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31/12/2024

Diário de 17 de Novembro de 2024




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A semana começou com a troca do estore no nosso quarto. Arrependi-me quando me apercebi que o antigo apesar de réguas partidas tinha compostura. Claro que o técnico propôs um novo dizendo que estava por um triz e é verdade que nos últimos anos já o chamei duas vezes para arranjos, mas fico sempre a pensar se haveria necessidade de pôr um novo.


Ontem a minha mãe cá veio como habitual e começou a ler ao Nuno A Minha História na Física de Georgio Parisi. Dormi enquanto a leitura decorreu e quando acordei dei com a minha mãe deliciada dizendo que era como se lesse poesia. Estava entusiasmada com a explicação para a formação e funcionamento do vôo em bando dos estorninhos. Formam em bando por hierarquia e o vôo em conjunto corre bem pelo respeito da função de cada um.


Mais cedo de manhã o M. cá esteve para a segunda lição de piano com o Nuno; apareceu mais desconcentrado. Correu tudo sereno. Da primeira vez veio com a directora da casa de acolhimento, ontem com uma voluntária muito nova que o acompanha nestas actividades extra-escolares como a natação e a música.


A semana teve momentos negativos em especial quinta-feira em que tudo parecia correr mal. Não consegui acertar num pedido da UberEats e acabei por pagar dois pedidos não entregues num abuso completo da empresa e por quem para ela trabalha. Isto depois de nas últimas semanas ter visto cancelados pedidos ou trocas no serviço. Sendo cliente há muito tempo da Uber notei nos últimos tempos abusos, como a sujeição à subscrição de serviços ou erros na assunção dos dados dos pedidos para penalizar o cliente. Depois de me irritar ferozmente desinstalei a aplicação e cancelei a conta. O facto de não conduzir obriga-me a ter um serviço de transportes análogo pelo que instalei a Bolt. Fiz pesquisas sobre uma e outra empresa e as queixas habituais dos clientes, vi que a Bolt é europeia (tem sede na Estónia), a Uber norte-americana e tem um maior historial de reclamações e polémicas. Não sei se a razão se prende apenas com o facto de estar há mais tempo no mercado ou se há outras razões para os abusos. Em resumo, cortei com a Uber.


Mas nas últimas semanas também as aplicações dos transportes públicos do Porto estão com problemas. Uso duas: a que indica os horários reais é raro funcionar nos últimos tempos, a que aparentemente funciona dá resultados completamente errados. Depois de anos habituada a escolher um dos vários autocarros pela hora de partida sem necessidade de estar à espera vejo-me regredir e passar às meias horas na paragem.


Este tipo de pequenas irritações associadas a outras com o trabalho ou naturais enguiços da vida quotidiana geram dificuldades no estado de espírito e desânimo pontuais, ainda que no próprio momento tenha consciência que são passageiras; a ideia que dá é de mimo de quem não pode ser contrariado ou que estando muito ansioso incorre em rápidos, sucessivos e passageiros estados de destabilização emocional, mas é inelutável e os motivos por pequenos pareçam são reais e perturbadores. A última novidade é que o somatizar leva-me a uma reacção física estranha, a contracção como se fosse uma cãibra num órgão interno do lado direito do estômago — fui agora ver a imagem e deve ser o fígado; acho hilariante esta coisa das alterações psicológicas me despertarem sintomas físicos como no passado a ausência de lágrima nos momentos de tensão. A sorte é que trabalho com alguém que teve formação em shiatsu e homeopatia, pelo que o conselho de fazer massagens e exercícios de respiração ajuda bastante. Por falar em ansiedades, julgo que somos cada vez mais a achar que isto é generalizado. Esta instabilidade nas pessoas com quem nos cruzamos ao longo do dia. Fruta do tempo?


Durante a semana fiz algumas compras online. De um popular site de compras mandámos vir a pen receptora de um teclado do computador do Nuno e três conjuntos de garrafas de aço inoxidável com três pequenas canecas para cada um dos meus irmãos. Pechinchas como gracinhas de Natal. Da Editorial Presença mandei vir dois livros da colecção Para Pessoas com Pressa.


Falei ao telefone com familiares como habitual e na quarta-feira tivemos um convite para o aniversário do meu primo M. no próximo Sábado. Vai ser bom rever a minha tia e primos numa casa que conheço desde sempre. Faz cinquenta anos. Todos os anos me apanha pouco antes de eu fazer mais um. Já fui à Bertrand para assinalar a data com uma História de Roma, parece-me adequado como presente; creio que vai gostar de ler. Já no fim-de-semana tive uma simpática chamada do amigo JA para saber como estávamos. Havemos de nos juntar para pôr a conversa em dia.


Quanto a leituras aqui na plataforma, li duas entradas sobre Caravaggio, uma debruçando-se sobre certa decadência na tela Baco, outra acerca de A Vidente com um apontamento para os olhares: o cínico do jovem aristocrata e o ardiloso da cigana. Vi também o post da Mulher com Sombrinha (ou O Passeio), de Claude Monet, a importância do jogo de luz do Impressionismo em prejuízo das formas. Retive também uma entrada sobre a forma como se processa o armazenamento e substituição das memórias e o conceito de neuroplasticidade, isto é, a capacidade de adaptação do cérebro a novas situações e a importância do sono no processo. Passei os olhos por um texto sobre os hábitos que prejudicam a nossa evolução pessoal como o excesso de perfeccionismo, o medo paralisante de falhar, a dificuldade em estabelecer laços emocionais saudáveis e o negligenciar da saúde.


E gostei também de ler, apesar de não concordar, uma história que apontava três sinais que demonstrariam desinteresse e falta de amor de uma mulher de meia-idade pelo homem com quem está envolvida: abordar assuntos materiais, criticar demais e escoucear a companhia para tratar dos seus próprios interesses. Pareceu-me um tiro ao lado, não me parece que se trate de sinais de amar ou não, muito menos de seriedade no amor, mas de estar na fase inicial de paixão ou não; naturalmente, uma mulher ou um homem de meia-idade que convivam há algum tempo com o companheiro terão necessidade de tratar de assuntos chatos como questões materiais ou domésticas ou quaisquer outras de natureza prática e será até salutar que tenham os seus próprios interesses não sufocando o parceiro com presença e exigência permanente de atenção. E, claro, ao fim de algum tempo as críticas aparecem e tudo depende do grau de mau-feitio de cada um, que nada tem a ver com amar ou não amar. A vida não é uma comédia romântica nem cabe nas apelativas letras amorosas das músicas badaladas.


