis.


E todos se perguntam: onde está o inimigo? Terá o mundo perdido o pé?

27/10/2021

Parlamento

António Costa. Acordem-me quando acabar o comício.


*


Alguém explique a António Costa e Ana Catarina Mendes que os portugueses dispensam lições sobre funcionamento das instituições e que se estão a marimbar para as "sedes" de discussão. Estão mais interessados na substância. Alguém explique a António Costa, Ana Catarina Mendes e os arautos cuja voz é audível em Portugal que foram ultrapassados pela realidade, porque os portugueses se fartaram de aturar propaganda.


Alguém avise António Costa que dividir portugueses entre eleitores de esquerda e os outros é fatal.


Alguém avise António Costa que a pandemia está aí para durar.

Parlamento

Ana Catarina Mendes. Passo. Não tenho paciência para propaganda.

Parlamento

Bem, Rui Rio, no retrato económico do país. Sem o fogo de artifício que agradaria a irresponsáveis.

Parlamento

Bem, Catarina Martins.


(com todas as reservas que tenho com o despesismo.)

Parlamento

Bem, João Oliveira.


(com todas as reservas que tenho com o comunismo.)

Parlamento

CDS. Só me pergunto como é que o partido anda entretido a brincar aos meninos Xicões e Nuninhos quando tem Cecília Meireles.

Parlamento

PAN. Inês Sousa Real. Parecem bons princípios, pena que não saiba ler o futuro. Um namoro completo com o PS.

Parlamento

André Ventura é tão parecido com António Costa na argumentação: além da falácia, come silabas. 

Parlamento

Bem, Cotrim de Figueiredo.


(com todas as reservas que tenho com liberais.)

Mother of Souls

A direito

Vejo que o irmão do Primeiro-Ministro vaticina a vitória de Rangel nas eleições internas e a sua melhor cotação nas legislativas.


Pena que estas inteligências raras, que pululam a televisão, os jornais, os blogues e passam a vida na intriga palaciana, a repetir notícias por oportunismo e indução de opinião, e a omitir tudo quanto mostre a verdade inteira e respeite a livre vontade (não condicionada) dos eleitores, não tenham vislumbrado os resultados das autárquicas que agora ''oportunisticamente'' reivindicam para seu proveito, invertendo a realidade.


Típico de gentinha. Típico de velhacos. 


Não vi ninguém na televisão a alertar para o desnorte do Presidente da República nem a realçar que os portugueses percebem que titubear pode ser tão só sinónimo de honestidade. Coisa rara neste país dominado pela corja de opinadores que não se arrependeriam de condenar o país a uma direita excitada e muito mais permeável aos extremismos europeus do que uma direita que tenha mão nos radicais caseiros.


É o que dá ter uma elite que pensa com 80 anos de atraso, julgando a realidade de hoje pelos moldes de então e das décadas subsequentes. Modernidade para esta gente são os gadgets e a aparência. País das unhas de gel. 


Se isto é a novidade que têm para dar vou ali a já venho. Maldita sina do atraso de Portugal.

Balelas

Quando se vê a política como um concurso para Miss Universo, se pensa com os pés e se está cheio de si, nunca pondo em causa o que se diz, o contributo para uma conversa séria é nulo. Disso está Portugal farto.

26/10/2021

Básicos de Justiça


  • Troca da descida significativa do IRC por aumento substancial do salário mínimo (não ignoro que uma em cada três empresas não o paga IRC, pelo que fazia todo o sentido aplicar - pelo menos - uma taxa mínima a todas).

  • Definição de objectivos de eficiência no sector público, premiando o trabalho efectivo, penalizando a ineficiência - impondo critérios válidos de gestão. 

  • Congelamento dos aumentos e actualizações dos salários no sector público até o salário médio do sector privado estar ao mesmo nível. 

Bem pensado

Aqui está uma linguagem que entendo. Só li agora, mas vai no sentido do que penso. 

Da opinião

Não confio em análises ou comentários cuja tónica principal é o desprezo ainda que muito bem dissimulado entre a argumentação cuidada, informada, culta e inteligente. Também tenho reservas quanto aos que não revelam as fontes do seu conhecimento - é certo que podem ser legítimas, mas fico sem saber se o são e, em caso afirmativo, se lhes foi prestado o devido reconhecimento - que se traduz no uso isento e correcto da informação - ou se tais fontes são usadas apenas em benefício próprio - com apropriação indevida -, quando não em prejuízo de outrem ou para mera chicana. O que mais tenho é dúvidas e ignorância q.b., mas face ao que nos aconteceu nos últimos dois anos e ao que parece avizinhar-se devíamos ser cautelosos. Brinco com as bolas de cristal, mas sei que tenho alguma propensão para antecipar o que outros têm dificuldade de prever. A minha vida seria bem mais tranquila e normal se visse as coisas a preto e branco. Além do que tenho plena consciência que ao escrever o que acabei de escrever me descredibilizo em absoluto.


É difícil ouvir a voz do bom-senso num país que dissimula o respeito pela opinião contrária e tem hábito de ver tudo na vida como um desafio de futebol: o mais caricato é ver gente altamente facciosa, de camisola vestida, a acusar outros de clubismo quando estes se limitam a dizer o óbvio. Cresci a ver programas de futebol e a ver adeptos portugueses a defenderem a existência de penáltis que a evidência não mostrava – acredito que alguns se convençam, tal qual mentirosos compulsivos se convencem das suas histórias. Continua tudo igual. É cansativo. Todos temos as nossas paixões e um quê de clubismo, mas há pessoas que exageram e são normalmente as que mais acusam o próximo de o fazer (serei uma delas? – pergunto-me e julgo que deveria ser a pergunta que todos deveríamos fazer). Não vale tudo. Dizer 30 vezes uma mentira ou meia-verdade não a converte numa verdade, que acaba sempre por vir “ao de cima” – e, claro, lá virão os facciosos do costume dizer que sempre souberam e sempre avisaram, que a culpa é de fulano tal, sicrano tal. Tudo embrulhado em muitos factos e deduções entre eles, muita doutrina e história até Adão e Eva. Estaria tudo bem, se o soubessem fazer com a sensatez e a verdade que lhes falta – cada um é para o que nasce e os facciosos nasceram para as certezas.


