Pesquisar neste blogue

03/10/2021

Conversa com os teus botões

Há dias que dás por ti a pensar. Mas que raio. Para quê dar crédito a gente que a todo o momento o desbarata a troco da primeira artimanha ou graçola fácil. E repensas: não, vá. Podes estar a ser injusta, afinal cada qual é como cada qual e pensa como pensa. Cada um tem a herança de educação e experiência de vida que tem, e a visão do mundo que daí resulta. Tens de levar as coisas com mais humor, remóis. Na desportiva, como se dizia no liceu noutros tempos. E é com esta tolerância tonta que vais admitindo uma certa proximidade de quem de todo não merece crédito. Umas atrás das outras aos longo dos últimos tempos. E não há como fugir das reminiscências: é todo um padrão.


Recordas que nos primeiros nove dos últimos onze anos vivias a construir (e reconstruir) qualquer coisa e vivias contente com a tua vida e leveza dos dias caseiros, refugiada no medo dos rompantes opinativos. O bicho mordeu-te novamente voltaste à confusão. Dás contigo a magicar que queres regressar aquela paz produtiva. Tens a perfeita noção que a continuares na linha dos dois últimos anos, quando daqui a meia dúzia olhares para trás, vais dizer: mais do mesmo, não resistes à tentação de dizeres o que sentes e pensas e com isso naturalmente acabas por conflituar. Francamente já não há pachorra para quem não o faz por convicção, mas apenas para satisfação de caprichos pessoais ou pelo puro prazer de destruir. 


O mundo continua a rolar sem que dê por ti. Até aí tudo bem. Sucede que nada muda, os vícios de há 15, 20 ou 25 anos (aliás, desde que o mundo é mundo) são os mesmos. Tudo soa a déjà vu. Mas continuar a dar crédito, contribuir para insuflar ainda mais a parvoeira, isso não. Não queres isso para a tua vida. Isso é certo.


Salva-se a escrita e a generosidade de algumas almas que lêem, escrevem e discutem de peito aberto. Sem medir e calibrar os outros pela medida de interesses mesquinhos e vaidade, ou pelo simples prazer de ferir a troco de nada ou da busca de glória ou tão só entretenimento. Gente que não mata o tédio ou alimenta a ambição, regando a oportunidade ao mesmo tempo que seca o que de bom o rodeia, tamanha é a arrogância.


Escrever continua a fazer sentido. Tantas vezes dás por ti com ideia de começar a impor travões na escrita, do género só um texto diário ou semanal. Mas nada disso vai avante. Por feitio deixas-te ir mais do que determinas os passos seguintes. Não imaginarias há dois meses que com dois empregos e a vida corrida que tens te manterias a escrever diariamente. Quem corre por gosto não cansa, diz o ditado. É verdade, quanto à escrita estamos conversadas, mas de resto não haja dúvida que é de afastar tudo quanto te faça mal. É como dizem dos livros: com tanto para ler, é bom ser criterioso em vez de ler em força e a eito. É bom que te oiças e tenhas juízo, não desbarates o tempo com o que não vale a pena. Aprende mais esta lição e passa adiante – foi chão que já deu uvas.


Escrito a 29-09-2021.