Noutra perspectiva tenho consciência do uso excessivo do tempo de escrita debruçando-me sobre mim própria. A tal ideia de egocentrismo ou narcisismo que sempre admiti e é tão criticada. Creio que é uma fase e não abdico do direito de satisfazer o prazer de escrever diários até esgotar a necessidade e gosto por fazê-lo. Poderia impor-me reorganizar ou redefinir o que escrevo retirando-me de sujeito da acção, fazendo parecer que abstraía de mim. É a técnica generalizada de quem escreve. Não me parece que esteja para breve. Porque o faria? Para agradar, para me sujeitar a aprovação dissimulando-me? Já repararam que podemos ser muito mais narcisos e ditadores de forma encapotada sem uma única auto-referência, através do julgamento ainda que em abstracto dos outros e das circunstâncias? De qualquer modo, sei que mais tarde ou mais cedo acabarei por diminuir naturalmente o registo pessoal. Com tempo e de forma natural. Não me forçarei a isso para agradar e conquistar audiência com maior facilidade. As próprias circunstâncias com o aproximar de um conflito armado à escala global irão sujeitar-me a reflectir maior preocupação com o mundo envolvente, interrompendo esta escrita testemunho pessoal do tempo a que me tenho dedicado — não tem sido mais do que o espelhar de uma vida no meio de oito mil milhões, com condição peculiar apesar das circunstâncias, preocupações, desgostos, alegrias e sonhos comuns a tantos.


Registo ainda a sensação do esforço pesado de remar contra a maré. Tenho consciência de que muitas das críticas que faço soam a azedume ou mania da perseguição despropositada. Talvez seja um instrumento de sobrevivência de quem passou a vida a observar a mentalidade dominante e as formas de exercício de poder nas relações sejam afectivas, familiares, sociais ou profissionais. Incluindo as formas mais ou menos subtis de tirania, de manipulação e de enganação como dizem os brasileiros. Serei susceptível, serei demasiado sensível, mas tive e tenho mais do que justificações para agir desta forma. O mundo pode ser um lugar muito duro, injusto e sujo.


Por fim, tentarei na próxima semana fazer uma pequena reflexão acerca das minhas antipatias de estimação. Se há casos nocivos realmente assentes não devendo repensar posicionamento, há outros em que pondero se serei excessivamente crítica. Isto é, terei de averiguar se há reais e fundamentados motivos de antipatia ou se resultam de preconceito ou algum ressabiamento próprio injustificado. Em suma, farei um exame de consciência como é habitual apesar de estar muito fora de moda. Aliás, sempre esteve fora de moda entre os muito populares iluminados.


Obrigada por lerem. Boa semana.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 17 de Novembro de 2024.

30/12/2024

Testemunho





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Não é o intuito crítico que predomina no que escreverei em seguida apesar de ser inelutável ressentir-me da mentalidade dominante. Será o testemunho de uma forma possível de abordar a leitura em particular e o conhecimento em geral.


Na última meia-dúzia de anos tenho vindo a comprar livros da colecção Para Pessoas com Pressa, uma série de livros didácticos sem pretensões para quem tem curiosidade por temas de vária ordem, mas não disponibilidade para aprofundar o conhecimento sobre cada assunto em particular.


Neste momento tenho onze livros da colecção e ainda só li cinco (os de cima na fotografia): História do Século XX, Europa, Portugal, Filosofia e Matemática. Nos próximos tempos tenciono ler a História do Mundo e da Ciência. Este último em voz alta ao Nuno, além de saber que vai gostar, tiro maior partido pela conversa que decorrerá da leitura.


É muito comum quem se considera conhecedor desdenhar deste tipo de abordagem abreviada por considerá-la superficial. Básica, primária. Não posso estar mais em desacordo ou no pólo oposto do apreço.


Ainda há pouco tempo mostrando a História do Universo da série a alguém, logo ouvi: ah, isso é nada depois de ler o que tenho lido acerca de física e astronomia. E há menos de dois meses outra pessoa dizia-me referindo-se à natureza de um programa académico que o essencial era reduzir o período temporal e o objecto do estudo para conferir seriedade e rigor ao trabalho.


Desde sempre senti necessidade do que chamo vôo de pássaro sobre o que leio e aprendo, não gosto de ficar demasiado presa em pormenores de circunstância fechados num curto espaço temporal por mais saiba da sua importância. Tive sempre a intenção de tentar perceber o que me ensinavam com distanciamento do momento e da circunstância específica de cada acontecimento. Não nego a importância do relato dos factos e abordagem imediata sobre eles, mas tendo a distanciar-me e tentar simplificar por enquadramento, o que pode ser uma manobra batoteira, se cair no simplismo. Mas pode também constituir uma visão bastante mais realista e fiel da realidade se a sensibilidade para os factos estiver ancorada num conhecimento mais vasto, ainda que sintético. Por exemplo, é fácil cair no simplismo da explicação da História pela ideia de ciclo repetitivo de causa efeito. Os pormenores podem explicar desvios que parecerão ínfimos a quem vê com distanciamento e a causa de tudo a quem se especializa numa determinada época e situação geográfica. Mas será que o calo trazido pela replicação de ciclos em vários períodos ou zonas do mundo não é aproveitável como sensibilidade para o estudo?


O mesmo vale por exemplo para o caso da pintura. Tenho vindo a ler aqui no Medium várias histórias acerca de pintores e telas conhecidas. Gosto de conhecer as leituras das obras, visões sobre o mundo da cor, das formas, da luz, da técnica, a história por trás dos quadros, a vida emprestada pelos artistas às suas telas. Não procuro teses muito elaboradas. É certo que também não aprecio quando me aparecem textos chapados da Inteligência Artificial, mas procuro singeleza na abordagem das pinturas e não me sinto diminuída por não ler tratados rebuscadíssimos sobre pintura que me cativou desde muito nova.


Acresce uma deficiência que já admiti por diversas vezes em textos passados, nomeadamente, no blog Comezinhas: a minha memória é muito fraca. Gostaria de reter o que leio, mas desde criança noto que não só retenho pouco como não sou fiel ao que aprendo, processando por tradução imediata para a minha língua e entendimento aquilo que leio. Há gente que lendo reproduz fielmente o que vê. Retrocedendo aos tempos idos de estudante, sempre percebi que havia alunos com grande capacidade de decorar ou memorizar grande quantidade de informação. Habilidade que nunca possuí. Em regra, quem vê de fora, determina que esta dificuldade decorre da falta de disciplina e hábitos de estudo. Mas hoje, aos cinquenta anos, pergunto-me: será? Sempre me acusei de estudar pouco e é facto que nunca cumpri como estudante regras e horas de estudo, mas será que o meu cérebro seria capaz de lhes obedecer? Nunca deixei de ler, talvez menos do que devia. Nunca deixei de reflectir de forma interminável, talvez mais do que devia. Daí a necessidade de me poupar a doses massudas de estudos académicos ou a doses massivas de intricados romances cheios de intriga e julgamento e pouco distanciamento de reflexão.