Do que ouvi e li nos últimos dias percebo o desnorte (de que também sofro). Foi-nos tirado o tapete – com todos os defeitos que tinha, era o que conhecíamos. Vejo que uns ainda se agarram às paredes, não reparando que estão inclinadas. Outros continuam na senda da calunia – culpando tudo e todos pelo acaso e acreditando cegamente em quem aparece com a soluções milagrosas – como se elas lhes pertencessem. Na tentativa de racionalizar o absurdo vão-se criando doutrinas sobre doutrinas e evocando a História – desde a portuguesa do século XIX, que me é cara e da qual estranho sempre não se fazer a ligação ao século que a antecedeu, até ao evangelho. Vou ouvindo, lendo, às vezes na diagonal senão dou o tilt – ainda se lembram desta expressão? – e aprendendo, como toda a vida fiz, associando o que oiço e leio ao acumulado de experiência de vida, apesar da absoluta incapacidade de verbalizar o resultado das audições e leituras de uma vida num todo estruturado e coerente, que sempre desejei alcançar - não é sonho pequeno. Cada um é para  que nasce e a mim coube-me a dúvida e ler os sinais.


E o que os sinais me dizem hoje é que é errado fazer decorrências lógicas de um ponto para outro, tendo o ponto inicial como certo. Dois exemplos, um concreto e outro abstracto: 1) no Orçamento de Estado: a defesa dos direitos dos trabalhadores, e o salário em concreto. É evidente que as empresas portuguesas ficariam esganadas se tivessem que subir muito os salários e o que mais precisariam seria de incentivos, mas não é menos verdade que se não se forçar a barra (como dizem os brasileiros) os empresários jamais vão repercutir a exigência de uma vida condigna dos que trabalham para os seus clientes, fornecedores e Estado. Já todos percebemos que os patrões partem do princípio que é uma impossibilidade pagar bem e contam com a conivência de quem tem voz em Portugal. É um círculo vicioso. O mal tem que ser cortado em algum lado e não me venham falar em concertação social e sindicatos – há décadas que todos ouvimos falar deles sem que nada de substancial mude verdadeiramente – estes apesar de possuírem voz e força não têm interesse que as coisas mudem: numa sociedade evoluída e mais rica perderiam peso e eles sabem disso. E se é verdade que se deve baixar a carga fiscal às empresas, isso só seria justo e eficiente se condicionado ao respeito pelas condições de trabalho – é isso mesmo que quero dizer: zero vantagens de for para criar riqueza enviesada. 2) porquê fazer despender as escolhas nacionais da realidade europeia ou internacional, como se fosse grande conhecedor dela? Quando na verdade não se faz a mínima ideia dos moldes em que se vai apresentar nas próximas semanas ou meses? Que mal nos faria ter coragem e confiar nos portugueses como povo charneira? – e não, não estou a apelar ao patriotismo bacoco, muito menos ao nacionalismo. Estou a defender que tenhamos brio no nosso trabalho. Que mal nos faria esquecer as velhas lengas-lengas e chavões: reformas sim, mas reais e comezinhas, não as balelas para encher o olho e discursos inflamados, quando se tem uma mão cheia de nada para oferecer.


(à noite corrijo erros que haja me saltem à vista.)

Porto

21961204_Fiez5.jpegJardins do Palácio, 4 de Novembro 2020.

Pedro Abrunhosa

Mão na vida

Não sei o futuro e não me parece que vá ser luminoso, mas lá que é divertido ver os políticos, os comentadores, os jornais e, em geral, a comunicação social totalmente baratinados, é. Andavam há tanto tempo cheios de certezas. Estavam mesmo a precisar de cair na realidade - por mais absurda que ela seja ou pareça. É uma maçada percebermos que não temos mão na vida, nos outros e na razão.

25/10/2021

Recapitulando


Recapitulando


Cadeirão de orelhas


por Isabel Paulos, em 11.05.20


 


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atrevido ainda não tem três meses de casa e já se põe com imposições. Lá por ser confortável e de um azul bonito acha que tem direito a companhia. É preciso muito cuidado com o que se mete dentro de casa. Começam com exigências e levam-nos à falência. Diz que não quer velharias por perto ou, então, exige que sejam devidamente estofadas.


Pronto, não resisto. Lá terá que ser. Começa o namoro numa qualquer loja da especialidade. Numa vulgar de Lineu, claro está, porque é tudo bem medido, pesado e contado. Pode ser este da casa progenitora do pedinchão. Gosto deste mas queria outra cor para estragar a harmonia. E não há. Este é bastante mais cómodo no preço. Ao contrário deste, que parece igual a este. E, por fim, o da loja dos móveis de bom ar, mas qualidade duvidosa.


Finda a ronda congemino a hipótese de seguir a opinião de quem lhe vai dar mais uso e mandar estofar o cadeirão que comprei há dezanove anos para o escritório onde fiz de conta, durante dois, que sabia de leis. No fundo tropecei nelas e ainda hoje estou para saber como aguentei e acabei formada. Bem vistas as coisas foi uma proeza. De leis percebo pouco ou nada, mas sempre apurei as manias de questionar tudo, procurar a causa das coisas e ver todos os pontos de vista e racionalizar e estruturar o todo. Não adianta de muito, afinal as almas geniais, como Oscar Wilde, dizem que alguém que vê os dois lados de uma questão é pitosga de todo. E não deixa de ser verdade.



24/10/2021

Maravilhas da Natureza

Mais íntimo é impossível

A vida é pequena, mais pequena se dividida em pedaços de espaços temporais.  Se regressar à primeira metade dos anos 90, vejo-me no rame-rame de adormecer às quatro ou cinco da manhã, acordar tarde e ir para faculdade. De vez em quando lá assistir a uma aula sem quer, a menos que fosse uma cadeira que me interessasse. A conversa com os colegas que ficaram lá atrás perdidos no tempo, por não ter mantido essas ligações. A biblioteca onde passava horas e ler sobretudo o que não era recomendado para fazer as cadeiras, com os auriculares do leitor de cassetes a rodar música clássica. Todas as noites, o café e a treta com os amigos de Gaia que se prolongava por horas e se convertia em saídas aos bares às sextas ou sábados – o Aniki bóbó, na Ribeira, o Labirinto, na N. S. Fátima, o bar do Rivoli, o 31, no Passeio Alegre, o Quando Quando, na Avenida Brasil, mais tarde o Bonaparte, também na Avenida Brasil e o Triplex, na Av. da Boavista - revisitei quase todos já no início deste milénio com o Nuno, ou um pouco mais tarde novamente com grupos de amigos, até que em 2007 acabaram-se as saídas à noite. Voltando aos anos 90, ia a outros com menos frequência. As discotecas depois das duas da manhã: Industria, Swing, Estado Novo. E os périplos pelos bares gay, que quem é ou quem tem amigos homossexuais sempre conhecem: a começar no Café da Praça, para passar para Moinho de Vento ou Boys ’r’ us. Ocasionalmente ida a Lisboa, ao Bairro Alto, Frágil, Docas, até uma ida única ao Trumps. E, claro, o aconchego familiar que permita tudo rolasse dentro dos parâmetros desejáveis – há uns meses um amigo dessa altura dizia-me: sim, mas tu ias para casa e tinhas uma família. Só há relativamente poucos anos tive a perspectiva de que os amigos mais chegados me achavam bafejada pela sorte, claro que eu me considerava um Calimero e a eles os donos do mundo, cheios de vida. Sempre invejamos – no bom sentido, porque estou a falar de gente de quem gosto muito e sei que gosta de mim – a vida dos outros. Dessa época mantenho contacto regular com uma amiga (sem interrupções) e um amigo (com hiatos) que, juntamente, com um primo-amigo e três aquisições mais recentes (vá, uma delas já com cerca de 15 anos) constituem o núcleo duro de amigos que me fazem manter alguma normalidade na vida. Um punhado de gente que me é vital.


