A semana começou com a troca do estore no nosso quarto. Arrependi-me quando me apercebi que o antigo apesar de réguas partidas tinha compostura. Claro que o técnico propôs um novo dizendo que estava por um triz e é verdade que nos últimos anos já o chamei duas vezes para arranjos, mas fico sempre a pensar se haveria necessidade de pôr um novo.
Ontem a minha mãe cá veio como habitual e começou a ler ao Nuno A Minha História na Física de Georgio Parisi. Dormi enquanto a leitura decorreu e quando acordei dei com a minha mãe deliciada dizendo que era como se lesse poesia. Estava entusiasmada com a explicação para a formação e funcionamento do vôo em bando dos estorninhos. Formam em bando por hierarquia e o vôo em conjunto corre bem pelo respeito da função de cada um.
Mais cedo de manhã o M. cá esteve para a segunda lição de piano com o Nuno; apareceu mais desconcentrado. Correu tudo sereno. Da primeira vez veio com a directora da casa de acolhimento, ontem com uma voluntária muito nova que o acompanha nestas actividades extra-escolares como a natação e a música.
A semana teve momentos negativos em especial quinta-feira em que tudo parecia correr mal. Não consegui acertar num pedido da UberEats e acabei por pagar dois pedidos não entregues num abuso completo da empresa e por quem para ela trabalha. Isto depois de nas últimas semanas ter visto cancelados pedidos ou trocas no serviço. Sendo cliente há muito tempo da Uber notei nos últimos tempos abusos, como a sujeição à subscrição de serviços ou erros na assunção dos dados dos pedidos para penalizar o cliente. Depois de me irritar ferozmente desinstalei a aplicação e cancelei a conta. O facto de não conduzir obriga-me a ter um serviço de transportes análogo pelo que instalei a Bolt. Fiz pesquisas sobre uma e outra empresa e as queixas habituais dos clientes, vi que a Bolt é europeia (tem sede na Estónia), a Uber norte-americana e tem um maior historial de reclamações e polémicas. Não sei se a razão se prende apenas com o facto de estar há mais tempo no mercado ou se há outras razões para os abusos. Em resumo, cortei com a Uber.
Mas nas últimas semanas também as aplicações dos transportes públicos do Porto estão com problemas. Uso duas: a que indica os horários reais é raro funcionar nos últimos tempos, a que aparentemente funciona dá resultados completamente errados. Depois de anos habituada a escolher um dos vários autocarros pela hora de partida sem necessidade de estar à espera vejo-me regredir e passar às meias horas na paragem.
Este tipo de pequenas irritações associadas a outras com o trabalho ou naturais enguiços da vida quotidiana geram dificuldades no estado de espírito e desânimo pontuais, ainda que no próprio momento tenha consciência que são passageiras; a ideia que dá é de mimo de quem não pode ser contrariado ou que estando muito ansioso incorre em rápidos, sucessivos e passageiros estados de destabilização emocional, mas é inelutável e os motivos por pequenos pareçam são reais e perturbadores. A última novidade é que o somatizar leva-me a uma reacção física estranha, a contracção como se fosse uma cãibra num órgão interno do lado direito do estômago — fui agora ver a imagem e deve ser o fígado; acho hilariante esta coisa das alterações psicológicas me despertarem sintomas físicos como no passado a ausência de lágrima nos momentos de tensão. A sorte é que trabalho com alguém que teve formação em shiatsu e homeopatia, pelo que o conselho de fazer massagens e exercícios de respiração ajuda bastante. Por falar em ansiedades, julgo que somos cada vez mais a achar que isto é generalizado. Esta instabilidade nas pessoas com quem nos cruzamos ao longo do dia. Fruta do tempo?
Durante a semana fiz algumas compras online. De um popular site de compras mandámos vir a pen receptora de um teclado do computador do Nuno e três conjuntos de garrafas de aço inoxidável com três pequenas canecas para cada um dos meus irmãos. Pechinchas como gracinhas de Natal. Da Editorial Presença mandei vir dois livros da colecção Para Pessoas com Pressa.
Falei ao telefone com familiares como habitual e na quarta-feira tivemos um convite para o aniversário do meu primo M. no próximo Sábado. Vai ser bom rever a minha tia e primos numa casa que conheço desde sempre. Faz cinquenta anos. Todos os anos me apanha pouco antes de eu fazer mais um. Já fui à Bertrand para assinalar a data com uma História de Roma, parece-me adequado como presente; creio que vai gostar de ler. Já no fim-de-semana tive uma simpática chamada do amigo JA para saber como estávamos. Havemos de nos juntar para pôr a conversa em dia.