Tudo quanto entra é processado por tradução para língua e entendimento próprios para ser reduzido a qualquer coisa que me seja inteligível, e não memorizado. Não tenho o sossego dado pelo simples pousar e arrumar na prateleira do cérebro já mastigado e aceite, canso-me a tentar perceber cada vírgula e fico exausta por isso desisto com facilidade . Não posso ler muito, sob pena de esgotar. E isto não é desculpa de preguiçosa, é testemunho de quem se conhece e fartou-se de ouvir durante uma vida insultos generalizados dirigidos a quem lê menos, por gente muito menos inteligente e capaz do que se julga, bafejada apenas pela capacidade de reproduzir o que lê e ouve copiando e imitando. Lamento, sou burra, não tenho essa enorme capacidade intelectual de papagaio, nasci com a deficiência de querer pensar e compreender. Por isso me seduzem as histórias abreviadas e não tenho pachorra para a intriga da palpitante vida íntima e social dos reis e rainhas ou dos políticos da actualidade ou para a excitação das clivagens ideológicas de ocasião ou para o confronto entre polemistas e politicamente correctos ou para exibições de futilidade em palavreado e eloquência vã sobre estados de alma. Cansam-me e considero desperdício de tempo.


Há quem veja neste tipo de testemunho uma infantilidade de pessoa pouco preparada. Continuarei a seguir o meu rumo de simplicidade sabendo-me muito menos imbecil do que os e as cheios de si julgam.


Obrigada por lerem. Boa noite de Sábado.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 16 de Novembro de 2024

29/12/2024

Perguntas ao ChatGPT

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Coisas que me entretém - com que perco tempo, dirão os sábios sofisticados. Depois de colar o mapa natal extraído da página astrológica que consulto há 24 anos, dei entrada no ChatGPT do seguinte pedido: por favor leia o perfil e destino do meu mapa natal em poucas palavras. Eis a resposta.


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Já fiz o mesmo noutro dia para as previsões para 2025 e como já não me lembro da resposta, vou voltar a fazer antes de ir dormir hoje. Será a minha última leitura de hoje, depois de andar a preambular pela vida do Sr. Ulme.

Bryan Adams


Boa semana.


*


Se quiserem conhecer retratos em fotografia da autoria de Bryan Adams podem consultar esta página.


 

Diário de 29 de Dezembro de 2024





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Como se verá mais adiante a semana foi acelerada pelo que li bastante menos; também aqui no Medium. De qualquer modo não posso deixar de fazer referência a um punhado de histórias. A primeira sobre a pintura de Henri de Toulouse-Lautrec: a forma não erotizada como representava as prostitutas parisienses no final do século XIX — que conhecia bem -, nesse tempo em que a atenção da literatura e das artes em geral debruçava-se sobre estas mulheres com foco na sexualidade. Prova da diferente e inovadora perspectiva deste pintor é o realismo nos retratos da vida quotidiana das prostitutas, como as idas à inspecção médica, que contrastam com a fantasia empregue pela generalidade dos artistas do seu tempo (e de sempre, acrescento eu). E parto já para outra entrada aqui do Medium acerca da explosão de cores expressionistas da tela Improvisação 35 de Wassily Kandinsky. Recuperei a ideia de sinestesia, a relação ou mistura de planos sensoriais diferentes e mais uma vez pude confirmar a importância das cores e como estão associadas a estados emocionais diferentes, fazendo-nos ter sensações distintas tal como ouvir música ou sentir o paladar de diferentes gostos. O autor do post recorda que o pintor procurava estimular e espírito do observador evitando formas concretas e permanentes (que distraíssem, acrescento eu).





Li mais tarde mais duas histórias por acaso, ou seja, juntei-as à ligação Lists sem me aperceber e acabei por lê-las. Há acasos bons. A primeira recorda a importância das relações pessoais para lá das decorações de Natal. Conta-nos um encontro casual com um jovem estagiário que trabalha para pagar os encargos da vida académica e não sobrecarregar a família. Por fim, li um texto que aborda a forma de estar após os cinquenta. Deixámos de ser escravos dos desejos. Pomos de lado a ganância (se correr bem, digo eu). Percebemos que não precisamos de tantos amigos, que estamos bem mais sós ou com um círculo mais reduzido e verdadeiro. Poderá ser a altura da vida em que deixamos de remoer arrependimentos e passamos a ser mais despojados, livrando-nos do desnecessário — despojamento real e não fictício para impressionar incautos.


Como contei no último diário esta semana tive cá a minha sogra. Fomos buscá-la a Lisboa no comboio Intercidades no Domingo passado. O livro que me fez companhia na viagem foi Flores, de Afonso Cruz, que me deram no início do mês — nos próximos dias hei-de acompanhar a recuperação das memórias do senhor Ulme. Aproveitei também a viagem para um par de chamadas telefónicas de Boas Festas. No dia 24 fiz as restantes, este ano bastante abreviadas. Voltando a Domingo, chegámos a casa já de noite. Fiz jantar e fomos descansar para uma semana diferente. Foram dias de maior tensão para mim por naturalmente querer que a mãe do Nuno se sentisse bem cá em casa. Por ter corrido ainda mais atrás dos autocarros para conseguir que tudo funcionasse bem em casa. E levantado mais cedo para um pequeno-almoço sempre pronto para tomarmos os três antes de me preparar para sair. Quase não cozinhei, encomendei quase todas as refeições, mas ainda assim foi preciso gerir as diferentes formas de estar tentando harmonizar tudo. Tive o apoio do Nuno para pôr a mesa e lavar a loiça como de costume, agora com a ajuda da mãe. Na segunda, quinta e sexta-feira trabalhei. Na véspera e dia de Natal estivemos em casa os três sossegados. Correu tudo bem, salvo a minha dor de estômago permanente nestes dias provocada pela semana anterior em que tratei a dor de dentes a Brufen. Digamos que passei esta última semana a fazer as vezes de bulímica. Só comecei a reter as refeições ontem. Como apontamento cómico digo só que tinha análises clínicas marcadas há um ano para dia 26 de Dezembro. Faz um sentido danado ter feito análises ao sangue no dia seguinte ao Natal. Na sexta-feira a minha colega faltou por estar engripada pelo que tive um dia mais trabalhoso.


O Nuno disse estar feliz e pareceu-me verdadeiro e a mãe esteve confortável e bem-disposta cá em casa. A maior fonte de atenção da semana foi o Ritz que a revezou entre as camas do filho e nora e a da sogra. Com preferência pelo quarto onde dormiu a mãe do Nuno já que esteve com o aquecimento ligado em permanência. Traidor.





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Na noite de Natal o menu foi diferente: Bacalhau grelhado com batata a murro e grelos, isto é, o prato do restaurante de transmontanos aqui da rua. No dia de Natal o repasto também não foi o habitual: por sugestão da minha sogra comemos Leitão, que encomendei num bom restaurante e estava realmente saboroso. Limitei-me a fazer saladinha fresca, que sempre apetece nestes dias de alimentação mais densa. Bom, e estriei-me a fazer o molho dos sonhos e rabanadas. Para sobremesa tivemos rabanadas, sonhos, bolo-rei e tronco de Natal de ovos, de que ainda hoje há restos.







