É difícil descrever o sonho de hoje. Se disser que estava em Piccadilly Circus dou um ar parolo-pretensioso - por ser um dos poisos mais batidos pelos turistas em Londres onde só estive duas vezes, sendo escusada a referência. Mas de facto aí decorria o sonho. Se disser que era eu que lá estava corro o risco de mentir por não ter a certeza de no sonho ser a própria. Era o meu pensamento em voz inexistente. Se explicar bem o que se passou - não só não haver correspondência com a figura física, como até não haver figura física, mas tão só uma abstracção, espécie de ente invisível que detrás da cortina translúcida vê o cenário e ao mesmo tempo que descreve participa no diálogo: chamemos narradora-personagem do sonho - se explicar bem o que se passou, dizia, deixarei uma vez mais a imagem de ter a pê da mania de complicar o básico ao mesmo tempo que sugiro imagens consideradas clichés pelos literatos, que sempre conhecem e etiquetam com jargão técnico ou académico uma passagem onde a ideia foi retratada magistralmente e não com a falta de fibra intelectual desta que agora escreve; não me refiro a quem por mero interesse ou curiosidade faz associações a outras leituras. Se tentar descrever o enredo dou ar de fóssil, por estar num ambiente neo-decadente-deprimente a comentar com desconhecidos transeuntes londrinos vermo-nos regressados aos anos 80. Aos trapos berrantes, acetinados e de mau gosto, aos chumaços. Às ruas sujas, ao gingar grosseiro da população de dedos amarelos a agarrar beatas de cigarro antes de as atirar para a sarjeta entupida. À gíria pseudo-engraçada. Aos toxicodependentes de passo e língua acelerados pelo descontrolo neurológico.
Se prosseguir perco-me do sonho e dou-lhe continuidade como se fizesse algum sentido, mas já será pura ficção acordada: cândida militante, procuro sempre razões – que a maioria vê como maçadoras teorias da treta marteladas – pelo que aproveitando o embalo em jeito pós onírico comentaria com os meus desconhecidos e pedestres interlocutores – perdeu-se o saudável hábito antigo de conversar enquanto se faz caminhadas? -, que nos últimos 20/30 anos a estilização dos usos e costumes tornou o mundo de tal modo arrumadinho que quase todo o desalinho é estudado e, por isso mesmo, entediante. Tudo está normalizado e tende ao perfeitinho. À sofisticação do humor e da linguagem dissimulada-moralizadora. Ora, sabendo que o mundo evoluiu em avanços e retrocessos nunca iguais, mas de inspiração em épocas anteriores intercaladas, dissertaria com os meus estranhos compinchas de sonho sobre o furor apocalíptico e apelo frenético ao sórdido e à perversão que vemos no cinema e nas séries televisivas. Não serão meras buscas de imperfeição e excitação? De uma réstia de humanidade?
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Duas notas.
Seria muito mais fácil e lógico encontrar as razões para este pendor apocalíptico dos dias correntes no crescimento desmesurado da população, nas alterações climáticas, nos avanços tecnológicos e da engenharia espacial, nas descobertas da física e da genética, nas assimetrias de distribuição de riqueza, na profusão de distúrbios psicológicos e no acesso generalizado à informação. Tudo factos, tudo matéria-prima de primeira água para ficção (sem ponta de ironia). Mas se pensasse pelos padrões normais, estaria a esforçar-me por tentar criar enredos de ficção para vender e não a escrever pura e simplesmente o que me vem à veneta e me apetece.
Num qualquer horóscopo li que por estes dias os sagitarianos (tal como outros signos) iriam bancar os mártires ao mesmo tempo que emitiriam sinais contrários (de que está tudo bem) para gerar sentimentos de culpa nos outros. Às vezes penso se faço isso aqui nas Comezinhas. Não sei se passa, se não, mas estou de facto constantemente a policiar-me. Hoje em dia esta permanente autocrítica que sempre me acompanhou - há quem a apelide de culpa medieval - dói menos, começa a ser tique.