
Quando era miúda, aliás, até bastante tarde encantava-me facilmente por pessoas com afinado sentido de humor e sarcasmo. Aprendi a usar um e outro e não fui mal sucedida. É um meio fácil de singrar na convivência social e óptimo para esconder fragilidades de natureza. Estava habituada desde sempre àquela pequena maldade e picardia, não me era difícil dar continuidade. Daí até aceitar as grandes maldades e as ofensas vai uma curta distância. O sarcasmo na maioria das vezes anda associado à presunção: à ideia de superioridade, de divertimento à custa do motejo e quantas vezes da ofensa gratuita. Gratuita ou nem tanto, por servir para fazer brilhar e dar a ganhar ao autor as gracinhas injuriosas. Ofender gratuitamente ou por vaidade é uma menoridade.
Imagino que esta confissão lida por aqueles eternos excitadinhos que partem do princípio que é imbecil quem foge aos lugares-comuns – então se for mulher afirmativa ou acintosa rotulam-na de imediato de imbecil e presumida – é tido por perigoso resvalar para o fundamentalismo e para ofensa da liberdade de expressão. Logo etiquetado de moralismo balofo. A ideia que prevalece é a de que temos que estar preparados para levar pancada e ter estômago para as piadinhas. E claro o dogma de que a ironia é a manifestação mais brilhante da inteligência. Nada contra, se não se fizesse tábua rasa da bondade, essa eterna e desajeitada preterida das modas intelectuais – creio que escrevi qualquer coisa parecida há cerca de 16 anos no primeiro Fora do Baralho, por mim há muito eliminado. Quase que temos de pedir desculpa ao falar em bondade em público, parece coisa própria de tolos ou estúpidos. A pretexto do relativismo – de não haver bem e mal, nem bons e maus – esquece-se que há tendências de carácter mais prejudiciais aos outros e à vida em comunidade e que há comportamentos nefastos com danos palpáveis que o politicamente correcto e o lifestyle ignoram de modo militante. Mais, abstrai-se do facto deste afastamento da realidade e fútil satisfação dos caprichos das modas desaguarem num capital de violência latente. Infelizmente, e para mal das nossas vidas, pronto a explodir no dia em que a maioria se cansar da hipocrisia. Como muitas vezes me aconteceu ao longo da vida temo o futuro certa, infelizmente, de que me dará razão - sei, parece presunção, mas não é: é cansaço. O prémio de triste consolo é reparar que só 20 anos depois ou mais começo a ver expressas por outros ideias que reconheci na altura.
Quem sabe manejar a arma do humor e tem modo de a propagar em larga escala tem consciência que pode muito e que facilmente pode usá-la apenas para entreter ou criar, mas também para destruir. Nos dias correntes, o humor é uma das mais fortes armas de propaganda. Não o admitir é de uma dissimulação a toda a prova.
Resumindo e concluindo, assente nos 40, já a preparar-me para entrar nos 50 daqui a pouco mais de dois anos, continuo a observar os grandes actores do mundo onde vivo, e recolhida no meu cantinho de um quotidiano pachola vou apreciando cada vez mais as pessoas delicadas e generosas. As que na sua vida constroem, ajudam a construir e deixam-se ajudar a construir, a troco de quê? Às vezes de nada mais do que um sorriso, de um olhar doce, de uma boa palavra. As que não precisam de se afirmar nem à custa do desdém pelos outros nem do engodo ou da falsa simpatia. As que em vez de dissimularem os ressabiamentos e amarguras - de que todos enfermamos – odiando e insultando ou ludibriando outros, tão só admitem-nos abertamente, abrindo o peito às balas sem receio. Tomara saiba seguir esse caminho.