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Servi os vinhos do cabaz da empresa, Douro na ceia de 24, Alentejo no dia 25. E, claro, na mesa houve sempre frutos secos que são o símbolo de mesa de Natal. Senti o Nuno e a minha sogra contentes e essa é uma boa sensação. Trocámos presentes em casa. A mãe do Nuno teve direito a uma blusa e um perfume. O Nuno a pen drives, um anoraque e um tambor xamânico e túnica condizente trazidos pela filha da Tailândia. Eu um roupão de capuchinho-vermelho, coffret de banho e bandeja e tigelas suporte velas de madeira trazida também da Tailândia. A minha enteada já tinha recebido o presente do pai e o meu também: um serviço colorido de loiça de jantar, talheres e copos. Nós ainda tivemos outros mimos dos meus pais e irmãos. O Ritz teve direito a outra cana de pesca com penas. 







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Na noite de dia 24 após o jantar demos um pulo a casa da minha mãe para rever o Presépio e darmos um beijo aos meus pais, irmãos, cunhada e sobrinhos (acertei em cheio nos tamanhos das camisolas que dei de presente aos pimpolhos) e trocar a conversa boa do costume.


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Ontem levantámos cedo para levar a mãe do Nuno à Estação de Campanhã. Ansiosa como fico sempre para que tudo ali corra bem abri a porta da carruagem, deparei-me com uma menina de vinte anos com medo de descer as escadas para sair com mala grande e pesada pedindo ajuda, pelo que peguei na mala dela e quando saiu entrei na carruagem, acomodei a mala da minha sogra e assim que se sentou no lugar munida do bilhete voltei a sair para ir ter com o Nuno e voltarmos para casa. Depois de comermos qualquer coisa fomos dar um giro até à zona de uma potencial casa com interesse (não gostámos da zona, mas hoje estávamos cansados talvez o julgamento seja precipitado). Às quatro da tarde já tinha feito três máquinas de roupa, entre a de cama, mesa e miúda. E estendi tudo — uma das grandes vantagens deste apartamento. Depois dormimos até quase à hora do jantar — o descanso dos guerreiros.





Lembro-me durante a semana ter pensado em coisas que queria dizer no diário. Ideias dispersas relativas a arte, amor e expressão, mas varreram-se. Aparecerão noutra altura com certeza. De qualquer modo fica só um pequeno apontamento: quando gostámos queremos dar e contar. Li isto noutro post aqui no Medium e é verdade. Acrescento: no amor como na arte quando gostámos, damos.


 


Foi um Natal diferente. O do ano passado foi descrito nos diários de dia 23 de Dezembro de 2023, de 24 de Dezembro de 2023 e de 25 de Dezembro de 2023.


 


Obrigada por lerem. Bom Domingo e Feliz Ano Novo de 2025.

28/12/2024

Agenda












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Imagem do Google.




1. A confusão generalizada entre bom senso e humanidade e conversa argumentativa de psicologia de algibeira. O hábito que se começa a espalhar de tomar por tóxica qualquer crítica ainda que fundamentada e justa só por não obedecer a critérios de supostas habilidades sociais e empatia. O favorecimento hipócrita de frases feitas e citações pseudo-bondosas muito generosas, muito altruístas e sempre a apelar ao postiço sentimento de gratidão. O disfarce de atitudes nocivas com falsa generosidade.


2. A fealdade grosseira retocada convertida em ícone de beleza e elegância. A distorção da verdade transformada em ideia aplaudida por efeito onda da ignorância. A promoção de tudo quanto não presta. A legitimação da agressividade em causas de supremacia ideológica e como suposta manifestação de coragem. A inversão total do sentido da palavra educação. O rasca elevado à categoria de modelo ou exemplo a imitar.


3. O desdém pelo conhecido e popular, seja manifestação das artes plásticas, música, literatura ou destino de viagem. A necessidade pirosa e débil de mostrar exclusividade no gosto aderindo às referências de grupelhos pseudo-eruditos. Por ondas de mimetismo mencionam os mesmos artistas, escritores e destinos para alçar-se ao patamar de pessoas de gosto sofisticado ou requintado. Quanto mais pirosos e débeis, mais necessidade têm de desmerecer as manifestações artísticas e destinos de viagem mais conhecidos ou democratizados. Gente cada vez mais deseducada a perorar, dando-se como exemplo de sofisticação. Perfeitos possidónios.


4. A ditadura imposta por bullying psicológico das grandes empresas prestadoras de serviços. A desregulação completa do mercado com prejuízo dos consumidores cada vez mais dependentes e manietados por técnicas de esbulho tecnológico. A difícil sobrevivência de quem pauta o comportamento pelo cumprimento da lei e respeito pelo próximo e o cada vez mais sucesso dos gananciosos que atropelam os direitos e dignidade alheios. A vitória da escória.


5. A argumentação em vácuo ao infinito que destrói tudo quanto tem valor. A elevação da retórica a razão absoluta até à sua destruição integral.


6. A arte fabricada por Inteligência Artificial, da poesia à música. Os sonetos de geração espontânea. A intrujice num tempo de transição até este avanço tecnológico ser integrado como ferramenta banal no acto de criação.


7. A parelha invencível do mundo virtual. O casal perfeito com mais audiência nas plataformas digitais dos tempos modernos para argumento de uma série em streaming.



  • Um homem troglodita, suposto defensor da tradição e bons costumes não só recusa constatar as agressões físicas e morais sobre os mais frágeis, como as pratica e delas se orgulha. Cultiva agressividade, vive e ataca em matilha sempre encostado, gabando-se de ser corajoso. Enaltece a coragem de quem tem ou teve o vento favorável e intriga contra quem está na mó de baixo no intuito de obter os favores de quem explora e tira proveito dos agredidos, ludibriados e derrotados. Vale tudo para vencer e alcançar o poder para si e a sua corja numa lógica de partida de futebol onde todas as regras de desportivismo são quebradas. A excitação irracional levada ao extremo. O gosto por barricadas do nós contra eles. O gosto dos elencos dos melhores em contraposição aos piores. O mundo a preto e branco por imposição da lei da selva. A lei que vale é a da distorção do discurso, agressão verbal, oportunismo e dissimulação. Vende muito.