Reparo agora que ia escrever sobre as pequenas deslocações de Uber e desatei a falar sobre amigos. A ideia era apenas percorrer fases da vida para mostrar como os interesses e as vivências são diferentes ao longo dela. Se recuar há 12/13 anos era um vazio total, cujo momento que costumo recordar com mais intensidade, apesar de na altura passar o dia a trabalhar como uma camela, é dos interessantes serões deitada no sofá a ver novelas (as últimas que vi) e a devorar batatas fritas – grande programa de vida: casa trabalho, trabalho casa. Se recuar 11 anos vejo-me a começar a reconstruir uma vida a dois, a paz e a cumplicidade dos anos que se seguiram. Se retroceder 40 anos, vejo-me de kilt ou calças de jardineiro à volta dos bichos em Valinhas ou a moer o juízo dos meus irmãos (e eles a moerem o meu), nos baloiços da escola primária ou de castigo a fazer cópias e composições. Retrocedendo 30 e poucos anos vejo-me a contestar qualquer coisa que fosse dita nas aulas, a ler crónicas e poesia, a rir com amigos no café Glass, na biblioteca a ler jornais e livros de astrologia ou sobre pintura, quando era suposto estudar para os testes, distraída com os devaneios e as paixonetas. Se recuar 14 anos até tremo – na verdade já não tremo, mas foi mau, mesmo mau. Se retroceder 25/20 anos dou por mim a testar com empolgação os limites do que um coração e um cérebro podem dar de si. O desacerto total entre fim da faculdade e início da vida profissional – desde a simultaneidade do estágio com os primeiros trabalhos em bancos (é antiga esta mania de arranjar dois trabalhos – coisa de tuga que tem de se desenrascar para chegar a ter vida), a precariedade e a confrontação entre a fantasia e a realidade, a frustração ainda revoltada (depois habituamo-nos) - e o desajuste das escolhas sentimentais – desde o namorico inconsequente à sequência de paixões nada recomendáveis. O pot pourri decepção profissional/emocional que arrasaria aquilo que fora antes – um esteio de gente, torto vá, mas esteio – para me transformar num ser frágil, titubeante e susceptível a qualquer pequeno abanão da vida. Valeram-me as viagens. Se recuar 15/17 anos vejo-me desligada, a viver os dias, a profissão e as relações com frieza e indiferença. Frieza na vida pessoal e profissional enquanto escrevia rompantes em blogues. Descrente. Valeram-me as viagens. Se recuar 3/2 anos vejo-me satisfeita por ter concretizado qualquer coisa na vida ao escrever - temo que volvidos estes 3 anos volte a sensação de que não vale a pena. Independentemente do valor que tenha, terminar qualquer coisa deu-me um gozo especial. Há quem diga que teve uma enorme sensação de triunfo ao terminar o curso. Nem me lembro bem como foi, fico sempre com a ideia que fiz o curso ao acaso e não tenho ponta de orgulho nele – não é desdém, é franqueza. Há quem sonhe com o dia de casamento e essa seja uma grande conquista. Nunca foi um sonho meu, tinha outros ao lado que a vida tratou de concretizar e mostrar que experimentamos muitas vezes o que sonhamos, mas não da forma como sonhamos. A coisa sai sempre um pouco ao lado. Há quem diga que o grande dia das suas vidas foi o nascimento do filho ou dos filhos e aí, naturalmente, calo-me. Nada pode ser mais importante. É simplesmente a razão de tudo. Sucede que, mais do que uma escolha – gosto sempre quando me atiram à cara que há escolhas na vida, como se me quisessem castigar -, há vidas mais afortunadas do que outras, há gente mais talhada para a felicidade do que outra. De facto nunca fiz por ter filhos – eu que não me levo a sério, nem me tenho em grande conta e já perdi a vergonha, jamais seria irresponsável ao pôr um filho no mundo tendo tantas reservas sobre a capacidade de ser uma boa mãe e de um filho meu poder vir a ser saudável e feliz. Além do que se algum dia essas reservas tivessem sido superadas, a vida emocional e profissional (onde pesa a componente financeira) nunca se conjugaram no sentido de favorecer a decisão de ter filhos – no fundo também por viver num país onde ter filhos é um luxo só acessível a gente rica ou pobre, e pouco recomendada a gente remediada. Por todas estas razões nunca pus um filho no mundo, ou sequer me deixei engravidar. Não me levo a sério, mas não gosto de brincar com o fogo quando se trata do mais importante na vida. Em miúda achava que ia adoptar um filho, mas pelo ritmo que levo, a adoptar agora, só um neto. De qualquer modo, falava de concretizações. Escrever é a minha concretização, e também consolo, era a ideia deste último trecho que acabou por se estender além da minha intenção, como sempre.


Bom, se calhar as conversas tidas nas deslocações de Uber e no Intercidades ficam para outro dia. Ia dizer apenas que agora o meu rame-rame são as conversas com os motoristas da Uber, os blogues, as idas e vindas de Almada, a vida profissional e familiar e as tropelias do Ritz. O que interessa é que o Nuno está de coração mais sossegado depois do susto que apanhou na sexta-feira e nos fez ir a Almada este fim-de-semana.


Dando assim uma olhadela à posteriori ao texto parece-me uma vida parecida com a de muitos portugueses da minha geração. Curiosamente, não são estas vidas que usualmente vejo retratadas. 

Campos verdes

Dormi uns 15 minutos no início da viagem. Sonhei com campos verdes. Sensação boa.

O coração

Esse está habituado à paulada, ao mau julgamento. Tudo se cura, com o tempo, o tal que só existe em relação. 

