Desde que em Fevereiro último o Ritz entrou nesta casa estranho não termos sido visitados por David Attenborough. Como é possível que não apareça detrás do armário? para descrever o meu pantera branco e preto a combater o pedacito de fiambre que lhe dou às vezes à noite. Tira-o da gamela e, qual rato caçado após brava batalha, enterra-o debaixo do tapete da cozinha – onde sempre vão parar para meu desgosto os petiscos mais apreciados –, segundos depois vai lá tirá-lo, luta mais um pouco e acaba por comê-lo. Tal como gosta de enfiar as suas presas-brinquedo - cápsulas de garrafas, parafusos: essas coisas com interesse que encontra pela casa tomando a propriedade - debaixo de tapete da sala para voltar a ir buscá-las e brincar no dia seguinte. Muito arrumadinho, o meu bichano.

Sempre que apanha uma planta a jeito testa o sabor, tendo preferência nítida pelos cactos, aliás, suculentas. Isto para não falar nos saltos e cambalhotas que dá ao pescar com unhas e dentes o peixe de pano da cana de pesca que tenho pendurado numa das cadeiras da mesa de jantar. Ou das corridas desaustinadas que dá no corredor e acabam em derrapagens, algumas vezes em traulitadas contra a parede – estou convencida que o facto de ser cego de um olho não lhe dá grande noção de espaço.
Como é possível que Attenborough não esteja sentado no sofá ou detrás da japoneira com os seus binóculos a apreciar a vida selvagem nesta casa? E os diálogos que o gato enceta com aranhas e mosquitos?, muito bem preservados por nós - se já tinha alguma tendência para achar piada a aranhas, desde que o Nuno abancou na minha vida não me posso desfazer delas senão com todo o cuidado, devolvendo-as delicadamente ao ar livre. Temo é que elas tenham percebido. Às vezes pressinto que as aranhas gozam comigo, como daquela vez em Outubro de 2019 que vi uma subir desaustinada a parede junto à cabeceira da cama, percorrer um pouco do tecto e mergulhar em queda livre para a minha almofada, um segundo depois de eu saltar de lá - valeram-me os bons reflexos - percebendo no movimento da fulana qualquer coisa malévola em mente - ou então não, era só a sorte a chamar por mim como dizem as bruxarias.

Pois, disto não falam os documentários sobre a vida selvagem. O Ritz desabilitado dos princípios humanitários do dono ainda não participa desde amor e tolerância aos insectos e desata a miar meiguinho às aranhas assim que se mexem fora do alcance como se as tentasse encantar para caírem no engodo. Dos mosquitos e das traças de jardim corre atrás aos pulos e também lhes mia, explicando que é um desaforo não jogarem com ele a folia gato-gramatical do “já fostes”. De vez em quando lá leva a melhor. Isto de viver num apartamento com janelas a darem para o jardim dos vizinhos acaba por nos presentear com mais vida animal do que o citadino asséptico desejaria. Por mim, estou nas minhas sete quintas, gosto do matagal dos vizinhos – já assim ouvi chamar ao jardim com despropositado desdém a quem não percebe nada do lado bonito da vida.
Nota: na casa anterior preservei uma pequenina aranha três anos atrás da porta da rua. Uma das nossas brincadeiras era semana após semana perceber que a dona L. não dava por ela - também deve ver pouco mal, deve; cada vez mais me convenço disso.
Vidas só possíveis em casas como essa anterior na qual, apesar de rés-do-chão e como detesto sentir-me fechada, a janela da sala estava aberta a dar para o pequeno pátio 365 dias por ano - bom, fechava-a no Natal para os sogros alentejanos e friorentos, cujo amor aos bichos é ainda maior do que o nosso.