  • Uma mulher vendida, suposta defensora das minorias, diz-se rodeada de vítimas a quem alegadamente acode e em discurso mantém num permanente estado de menoridade e fracasso para crescer como benfeitora: são os amigos homossexuais muito injustiçados e depressivos, os cãezinhos abandonados e famintos acolhidos, as amigas perseguidas pela moral religiosa ou quaisquer outros infelizes que confiram grandiosidade (acha ela) à sua natureza tolerante e compassiva. Medíocre e habituada a viver dos favores vai singrando à custa do falso elogio e do encosto. Pobre de espírito cria atrito de forma dissimulada e cobarde para obter protagonismo e vive por conta de agressores que bajula, com independência zero. Só ataca imbecis ultra-conservadores se estiver a falar de cima para baixo, isto é, se os souber inofensivos ou incapazes de se fazer ouvir com peso, e vive a estender a mão a quem está acima, os verdadeiros agressores. Adere a todas as modas e balelas de psicologia barata. Comercializa traumas próprios e de alegadas vítimas. Finge-se de vítima para conseguir protagonismo e audiência. Vende muito.


Obrigada por lerem. Bom fim-de-semana.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 15 de Novembro de 2024









27/12/2024

Firmeza




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Imagem do Google.


 




Rodeada do estardalhaço das soberbas certezas segues pequena a regar as tuas plantas sem esplendor. Resistem ora viçosas ora mortiças no ciclo eterno da vida. Dás o que pedem, não o que exigem. Aprenderam a esperar água e cuidado. Não as afogas em jactância com medo que te deixem só. Não as subornas com elogios oportunistas para esconder a solidão. Não te vês livre nem escondes as tristes da má figura, fazem parte do jardim. Um dia darão mostras de beleza ainda que discreta.


Não crês na exibição artificial da gritaria de cor das flores. Quando vêm, há alegria. Quando não, preparas e aguardas melhores dias sem mentiras. Demoram a chegar e quem sabe farão companhia por tempo prolongado. O verde da vida domina como no jardim sóbrio da casa que idealizavas nos sonhos da meninice. Nunca a terás na dimensão e fulgor do devaneio de quem ainda tinha muitas décadas por viver. Hoje as décadas escasseiam, os sonhos mingaram à medida que a erva daninha da dor invadiu o teu peito.


Como o amor as plantas são a razão do possível. O sentimento que o Universo permite à imensidão do desejo. Medida do sonho comprimido, quando não estraçalhado pela incompreensão. Mas não sucumbirás à agressão. Viverás menos do que poderias e merecias, mas em verdade. Firme só contigo e na companhia de quem respeita o outro.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 12 de Novembro de 2024.

26/12/2024

Diário 10 de Novembro de 2024








 












No início da semana li algumas histórias aqui no Medium uma vez mais acerca de pintura. Sobre os futuristas do primeiro quartel do século XX, uma análise à Persistência da Memória de Salvador Dalí, a forma como Ernst Ludwig Kirchner captou os sinais pré-guerra na Alemanha e a simbologia na história da pintura com especial destaque para o papel de dois elementos que me são caros: limões e pássaros. Mais adiante voltarei a referir as aves.


Nas leituras em que os dedos sentem a rugosidade das palavras dei por mim uma vez mais a descobrir coincidência nas conclusões há muito tiradas pelos grandes nomes da literatura, no caso, russos e franceses. Será pretensioso, mas posso permitir-me pensar: se cheguei à mesma ideia desconhecendo estas páginas é porque a vida e o discernimento me indicaram um caminho válido e de valor. Não serei tonta de todo.


Na quarta-feira os norte-americanos decidiram o que queriam para as suas vidas. E como já manifestei aqui no Medium a minha opinião, hoje não vou acrescentar mais nada.


Em termos de trabalho tudo decorreu com relativa normalidade e a vida quotidiana foi-se fazendo um pouco arrastada de ânimo. Ainda falta aquela alegria que em regra me estimula a agir de modo mais crente. Talvez não haja de facto motivos para acreditar e seja preciso lidar com a realidade com mais frieza. Mesmo os sonhos ou devaneios estão amornecidos pela razão.


Na sexta-feira assinalo ter começado a manhã a ouvir insistentes bicadas nos vidros da cozinha que deixaram o Ritz estacado de atenção. Desde o fim-de-semana passado ouvia essas pancadinhas no vidro pela manhã, mas na sexta fui confirmar a partir da varanda do quarto. E lá estava ele na janela da cozinha, um pássaro preto que não consegui identificar por ter voado de imediato, mas do tamanho de um melro. Vinha avisar dos riscos que um dos meus corria. Sem consciência disso apenas sentindo estranheza passou o dia e à noite senti-me descontraída. Fomos jantar um belíssimo cozido à portuguesa num pequeno restaurante aqui da rua.


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Cozido à portuguesa.


No Sábado de manhã vieram entregar e montar o pequeno e confortável sofá do escritório do Nuno. À tarde demos uma arrumação a casa e à noite soube que o meu irmão N. tinha tido um acidente de carro na sexta. Na auto-estrada um condutor distraído com o telemóvel bateu por trás. Ninguém se magoou, felizmente. O carro de serviço do meu irmão foi para a sucata.


Hoje, Domingo, conhecemos o M. que veio para dar início às aulas de piano com o Nuno. Entenderam-se bem e o miúdo pareceu ter vontade de voltar apesar de ter passado meia hora seguida a fazer repetidas escalas de três oitavas com o Nuno a insistir que respeitasse o tempo, não acelerando. No resto da aula houve experiência de pequenas melodias e a introdução da segunda mão. No fim para descontrair sugeri bolachas Oreo e apresentei o Ritz ao M. O gato não fugiu e fui bombardeada com perguntas acerca da história do bichano. À moda de uma criança de dez anos cheia de curiosidade. A meio das bolachas aproveitei para fazer cena. Vamos ao importante para saber se vai ou não haver mais Oreo no futuro: qual o teu clube, M? Benfica. Mau. Ahh, que fazer? Pronto, estás perdoado, assim hoje nesta casa há representante de cada um dos três grandes. Não se fala mais nisso.


Publicado na plataforma Medium a 10 de Novembro de 2024.




25/12/2024

Claustrofobia








 


















 











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Imagem Google.


 




Foram mais cinco anos na presença de olhares e escritos pequenos num lugar acanhado. Uma paróquia de velhos conhecidos onde os novos beatos são apresentados como jovenzinhas ressessas de aspecto arrojadíssimo e inúmeros talentos vendáveis, peritas a deslizar nos salões bafientos do mundo online à semelhança das antigas noites de baile do clube. Prontos a fazer o papel convencional de mais um bibelô para manter o status quo. Muito competentes no elogio a quem está na mó de cima, mesmo à custa da verdade, mesmo traindo as origens. Vale tudo para singrar. Tudo destinado aos mesmos lugares, aos mesmos laços, empregos, infantários, colégios, serviços públicos, governos, oposições, empresas, jornais, televisões, redes sociais, plataformas online. Um nicho claustrofóbico mimetizado pelos alpinistas sociais que desde jovenzinhos tudo quanto fazem é acomodar-se aos interesses e fabricar redomas narrativas de encosto disfarçadas de sapiência e generosidade muito pia.