Sina, das sinas dos portugueses

Sina, das sinas. Passar a vida inteira a apontar erros, a denunciar outros à toa, umas vezes lá calha e é com critério e verdade, outras por puro desporto, por gosto em contrariar o outro e mostrar-se mais certo, mais esperto. Ambiente em que nada vinga, à excepção da ilusão de mudança que interessa para tudo continuar igual.


Sina, das sinas. Se alguém levanta a voz, alertando para a necessidade de quebrar o ciclo do vácuo, logo é tido por palerma, irresponsável, falso, invejoso, preguiçoso, hipócrita. Qualquer coisa serve para o denegrir e manter isolado, proscrito como convém aos que se apregoam muito corajosos, muito críticos, muito anti-sistema - o mesmo sistema que alimentam dia após dia, fazendo-se passar por seus opositores. A arte de ter duas caras e viver ao sabor dos ventos favoráveis, dos interesses. Aproveitando argumentos válidos de outros, para os distorcer a seu bel-prazer. Acusar terceiros dos próprios defeitos. Incapazes de admitir o erro em prol do bem comum.


O número de vezes que se lança mão das acusações de irresponsabilidade e demagogia é proporcional ao grau de atraso do país. Nada como demagogos  a apelarem à responsabilidade e a acusarem os opositores de demagogia - ninguém a conhece melhor do que eles, tem-na na mão de modo egoísta como capa da defesa do núcleo forte da rede de relações e interesses ligados ao Estado.

23/10/2021

Em trânsito

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Nunca tive particular desejo de fazer um cruzeiro, mas hoje dei por mim a olhar para este navio da Companhia Aida

Será?

Novos dias

Há coisas que não se confessam nem às paredes, como cantava Tony de Matos - só as Comezinhas para se lembrarem deste nacional cançonetista. Há 3 anos (ou 4) no início da liderança de Rui Rio, lembro-me de estar a ver um debate na televisão e do desdém sobranceiro com que os comentadores se lhe dirigiam. Foi assim desde início. Pensei e disse em casa: estes tipos ainda vão engolir estas palavras. Não era vingança mesquinha que me movia, disse-o apenas no sentido de considerar que Portugal precisa de pessoas como Rui Rio e de deixar de se entreter com os treinadores de bancada da retórica. Não sou particular fã da atitude e personalidade de RR, não tenho o culto da personalidade. Mas gosto da ideia de confiar no bom senso e capacidade de gestão com rigor. E como é notório estou farta dos espertinhos das grandes tácticas e profundidade de análise que, de tanto se enredarem nos próprios pés, acabam por dizer baboseiras sempre cheios de superioridade sobre aqueles a quem chamam patéticos e mais não são os que conhecem os portugueses. Ainda ontem li nesta linha um historiador, cheio de si.


Não sei quem será o próximo líder do PSD e, em consequência, não sei quem será o próximo Primeiro-Ministro - sim, estou a saltar etapas. Sim, é usual julgar-se falta de inteligência dizer tudo sem ponderar todos os cenários, ou sem aguardar que se fechem um a um. Sei que se for Costa é péssimo, sei que se for Rangel péssimo é.


E sei que no espaço de poucos dias tudo mudou. Na sequência das autárquicas, sobre as quais a maioria dos analistas não reconheceu o bom resultado do PSD - tentando circunscrever ao bom desempenho de Moedas -, tamanha é a vontade de desdenhar da liderança e substitui-la por mais do mesmo, para que o país continue na pasmaceira de sempre a alimentar conversa oca de comentadores.


Tudo mudou, sobretudo, para o Governo e o PS que se viram nos últimos dias cercados por uma saraivada de disparos. Críticas de todas as áreas, umas justas outras correspondendo aos habituais aproveitamentos em tempos de aprovação do Orçamento.


Não sei se o Orçamento vai ser aprovado ou não, mas considero que momentos de ruptura são necessários para conquistar melhores condições de vida para os trabalhadores portugueses que não gozam da protecção dos sindicatos ou das ordens profissionais - em vez de continuar com os eternos benefícios apenas para a função pública - que por puro egoísmo não tem qualquer respeito pelo conjunto do país. Momentos de ruptura são bons para correr com os interesses instalados e a corrupção das cadeiras do poder. Sei que corremos o risco habitual de substituir uns por outros iguais, por mais do mesmo. Mas é urgente correr com este Governo. Isso é patente, apesar da comunicação social só ter chegado a essa conclusão esta semana, quando lhe cheirou a novidade. E mantermo-nos exigentes com quem vier a seguir.


(o post não está editado, amanhã ao fim do dia corrijo-o.)