Quanto a leituras aqui na plataforma, li duas entradas sobre Caravaggio, uma debruçando-se sobre certa decadência na tela Baco, outra acerca de A Vidente com um apontamento para os olhares: o cínico do jovem aristocrata e o ardiloso da cigana. Vi também o post da Mulher com Sombrinha (ou O Passeio), de Claude Monet, a importância do jogo de luz do Impressionismo em prejuízo das formas. Retive também uma entrada sobre a forma como se processa o armazenamento e substituição das memórias e o conceito de neuroplasticidade, isto é, a capacidade de adaptação do cérebro a novas situações e a importância do sono no processo. Passei os olhos por um texto sobre os hábitos que prejudicam a nossa evolução pessoal como o excesso de perfeccionismo, o medo paralisante de falhar, a dificuldade em estabelecer laços emocionais saudáveis e o negligenciar da saúde.
E gostei também de ler, apesar de não concordar, uma história que apontava três sinais que demonstrariam desinteresse e falta de amor de uma mulher de meia-idade pelo homem com quem está envolvida: abordar assuntos materiais, criticar demais e escoucear a companhia para tratar dos seus próprios interesses. Pareceu-me um tiro ao lado, não me parece que se trate de sinais de amar ou não, muito menos de seriedade no amor, mas de estar na fase inicial de paixão ou não; naturalmente, uma mulher ou um homem de meia-idade que convivam há algum tempo com o companheiro terão necessidade de tratar de assuntos chatos como questões materiais ou domésticas ou quaisquer outras de natureza prática e será até salutar que tenham os seus próprios interesses não sufocando o parceiro com presença e exigência permanente de atenção. E, claro, ao fim de algum tempo as críticas aparecem e tudo depende do grau de mau-feitio de cada um, que nada tem a ver com amar ou não amar. A vida não é uma comédia romântica nem cabe nas apelativas letras amorosas das músicas badaladas.
Noutra perspectiva tenho consciência do uso excessivo do tempo de escrita debruçando-me sobre mim própria. A tal ideia de egocentrismo ou narcisismo que sempre admiti e é tão criticada. Creio que é uma fase e não abdico do direito de satisfazer o prazer de escrever diários até esgotar a necessidade e gosto por fazê-lo. Poderia impor-me reorganizar ou redefinir o que escrevo retirando-me de sujeito da acção, fazendo parecer que abstraía de mim. É a técnica generalizada de quem escreve. Não me parece que esteja para breve. Porque o faria? Para agradar, para me sujeitar a aprovação dissimulando-me? Já repararam que podemos ser muito mais narcisos e ditadores de forma encapotada sem uma única auto-referência, através do julgamento ainda que em abstracto dos outros e das circunstâncias? De qualquer modo, sei que mais tarde ou mais cedo acabarei por diminuir naturalmente o registo pessoal. Com tempo e de forma natural. Não me forçarei a isso para agradar e conquistar audiência com maior facilidade. As próprias circunstâncias com o aproximar de um conflito armado à escala global irão sujeitar-me a reflectir maior preocupação com o mundo envolvente, interrompendo esta escrita testemunho pessoal do tempo a que me tenho dedicado — não tem sido mais do que o espelhar de uma vida no meio de oito mil milhões, com condição peculiar apesar das circunstâncias, preocupações, desgostos, alegrias e sonhos comuns a tantos.
Registo ainda a sensação do esforço pesado de remar contra a maré. Tenho consciência de que muitas das críticas que faço soam a azedume ou mania da perseguição despropositada. Talvez seja um instrumento de sobrevivência de quem passou a vida a observar a mentalidade dominante e as formas de exercício de poder nas relações sejam afectivas, familiares, sociais ou profissionais. Incluindo as formas mais ou menos subtis de tirania, de manipulação e de enganação como dizem os brasileiros. Serei susceptível, serei demasiado sensível, mas tive e tenho mais do que justificações para agir desta forma. O mundo pode ser um lugar muito duro, injusto e sujo.
Por fim, tentarei na próxima semana fazer uma pequena reflexão acerca das minhas antipatias de estimação. Se há casos nocivos realmente assentes não devendo repensar posicionamento, há outros em que pondero se serei excessivamente crítica. Isto é, terei de averiguar se há reais e fundamentados motivos de antipatia ou se resultam de preconceito ou algum ressabiamento próprio injustificado. Em suma, farei um exame de consciência como é habitual apesar de estar muito fora de moda. Aliás, sempre esteve fora de moda entre os muito populares iluminados.
Obrigada por lerem. Boa semana.
Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 17 de Novembro de 2024.