E vem à ideia a mesa da sátira juvenil: bocas cheias de nomes. Nomes cheios de casas. Casas feitas de proa. Proa vazia de verdade. O espaço público dos interesses mimetizou os tiques das mesas das antigas casas civilizadas sem conhecer o tesouro que podem conter: parcimónia e educação. Ficou-se pelo pior: aparência, pias alusões bíblicas a esconder as pulhices praticadas às escondidas. O falso despojamento na vida para impressionar incautos. O falso elogio ao esforço e integridade próprios. As muitas loas a quem interessa, palavras de conveniência e lugares-comuns repetidos à exaustão para perpectuar uma estrutura social podre, corrupta e decadente.


E o mundo veloz fora da janela. Todo ele se move em redemoinho de multidões em convulsão. Os contrastes gritantes do mundo rico e pobre, perigoso e violento assustam os encostados, não por receio dos males que venham à humanidade, mas por porem em causa as redomas que dão ser e sustento a oportunistas que almejam o topo da pirâmide. Enchem a boca para falar de liberdade, coragem, união, honestidade, discrição, cultura, trabalho e amizade, juntam imagens artísticas em puro cálculo vazio de sentimento, numa caça à aprovação e audiência. Pela calada mentem, enganam, agridem, envenenam, corrompem, furtam. E ganham à custa da mentira. Até ao dia em que a audiência perceba a massa podre de que são feitos.


A transformação acontece contra-corrente. Os pesados interesses esganiçam-se pela manutenção dos privilégios contra-natura. À custa do trabalho e sacrifício alheio. Quase todos são muito certos dos seus direitos e prerrogativas e desconhecedores dos custos elevados que esta situação de privilégio implica para o todo. A reboque as facções usam demagogia para elevar os seus interesses ao poder. Usam nomes, laços, casas, empregos, colégios, serviços públicos, governos, oposições, empresas, jornais, televisões, redes sociais e plataformas online. Tudo contaminado faz-se campo de batalha ideológica-utilitária.


Cada verdade dura minutos. O sucesso é feito do desdém pelos fragilizados ou malquistos de momento e elogio aos bem-sucedidos de oportunidade numa corrente de bajulação balofa sem fim, sem pontos de referência em genuínos sentimentos de pertença, afinidade e merecimento. A deslealdade enviesada impera num mundo de gente que se faz passar por muito cumpridora e correcta no trato, mas tudo quanto persegue é poder, lucro e protagonismo.


A realidade deslaça-se como um corpo celeste fragmentado. Os mesmos que conduziram à implosão da coesão social por pura ganância e falta de respeito pelo próximo surgem com discurso pseudo-bondoso, pseudo-pacificador. Tão lúcidos e pios que eles são. Admiráveis. Cresceram a considerar que valia tudo para vencer e ganharam a vida a dividir para reinar. A mentir, envenenar, ofender, agredir, distorcer as palavras dos outros, desprezar gestos honestos e esconder sacanices, invejar o talento e a roubar os frutos do esforço e trabalho alheio. Os ilustres da claustrofobia das boas relações, dos interesses e das audiências estão sempre apostos para reinar nas casas e países em agonia.


Obrigada por lerem. Bom fim-de-semana.


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Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 9 de Novembro de 2024.


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Nota. Este postal é impróprio para o dia de Natal, mas a sequência da reposição das histórias do Medium desde Outubro ditava que o publicasse hoje. Ontem abri uma excepção e antecipei o diário do passado fim-de-semana que só deveria ser republicado mais adiante. Mas hoje achei que não havia razão para mudar o rumo normal, o tom do post que calhou é áspero; não lhe mudaria uma vírgula apesar de desagradável. Isto apesar de agora estar bastante bem-disposta e os dias e o Natal em especial estarem a decorrer de modo harmonioso. No fim-de-semana escreverei o diário habitual que reflectirá estes dias. 




24/12/2024

Diário de 21 de Dezembro de 2024









Não sou boa a fazer votos de Miss Mundo. Mas o que posso desejar é que Deus ou o Universo ou lá o que raio dá sentido a tudo isto poupe as crianças, as mulheres e os homens do sofrimento.

 











 


Entrámos na semana que passou pela porta da pintura e pelos aposentos íntimos de Maria, n’ A Anunciação, de Botticelli. A visita do arcanjo Gabriel no cenário do século XV. Do post que li aqui no Medium retive dois aspectos: Maria é representada diversas vezes a estudar as escrituras e na obra usa-se a técnica do ponto único de fuga para dar perspectiva. Agora salto pela mão de outra autora aqui da plataforma que trabalha como guia turística para o início do século XIX e para a Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David, uma pintura neoclássica que dramatiza como “propaganda imperial” o evento ocorrido a 2 de Dezembro de 1804. A autora desmonta a obra recordando que a sorridente mãe de Napoleão, muito destacada, não compareceu, e o Papa Pio VII que é retratado a abençoar a coroação não podia estar mais furioso com a auto-coroação de Bonaparte e definição da independência face à Igreja. Todos estes pormenores e mais alguns podem ser lidos na ligação Lists para os textos que dão origem aos presentes comentários.


Li ainda por aqui uma história de sensata recomendação: dar o coração a quem o merece. Não nos devemos esquecer: não havendo reciprocidade de bons, claros e declarados sentimentos é aconselhável desapegar — afastarmo-nos de quem não nos quer bem e eventualmente nos acha tão só úteis ou qualquer coisa do género que nem vale muito a pena escalpelizar. Bom, a autora não ia bem neste sentido, mas a ideia inicial é a que referi.


Por fim li uma interessante história acerca das novas ideologias anti-democráticas que idealizam substituir a democracia liberal por modelos autoritários de governo corporativos. Fiquei logo a imaginar as grandes tecnológicas a tomarem o poder não só fáctico, como institucional. A autora recorda exemplos históricos desde as cidades-estado da Grécia Antiga até ao fundamento tradicional-religioso das monarquias. E denunciando as reais intenções — manter o poder nas mãos de uma pseudo-elite supostamente mais preparada — goza um pouco com a intelectualização bacoca em detrimento de noções básicas de eficiência de governação.


Há dois dias dei por mim a magicar a ideia de não ter concretizado o desejo de viver e trabalhar num país estrangeiro durante um par de anos para me pôr à prova. Nesta altura do campeonato é possível que já não suceda e se querem saber voltou a não ser importante para mim — como todos tenho fases e volto agora a sentir-me bem no ninho português (apesar das muitas críticas que nos faço) e a achar que não iria ganhar assim tanto partindo fisicamente para outras bandas. E dei por mim a pensar que de certa forma nos últimos 25 anos tenho emigrado virtualmente. Isto é, em cada fase da vida em que participo online em plataformas sediadas no exterior ou com utilizadores estrangeiros acabo por ter um cheirinho do viver fora de portas. Bem sei que a comparação é forçada e nada como viver mesmo com o corpo inteiro com as pessoas nas casas, ruas, empresas, parques, restaurantes, lojas, museus etc de um outro país. Mas o que fazer? A vida de cada um é como é. Valeram-me as viagens, talvez venha a fazer mais algumas. Já é uma sorte.