Billie Eilish

22/10/2021

Vaivém

Aí vou novamente a Almada. Há uns anos nos delírios de mudança de casa e de vida, ponderei ir viver para o Centro (era mais fácil) - cheguei a ver casas na Figueira da Foz - bom, mas onde é que ainda não vi casas? Inconsequente, és uma inconsequente. Às vezes divertia-me e ia até Dublin. Hipótese por hipótese também valem as fora de causa. Encanta-me a Irlanda, que não conheço. Claro que tenho o estereótipo: verdes, bares e escrita. Parece-me um bom programa de vida - soa a anedota: não vou a um bar há anos. Mais do que a Holanda (que também não conheço: como é possível?), cuja visita já adiei duas ou três vezes - cada vez mais encafuada em casa. Hoje uma percentagem significativa da população portuguesa viaja - viva a ryanair e os fundos europeus. Ao percorrer o caminho trabalho paragem do autocarro dei com três rapazes novos a conversar, um deles a dizer que tendo estado três vezes em Amesterdão e tal e coisa os holandeses e o hábito de ter duas e três bicicletas. Na idade dele também tinha tempo e meios para viajar. Tinha alegria na voz, o rapaz - ontem senti a minha voz sumida no elevador ao responder a um simpático cumprimento de outro passante, detesto quando fico com a voz sumida, à saída fiz um esforço e consegui uma razoável alegria e simpatia na voz, detesto fazer a figura de mono que vejo a muitos estafermos, uns por natureza outros por má educação. O das bicicletas estava contente por contar aos amigos as suas peripécias. O tempo passa. Não volta, nem podia. Ou não passa. O Tempo, o tempo não passa. Tudo é relação e o tempo só existe em relação. Falei com uma antiga colega de trabalho de quem tenho saudade, confirmamos que estamos vivas e nos recomendamos, e rimos com a nossa conversa piegas. Um amigo mandou-me alfinetadas ao benfica, e ri-me, como de costume. Outro amigo mandou-me mensagens sobre um livro que anda a ler sobre Nietzsche - porque será que quase desde criança tenho um amigo ou amiga que lê Nietzsche? -, um dia ainda perco a cabeça e leio qualquer coisa além de trechos ou páginas soltas (ah, vergonha das vergonhas, com acesso em casa a vários, nunca lhe leste a obra?) -, a aversão à Democracia dele e de alguns filósofos gregos. Ai o Homem Novo, o Homem Novo, que de tão novo caí de podre. Recordou-me a adolescência, leituras e amizades improváveis. E, graças a Deus e ao juízo que nos resta, concordamos que quem tem razão é o bom do Churchill. De qualquer forma, é bom questionar, quem não questiona está estagnado na mediocridade e é bom ter amigos que pensam e me obrigam a puxar pela cabeça e não cair nesse engodo de vidas estúpidas e fúteis e é bom reconhecer o inimigo e os nossos demónios. E estou cansada e preciso dormir, mas amanhã lá vou. É a vida. A Figueira da Foz não é má terra, só embirro com aquele areal demasiado profundo. Conheci boa gente da Figueira. Curiosamente, há acasos assim, não conheço má gente de lá. Tive sorte, com certeza. Aliás, no computo geral tenho tido sorte com as pessoas que vou trazendo à minha vida ou que a cruzam, com honrosas excepções de confirmam a regra. Devemos tratar bem os estupores que perpassam as nossas vidas, desejar que tenham grande fortuna e sucesso, prémios e medalhas é a forma certa de se fazer justiça - és tão retorcida, rapariga. Cancelei o único jantar com amigos que tinha marcado em muito tempo - amigos de sempre, daqueles que não é preciso desenhar o mapa do que pensamos ou sentimos, porque eles vão adivinhando o caminho. Com certeza haverá outra oportunidade mais tarde - não muito mais tarde, senão crio-a eu. E não, não concordo que só a tragédia produza arte. Isto a propósito de outras leituras online. Mas é verdade que o sofrimento ao rasgar a alma e as entranhas permite que se veja o melhor e o pior, aquilo que sempre escondemos por conveniência social ou emocional. Queremos muito dar o ar de bem sucedidos e tememos mostrar ao mundo as fraquezas - o lado reles, o lado odioso, as vergonhas. E sem vergonhas não há arte, mas bibelôs. Também estranho muito o uso e abuso da ideia ou palavra amor e do sofrimento por amor. É usada demasiadas vezes em vão. Confundida tantas vezes com vaidade, para nos engrandecer. Como se tivéssemos necessidade de provar que somos gente à séria, capazes de sofrer pela maior das razões. Quando escalpelizamos a coisa apenas para dar lustro ao nosso amor próprio. Grandes dramas, grandes enredos para nos imaginarmos muito amados, muito amantes. As voltas que damos para dar dimensão ao que não existe. Grandes histórias trágicas criadas em vão para glorificarem mais o amor próprio do que o outro, o dito, o real. O comezinho. O dos pequenos gestos, o das mãos abertas, o desavergonhado. Desavergonhado mas não ficcionado, não imitado, não artificial. Desconfio sempre de quem tem muita facilidade em falar de amor e paixão, conhecendo e trabalhando as palavras certas, burilando como se acreditasse, como se fosse verdade. O dito, o amor a sério, é do caralho (aqui hesitei entre passar adiante sem justificações ou explicar o uso de vernáculo: odeio o uso do palavrão para chocar ou fazer vista, mas há casos em que maneirar é desvirtuar o português e o pensamento). Ou é consolo, quase amor. O dito nem sempre se concretiza, mas também se concretiza. Dá prazer e também não dá. Dói, mas também não dói. Traz alegria ou não, mas também tristeza, dor. E passa, como tudo na vida. E volta outro ou o mesmo - ah, mas isso não é amor, dizem os aficcionados dos sentimentos puros e os devotos das convenções. Está bem, com queiram, o coelhinho foi com o pai Natal e o palhaço no comboio ao circo. Quanto mais vivo mais reparo que as grandes declarações de amor são desacompanhadas de coragem, de falta de vergonha, de verdade. Não há amor dissimulado, com vergonha do dito ou do ser amado. E o resto são tretas. Falando de artifício vou até à inteligência artificial e ao mundo medonho que nos espera e para que caminham as massas cândidas e excitadas com o novo amanhã, à espera de serem devoradas pelo Homem Novo. Para que tens a boca tão grande? Homem Novo. Mais um? ou o último dos Novos Homens? Mais um. E com isto fiz uma interrupção de uma hora no trabalho e tenho que voltar, não sem antes agradecer aos amigos e conhecidos que sem saber me deram rastilho para estas linhas tontas.


Reli e fiquei com ideia que tinha vida. O que é estranho, porque acho sempre que não tenho vida. Com jeito, um dia ainda descubro, sem querer, sem saber ler nem escrever, que sou mais feliz do que penso - ah, a palavra proibida. E é isso, vamos passar o fim-de-semana a Almada. E preciso dormir.

Refugo

Como resultado da escola pública e privada pouco exigente e da comunicação social pouco rigorosa, que usa e abusa de estereótipos e meias-verdades – das tais que nunca chegam a ir aos polígrafos muito selectivos - temos uma população cheia de gavetas mal arrumadas e de ideias feitas repetidas à exaustão. Esgrimem-se argumentos por puro decalque seja em frases-feitas repetidas ao longo dos anos, seja das últimas modas, em vez de se pensar cinco minutos nas razões para o que se diz/escreve. Podemos estar errados, é natural que o estejamos muitas vezes – o normal é rever o que vamos pensando ao longo da vida -, mas já não é natural papaguear chavões sem por um momento questionar o que estamos a dizer. É coisa de terra desventurada e é transversal na sociedade – não poupa nem quem tem mais meios económicos ou acesso a informação ou mesmo cultura.


Durante os últimos quinze anos a propósito do comentário televisivo tenho pensado nisto. Não interessa dizer nomes – não é uma questão de coragem ou falta dela em nomear, é simplesmente irrelevante – mas dei por mim muitas vezes a ouvir um comentador e a pensar: também já pensei assim, sei a frase que vai dizer a seguir, sei a objecção que vai colocar ao interlocutor, sei a conclusão a que vai chegar. À parte do facto de ter uma preparação intelectual superior à minha, por ter mais leitura, por ter melhor retórica, por ter maior experiência de contraditório, o facto é que as suas conclusões são fracas, viciadas e perniciosas tal como, aliás, a sua escrita – opinião não comungada pela maioria das pessoas que risca neste país - por sempre decorrerem de gavetas alegadamente muito bem arrumadas e ideias não questionadas por sobranceria. Vinga por viver em Portugal onde não se exige conexão justa entre o pensamento e o mundo concreto - conexão presente em toda literatura digna desse nome. No mesmo programa de debate está outra pessoa, que se diria com menor preparação intelectual. Talvez por isso esteja habituado a esforçar-se e a questionar – esteja habituado a policiar-se e exigir mais e mais de si próprio. Acabo sempre por me inclinar para as observações desse segundo comentador.


