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26/10/2021

Da opinião

Não confio em análises ou comentários cuja tónica principal é o desprezo ainda que muito bem dissimulado entre a argumentação cuidada, informada, culta e inteligente. Também tenho reservas quanto aos que não revelam as fontes do seu conhecimento - é certo que podem ser legítimas, mas fico sem saber se o são e, em caso afirmativo, se lhes foi prestado o devido reconhecimento - que se traduz no uso isento e correcto da informação - ou se tais fontes são usadas apenas em benefício próprio - com apropriação indevida -, quando não em prejuízo de outrem ou para mera chicana. O que mais tenho é dúvidas e ignorância q.b., mas face ao que nos aconteceu nos últimos dois anos e ao que parece avizinhar-se devíamos ser cautelosos. Brinco com as bolas de cristal, mas sei que tenho alguma propensão para antecipar o que outros têm dificuldade de prever. A minha vida seria bem mais tranquila e normal se visse as coisas a preto e branco. Além do que tenho plena consciência que ao escrever o que acabei de escrever me descredibilizo em absoluto.


É difícil ouvir a voz do bom-senso num país que dissimula o respeito pela opinião contrária e tem hábito de ver tudo na vida como um desafio de futebol: o mais caricato é ver gente altamente facciosa, de camisola vestida, a acusar outros de clubismo quando estes se limitam a dizer o óbvio. Cresci a ver programas de futebol e a ver adeptos portugueses a defenderem a existência de penáltis que a evidência não mostrava – acredito que alguns se convençam, tal qual mentirosos compulsivos se convencem das suas histórias. Continua tudo igual. É cansativo. Todos temos as nossas paixões e um quê de clubismo, mas há pessoas que exageram e são normalmente as que mais acusam o próximo de o fazer (serei uma delas? – pergunto-me e julgo que deveria ser a pergunta que todos deveríamos fazer). Não vale tudo. Dizer 30 vezes uma mentira ou meia-verdade não a converte numa verdade, que acaba sempre por vir “ao de cima” – e, claro, lá virão os facciosos do costume dizer que sempre souberam e sempre avisaram, que a culpa é de fulano tal, sicrano tal. Tudo embrulhado em muitos factos e deduções entre eles, muita doutrina e história até Adão e Eva. Estaria tudo bem, se o soubessem fazer com a sensatez e a verdade que lhes falta – cada um é para o que nasce e os facciosos nasceram para as certezas.


Do que ouvi e li nos últimos dias percebo o desnorte (de que também sofro). Foi-nos tirado o tapete – com todos os defeitos que tinha, era o que conhecíamos. Vejo que uns ainda se agarram às paredes, não reparando que estão inclinadas. Outros continuam na senda da calunia – culpando tudo e todos pelo acaso e acreditando cegamente em quem aparece com a soluções milagrosas – como se elas lhes pertencessem. Na tentativa de racionalizar o absurdo vão-se criando doutrinas sobre doutrinas e evocando a História – desde a portuguesa do século XIX, que me é cara e da qual estranho sempre não se fazer a ligação ao século que a antecedeu, até ao evangelho. Vou ouvindo, lendo, às vezes na diagonal senão dou o tilt – ainda se lembram desta expressão? – e aprendendo, como toda a vida fiz, associando o que oiço e leio ao acumulado de experiência de vida, apesar da absoluta incapacidade de verbalizar o resultado das audições e leituras de uma vida num todo estruturado e coerente, que sempre desejei alcançar - não é sonho pequeno. Cada um é para  que nasce e a mim coube-me a dúvida e ler os sinais.


E o que os sinais me dizem hoje é que é errado fazer decorrências lógicas de um ponto para outro, tendo o ponto inicial como certo. Dois exemplos, um concreto e outro abstracto: 1) no Orçamento de Estado: a defesa dos direitos dos trabalhadores, e o salário em concreto. É evidente que as empresas portuguesas ficariam esganadas se tivessem que subir muito os salários e o que mais precisariam seria de incentivos, mas não é menos verdade que se não se forçar a barra (como dizem os brasileiros) os empresários jamais vão repercutir a exigência de uma vida condigna dos que trabalham para os seus clientes, fornecedores e Estado. Já todos percebemos que os patrões partem do princípio que é uma impossibilidade pagar bem e contam com a conivência de quem tem voz em Portugal. É um círculo vicioso. O mal tem que ser cortado em algum lado e não me venham falar em concertação social e sindicatos – há décadas que todos ouvimos falar deles sem que nada de substancial mude verdadeiramente – estes apesar de possuírem voz e força não têm interesse que as coisas mudem: numa sociedade evoluída e mais rica perderiam peso e eles sabem disso. E se é verdade que se deve baixar a carga fiscal às empresas, isso só seria justo e eficiente se condicionado ao respeito pelas condições de trabalho – é isso mesmo que quero dizer: zero vantagens de for para criar riqueza enviesada. 2) porquê fazer despender as escolhas nacionais da realidade europeia ou internacional, como se fosse grande conhecedor dela? Quando na verdade não se faz a mínima ideia dos moldes em que se vai apresentar nas próximas semanas ou meses? Que mal nos faria ter coragem e confiar nos portugueses como povo charneira? – e não, não estou a apelar ao patriotismo bacoco, muito menos ao nacionalismo. Estou a defender que tenhamos brio no nosso trabalho. Que mal nos faria esquecer as velhas lengas-lengas e chavões: reformas sim, mas reais e comezinhas, não as balelas para encher o olho e discursos inflamados, quando se tem uma mão cheia de nada para oferecer.


(à noite corrijo erros que haja me saltem à vista.)