No Domingo passado fiz um plano de actividades para toda a semana. Tinha muito a tratar para deixar tudo operacional para a época de Natal, em que vai estar cá a mãe do Nuno, estando eu a trabalhar. Tinha de destinar tudo. Amanhã vamos buscá-la a Lisboa, pelo que vou passar sete horas no comboio Intercidades. Vai ser cansativo. Todos os itens do apontamento de Domingo passado foram tratados. Apenas hoje nos baralhámos um pouco tendo ido ao supermercado três vezes por de cada vez nos esquecermos de qualquer coisa. Parecerá tudo a régua e esquadro ou muito minucioso, mas gosto de estar precavida para que não corra mal. Para perceberem o que está em causa, são pormenores como a cama e quarto confortável e aquecido para quem tem 81 anos, as cortinas do quarto lavadas por nem ter reparado quão precisadas de máquina estavam, a casa mais arrumada porque sogra é sogra, as refeições e ingredientes destinados, a compra dos bilhetes. Esse tipo de coisas que foram entremeadas com valentes dores de dentes e duas idas ao dentista e os dias normais de trabalho. Neste momento estou a sofrer as consequências de uma semana inteira a Brufen. Para além disto os assuntos de que faço caixinha.


Esta manhã cá esteve o M. para a aula de piano, mais desconcentrado ainda do que é hábito. O Nuno hoje teve de se impor explicando que sem repetir de forma aborrecida os exercícios não se aprende a tocar. Como lembrança de Natal demos ao M. chocolates e A História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda, livro que costumo oferecer aos filhos de amigos. Ainda de manhã mãe apareceu com um mimo: uma manta quentinha para reforçar os cuidados com o Nuno e a sua mãe. Em seguida fomos ver uma das casas que tínhamos em vista nas últimas semanas — a do sótão do Carvalhido. Hoje já lhe vi vários defeitos, além do que já existe uma proposta de compra de outra pessoa. Ou seja, é provável que esteja fora de questão.


Estou morta que o dia de amanhã passe. Esteja e casa e espero que tudo decorra com serenidade na semana de Natal. Agora já sei que dia 24 não trabalho de manhã, o que me dá paz. Tudo quanto desejo é tranquilidade. O mundo lá fora continua duro e sofrido, continuo a ver os jornais, mas não vou abordar as questões do mundo e da actualidade.


Votos de tranquilidade e paz para todos.


É impossível não pensar em quem vive debaixo de guerra ou de outras calamidades humanas. É impossível não nos sentirmos pequenos e mesquinhos preocupados com uma viagem de sete horas e três de intervalo de espera ou noutros contratempos menores.


Não sou boa a fazer votos de Miss Mundo. Mas o que posso desejar é que Deus ou o Universo ou lá o que raio dá sentido a tudo isto poupe as crianças, as mulheres e os homens do sofrimento.


Bom Natal.


 


Publicado no passado Sábado, dia 21, na plataforma Medium.

23/12/2024

Estado de Alma









Felicidade e sucesso, esses frascos de poção mágica vendidos em cada texto com um conto motivador ou pequeno e fácil elenco de conselhos de sucesso.

 











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Imagem do Google.





Há fases em que tudo é difícil. Levar os dias às costas pesa toneladas. Os braços esvaem-se em letargia. A escrita custa a surgir como hipótese quanto mais em concretização. São momentos.


Só a previsão imaginária de dias melhores anima e ainda assim as vozes circundantes sugerem: não sejas idealista. Insistem para que não sejas ingénua. Como assim? Se acreditares contra todas as probabilidades tem sido a verdadeira fonte de alegria da tua vida.


Ah sim, sê objectiva. Sê focada. Trabalha com diligência e paciência para os resultados por mais pareçam difíceis ou impossíveis. Como assim? Se uma vida de dedicação deu-te sobretudo o reverso da recompensa?


Espera. Continua a trabalhar. Não sejas precipitada. Não sejas impetuosa. Como assim? Se os teus vinte anos já passaram há trinta? Se aos cinquenta continuam a tratar-te como se fosses a miúda útil que se usa como inspiração e fonte de alento e não merece mais do que migalhas de atenção?


Não sejas narcisa, dizes-te a ti própria. Não sejas egocêntrica. Como não? Se não fosses tu a acreditar em ti própria, há muito teriam conseguido fazer com que desistisses da vida. De onde vem o alento, senão de dentro? Se estão todos tão ocupados com o seu próprio imenso valor e interesse. Todos tão bajuladores de quem é oportuno elogiar.


Ah, mas é assim com todos. Todos carregam as suas dores. Balelas. Há dores objectivamente impostas com maior injustiça e, certo, a tua nem será das piores. Mas quantos impostores singram no mundo à custa da arte e do sofrimento alheios? À custa de bullying digital dissimulado.


Amanhã será um dia melhor.


Aqui está um escrito que não estimula nem entusiasma ninguém como um elenco de quatro ou cinco conselhos para ter sucesso. Continuarás sempre a impressionar-te com a forma como se fazem recomendações de esperteza para a vida e sugere modos de alcançar a felicidade.


Felicidade e sucesso, esses frascos de poção mágica vendidos em cada texto com um conto motivador ou pequeno e fácil elenco de conselhos de sucesso.


Pena o vento da sorte ou azar na vida não corroborar tanta esperteza e sapiência. Pena as audiências dizerem pouco acerca do talento ou ausência dele. Pena a felicidade não poder ser comprada.


Amanhã será um dia melhor. Mesmo.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 6 de Novembro 2024


 

22/12/2024

Diário de 3 de Novembro de 2024




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A minha varanda.



 


Foi uma semana intensa. Com variações emocionais e alguns desenvolvimentos importantes. Começando pela vida lá fora, vou acompanhando através de leituras de artigos na imprensa e no Medium e poucos comentários na televisão a campanha para a eleição presidencial norte-americana.


De forma o mais simples possível, intencionalmente sem entrar nos temas da campanha, pergunto-me como se a eleição fosse em Portugal: qual a dúvida? Às vezes é preciso pôr a questão do carácter acima de tudo, até da economia. E mesmo aí dizer-se que Trump é mais forte é uma balela como outra qualquer. Como os muitos anátemas que são lançados sobre a presença de Kamala Harris no espaço político, diminuindo-a sem fundamento racional, antes com base numa série de tretas acerca do sexo dos anjos em discurso articulado pelos milhares de comentadores da comunicação social e criadores de conteúdo nas plataformas digitais que parecem debitar julgamentos dos algoritmos da IA manipulados pela Rússia e China para favorecer Trump, a troco do pagamento do comentário. Incapazes de produzir pensamento independente e razoável de tão ensaboados pela lavagem cerebral. O fundamental é mesmo isto: como é possível gente educada ter dúvidas em quem vota? E ao contrário do que é muito propagado não estou nada convencida que os eleitores se dividam entre gente informada e adeptos das teorias da conspiração. Claro que os há, porém existem ultra-conservadores bastante instruídos que se comportam como trogloditas nos Estados Unidos como em Portugal. Lá como cá pretendem fazer prevalecer a lei da selva. Pensam e agem abertamente ou de forma camuflada com grosseria total manipulando as massas e revendo-se no discurso do tirano imbecil Trump. Um absoluto escroque que é preciso combater.