É por este tipo de coisas que chamar preguiçoso a alguém que leu menos – ou cita menos nomes de autores e obras - pode ser um tiro ao lado. A leitura quando não é acompanhada de abertura de espírito e conhecimento dos aspectos comezinhos do mundo concreto adianta pouco para compreender a realidade. Os dogmas intocáveis de muitos intelectuais levam-nos a ser obtusos. Ficam encarcerados em ideias-feitas que sacam para argumentar e contra-argumentar sem querer saber se estão genuinamente certos ou errados - e só com esta última afirmação entram em delírio crítico, por lhe atribuírem ridícula carga moral.


Este postal não tem rigorosamente nada a ver com questões de discussão política dos últimos dias, mas sim por ter visto escritas na mesma frase as palavras inveja e preguiça. E por estar cansada de ver chamar preguiçosos a pessoas que se fartam de trabalhar bem, e mais, de trabalhar para sustentar vidas folgadas de outros. Cansada das injustiças. Farta de gente que saca três chavões e se considera grande pensadora. Já chegam os grandes gestores corruptos a queixar-se de que são alvo de inveja - argumento restrito há 30 anos e agora na boca de todo o bicho careta que teme ver o seu pequeno privilégio atacado - como temos também a elite intelectual a desdenhar de quem prefere questões práticas ao invés de teorizar de modo inconsequente - é vê-los por aí com grandes ares de "não admito o atrevimento a ignorantes voluntários" ao mesmo tempo que dão nós cegos na lógica. Para quem como eu desde criança ficou de pêlo eriçado com a desconsideração social do próximo estes abusos, estas arrogâncias não são desculpáveis. São menoridades e revelam estupidez dos seus autores. Além de serem pragas que impedem o país de evoluir. O conhecimento e cultura não são pequenas vaidades, são conquistas difíceis que devemos incentivar, cultivar e respeitar.


A acusação de inveja tanto serve aos gananciosos e arrogantes que pretendem manter os privilégios, como aos desdenhosos que nunca vêem a sua oportunidade chegar por falta de talento ou sorte. A acusação de preguiça tanto serve aos gananciosos que pretendem justificar as desigualdades económicas e sociais, ou aos académicos desfasados da realidade, como aos líricos da arte e cultura que pretendem alimentar a sua vaidadezita.  


Se as Comezinhas estivessem expostas aos insultos públicos da marabunta, coisa que não acontece por cobardia e por me agradar bastante ter um sítio onde escrever em paz, logo viria meia-dúzia de tontos insultar-me por me armar em carapau de corrida ao denegrir o ensino e a comunicação social, quando não sou capaz de escrever sem dar erros. Pois é, lamento. Estou ciente que é defeito grave. Posso garantir que se dependesse de mim corrigir já o teria feito. Mas nasci assim, com defeitos graves. Coisa rara, o refugo num mundo de gente tão perfeita.

21/10/2021

Roger Waters

Recapitulando

São estes os principais postais escritos nas Comezinhas nos últimos tempos sobre o PSD.


20/10/2021

Silo

Hum. Os meus depósitos de escritos estão a findar-se. Como não sei o que escrever fui tentar ver se tinha qualquer coisa em pousio e não encontrei nada que pudesse usar.


Mesmo a Quinta tem pouca coisa. O silo está a ficar vazio e estamos a entrar nos meses frios. Não pode ser, tenho de começar a produzir para acumular para os tempos difíceis.

19/10/2021

Diário

Dia muito agitado, com muita comunicação. Se até há uns anos a parte que mais me agradava profissionalmente era ouvir e falar, agora cada vez me sinto melhor a desempenhar tarefas solitárias. Ter numa secretária um telefone fixo e três telemóveis - todos vivos - pode ser esgotante. Além das ferramentas de comunicação online. Vale-me o facto de haver dias de sossego entremeados com estes mais acelerados.


À parte disso a constatação que estou cada vez mais fonas. Bom, hoje perdi a cabeça e comprei uma mala (é o que dá excepcionalmente almoçar fora de casa). Já a tinha visto há duas semanas e hesitado, não porque fosse cara, que continuo a gostar de pechinchas e de lojas com preços módicos, mas por manias de ouvir demais os outros e não seguir os meus instintos/gostos à primeira.


Ando há duas semanas para comprar castanhas assadas na rua, mas por uma razão ou outra (pressa ou inconveniente) não dá. Até esse pequeno gesto parece uma quebra do hábito. Quando se tem uma vida rotineira, pequenas mudanças - como um cumprimento, o tempo para reparar nos gestos na rua, na forma como as pessoas se tratam mutuamente - produzem grandes efeitos. Hoje dei por mim a pensar enquanto atravessava a passadeira que agora podia dar uma volta ao mundo - económica, vá - mas podia - para no momento seguinte dar por mim a perceber que a única razão que ora me impede de fazer uma viagem de 3 meses no próximo ano é ter de trabalhar. E acabar por concluir o que sempre concluo: não vale a pena nem embandeirar em arco nem chorar sobre o leite derramado: nunca se sabe o futuro, a vida dá muitas voltas.


Entretanto hoje chegaram quatro livros. Novamente a comodidade da Wook. Continuo a acumular devagarinho. Mas como leio ainda mais devagarinho se morro cedo, estou tramada. Trata-se de sentidos obrigatórios ainda por ler - um mundo que não acaba. Fiquei-me pelas badanas e o aperitivo de um deles - tudo soa a visto, não conhecesse eu parte (ínfima, mas representativa) da obra do autor. Logo se vê como estará a disposição nos próximos dias.


Para já estes ficam em pousio. Quero primeiro retomar as leituras de História da Filosofia para não me sentir tão esquecida das bases. E acabar dois romances que deixei a meio no Verão. De lá para cá tenho-me passeado por contos soltos (não muitos, não tenho lido muito senão online). Se findas essas vidas, as catorze dioptrias do olho direito mais as quatro do esquerdo permitirem - nunca me decidi pela cirurgia que implica lente inclusa, mas a hora é esta já que no último ano comecei a ver mal também ao perto -, entremearei a Matemática com os que chegaram hoje.


Planos, planos. É como a escrita o Espanador, ainda por concluir.


Ah, o Porto ganhou ao Milão. Não está mal.

Rui Rio

Rui Rio desfaz tabu hoje: é recandidato à liderança do PSD, no Público.


Espero que consiga afastar novamente os habituais ninhos de vespas internos e seja o candidato às legislativas em quem votarei.


Os erros que cometeu, como a fraca oposição e a argolada da redução dos debates quinzenais, não são razão suficiente para afastá-lo da liderança do PSD, sobretudo, quando não há ninguém de valor comparável para ocupar o lugar. 


Por mais que estejamos habituados à apelativa zoeira do entretém, à chicana e verborreia solta inconsequente, espero que vença a sobriedade e o rigor - e claro, já estou à espera da chusma de reportagens e memes a provar por A+B sacados da cartola que nem Rui Rio nem quem rodeia foram bafejados por essas qualidades. Só espero que mais uma vez os militantes do PSD num primeiro plano e os portugueses num segundo momento não se deixem iludir pelo brilhantismo da retórica e prefiram a pouco apelativa experiência e competência executiva. É tudo o que se pede a um Primeiro-Ministro, ainda que tenha pouco jeito (ah, horror dos horrores, a singeleza do discurso) para líder da Oposição. 

Dramas nacionais

Um dos dramas nacionais consiste nos nichos de amigalhaços da comunicação social e das redes sociais verem-se como representantes da opinião e do gosto da nação. Não se vêem tal como são: pequenos clubes de conversa fiada convencidos da sua grande importância e visão estratégica dos interesses do país. E desta forma levam Portugal à ruína, destruindo com a treta tudo quanto é válido para o substituir por reluzente parlapiê de auto-consolo.


É o que dá ter clubes do dominó a prevalecer na opinião pública. Um logro.

Porto

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Imagem daqui. O projecto vencedor* da nova ponte também contempla a circulação de peões. É desta que volto para Gaia. Só me falta saber o local exacto da estação de metro. 


Bom, já vi.


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*Vamos lá ao rigor. Trata-se do projecto melhor colocado para ganhar e não o vencedor. Ainda.

18/10/2021

Noah Kahan

Unicef

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AQUI.



No Money Kids


 




O comentário político nacional

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Quase que é de fiar no comentário semanal de Marques Mendes. Quase. É evidente que foi um político experimentado e tem noção das peças em jogo. Conhece bem o métier. Sucede que, como a maioria do comentário político nacional – já na linha dos idos anos do espaço da missa dominical do actual Presidente da República -, nunca coloca a substância no plano do dever ser mas no suposto “o que é dado”. Ora, se “o que é dado” fosse de facto tal como é, não viria daí mal algum ao mundo, mas não é isso que se passa: semanalmente transforma ou adapta a realidade a pretexto de alegadas ideias de racionalidade, estabilidade e bom senso políticos, ao gostinho da seráfica pequenez nacional. Conheço bem a linha de pensamento, típica do português desenrasca-resignado, sem rasgo, sem coragem e sem ética.


Foram 10 minutos (a olho, não fui confirmar) de argumentos pró estabilidade política – há quantos anos arrastamos este mantra da estabilidade política? – e de diabolização do chumbo do Orçamento de 2022 – nunca visto em Democracia, disse o arauto do comentário político português. Para no tema seguinte fazer saltar com a maior das ligeirezas a possibilidade de chumbo do Orçamento 2023.


Sobre estabilidade política peço apenas que reflictam sobre os gráficos relativos ao crescimento do PIB em Portugal e aos fundos europeus. Serei a única a reparar que o melhor período da nossa economia - no pós 25 de Abril - deu-se após a crise política de 1985? E não me venham com a treta de que fundos europeus justificam tudo. Continuaram a jorrar nos anos seguintes - em maior escala - e a ser desbaratados pelos sucessivos governos.


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17/10/2021

No Money Kids

Diário

Isto de escrever sobre o que existe ou existia tem que se lhe diga. Pretendia falar de um castanheiro-da-Índia com a particularidade de estar convencida de que a árvore assim chamada na casa onde vivi na infância nunca o foi. Fui ao google maps e confirmei uma vez mais com um aperto no peito que além dele, das oito tílias do terreiro mais as três da rampa, sobra apenas uma. Tombaram todas - as da rampa nos anos 80, as do terreiro nos últimos quinze anos – salvo aquela que foi podada com rigor e a anuência da minha mãe, e a veemente discordância da minha avó, dona da casa e senhora da decisão, que dada a ordem para a poda das tílias logo arrepiou caminho tomando conhecimento da crueza dos cortes. Lembro-me que era muito miúda e odiei aquele esgalhar a frio da árvore. A avó adorava as tílias acima de quase tudo – as minhas tílias - mas não tinha razão. O amor nunca foi bom conselheiro, confirmo agora olhando desolada para a o terreiro desapossado daquelas árvores de grande porte que lhe davam todo o ser.  


Mas nem tudo é mau. Vejo no google maps que sobreviveram os carvalhos-negral a norte e os rododendros a sul, e talvez quem sabe as duas japoneiras, pequenas demais para confirmar. Soube também hoje que existem aplicações para identificar os nomes das árvores através de fotografia – o shazam das árvores, digamos assim. Parece que é a pagar, mas é coisa para valer a pena. A conversa relevante do dia foi assim a discussão à volta da folha e do bugalho do castanheiro-da-Índia que não o é. A mim parece uma espécie de carvalho. Há quem aponte para outros áceres. Temos de o conseguir identificar não por fotografia, mas pela memória das folhas vermelhas arredondadas e pontiagudas. Dos bugalhos com picos. Do tronco esguio e a direito de enorme altura.


A minha ideia inicial teria sido escrever hoje mais um postal para a série Verdes ou, quem sabe, para a Quinta – dou por mim a pensar que vai tudo dar ao mesmo: ao meu paraíso – mas saiu apenas este apontamento para diário. Na Quinta espero alargar o espectro aos costados do lado materno e paterno – ao elo Porto e Gaia -, sendo que do lado sul do Douro as informações são muito mais reduzidas pelo que tenho de me empenhar mais. Há quem falando da família trate das pessoas, dos feitos e das relações entre elas, e há quem falando da família queira explorar lugares, plantas e peças que se unem numa certa geografia íntima.

Tílias - Maçãs e Batatas

Ali a cinco metros já neste século estacionava a carrinha do homem da fruta. Um contra-senso, esse de numa quinta se comprar fruta, mas era assim, no fim. O vendedor, quando confrontado com pedidos de desculpa pelo tempo que aguardava, respondia que era um prazer estar ali, naquele idílio da sombra das tílias. Gostava de estacionar a carrinha no terreiro e encher-se daquele ar e aroma.