Mesmo os alegadamente moderados fazem exigências irreflectidas a Kamala Harris. É impressionante como é sistematicamente questionado o valor e mérito de uma mulher preparada, de provas dadas como política. Tal desconfiança não recairia sobre um homem. Puro preconceito espalhado no mundo inteiro por mimetismo irracional pelas opiniões acerca da candidata presidencial. Manipuladas por quem domina os algoritmos, a forma actual de enganar as massas orientando-as para a tirania.


Mais perto em Valência, Espanha, no dia 29 de Outubro formou-se uma tempestade tal que em poucas horas choveu o mesmo que num ano. Com consequências devastadoras pelas enchentes e destruição provocada: 200 mortos já contabilizados e 1900 desaparecidos (números a actualizar).


A genica de segunda-feira, dia 28, levou-me a ler aqui no Medium posts sobre Van Gogh, Edward Hopper e Felix Vallatton. O primeiro foi uma descoberta dos anos 80 e paixão para a vida pela expressividade da pincelada louca e determinada a marcar a diferença, por dar voz às dificuldades, à austeridade, ao trabalho, ao sofrimento, mas também à beleza da esperança que transcende a incompreensão alheia. O que li na segunda-feira descrevia uma visita ao Van Gogh Museum; senti-me identificada com o texto. O segundo pintor foi para mim um achado da viragem do século quando comprei algumas edições da Taschen: à época seduziu-me como íman e gostei de ler aqui no Medium a interpretação de quatro ou cinco obras do artista. O último, o pintor suíço, foi uma descoberta: atraiu-me não só pela linearidade e inovadora percepção da luz, cor e sombra, como pela importância dada aos ambientes do dia-a-dia. Li também aqui na plataforma, um post sobre Maria Anna Mozart, irmã do famoso compositor. Será que algumas das composições atribuídas a Mozart são da autoria ou co-autoria da irmã? Ao longo da semana também li histórias acerca das dificuldades da experiência bilingue, sobre o amor que vale a pena, aquele que cura as inseguranças pela compreensão, aquele que ameniza as ansiedades pelo apoio. E li um conto que não compreendi por usar várias metáforas. As minhas dificuldades com o inglês são notórias. Terei de relê-lo se o reencontrar; esqueci de o pôr na lista de leitura.


Na quarta-feira troquei emails com a directora da casa de acolhimento de crianças. Estamos a combinar as vindas do M. cá a casa para começar a aprender piano. Aulas informais já que o Nuno não tem formação académica para tal. A ideia será ver se o M. tem vontade de aprender. Estamos esperançosos e expectantes. O Nuno costuma cativar os miúdos e tem jeito especial para ensinar. Quem sabe num ambiente mais descontraído começa por aprender os rudimentos e mais tarde se levar a sério, estuda e pratica em ambiente convencional.


Foram dias de muito trabalho. Há seis dias por mês em que trabalho mais do que nos outros. Dois pares de três dias. Ora esta semana que passou calhou uma dessas alturas. Talvez por cansaço tive uma explosão emocional num fim tarde, de regresso a casa. Uma reacção a pontual falta de atenção do Nuno, que é em regra a pessoa mais delicada que conheço e muitíssimo cuidadoso comigo. Estava sensível e reagi de forma agressiva verbalmente. Acabou tudo sereno e em bem, como é costume.


Neste fim-de-semana prolongado ganhei dois “seguidores” (palavra horrível) especiais e com batotice, já que os ajudei a subscrever o Medium no intuito que me possam ler: a minha mãe e o Nuno. Além dos dois limitei-me a dar o endereço a dois amigos para deixá-los a par das minhas andanças. Lá para o Natal conto a quem me lia habitualmente, quem sabe nas Comezinhas. Pensei até em passar a guardar lá as histórias que escrever aqui no Medium, uma vez que para me continuarem a ler precisariam de subscrever a plataforma. Tenho ido às Comezinhas sem escrever e verifico que tenho visitas quase diariamente. Confesso que isso me deixou espantada e, claro, agradecida. Mas ainda é cedo para começar a guardar lá novos posts. Por enquanto aqui no Medium vou dando os primeiros passos, lendo os outros, escrevendo pouco, republicando alguns textos das Comezinhas e tentando ambientar-me devagar.


 




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A minha varanda.



 

 


Além das chamadas telefónicas habituais, troquei mensagens WhatsApp com família e amigos chegados. Enviei fotografias da varanda: árvores, plantas e ervas do gato. A T. mandou-me também fotografia de bonitos cactos. O C. elogiou a “jindungueira” e sugeriu que arranjasse também uma piteira, e deixou a conversa a meio como é muito usual actualmente entre quem troca mensagens digitais e a mim fará eterna confusão. Como sou uma estroina, publico aqui as mesmas fotografias que lhes enviei da minha varanda. São da manhã de sexta-feira, mas Sábado com o sol as plantas estavam mais bonitas. Troquei email com o amigo JA que me foi dando novidades das suas andanças pela Catalunha e terras lusas. Ontem a minha mãe e o meu irmão N. passaram cá em casa. O Ritz para meu espanto foi directo ao N. e miou, devia ser em agradecimento a não ter trazido os cães. A mãe anteontem relatou-me um programa da televisão sobre as maravilhas e riquezas de Nápoles que não visitámos quando fizemos o circuito de Itália. Falou dos museus e especialmente dos abrigos subterrâneos. E aproveitou para contar a descrição que a minha trisavó Natividade fez no diário da visita à cidade e em especial a ida a cavalo ao Vesúvio. Falei também ao telefone com o meu pai que me pareceu desanimado. Ainda assim mandou uma palavra de estímulo ao Nuno que anda um tanto desencantado com gente das antigas relações profissionais. Vale-lhe o vigor da filhota que chegada à Tailândia mandou mensagem para que descansasse e tranquilizasse a avó.


Este fim-de-semana não tive especiais actividades domésticas. Só o trivial de roupa da semana e pequena limpeza e arrumação da casa para gozar os dias de descanso em casa organizada, o que me traz serenidade. Pela mesma razão voltei a sintonizar o rádio da sala na smooth fm. Pode ser repetitiva, mas é tranquila e ordena-me as ideias. Gosto.


Obrigada por lerem. Bom Domingo.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 3 de Novembro de 2024.