Até vinte anos antes no segundo tabuleiro, porque a Casa das Tílias era feita patamares ou socalcos a que chamávamos tabuleiros, estava uma das casas de caseiros, habitada pela última vez nos anos 70/80 pela Fernanda, o Agostinho e a Susana, que de lá saiu ainda muito criança, com os cabelos loiro muito penteados. Penteei-a vezes sem conta, ela sentada no mocho, como chamavam ao banco de madeira baixo, à porta da cozinha rústica sombria que conhecia bem. Eu a pé dobrada à volta dela sentada no dito mocho, aplicada a imitar a Eca a pentear. Ela com 3 ou 4 anos, eu com 7 ou 8. Muito se sofre para ser bela, dizia a Eca enquanto me fazia penar com o pente ao tirar os nós dos fios de cabelo.


E no mesmo encadeamento de casas, estavam as arrecadações a que os caseiros chamavam lojas. Foram-se de lá, mas vinham todas as Páscoas, durante anos, trazer o pão-de-ló. Uma das arrecadações era a das maças. Quando as fruteiras começavam a esvaziar, sabíamos que tínhamos de ir às maçãs. Tento-me lembrar como chamávamos ao espaço e percebo que não o denominávamos senão como nas maçãs ou nas batatas. Nas maçãs estavam as maçãs nas prateleiras do lado direito e as batatas do lado esquerdo. As batatas não grelavam depressa como as de agora. Dizem que tem de se pôr pó. Lá não via nada disso, a não ser batatas daquelas que o João e a outra Glória, os jornaleiros da quinta, apanhavam da terra, meses depois de as deitarem à terra. Havia sempre uma quantidade delas, as mais mirradas, que ficavam para a sementeira do ano seguinte. Depois de lavrado o campo, dos punhados de batatas plantadas despontava a rama com pequenas folhas verdes arredondadas, e crescia a cerca de 40 cm de altura, depois a flor branca e no fim os tubérculos prontos a serem colhidos. A porta das maçãs abria com chave tubular de ferro, das que ficavam penduradas no chaveiro na entrada de casa, eram muitas escuras grandes e pesadas. Entrava-se para um corredor comprido, com janela em frente ao fundo e prateleiras laterais de cima a baixo, estando as do meio carregadas de maças e batatas. Abrir aquela porta era descerrar o segredo do paraíso do olfacto. São memórias do nariz que ficam para uma vida inteira, e se mais houvesse para infinitas encarnações. Mas há uma sensação estranha: aquele espaço, aquelas prateleiras cheias de maçãs, anos mais tarde, pareceu-me tê-las visto numa sala de cinema ao assistir ao filme A Vida é Bela, de Bellini, carregadas de judeus. A antecâmera do gás. Desde então, não dissocio as duas imagens.


A casa dos caseiros era a cozinha, com lareira de pedra, e o quarto. A tangerineira junto à parede da cozinha, a pequena horta. E na outra ponta, depois das arrecadações, o buraco.

16/10/2021

Vida Selvagem

Desde que em Fevereiro último o Ritz entrou nesta casa estranho não termos sido visitados por David Attenborough. Como é possível que não apareça detrás do armário? para descrever o meu pantera branco e preto a combater o pedacito de fiambre que lhe dou às vezes à noite. Tira-o da gamela e, qual rato caçado após brava batalha, enterra-o debaixo do tapete da cozinha – onde sempre vão parar para meu desgosto os petiscos mais apreciados –, segundos depois vai lá tirá-lo, luta mais um pouco e acaba por comê-lo. Tal como gosta de enfiar as suas presas-brinquedo - cápsulas de garrafas, parafusos: essas coisas com interesse que encontra pela casa tomando a propriedade - debaixo de tapete da sala para voltar a ir buscá-las e brincar no dia seguinte. Muito arrumadinho, o meu bichano.


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Sempre que apanha uma planta a jeito testa o sabor, tendo preferência nítida pelos cactos, aliás, suculentas. Isto para não falar nos saltos e cambalhotas que dá ao pescar com unhas e dentes o peixe de pano da cana de pesca que tenho pendurado numa das cadeiras da mesa de jantar. Ou das corridas desaustinadas que dá no corredor e acabam em derrapagens, algumas vezes em traulitadas contra a parede – estou convencida que o facto de ser cego de um olho não lhe dá grande noção de espaço.


Como é possível que Attenborough não esteja sentado no sofá ou detrás da japoneira com os seus binóculos a apreciar a vida selvagem nesta casa? E os diálogos que o gato enceta com aranhas e mosquitos?, muito bem preservados por nós - se já tinha alguma tendência para achar piada a aranhas, desde que o Nuno abancou na minha vida não me posso desfazer delas senão com todo o cuidado, devolvendo-as delicadamente ao ar livre. Temo é que elas tenham percebido. Às vezes pressinto que as aranhas gozam comigo, como daquela vez em Outubro de 2019 que vi uma subir desaustinada a parede junto à cabeceira da cama, percorrer um pouco do tecto e mergulhar em queda livre para a minha almofada, um segundo depois de eu saltar de lá - valeram-me os bons reflexos - percebendo no movimento da fulana qualquer coisa malévola em mente - ou então não, era só a sorte a chamar por mim como dizem as bruxarias.


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Pois, disto não falam os documentários sobre a vida selvagem. O Ritz desabilitado dos princípios humanitários do dono ainda não participa desde amor e tolerância aos insectos e desata a miar meiguinho às aranhas assim que se mexem fora do alcance como se as tentasse encantar para caírem no engodo. Dos mosquitos e das traças de jardim corre atrás aos pulos e também lhes mia, explicando que é um desaforo não jogarem com ele a folia gato-gramatical do “já fostes”. De vez em quando lá leva a melhor. Isto de viver num apartamento com janelas a darem para o jardim dos vizinhos acaba por nos presentear com mais vida animal do que o citadino asséptico desejaria. Por mim, estou nas minhas sete quintas, gosto do matagal dos vizinhos – já assim ouvi chamar ao jardim com despropositado desdém a quem não percebe nada do lado bonito da vida.


 


Nota: na casa anterior preservei uma pequenina aranha três anos atrás da porta da rua. Uma das nossas brincadeiras era semana após semana perceber que a dona L. não dava por ela - também deve ver pouco mal, deve; cada vez mais me convenço disso.


Vidas só possíveis em casas como essa anterior na qual, apesar de rés-do-chão e como detesto sentir-me fechada, a janela da sala estava aberta a dar para o pequeno pátio 365 dias por ano - bom, fechava-a no Natal para os sogros alentejanos e friorentos, cujo amor aos bichos é ainda maior do que o nosso.